“A ilha de São Miguel está cada vez mais linda e maravilhosa”, diz Alfredo Alves

Alfredo Alves Saiu de São Miguel há 53 anos não porque ia à procura de uma vida melhor, mas porque quis conhecer os Estados Unidos da América e para «fugir» à guerra em Angola. Encantou-se por aquelas paragens e acabou por se estabelecer na cidade de Fall River. Alfredo Alves abriu o seu próprio negócio que viria a ser um dos restaurantes mais famosos da área, a «Tabacaria Açoreana». Um homem também ligado à comunicação, tendo realizado um programa de televisão, o «Politicamente Falando» e hoje participa num programa de rádio, duas vezes por semana. Do seu percurso de vida também faz parte a sua incursão na política, onde foi, durante 16 anos, conselheiro municipal.
As vindas a São Miguel para este empresário da diáspora são frequentes, como também já é hábito a sua presença nas maiores festas religiosas dos Açores: o Senhor Santo Cristo dos Milagres. Foi durante as festas que o Diário dos Açores encontrou este empresário que relatou as suas impressões quanto à ilha que o viu nascer.

Diário dos Açores – O que o trás a São Miguel?
Alfredo Alves – Costumo vir a São Miguel duas ou três vezes ao ano, sendo já costume vir às festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres.

Conte um pouco da sua história…
AA – Fui comerciante em Fall River durante 33 anos num restaurante muito famoso chamado «Tabacaria Açoreana» ou «TA». Estive envolvido na política em que durante 16 anos fui conselheiro municipal da cidade de Fall River. Também fiz programas de televisão, durante cerca de quatro anos tive um programa que se chamava «Politicamente falando». Actualmente faço um programa de rádio, dois dias por semana, cujo nome é «Linha Aberta». Fruto de toda esta actividade muita gente me conhece tanto em Fall River como nos Açores.

Tendo em conta que já vem há vários anos para as Festas do Senhor Santo Cristo, o que achou este ano desta festa?
AA – Achei maiores. A impressão que fico, por aquilo que vi, foi que este ano tinha muito mais gente. Gostei não só pela vertente religiosa, mas também ao nível civil. Entendo, por outro lado, que há algumas falhas. A meu ver há pouca música no Campo de São Francisco, notei alguma falta de vida, apesar da grande afluência de pessoas. Por exemplo, antigamente naquele local havia altifalantes com muita música, e isso já não acontece nos dias de hoje.
Também senti falta de bandeiras, algo que também existia antigamente tanto no Campo de São Francisco como na Avenida. Fiquei surpreendido, porque entendo que uma festa precisa de bandeiras e numa Região que está a receber tanto turismo de várias partes da Europa, considero até que não seria muito dispendioso, por exemplo, ter bandeiras de vários países de Europa. Parece-me que ficava bem e creio que deveria ser algo que a própria Mesa da Irmandade poderia pensar no assunto.
Mas tirando estes dois pormenores, nada mais tenho a dizer. A ilha de São Miguel está cada vez mais linda e maravilhosa. Extremamente limpa. Ainda hoje estive nas Sete Cidades e gostei imenso de ver o grande movimento de turistas.

Isso quer dizer que tem visto muitas diferenças na ilha de São Miguel?
AA – Sim, tenho visto muitas diferenças, como do dia para a noite. Noto principalmente diferença na população. Sinto que as pessoas estão mais positivas e nota-se um certo progresso. Cada vez se vê mais negócios, mais empreendedorismo e é bem notório o desenvolvimento no sector turístico. No tempo que cá estive, vi vários barcos de cruzeiro em Ponta Delgada. Só no dia em que cheguei estavam dois navios nas Portas do Mar e tudo isso é sinal de progresso.
Outra diferença é a limpeza. Comparado com o que éramos antigamente, hoje está tudo muito mais limpo tanto nas ruas como nos restaurantes, casas de banho públicas, etc…

Já saiu de São Miguel há quantos anos?
AA – Há 53 anos.

E porque emigrou? Procurava melhores condições de vida?
AA – Não, por acaso não foi. Sou natural da Rua Ernesto do Canto, nº 37, São Pedro, Ponta Delgada e descendo de uma família da classe média/alta e não foi esse o motivo que me fez emigrar. Na realidade eu não queria ir para a guerra em Angola. Eu ia fazer 16 anos e como tinha muita família nos Estados Unidos, (avós, tios, primos, etc.) o meu pai entendeu que eu deveria ir para a América e assim fiz, sozinho!.

Sempre manteve a sua ligação aos Açores?
AA – Sim, sempre. Costumo dizer que eu saí da ilha, mas a «corisca» da ilha não sai de mim. E confesso que às vezes gostava, porque preocupo-me muito com o futuro dos Açores.

Em Fall River tem uma grande ligação à comunidade de açorianos que lá residem?
AA – Sim, tenho uma ligação muito próxima, principalmente devido à minha actividade cívica e no comércio. Milhares de pessoas me conhecem ora através da televisão, ora por causa do restaurante. Eu diria que tenho uma ligação muito intensa.

Constituiu família?
AA – Fui casado quando era novo, mas agora já não sou. Mas tenho uma família muito grande (risos).

Fazendo uma análise ao que hoje é a ilha de São Miguel, para si qual é actualmente o ponto alto dos Açores?
AA – Para mim, o mais positivo é mesmo a mudança de mentalidades. Hoje em dia gosto muito de ver e de falar com os jovens açorianos. Hoje a juventude tem uma outra atitude, uma outra maneira de estar muito diferente daquilo que éramos. Ao nível económico, sinceramente, não vejo essa Autonomia a fazer o que deveria estar a fazer. Isto é uma Autonomia, que já venho dizendo há vários anos, «castrada» porque não tem futuro.
O ano passado fiz uma viagem a todas as ilhas dos Açores e gostei muito de ver também o progresso nas outras ilhas do arquipélago. Vi uma outra dimensão e um entendimento que de que os Açores não são só São Miguel. Sente-se uma maior união entre as ilhas dos Açores, algo que antigamente não se sentia e isto é muito positivo.

Porquê acha que a Autonomia dos Açores está «castrada»?
AA – Porque os açorianos não sentem que são eles que estão a resolver os seus próprios problemas. Os Açores estão totalmente dependentes da República, e quando se depende de um subsídio para sobreviver, acabamos por ficar subjugados àquele subsídio. A vaca ainda não nasceu, mas já tem um subsídio. Entendo que um subsídio é a pior coisa que existe numa Democracia e numa economia livre. Sempre que dependermos de outros, estamos a negar a nossa própria liberdade e a nossa própria maneira de ser alguém na vida. E, em termos de futuro, entendo que isso é muito mau.
Por exemplo eu recordo-me há uns anos atrás que toda a gente falava mal porque existiam quotas para o leite, entretanto, as quotas do leite acabaram, então agora fala-se mal porque não há quotas. Isso só vem demonstrar algo muito simples: a falta de capacidade das pessoas pensarem e agirem por si próprias. Enquanto isto continuar, não só no sector leiteiro, mas também noutros sectores económicos da Região, não haverá evolução.

E há maneira de dar volta a essa «subsídio-dependência»?
AA – Sem dúvida, que isso é um problema político. Neste momento Carlos César e o PS estão a mandar em tudo e espero que eles dêem a volta a isso com as promessas que fizeram. Se António Costa não fizer nada agora e não colocar os «pés ao fogo», como dizem os americanos, «the feet on the fire», não há futuro para ninguém.

Está pessimista quanto ao futuro de Portugal?
AA - Poder-se-ão avizinhar bons tempos quando a economia em Portugal recuperar.

A seu ver, o futuro dos Açores poderá passar pelo Turismo?
AA – Não! O turismo é muito bom, é uma indústria muito poderosa, mas é temporário. Se houver uma desgraça qualquer, acaba-se o turismo por uns meses acrescentados. Considero que o turismo é extremamente importante como sector económico, mas não um sector que seja uma garantia de sobrevivência. O turismo faz-se, cria-se com infra-estruturas e principalmente com mobilidade nos transportes. A este respeito, é uma situação que melhorou nos Açores com a abertura do espaço aéreo, uma decisão que veio de fora e não de cá de dentro.
É claro que essa abertura ainda não está no que seria ideal, eu diria que ainda falta muito para atingir um patamar desejável, mas é um passo gigante para se conseguir bons resultados e mais turistas para a Região.
Aliás, acredito que as festas do Santo Cristo tiveram mais pessoas, precisamente por causa dos voos low cost.

Já está marcada a próxima viagem aos Açores?
AA – Sim, estarei de regresso à ilha de São Miguel no próximo mês de Setembro.

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