Neste negócio “não há semanas iguais, e a fruta é quase como uma bolsa de valores”

Humberto amaral - frutaria São Miguel Já lá vão 28 anos desde que Humberto Amaral decidiu apostar no ramo das frutas em Ponta Delgada. Tudo começou por causa de um quiosque de venda de gelados e frutas, tendo-se transformado no que é hoje um grande armazém de frutas e legumes localizado na zona dos Valados, em São Miguel. Um negócio que conquistou também o amor da família que se juntou a este projecto. Humberto Amaral diz que é com orgulho que olha para o que conquistou, prevendo a continuação da empresa nas mãos dos três filhos.


Diário dos Açores - Como nasceu a frutaria São Miguel?
Humberto Amaral – A frutaria São Miguel começou por ser um quiosque de frutas e gelados localizado na Avenida Marginal de Ponta Delgada, cujo proprietário era um colega meu que teve que emigrar para os Estados Unidos da América e, por este motivo, fiquei eu a tomar conta do quiosque.
Como o meu colega decidiu ficar pelos Estados Unidos, eu abracei aquele projecto, tendo ficado durante cerca de três anos naquele espaço, entre 1988 e 1991. Depois desse período, fui obrigado pela Câmara Municipal de Ponta Delgada a retirar o quiosque da Avenida. Nesse entretanto, estive seis meses parado, mas depois tomei a decisão de apostar numa frutaria e estabeleci-me no espaço onde era a antiga Sapataria Jóia.

DA - Porquê uma frutaria?
HA – Como na altura não existiam as grandes superfícies comerciais e havia muita dificuldade em ter-se produtos diferentes e com quantidades adequadas às necessidades, considerei que poderia apostar nesta área e ir mais à frente.
Em 1991 fui a Portugal continental para fazer uma prospecção e, numa segunda viagem, já comecei a trazer fruta. Na altura trazia quantidades pequenas (entre 8 a 10 toneladas) que serviam para a minha loja. Mas como essas quantidades eram muito só para a minha loja, comecei a distribuir por mini-mercados e alguns colegas.
Foi assim que tudo começou. A partir daí aluguei um pequeno armazém na zona dos Valados e fui-me entusiasmando com o negócio e fazendo sempre mais. Depois com o evoluir do negócio, dei empregos, adquiri viaturas, alarguei o leque de fornecedores aos hipermercados, supermercados, mini-mercados, etc. e cheguei até aos dias de hoje.

DA - No início, há 28 anos atrás, o que eram os vossos produtos principais?
HA – Vendia-se de tudo um pouco, com grande destaque para o produto regional. Havia as laranjas, maçãs das furnas, ameixas, etc. De fora da região, nomeadamente do continente, vinham maçãs de outra qualidade, já com uma certa apresentação. Depois começaram a aparecer os kiwis e a uva de todo o ano. No início, essencialmente, eram esses produtos. Mas, com o passar do tempo fomos alargando o nosso leque de produtos, como pêssegos, nectarinas… todo o tipo de fruta que existia eu trazia para comercializar e vender.

DA – O que vende mais actualmente?
HA – Neste momento, vende-se de tudo mais! O peso maior são as pêras e as maçãs. Também se vendem muito as frutas de caroço, as hortícolas e laranjas.
Actualmente, estamos com uma média anual de 120 toneladas semanais. Já foi mais, nos anos antes da crise. Agora estamos com encomendas estáveis. Posso dizer que estamos num patamar confortável para a época em que estamos e para a forma como se encontra o país. Não há ninguém a fazer loucuras, como também não há ninguém rei e senhor de qualquer mercado.

DA – Também estendeu a sua oferta aos legumes e vegetais. Sempre foi assim?
HA – Não, estes produtos vieram por arrastamento. Como o circuito já estava montado para as frutas, e por causa do clima nos Açores e das intempéries, aproveitava a altura em que por cá havia mais escassez para trazer produtos como a couve-flor, lombarda, alho francês e até alface.

DA – Quais as proveniências dos produtos que comercializa?
HA – Tudo o que exista na Região, nós vendemos, como é o caso da banana, couve, e tudo o que haja ao nível de hortícolas. Damos preferência ao que é regional. De resto, temos muitas frutas e legumes nacionais. Também vou buscar a Espanha, França e Hemisfério Sul. Por vezes também falta mercadoria em Portugal. Neste momento, por exemplo, a laranja vem de África do Sul, há alturas em que também as maçãs e as pêras vêm desta zona.
No entanto, trata-se de uma situação muito pontual porque temos em Portugal continental uma cadeia muito grande e com grande capacidade de produção e conservação praticamente de uma época para outra.

DA – Onde residem hoje as maiores diferenças no seu negócio e neste mercado em particular?
HA – Posso dizer que passados 28 anos as coisas mudaram para melhor desde logo pela qualidade. A forma como hoje se transporta a mercadoria é muito diferente. Antes vinha tudo a granel, os calibres vinham todos misturados, com colorações diferentes, enfim… Hoje, isso já não se vê. A mercadoria já vem toda por categorias e tudo muito bem acondicionado.

DA – E no que diz respeito aos clientes. Nota que há também diferenças na mentalidade da sociedade? O facto de existir quem se preocupe com ter uma alimentação mais saudável reflectiu-se no seu negócio e nas suas escolhas?
HA – Sim, muito! Cada vez mais há uma maior informação sobre hábitos de alimentação saudáveis, o que, por sua vez, leva as pessoas a procurarem certo tipo de produtos.
Por exemplo, basta haver uma notícia que diga que o fruto vermelho é bom para a saúde, que é anti-cancerismo ou que faz bem a determinada parte do corpo que toda a gente vai logo consumir aquele artigo. E isso sente-se no dia-a-dia.

DA – Algum dia pensou que o que começou por ser um quiosque na Avenida Marginal de Ponta Delgada ia chegar à empresa que possui hoje?
HA – No que é hoje, nos moldes em que está, não. A minha ideia, depois de abrir a abrir a primeira loja, seria que ia abrir mais três ou quatro espaços e ia viver deste negócio. Na verdade o negócio não seguiu este rumo, fui-me deixando levar e a minha ambição fez com que crescesse mais.
Hoje também os meus filhos fazem parte da empresa, qualquer um deles é o meu braço direito. São eles António Amaral, com 42 anos, Andrea Amaral, com 38 anos, e Ruben Amaral, com 30 anos, para além da minha esposa, Cidália Amaral.

DA – Acabou por ficar só com uma loja e com um armazém…
HA – Temos uma loja de venda ao público no centro histórico de Ponta Delgada e um armazém localizado na zona dos Valados. Entendi que para que o negócio corresse bem, teria que estar tudo concentrado e por isso não quis avançar para mais algum estabelecimento. Frutas e legumes é algo vivo e temos que tomar conta deles todos os dias e estar atentos às necessidades do mercado.
Os meus filhos ajudaram-me muito a desenvolver o negócio e estou muito feliz com o que conseguimos não só por eles, mas também por mim.

DA - Foi um caminho difícil chegar até aos dias de hoje?
HA – Foi muito difícil e ainda hoje é. Cada dia, ou cada semana são sempre diferentes. Embora já esteja mais habituado, não deixa de ser muito difícil gerir a nossa casa, porque isso também implica gerir a casa dos outros. Ou seja, eu tenho que ter a noção do que é que eles precisam. Uma vez que tenho alguma percepção do mercado, acabo por saber muitas vezes o que os clientes precisam e o que consomem.

DA – Neste ramo de negócio, onde estão as maiores dificuldades?
HA – Em tudo! Está na compra, está no transporte, nas deslocações que tenho que fazer ao exterior. Desde que comecei, e até aos dias de hoje, e uma vez que sou eu que sou o responsável por fazer todas as compras, isso implica a que todas as semanas tenha que ir ao continentes escolher e negociar a minha própria fruta. Não há semanas iguais, e a fruta é quase como uma bolsa de valores: ora agora está baixo, ora está alto e há alturas em que a variação do preço acontece em apenas um dia. Hoje posso encontrar uma fruta a 80 cêntimos e amanhã esse mesmo produto pode já estar a um valor superior.
O mesmo se aplica aos leilões das hortícolas que acontecem todas as semanas na zona Oeste.

DA – A empresa neste momento tem quantos funcionários?
HA – Cerca de 25. Também temos oito viaturas para distribuição.

DA – De onde vem o seu conhecimento de frutas e legumes? Teve alguma formação?
HA – Tive o curso da vida. Foi a experiência da vida. Aprender todos os dias com os erros e com pessoas que sabiam mais que eu e, estando ao lado de quem sabe, quem tem gosto, aprende. É esta a minha formação.

DA – Trata-se de um grande investimento ao longo destes 28 anos?
HA – Sim. Já é um investimento considerável.

DA – E há novos projectos para levar a cabo?
HA – Há sempre. Como os meus filhos são mais jovens, eles têm algumas ideias para levar a cabo a médio longo prazo. Para já, prefiro não desvendar o que são estes projectos. Ainda é cedo.

DA – A loja em Ponta Delgada, será para manter no futuro?
HA - A loja acaba por ser uma montra da nossa empresa e já não é lucrativa como era e nunca mais será. Neste momento ainda não está pensada nenhuma estratégia para aquele espaço, mas é possível que se transforme a loja numa casa de jornais e revistas, quem sabe…

DA – Estão em todas as ilhas?
HA – Vendemos para Santa Maria, Flores, Faial, Pico, pontualmente e Graciosa também muito pouco. Mas são todos bons clientes, porque compram e pagam.

DA – Como olha hoje para este seu projecto?
HA – Com muito orgulho, especialmente porque estou acompanhado pela minha família que me ajudou a desenvolver esta empresa. No futuro, já os vejo a ficarem responsáveis pela empresa e eu a caminho da reforma (risos).

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