CARTA ABERTA AOS AGRICULTORES AÇORIANOS

CARTA-ABERTA-Agricultores-1Caros colegas

Em Abril de 2008 foi-vos enviada uma carta, através da vossa Associação de Lavradores, dando conta daquilo que achávamos que deveria ser feito para podermos ter uma agricultura moderna, competitiva e com maior rentabilidade (REVOLUCÃO TÉCNICO-AMBIENTAL E FINANCEIRA DO SECTOR AGRO-PECUÁRIO ACORIANO). Passados estes seis longos anos, de nada serviu aquela nossa carta que penso não ter sido dada a conhecer à grande maioria dos colegas, e que nem tão pouco nos foi acusada a sua recepção.

 A mesma carta também foi enviada para todos os Presidentes de Câmara e Presidente da Assembleia Regional. Contudo, também não obtivemos qualquer resposta a acusar a recepção.

 Não estranhámos o silêncio, porque, infelizmente, nesta nossa Região é quase como se fosse proibido dar palpites sobre agricultura, concordar ou discordar com quem os dá e, muito pior, desde que se vá contra o estabelecido, esquecendo-se em absoluto que a liberdade é que gera crescimento. Por esta razão queremos dizer, aqui e agora, que não contribuiremos nem como técnico, nem como açoriano para que se continue na Região com uma agricultura ou pecuária de quarta classe e sem qualquer sinal de uma possível mudança de paradigma.

 Vamos procurar demonstrar que assim é e, por outro lado, dizer-vos aquilo que pensamos que deve ser realizado para que possamos sair deste sufoco constante da dependência do favor ou do subsídio, que nos amarra a uma autonomia muito débil.

 Mencionaremos, agora, o que achamos ser essencial e que nos é dito pela Associação de Jovens Agricultores de Portugal no seu manual de agricultura de precisão “A SUSTENTABILIDADE DA PRODUÇÃO AGRÍCOLA PASSA, CADA VEZ MAIS, PELA CAPACIDADE DO PAÍS INCORPORAR DE FORMA CONTÍNUA INOVAÇÕES TECNOLÓGICAS …” É curioso constatarmos que, nestes últimos seis anos, apenas se tenha falado no problema do fim das quotas leiteiras na Europa e nunca no problema da modernização da nossa agro-pecuária para que possamos enfrentar a situação sem quotas. Tem sido mesmo, quanto a nós, de um ridículo a toda a prova ver só os políticos e não os técnicos a debruçarem-se sobre o problema e ouvir-se de vários lados que o que é necessário é termos bons caminhos rurais, emparcelamentos, água e luz nas pastagens.

 É na verdade ter uma visão muito míope acerca da nossa agricultura, ignorando-se toda a nossa situação no contexto produtivo europeu, e que nos preocupa, tanto mais que não vemos aparecer de lado nenhum qualquer estratégia política, técnica ou académica que nos possa levar a uma competição saudável e eficaz.

  É mesmo muito penoso, andarmos nesta nossa Região a “metralhar” nos itens apontados há mais de trinta anos, sem nunca ter aparecido uma directiva com suporte técnico-económico, ou seja, com “cabeça tronco e membros”.

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Carta Aberta aos Agricultores 2

 raul-machado-costaAgora, luta-se para ver quem fica melhor na fotografia pondo a cereja em cima do bolo, já podre, ou seja, ver quem consegue o envelope financeiro para compensar a nossa ultra-periferia. É na verdade um “brincar às casinhas”, como se o referido envelope travasse o mais que certo aumento de produção leiteira na Europa, acabadas as quotas.

 A Irlanda acabou de anunciar que irá aumentar a sua produção em 50% até 2020, ou seja, cerca de 2.800.000 toneladas, cinco vezes a produção da nossa Região.

 Se os cinco maiores produtores de leite da Europa: a Alemanha com 30 milhões de toneladas; a França com 26 milhões; o Reino Unido com 15,8 milhões; os Países Baixos com 12 milhões e a Itália com 11 milhões de toneladas tiverem a mesma intenção que a Irlanda, a produção crescerá 90 vezes a produção da nossa Região.

 Estamos, necessariamente, a especular para dizer que não é com envelope financeiro que resolvemos os nossos problemas, mas sim que necessitamos procurar, urgentemente, produzir com qualidade e ao mais baixo custo, tendo, forçosamente, que procurar seguir o caminho europeu da conciliação da competitividade com sustentabilidade.

 Entretanto, já é público que os Países do norte da Europa estão já na corrida do aumento da produção. Na campanha de 2013/2014, a Holanda com entregas de + 9% em Setembro, a França com + 4% em Setembro, a Alemanha com +3,5%, a Dinamarca com +3,5%, e a Irlanda com +3,7% todos em Outubro.

 A China em 2013 importou cerca de 400.000 toneladas de leite inteiro em pó, e a previsão do Foreign Agricultural Service para o ano de 2014 é de 650.000 toneladas, além de as grandes empresas lácticas chinesas, já terem estabelecido joint ventures ou adquirido empresas da fileira na Europa, como na Holanda, França, Itália e, também, na Austrália e Nova Zelândia.

  Gostaríamos de saber como é que se vai resolver o problema de um terço da nossa pecuária, cerca de 973 lavradores, com entregas de 80.000 Lt./ano e com um efectivo de 15 vacas.

 Dentro de poucos anos serão mais mil desempregados na Região se continuarmos sem tomar medidas técnicas e inovadoras no sector agrícola.

 Uma Região que, actualmente, tem como base económica a agricultura e que tem em risco o fecho do curso de CIÊNCIAS AGRÁRIAS na Universidade dos Açores é porque há qualquer coisa que não gira bem no sector.

 Esta informação faz-nos pensar que vamos continuar à deriva e com pouco ou nenhum pessoal habilitado para ajudar a resolver uma agricultura com bases inovadoras e tecnicamente desenvolvidas para podermos sair da dita agro-pecuária de quarta classe.

 A este propósito, recordo o que dissemos na anterior carta, relacionado com o índice genético do efectivo pecuário da Região e do bem estar animal, já efectuado também na Região há cerca de 50 anos atrás.

 Em relação ao bem estar animal quem estiver interessado em ver uma pequena vacaria para 10 animais com silos verticais incorporados que foram mandados construir há 50 anos atrás, venha à Ilha Graciosa.

 Naquela época, o gado bovino não morria na pastagem por más condições atmosféricas. Praticava-se o bem estar animal, ou seja, inteligentemente dava-se conforto aos animais para que produzissem mais, razão primeira para que a actividade pecuária fosse recheada de sucesso.

 Lamentavelmente ouvimos ou lemos por toda a comunicação social a afirmação, que consideramos muito enviesada, dizendo que não podemos alterar o nosso verde. Quanto a nós, é muito verde mas muito pobre e não só, podendo ser 5 ou 6% menos verde mas rico, muito mais rico.

 A ideia feita que a pecuária açoriana só deve assentar no sistema de pastoreio é querer não saber o que se passa com a produção de leite a nível mundial e, por outro lado, é pretender sacrificar um sector - a  agro-pecuária - em favor de outro, o turismo. Nem que os turistas quando vêm aos Açores no inverno não se apercebam que as vacas ou morrem ou vivem em tremendo mal estar animal, ou seja, sem conforto algum, durante grande parte do inverno. Este mal estar animal que, como todos os lavradores devem saber, origina acréscimo do número de células somáticas, provocando uma baixa acentuada na qualidade e na produção de leite.

 Em relação a este assunto, o pastoreio, diremos que há bons técnicos que defendem que o maneio do gado é tão importante ou mais do que o índice genético. Aliás, a situação climatérica é bem conhecida de todos vocês, lavradores, que sabem perfeitamente que com mau tempo a vacada produz muito menos, e por essa razão o tão falado índice genético regional reduz-se a uma produção média açoriana por vaca de 5.186 litros por ano.

 Uma vaca a comer, quase diariamente, erva molhada produz menos e, ao invés, quando esta não foi molhada pelas chuvas a produção aumenta consideravelmente. Foi o que aconteceu no ano de 2012, em que se verificaram crescimentos de produção de leite na Região - de Janeiro a Maio - na ordem dos vinte milhões de litros, isto porque a queda pluviométrica foi inferior ao habitual. Pelo contrário, nos meses de Junho e Julho a chuva foi muito abundante provocando quebras na produção de -3% e -2,5% respectivamente. Aliás, no estudo do IAMA sobre a “caracterização da produção de leite nos Açores”, é afirmado que “a produtividade média por vaca é muito inferior à média nacional (em parte devido ao sistema de produção baseado no pastoreio)”.

 Sem sermos perito na matéria, fazemos questão de deixar aqui mencionado, para que mais tarde possamos ter aquele gozo, que ao longo da vida sempre tivemos, quando pioneiros de ideias ou de acções.

 A REGIÃO VAI CAMINHAR FORÇOSAMENTE PARA UM NOVO TIPO DE MANEIO ANIMAL, DE TAL FORMA QUE PASSAREMOS A PRODUZIR A MESMA QUANTIDADE DE LEITE COM, SENSIVELMENTE, METADE DO ACTUAL EFECTIVO PECUÁRIO.

 Na Suíça por exemplo o gado leiteiro fica estabulado de Novembro a Maio, comendo feno e concentrado e, em algumas explorações, com ordenha robótica durante 24 horas/dia.

CONTINUA

Carta Aberta aos Agricultores 4

raul-machado-costaA (FAO) Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, no seu último relatório “Combater as Alterações Climáticas através da Pecuária” (Setembro de 2013), aponta para o seguinte: “os criadores de gado devem utilizar tecnologias já disponíveis para melhorar a alimentação e a saúde animal, aperfeiçoar o maneio de dejectos e utilizar máquinas geradoras de biogás”. Também, já em 2008, a mesma FAO tinha aconselhado que deveriam ter prioridade absoluta na adaptação às alterações climáticas as políticas, as estratégias, os programas e orçamentos  relativos à agricultura, com atenção muito especial tratando-se de monoculturas.

 É degradante notar que na nossa Região muito se fala em pegadas ambientais, sem tão pouco as ligarem às obrigações de reduzir as emissões de gases de efeito de estufa (GEE), sabendo-se que os cientistas exercem pressão para que isso aconteça, tal como a Agência da ONU para o Ambiente, de modo a combater as alterações climáticas, que provocarão aumentos da temperatura, subida do nível do mar, quebra na produção de alimentos, aumento assustador do número de furacões, etc... Aliás, segundo a Agência Portuguesa do Ambiente, foi criado o Roteiro Nacional do Baixo Carbono com a finalidade de reduzir as emissões de gases com efeito de estufa (GEE), até 2050 na ordem de 50% a 60% face aos níveis de 1990.

 A agricultura e a pecuária continuam a ser grandes emissoras de gases com efeito estufa. O sector da agricultura totalizou 5 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono, o sector dos transportes totalizou 6.76 mil milhões de toneladas e as emissões provenientes de produção de electricidade 12,48 mil milhões de toneladas.

 É bom que se saiba que a agricultura além de ser um sector com grande predominância na emissão de gases (GEE), é também aquele que mais facilmente sofrerá as consequências das alterações climáticas como seja o stress hídrico, alterações na floração e frutificação das plantas, alterações da temperatura e humidade, na fotossíntese, etc.

 As emissões de gases com efeito de estufa na Europa - entre 1990 e 2010 - caíram 48% devido ao declínio da produção de carne e, também, à alimentação do gado que agora é cada vez mais à base de cereais em vez de pasto. A produção de carne de bovino é o produto da agro-pecuária que emite mais carbono. A produção de 1 kg de carne de bovino emite 13 vezes mais carbono do que a produção de 1kg de carne de frango e 57 vezes mais do que a produção de 1 kg de batatas.

 A avaliação e gestão das emissões de carbono, ao longo da cadeia de valor dos vários produtos, é já hoje fundamental para a grande maioria das grandes empresas mundiais. A etiqueta do carbono nos produtos é já uma realidade nas grandes cadeias de distribuição como  a Tesco, Marks & Spencer ou Walmart, que passam a seleccionar os fornecedores com base nas emissões de carbono e pagando preços “Premium”.

 Pelo facto de, cada vez mais, o consumidor valorizar a preservação do ambiente, as empresas estão a colocar no topo da sua agenda a sustentabilidade e o carbono.

 Por essa razão o Grupo Danone mandou analisar e medir ao longo da cadeia de valor a “pegada de carbono” de milhares de produtos, pretendendo reduzi-la em 30%, em toda a sua cadeia de abastecimento.

 A Irlanda anunciou um novo esquema para a valorização do leite, com a introdução de um regime de garantia de qualidade para os produtores. Estes terão de cumprir uma norma ISO (Organização Internacional de Normalização) para a certificação do leite e serão auditados em questões como: pegada de carbono, bem estar animal, segurança alimentar e rastreabilidade. Este esquema iniciou-se em Janeiro de 2014, prevendo-se a adesão de todas as explorações até 2016.

 A McDONALD’S, na Convenção Anual de Nashville, manifestou aos 6.200 produtores de bovinos reunidos, que a grande preocupação de momento são as emissões de carbono para a atmosfera. Como sabemos, a McDONALD’S é a maior compradora de carne de bovino do planeta, para abastecer os 34.000 restaurantes em todo o mundo.

 Neste contexto, vai lançar a iniciativa - com os produtores e industriais de carnes de bovino - para reduzir a emissão de gases com efeito de estufa (GEE).

 COMO SE PERCEBE O QUE VAI COMANDAR, NO FUTURO, A VIDA DOS NOSSOS PRODUTOS É, SEM QUALQUER DÚVIDA, A QUANTIDADE DE GASES COM EFEITO DE ESTUFA (GEE) QUE SERÃO GASTOS PARA OS PRODUZIR E OS COLOCAR NO MERCADO OU SEJA; A “PEGADA DE CARBONO” Pensamos que de nada nos servirá a tão propalada "Marca Açores", se a “pegada de carbono” for muito elevada, como tudo indica que será, tendo ainda em atenção que lhe será sempre acrescida a pegada relativa ao transporte.

  A avaliação e gestão das emissões de carbono ao longo da cadeia de valor nos produtos agrícolas não é de hoje nem de ontem. Há mais de uma dezena de anos que se fala na rotulagem da respectiva “pegada de carbono” na comercialização dos vários produtos alimentares. Por isso achámos muito estranho que na Região a nossa maior Cooperativa de lacticínios - a “Unileite” - tenha optado por aumentar substancialmente a sua capacidade de produção com instalação de grandes linhas de empacotamento de leite ultra pasteurizado UHT.

 Tal facto foi quanto a nós um erro histórico, fundamentalmente, por dois motivos: encarecimento de um produto que tem na sua composição 87% de água, e no que se refere ao seu transporte ficar também penalizado ou fora do mercado por causa desse transporte, que sobrecarregará a “pegada de carbono”, além de ser uma forma enviesada de resolver tecnicamente a situação de uma indústria instalada numa Região ultra-periférica.

 A este propósito diremos que os chineses que estão a investir pelo mundo inteiro em instalações para produção de lacticínios, não é para leite UHT, mas para leite em pó.

 Não podemos deixar de dizer que ficámos completamente surpresos quando soubemos que o prémio de melhor investimento - no ano de 2012, dado por alguns economistas da Região - foi para a “Unileite”.

 É, na verdade, a confirmação de que a Região na agro-pecuária pugna mais pelas infra-estruturas instaladas no fim da cadeia de valor, isto é; investindo no mais fácil, pois basta haver quase somente capital, o que, aliás, nos tem causado sucessivos amargos de boca. Neste caso, e tendo em atenção a estratégia para a inovação e desenvolvimento, pensamos que se deve começar por privilegiar o princípio da cadeia de valor da fileira do leite e não pelo fim. Na produção é que assenta a verdadeira arquitectura e riqueza do sector e, por essa razão ficamos verdadeiramente pesarosos e admirados por não haver na nossa Região um conflito de ideias provocado pelas elites técnicas e empresariais que nos levem a uma verdadeira discussão para o desenvolvimento da fileira, com correspondente eficácia na concorrência internacional, quando por todo o mundo desenvolvido já se fala e actua numa agricultura e pecuária de inovação e precisão.

CONTINUA

Carta Aberta aos agricultores 3

  raul-machado-costaAinda sobre o assunto, o pastoreio, acrescentaremos somente o que nos diz o “MILKPOINT”, e tendo em atenção que a Região aponta como exemplo a seguir o que se passa na Nova Zelândia: “A Nova Zelândia, actualmente tem 5 sistemas de produção de leite, de acordo com o nível de suplementação: O sistema 1, exclusivamente a pasto que representa menos de 10% das fazendas, até ao sistema 5, com pelo menos 30% da dieta não proveniente do pasto.

 Naquele país, a discussão sobre sistemas de produção está em cima da mesa, havendo quem defenda que devem voltar atrás e trabalhar com mais pasto e na outra ponta há quem considere que num futuro, não muito distante, as vacas serão todas estabuladas e ordenhadas por robôs.

 Uma das razões apontadas pelos que acreditam na estabulação é a pressão ambiental. No ponto onde a vaca urina, a dosagem de nitrogénio é equivalente a 1.000 kg de ureia por hectare (ha). Nas épocas mais húmidas do ano, uma parte significativa acaba por lixiviar e atingir o lençol freático”.

 A este propósito e analisando a "Directiva Nitratos" da Comissão Europeia relacionada com a nossa realidade, ficamos surpresos por a Região estar a ultrapassar em muito o limite de 170 kg de nitrogénio hectare/ano em toda a nossa superfície agrícola útil (SAU).

 O balanço do azoto em Portugal Continental é de cerca de 43.000 toneladas de azoto o que equivale a uma deposição de cerca de 12 kg por hectare da superfície agrícola útil (SAU). Na Região e segundo números apontados pela comunicação social referentes à importação de adubos químicos, é de cerca de 10.260 toneladas de azoto, equivalendo a uma deposição no solo de cerca de 85 kg por hectare (ha) da superfície agrícola útil (SAU). Na Ilha Graciosa é de 71 kg/ha.

 A principal fonte de contaminação da água, na Ilha Graciosa, será proveniente do excesso de adubações químicas e elevado encabeçamento bovino em pastoreio, que origina uma subida de nitratos conforme o que consta nas análises que a Câmara Municipal manda executar ao Inova (ver aqui: http://www.cm-graciosa.pt) .

 No ano de 2013 verificaram-se valores da ordem de 29mg NO3/L a 49mg NO3/L que, embora não esteja a ultrapassar o valor limite, não se deve estar a dar boa saúde aos Graciosenses, porque se está a  ultrapassar o valor máximo recomendável que é de 25mg NO3/L (ver aqui: http://www.drapn.min-agricultura.pt). Não sabemos o que se passa, neste campo por essas Ilhas fora, e não querendo ser alarmista mas apenas exercer o dever de cidadania, dizemos que se tiverem teores iguais aos da Ilha Graciosa, estão a correr graves riscos para a saúde pública.

 Conforme estudo do IAMA, a Ilha Graciosa tem uma área para alimentação animal de 1.314 ha e um efectivo bovino de -2 anos 3.859 +2 anos 3.320 e + de 2 anos machos 196, num total de 7 375 animais. Sem qualquer apreciação técnico legal diremos apenas que se trata de uma situação aberrante.

 Analisados alguns trabalhos académicos, referentes às percentagens da estrutura de custos numa exploração leiteira açoriana, verifica-se que os custos em fertilizantes na Região são 30 a 50% do custo da alimentação, o que achamos uma brutalidade, reflectido claro está na demagogia do pastoreio no seu melhor, bem como numa apurada quarta classe, acrescida de 2,5 CN/ha com taxas de incorporação de nitrogénio absurdas, muito para além do limite permitido pela União Europeia. A este propósito, não conseguimos ver - em parte alguma - soluções académicas para caminhos dignos e orientações credíveis para uma agricultura capaz de nos criar riqueza, mas sim teorias baratas de intelectuais como seja que as vacas devem ver as estrelas todas as noites (seria necessário que nunca chovesse!) ou que a estabulação nos Açores é crime económico e ambiental.

 O elevado número de bovinos na Região, com excessiva carga de pastoreio, com um sistema de o maior encabeçamento possível e com grandes adubações de fertilizantes químicos, conduzem-nos a maiores riscos, com efeitos muito prejudiciais para o ambiente no que respeita à qualidade da água e às emissões atmosféricas de óxidos de azoto.

 Uma vaca leiteira, com cerca de 600 kg de peso e a produzir 5.000 litros de leite por ano, deposita no solo 105 kg de azoto por ano.

 Como sabemos, as actividades ligadas à agro-pecuária e ao maneio dos fertilizantes, libertam óxido de azoto (N2O) e metano (CH4), gases com efeito de estufa (GEE), que têm, respectivamente, um potencial de aquecimento global 310 e 21 vezes superiores ao dióxido de carbono (CO2), tendo uma influência decisiva nas alterações climáticas.

  Os Açores, em 2005, ultrapassaram Portugal Continental em gases com efeito de estufa por habitante, e é bom termos em atenção que não respeitando as Directivas da União Europeia seremos, forçosamente, penalizados nas ajudas financeiras, por não efectuarmos as boas práticas agrícolas.

 A elevada contaminação dos solos com origem na agro-pecuária, foi a razão pela qual, na nossa primeira carta, alvitramos que poderíamos seguir o caminho de países como Bélgica, Alemanha, Países Baixos, etc. na implantação de biodigestores nas explorações pecuárias para a produção de biogás, salvando-se assim a pegada ambiental regional.

 A produção de biogás - que ainda não despertou qualquer interesse na Região como energia alternativa a implantar nas explorações agrícolas - poderia atenuar grandemente os custos de produção com a venda de electricidade e de créditos de carbono.

 A Alemanha já possui mais de 7.000 instalações de fabrico de biogás; o equivalente a 3 reactores nucleares. Este país mantém a meta de desligar todas as suas centrais nucleares até 2022, sendo o biogás que vai contribuir para eliminar por completo a geração nuclear alemã.

 Além dos dejectos das vacas, para alcançarem a meta ambicionada, utilizam, também, em grande escala milho produzido no país.

 Nos Estados Unidos da América, desde 2009, o governo americano vem financiando os produtores de leite (US$ 257 milhões) na instalação de digestores anaeróbicos, para que a partir dos dejectos das vacas (mais de 6.000 lavradores) produzam biogás, melhorando a sua sustentabilidade.

Carta Aberta aos Agricultores 5

  raul-machado-costaSabemos que há quem defenda que o leite açoriano deve ser vendido como se fosse um remédio porque é rico em CLA e Ómega3, mas como para se vender um produto é preciso haver quem o compre e com teorias fáceis de atributos nutricionistas ou curativos no leite, sem contas de cultura, portanto sem preços, não pode haver qualquer negócio. É fogo de artifício só com as canas.

 O industrial compra baseando-se somente nos parâmetros medidos pelo SERCLA. O resto é tudo areia posta na engrenagem, sem qualquer antecipada análise da competitividade vs sustentabilidade, que é aquilo que mais abunda na nossa Região.

 Está-se a vender o genérico, porque - é como na farmácia - o original é muito mais caro e quem o compra, por vezes, tem que concorrer com as “marcas próprias”, ou seja com as antigas “marcas brancas”.

 Seria bom que o lavrador pudesse dizer qual a enfermidade que o leite cura e qual o preço de venda, de modo a que o industrial se possa defender escarrapachando o dito na rotulagem do produto a pôr no mercado (enfim, divagações).

 Passar anos e anos na Região a ouvir ou a ler que a quota leiteira vai acabar ou não vai acabar, que choveu muito ou choveu pouco, que se vai comprar ou não se vai comprar centenas de contentores de palha, imagine-se palha do estrangeiro, que o leite vai subir uns cêntimos ou descer uns cêntimos, etc. e, mais recentemente, que a Região vai ensinar Angola a fazer pecuária, é quanto a nós, quem sabe, sinal de que as elites emigraram.

 Os bens transaccionáveis, produzidos na Região, como sejam a carne, o leite e lacticínios devem ser, quanto antes, avaliados no seu balanço carbónico, para sabermos qual a sua “pegada de carbono”.

 A Irlanda tem a “pegada de carbono” mais baixa da União Europeia.

 No ano de 2004 a análise da produção de leite naquele país gerou apenas 1 kg de gases com efeito de estufa por cada quilo de leite produzido, enquanto a média da União Europeia foi de 1,4 quilos. Na Nova Zelândia, em 2009, a pegada de carbono foi de 940 gramas de CO2 equivalente por litro de leite.

 Cerca de 85% dos gases com efeito estufa são emitidos nas explorações (59% de metano, 17% de dióxido de carbono e 24% de óxido nitroso).

  É bom que se saiba que a “pegada de carbono” faz parte integrante da tão falada pegada ambiental e que é ela que lhe dá maior ou menor valor ecológico. Não basta anunciar que os nossos produtos poderão diferenciar - se dos demais concorrentes directos por serem oriundos de uma Região com uma pegada ecológica de elevado valor ambiental, sem se saber o montante da “pegada de carbono”. Seria óptimo que assim fosse, mas não conhecemos estudo nenhum que assim o classifique.

 É bom que se saiba, também, que a muito falada biodiversidade relacionada com a flora açoriana - que foi intensamente castigada com a desflorestação praticada pelo homem - é de tal modo que só 2% da superfície total está ocupada pela "Laurissilva". Sabemos da intensificação na plantação de endémicas por toda a Região, mas parece-nos que será mais proveitoso no actual momento proteger a floresta "Laurissilva", ainda existente, e plantar fruteiras, (ex. o castanheiro para castanha). Esta, a castanha, considerada no Continente o petróleo ou o ouro da montanha, não satisfaz as encomendas do mercado internacional embora se chegue a exportar 10.000 toneladas/ano para 33 países. Ou até mesmo o abacate que, ao fim de três anos, inicia a produção sem qualquer tratamento fitossanitário com possibilidade de exportação ou para possível produção de biocombustível.

 Afirmamos proteger a "Laurissilva" ainda existente, porque há poucos anos atrás não vendemos um mato de 36 alqueires com centenas de vinháticos e loureiros, com a finalidade de ser transformado em pastagem.

 É bom que se saiba, também, que não podemos continuar a alimentar uma agricultura assente em sentimentos saudosistas ou nostálgicos como seja a vinha em cima de pedra, com vinhas sem qualquer possibilidade de mecanização, e portanto com custos astronómicos em mão de obra, o ananás também com custos enormes de produção, com uma cultura que leva três anos para produzir e açúcar proveniente da beterraba com baixíssimas produções por hectare.

 Enfim, são tudo culturas sem qualquer sustentabilidade nos tempos que correm e a agudizar-se, cada vez mais, no futuro. Não há ninguém no seu “perfeito juízo empresarial” que, presentemente, queira investir em qualquer destas culturas, sendo todas elas  brutalmente subsidiadas (o ananás com cerca de 3 euros por kg - 3,5 milhões de euros/ano).

 As vinhas da Ilha do Pico e da Ilha Terceira encontram-se com uma elevada infecção viral, detectada nos anos de 2005/2006, de tal forma que põem em causa a sua qualidade e longevidade (ver aqui: http://www.scielo.oces.mctes.pt). Foi, na verdade, a confirmação de uma desgraça e, como no dito popular, “uma desgraça nunca vem só”, aparece-nos legislação (ver aqui: http://www.igf.min-financas.pt) para dar apoios à manutenção das vinhas situadas na zona do Património Mundial da Ilha do Pico no valor de 3.500 € por hectare por ano.

 Como a produção média de vinho nos últimos 10 anos foi de 750 litros por hectare, contas feitas, os açorianos, incluindo o Sr. Fernando Machado Joaquim (picoense) que avisou em devido tempo ser uma cultura de duvidosa rentabilidade (ver aqui: http://aaalhorta.no.sapo.pt), tem também de pagar todos os anos dos seus impostos cerca de 7 euros para se fazer um litro de vinho naquela zona (no ano de 2010 a produção em vinho foi de 280 lt/ha o que representou termos pago 12,5 euros por litro de vinho naquele ano).

 A Ilha do Pico tem, há mais de uma dezena de anos, 100.000 litros de vinho licoroso que não consegue vender.

CONTINUA