“Manter um casamento é como manter um jardim: para ele estar bonito e florido é preciso saber cuidar das flores”

Lúcia Rego e António António Melo e Lúcia Rego não namoraram à janela, mas garantem que tiveram um namoro bem “à antiga”. Uma relação que começou quando Lúcia tinha apenas 14 anos, mas que permaneceu até aos dias de hoje. Já lá vão 39 anos desde que este casal de Vila Franca do Campo fez votos de fidelidade e amor um ao outro.
Em Dia de Namorados, o «Diário dos Açores» foi conhecer esta história de amor e a de um outro casal, bem mais jovem, Ruben Pimentel e Sara Cabral, casadinhos de fresco…

«Namoro significa uma relação afectiva mantida entre duas pessoas que se unem pelo desejo de estarem juntas e partilharem novas experiências. É uma relação em que o casal está comprometido socialmente, mas sem estabelecer um vínculo matrimonial perante a lei civil ou religiosa». No Brasil o Dia dos Namorados é comemorado a 12 de Junho, mas em alguns países, como em Portugal, o dia 14 de Fevereiro, foi o escolhido para se celebrar o amor.
No Dia de São Valentim, o amor está no ar e por todo o lado vêem-se casais de namorados que não deixam passar a data em branco e comemoram, ora com um jantar romântico, ou com um passeio a dois. Este Domingo, nas mesas dos restaurantes ou em várias lojas de flores os corações vermelhos e as rosas estão em destaque, convidando os enamorados a terem um dia diferente.
Mas nem sempre foi assim, antigamente, o namoro expressava o acto de cortejar a pessoa desejada sem implicar qualquer tipo de intimidade.
Foi precisamente assim que Lúcia Rego e António Melo começaram a sua relação. Já lá vão 39 anos desde que este casal de Vila Franca do Campo selou o seu amor através do casamento. Uma união que se mantém até hoje forte e coesa. Agora com 55 anos, Lúcia Rego conta que tinha apenas 14 anos quando começou a namorar com António, hoje com 65 anos, acabados de fazer.
Recordando estes tempos idos, é com um sorriso que este casal conta como se conheceu. Conforme explica Lúcia Rego, “eu sempre conheci o António. Nós éramos vizinhos, e eu era muito amiga da irmã dele, e fui-me tornando também amiga dele. Ele era muito brincalhão, costumava meter-se comigo, mas sempre com muito respeito”, adverte, acrescentando que na altura, “eu sentava-me no colo dele e, a casa como era antiga, ele pendurava-me nas traves”, comenta.
Ainda sobre esta fase inicial de namoro, Lúcia conta como fazia para cortejar o actual marido: “ele era lavrador e quando ele vinha do trabalho eu estava à janela, porque eu sempre fui mais «malina», e ele comentava: «estás na janela?», e eu respondia: «Estou. Estás bom, António?» Depois fazia um sorriso, mas ele não era maldoso”. Mas Lúcia, não se ficava por aqui, também tinha por hábito ir para a casa da mãe de António sob o pretexto de ir brincar com a irmã dele, mas não era bem assim. “Eu ia era para brincar com ele. Foi assim que fomos nos conhecendo”, recorda.
Enquanto este jogo decorria, surgiram situações que afastaram António de Lúcia, como foi o caso da sua ida para Angola. Mas, mesmo assim, e apesar da distância, o laço que unia estes dois jovens não se desfez e enquanto António esteve em Angola manteve sempre o contacto com a sua futura noiva que recebia aerogramas do seu amor e os ia ler, em segredo, sozinha para o quarto, assim que apanhava os pais distraídos.
António Melo intervém para comentar que “a gente quando gosta de verdade de uma pessoa, nunca mais a esquece e fica gravada, mesmo que depois tenha que ir para muito longe, acaba sempre por voltar ao mesmo”. Isto para explicar que sempre soube que aquela jovem poderia ser a mulher da sua vida, até porque, adianta, “não faltaram raparigas na altura, mas eu tinha interesse era só nela”, garante, lamentando que “hoje em dia os namoros, e até mesmo os casamentos”, sejam “tão diferentes do nosso tempo”.
Quando António regressa de Angola, Lúcia tinha 14 anos e foi nesta altura que começaram oficialmente a namorar. Apesar de António ser mais velho 10 anos, (24 anos) “eu soube logo que aquele era o homem da minha vida. Namorei dois anos, até ter 16 anos para ter a idade para casar. Um passo que nunca me arrependi de ter dado até aos dias de hoje”, frisa Lúcia Rego, avançando que foi mãe do primeiro filho logo aos 17 anos, tendo engravidado três meses depois de casar.
Com um filho nos braços e com outro a caminho, António Melo teve de emigrar para a Bermuda, onde esteve durante 8 anos. Depois desta temporada, António regressa a Vila Franca do Campo e o casal tem o terceiro filho, dessa vez uma menina, hoje com 26 anos.
Mas, uma vez mais, este casal volta a ter que se separar. Já com os três filhos nascidos, António voltou a embarcar, durante quase 6 anos.
Duas separações que Lúcia Rego diz que não foram fáceis, até porque na altura as tecnologias não estavam tão avançadas como actualmente. “A primeira vez que ele embarcou nós falávamos por carta. Eu recebia todos os dias uma carta da Bermuda, e falávamos ao telefone todos os Domingos. Já quando ele embarcou a segunda vez, foi diferente. Eu ia, de vez em quando, à Bermuda visitá-lo e todos os dias à noite falávamos ao telefone. Para além disso, os filhos já eram mais crescidos e já não davam o mesmo trabalho como quando eram crianças”, elucida Lúcia.

“Amor, confiança e liberdade”

Os anos foram passando, e hoje este casal já conta com 39 anos de vida partilhada a dois. Lúcia Rego diz que o essencial para se manter um casamento passa por “primeiro: haver muito amor, esse é o ingrediente principal” assegura, adiantando que também a “confiança” e a “liberdade” são fundamentais para o bom relacionamento e para o sucesso de uma união.
“Com amor, confiança e liberdade é impossível um relacionamento não dar certo”, adverte, confessando que “foi assim que chegamos até hoje. É claro que ao longo destes anos todos tivemos os nossos altos e baixos, muitas montanhas, muitos obstáculos difíceis de ultrapassar, e nem sempre é fácil e muitas vezes nós somos tentados. Das duas vezes que ele embarcou foi preciso que nós os dois tivéssemos muita confiança um no outro. Ter um marido embarcado e ficar só não é fácil, mas é possível. Só temos que saber ouvir as pessoas certas e seguir o nosso instinto”, remata.
Por sua vez, António considera que para aguentar o casamento de 39 anos “foi preciso ter muita cabeça e muita orientação para saber gerir uma mulher e os filhos”.
De acordo com a sabedoria do cabeça-de-casal, “manter um casamento é como manter um jardim: para ele estar bonito e florido é preciso saber cuidar das flores. Se as flores morrerem é preciso saber trabalhar o jardim para que elas voltem a nascer e fiquem novamente bonitas. Um jardim se não for cuidado, vai secar o que lá estiver”.
Um conselho que António Melo diz que vai passando aos mais novos, “mas eles não entendem. E muitas vezes me respondem: «se ela quiser, quis, se não quiser, não quis». Eu faço ver a esses rapazes mais novos que não pode ser assim, mas a juventude hoje quando percebe, às vezes, já vai tarde”, lamenta.
Lúcia Rego chama a atenção que o diálogo é também muito importante numa relação, sem esquecer que “é preciso também ter paciência e existir compreensão entre ambos para saber dizer as coisas certas na hora certa e também saber ouvir, quando a situação a isso o obrigar”. Lúcia revela ainda que outro segredo para a felicidade do casamento é “pensar sempre que o dia de amanhã será muito melhor que o de hoje”.
Um amor que este casal continua a viver todos os dias, conforme diz Lúcia Rego: “ainda vivemos e sentimos o mesmo de quando nos conhecemos”.

Namoro à antiga

Já diz a música de Jorge Ferreira que «antigamente era à janela», mas não foi assim com este casal. Por causa da tenra idade de Lúcia, o pai não deixou que namorasse à janela, no entanto adverte o casal, “nós tivemos um namoro mesmo à antiga, não foi à janela, mas era na sala, com a família toda reunida”. Lúcia conta a propósito que “uma vez o pai viu o noivo a tocar-me na face e isso foi o suficiente para ele dizer à minha mãe que nós nunca podíamos estar sozinhos. E assim foi que mesmo no dia antes de casar, para nos irmos confessar à igreja, o meu pai não deixou que nós fossemos sozinhos, tivemos que ir acompanhados”, conta.
Quanto ao acto de namorar, Lúcia e António confessam que ainda o fazem. De sorriso nos lábios, Lúcia comenta que o marido é muito romântico e até lhe oferece, de vez em quando, umas flores que apanha no quintal. Para além disso, “às vezes quando chega a casa ele abraça-me e beija-me, e eu correspondo”. No Dia dos Namorados, manda a tradição que se troquem prendas. Lúcia também faz a sua parte.

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sara e ruben Casadinhos de fresco

Casados há quase um ano, o jovem casal Ruben Pimentel, com 29 anos, e Sara Cabral com 28 anos, partilharam um pouco da sua ainda recente história de amor. Para este casal, a fase de namoro foi essencial para a descoberta e o conhecimento de cada um.

Quanto tempo namoraram antes de casar?
Namorámos 8 anos e casámos o ano passado.

O que mudou em termos de namoro depois do casamento?
Não sentimos grande diferença na nossa vida antes e depois do casamento, a não ser partilhar a casa que tanto projectamos e planeamos.
Na nossa opinião, temos que fazer do casamento um namoro constante na nossa vida, de forma a alimentarmos sempre o nosso amor.

Para vocês a fase do namoro foi muito importante?
Sempre encaramos o nosso namoro como algo sério e extremamente importante, pois o namoro para nós é o período em que o homem e a mulher se conhecem e se identificam, para avaliarem honestamente se desejam partilhar uma vida juntos.
Não deixa de ser uma etapa difícil, pois trata-se de “escolher” a pessoa certa que queremos para o nosso lado a vida toda, para os bons e maus momentos, mas no nosso entender quando há amor vence-se sempre....

São um jovem casal, e hoje namorar é muito diferente de antigamente. Também sentem isso?
Olhando para a nossa volta, notamos que cada vez menos os casais vêem o namoro dessa forma, e achamos que se está a perder certos valores que consideramos muito importantes, como o respeito e a capacidade de compromisso.

E o Dia de Namorados, como será comemorado por vocês? É um dia que não vos passa ao lado?
Na nossa opinião, o Dia dos Namorados é quando nós quisermos, pois achamos que deveriam existir muitos “dias dos namorados” na vida de um casal, para bem da união.
Este ano, o dia 14 de Fevereiro irá ser comemorado de maneira diferente, uma vez que o Rúben irá estar a viver a sua romaria, e eu estarei com ele no pensamento, mas certamente que iremos festejar muitos dias dos namorados na nossa vida, mesmo não sendo no dia 14 de Fevereiro.

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