“Senti uma necessidade imensa de pedir ao Senhor que me concretizasse um milagre”

promessas sto cristo São dezenas as pessoas que no Sábado das Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres se dirigem ao Campo de São Francisco para o cumprimento de promessas. De joelhos, descalças, com velas de vários pesos e tamanhos ou apenas de terço na mão, percorrem uma ou várias vezes o perímetro do campo pedindo por um milagre nas suas vidas ou agradecendo ao Senhor por graças recebidas. 

É o caso de Maria (nome fictício), que há oito anos vai cumprir promessas. “Eu comecei a cumprir a promessa por uma aflição que senti na minha vida. Senti uma necessidade imensa de fazer a promessa e de pedir ao Senhor que me concretizasse uma graça, um milagre. E assim fui”, contou em declarações ao Diário dos Açores.

“Fiz a promessa por várias questões relacionadas principalmente com saúde, com a minha família, por questões financeiras também… Era um momento da minha vida muito aflitivo e pedi muito ao Senhor Santo Cristo que me ajudasse”, explica. 

Todos os anos, esta devota dá uma volta ao campo de joelhos e amanhã, “pela fresquinha, de manhã”, lá estará novamente. 

“Gosto de ir bem cedo, quando não há muita gente a ver nem muita confusão, porque acho que este deve ser um momento especial, de muita interiorização, sem chamar atenção. Quanto menos pessoas tiverem por perto melhor”, refere, justificando o porquê de querer manter o anonimato nesta entrevista.

Maria assume ter uma grande devoção pelo “Ecce Homo”, no entanto, admite que nem sempre via com ‘bons olhos’ o cumprimento de promessas de joelhos.

“Sempre fui uma pessoa de muita fé, mas não achava correcto fazer promessas de joelhos. Dizia sempre que era uma estupidez e que havia outras formas de cumprir as promessas”, recorda, salientando que é nos “momentos de grande aflição que acabamos por prometer”. “Admito que fiquei espantada comigo própria quando decidi fazer a promessa ao Senhor Santo Cristo”.  

Ao nosso jornal, conta que o motivo que a levou a cumprir uma promessa pela primeira vez já não é o mesmo de há oito anos. Segundo conta, em vez de pedir, agora agradece.

“Ao longo o ano acontecem tantas coisas na minha vida e quando chega a esta altura do ano, sinto a necessidade de voltar a percorrer o Campo de São Francisco de joelhos para agradecer as coisas boas que ocorreram”, salientando a “a graça com que Jesus nos brinda”.

As dores físicas podiam ser muitas, mas Maria garante que “não sente nada a nível física naquela hora”, porque sente-se com “muitas forças”. “É um momento indiscritível, porque faço o percurso com uma rapidez e com uma fé tão grande que, quando levanto os olhos, já estou a chegar à igreja. Por vezes, nem sei como cheguei lá tão rápido”, salienta.

Depois de pagar a promessa, é a “sensação de alívio” e de “dever cumprido” que sente. “Sinto uma paz espiritual e sinto-me bem”, acrescenta.

Enquanto cumpre a promessa, Maria vai acompanhada de um amigo. “De há uns anos para cá que ele me tem acompanhado sempre no percurso que faço. Vai rezando o terço e dá a volta comigo, não de joelhos, mas está ali. Naquele momento sentimos os dois uma paz indiscritível”, garante.

 

Três toneladas de círios vendidas durante as festas

 

Por estes dias, as vendas de círios para pagar promessas no Santuário da Esperança chega a atingir as três toneladas de cera. Uma quantidade que varia de ano para ano, segundo Nuno Silva que há dez anos vende velas, nesta altura do ano.

“Há anos em que vendemos tudo e outros que não. Quando não vendemos tudo, guardamos para o próximo ano”, explica ao Diário dos Açores. 

Depois de cumpridas as promessas,  os fiéis devolvem as velas, depositando-as em recipientes preparados para o efeito, que são colocados junto ao Santuário. A cera é depois enviada de novo para o continente onde é novamente derretida. “É uma espécie de reciclagem”, afirma Nuno Silva. 

Há círios de vários tamanhos e pesos. “Temos velas de sete quilos, de cinco quilos e outras mais leves e os preços também variam”, acrescenta.

Por sua vez, Osvaldo Caetano, que também vende velas com Nuno Silva, salienta haver “pessoas que compram círios pelo seu peso ou pela sua altura”. 

“Há um senhor de Rabo de Peixe que todos os anos cá vem e compra sempre cerca de 70 quilos de círios”, recorda.

Osvaldo Caetano afirma que são “muitas as histórias” que ouve dos fiéis que vão adquirir as velas. “Ouvimos muitas histórias, entre boas e más. O mais comum é comprarem círios para  cumprir promessas devido a doenças”, revela.

Foi a comprar um círio que encontramos Maria Margarida Freitas. “Eu venho todos os ano aqui comprar uma vela para cumprir uma promessa por mim e pelos meus netinhos”, avançou.

Natural da Fajã de Cima, Maria Freitas irá na mudança da imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres do Convento da Esperança para o Santuário, que se realiza este sábado. “Tenho muita fé no senhor Santo Cristo que tem feito muitos milagres na minha vida. O meu marido esteve muito doente e depois ficou bom, apesar de entretanto já ter falecido. Além disso, eu tenho 82 e ainda estou viva, não é de dar graças a Deus?”, diz, emocionada. 

“Sinto que a minha vida é uma graça de Deus e agradeço muito ao Senhor Santo Cristo dos Milagres”.