Formação Profissional é “desadequada no arquipélago dos Açores”

José António Braga José António de Sousa Braga, natural da Freguesia de Santo Espírito, ilha de Santa Maria, licenciado em Gestão de Empresas pela Universidade dos Açores, defendeu a sua tese com o tema “Formação Profissional na Região Autónoma dos Açores: Uma análise empírica”, no âmbito do Mestrado em Ciências Económicas e Empresariais com especialização em Recursos Humanos.
A tese consiste na análise empírica da formação na Região Autónoma dos Açores, nomeadamente, numa reflexão sobre a relação entre os cursos leccionados nas Escolas Profissionais e as actividades que mais contribuem para a riqueza dos Açores e avaliação da importância da formação profissional quer para as pessoas quer para as organizações.
À conversa com o Diário dos Açores, José Braga revela algumas das principais conclusões a que chegou com a investigação que desenvolveu, considerando que ao nível da formação profissional, os Açores “têm ainda um longo caminho a percorrer”.

 

Diário dos Açores - Depois da sua investigação diria que a formação profissional é desadequada nos Açores?
José Braga - Pela literatura que revi e pelo resultado dos inquéritos que tive, sou de opinião que a formação profissional não está adequada ao arquipélago dos Açores e às principais actividades que se desenvolvem em cada ilha. Do meu ponto de vista, entendo que a formação deve estar vocacionada para as actividades que mais contribuem para a riqueza de cada ilha e essa riqueza está no mar e na terra. Se nós conseguirmos desenvolver a formação nesse sentido, fazemos com que as nossas importações diminuam e com que o nosso dinheiro fique na Região o que, por sua vez, origina mais postos de trabalho, vai diminuir a taxa de desemprego e vai fixar os jovens na região.
Pelo que li posso adiantar que já se fez alguma coisa em relação à formação profissional nos Açores. Na década de 80, por exemplo, o Centro de Formação das Capelas, desenvolveu muito a área da construção civil e nessa altura assistimos a uma formação direccionada para um tipo de actividade que depois na década de 90 conheceu um boom, mas o que actualmente constatamos é que é uma área que está mais fraca.
Repare, de onde veio a mão-de-obra para fomentar a construção civil? Precisamente da agricultura, uma área que depois ficou sem mão-de-obra. Podemos a propósito concluir que as pessoas que hoje estão desempregadas da construção na realidade vieram da agricultura. Eu pergunto, então porque não se reconverte essas pessoas, dando-lhes formação especializada e vocacionada, mas no sector agrícola?

Ou seja está a dizer que os cursos que são ministrados actualmente nas escolas profissionais dos Açores deveriam ser repensados? Não estão a responder às necessidades do mercado?
Eu acho que não. Se, de facto, os cursos respondessem às reais necessidades do mercado, de certeza que a taxa de desemprego seria muito menor, principalmente dos jovens. Outro dado importante que importa destacar é que a maior parte dos jovens escolhe a formação profissional, não porque é uma via para um futuro profissional em determinada área, mas sim porque é mais fácil concluir o 12º ano de escolaridade e muito provavelmente ter acesso ao ensino superior.
Acabei por detectar este dado porque, estando na Universidade aos 51 anos, os meus colegas da área de licenciatura em Economia e Gestão, eram muito mais novos que eu e muitos deles vinham de escolas profissionais, de cursos por exemplo de Qualidade. Ou seja, vinham de cursos não tinham nada a ver com a área em que se estavam a licenciar. Mais uma vez se prova que a formação profissional não está a actuar como deveria estar. Isto porque os alunos olham para o ensino profissional de forma errada. Se houvesse sensibilidade para esta realidade, e se fossem feitos estudos aprofundados sobre esse assunto, seria a esta conclusão que se chegaria.

Considera também que existem demasiadas escolas profissionais nos Açores?
O que eu verifiquei é que existem escolas profissionais em todas as ilhas dos Açores, o único Concelho que não tem escola profissional é o da Lagoa, mas até 2010 teve uma filial da escola da Câmara do Comércio e Indústria de Ponta Delgada. Se os cursos tivessem efectivamente o êxito que se esperava, não tínhamos de certeza desemprego jovem, mas o que se vê é que a taxa de desemprego é elevada.
No que concerne ao número de escolas profissionais, o que considero é que se houvesse uma maior concentração das escolas, poder-se-ia potencializar mais os recursos e conseguir-se-ia melhorar a qualidade do ensino nas escolas profissionais.
Veja-se o exemplo da Suécia que tinha o ensino regular e o profissional e chegaram à conclusão que não estava a dar os resultados desejados. Ou seja, as pessoas que tinham algum poder financeiro jamais iam para as escolas profissionais que eram frequentadas pelas pessoas com pouco recursos financeiros. Então neste país todo o ensino foi repensado e agruparam pessoas que podiam acrescentar valor à formação profissional, valorizaram as profissões que daí derivavam, aumentaram os salários e, passado algum tempo, constatou-se o inverso: uma vez que as escolas profissionais foram valorizadas, os filhos das famílias abastadas já queriam ir para o ensino profissional. Dou este exemplo não para que se faça o mesmo na Região, mas para chamar a atenção e para levar a que se pense seriamente naquilo que se lecciona nas nossas escolas profissionais. Entendo que não tem que ser um Dr. a dar essas aulas, porque não um homem do campo ou um homem do mar que têm a experiência e o saber. Depois associa-se a teoria, os detalhes científicos e com isso acredito que se pode melhorar o ensino profissional nos Açores.

Como se faz com que o ensino profissional seja uma melhor ferramenta?
Uma vez mais volto a focar o facto de cada uma das ilhas dos Açores ter as suas riquezas que assentam sobretudo na terra e no mar. O que se tem que pensar seriamente é qual é a potencialidade de cada ilha?
Em todas as ilhas há um serviço do Governo que era chamado de Desenvolvimento Agrário, eu questiono-me porque motivo estes departamentos não se debruçam sobre quais as potencialidade de produção de cada ilha? Entendo que seria importante que o ensino profissional respondesse a essas necessidades. Que se formem pessoas partindo destes estudos de modo a que se possa produzir.

E como se combate o facto de alguns jovens ingressarem no profissional apenas para terem o 12º ano?
Sinceramente considero que se deveria perceber, aquando das candidaturas, quais as reais motivações de quem se inscreve num curso profissional, qual o interesse e porque motivo escolheram determinado curso.
Neste caso dou o meu exemplo, quando chegou a altura de escolher uma área de ensino, optei por contabilidade, mas hoje questiono-me se seria mesmo esta área que queria? Será que se alguém me dissesse, na altura, que existiam outras alternativas e outras áreas quem sabe eu até poderia ter enveredado por outro caminho.
Acho que falta informação. Considero que se deve dar mais informação para que os jovens tomem as suas decisões na hora de optarem por um caminho profissional. Quem me garante que não possam realmente existir jovens que gostariam de tirar um curso profissional de pescador, agricultor ou lavrador e serem excelentes profissionais nestas áreas?
Eu acho uma pena nós deixarmos de lado áreas como a agricultura e as pescas e só se pensar que existe trabalho nas empresas prestadoras de serviços. Entristece-me quem pensa que nós não somos capazes de produzir.
Nós somos capazes de produzir! Há por aí jovens que têm explorações agrícolas que produzem com métodos científicos de forma impecável e o curioso é que o fazem apenas com o saber que foi transmitido pelos pais.
No entanto, há outros factores em causa. Efectivamente os cursos profissionais são financiados pela Europa e não se deve olhar para estes fundos como uma fonte de rendimento, mas dever-se-ia encarar estes apoios como uma ferramenta para que pudéssemos nos tornar mais competitivos. A ideia da Europa é essa. Quando são concedidos subsídios é com o objectivo de nivelar as regiões e o que eu acho é que as escolas profissionais vêem os subsídios como uma forma de subsistirem. Considero que é preciso haver planeamento, é preciso estudar, mas indo ao terreno, não é atrás das secretárias, e com base nesse estudo poder-se-ia então recorrer aos apoios para se desenvolver os planos.

Porque decidiu fazer investigação nesta área?
Ao longo da minha vida já fiz muitas coisas, desde a barman a administrador de empresas e eu acho que a formação é uma ferramenta fundamental para as pessoas. Durante a defesa da minha tesa, dizia a um dos júris que me avaliou, que é da área financeira, que ele podia fazer uma óptima avaliação de uma empresa em termos financeiros, mas se não o fizer ao nível dos recursos humanos, a avaliação financeira vai-lhe atraiçoar dentro de um ou dois anos. Isto porque, na realidade, a mais-valia e o valor acrescentado que as empresas têm são as pessoas e se as pessoas forem bem formadas aquela empresa garantidamente terá sucesso, se a empresa tem sucesso, o proprietário também terá sucesso e os empregados têm sucesso.

O que pretende com esta tese?
Eu gostava que as pessoas saíssem da sua zona de conforto porque às vezes quem toma as decisões considera que o que se está a fazer está bem. Eu não estou a dizer que não se está a fazer bem, o que defendo é que se pode fazer mais e melhor de modo mais eficiente.
Eu sou de opinião que se deve continuar a investir no turismo, mas também defendo que se deve desenvolver outras actividades que possam depois convergir para o turismo.
No sentido de minimizar esta lacuna verificada, defendo que a Região Autónoma dos Açores deveria seguir o modelo de formação profissional aplicado na Finlândia, uma vez que poderia agregar sinergias – escolas profissionais, empresas, autarquias -, de modo a diminuir o desemprego e, ao mesmo tempo, incentivar a competitividade do tecido empresarial local. A aplicabilidade do referido modelo empresarial é sustentada não só pela dispersão das ilhas, como também pelo facto das empresas apresentarem pequena dimensão, realidade que, devidamente gerida, poderá promover a competitividade, sobretudo, se for direccionada para o aproveitamento dos recursos/potencialidades intrínsecas da Região - o mar e a terra.
Se copiam tanta coisa, porque não copiar esse exemplo?

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