“Vamos fazer o que Ele, Jesus Cristo, nos disse para fazer”

Adriano Borges O cónego Adriano Borges, um dos mais jovens reitores de sempre, está há um ano à frente do Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres e embora tenha sido sempre um peregrino destas festas, este ano confessa que sente o peso da responsabilidade deixada pelos seus antecessores. Ao Diário dos Açores, o reitor confessa que gostava de transformar o Campo de São Francisco, em particular no Sábado e no Domingo, num lugar propício à oração, em que o silêncio reinasse para dar lugar a uma maior espiritualidade “para que os peregrinos que aqui se deslocarem se sintam, de facto, perto do Senhor Santo Cristo dos Milagres”.

 

Diário dos Açores - São as suas primeiras festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres enquanto reitor do Santuário, certamente que uma grande responsabilidade…

Adriano Borges – De facto sinto esta responsabilidade desta herança que foi deixada pelos grandes reitores que passaram por esta casa, três dos quais tive a oportunidade de privar, porque foram meus professores, desde o Monsenhor Jacinto Almeida, Monsenhor Agostinho Tavares e, mais recentemente, o Monsenhor Agostinho Tavares. Por isso sinto o peso desta pesada herança de homens que foram extraordinários e que, com o aproximar da festa, essa responsabilidade aumenta no sentido de que nada falte, que tudo corra bem, que tudo esteja o mais perfeito possível. Uma atenção sobretudo aos pormenores que, às vezes, escapam aos olhos das pessoas, mas que são necessários para que tudo corra dentro da normalidade e dentro daquilo que todos nós desejamos para a festa.

 

Qual o cunho pessoal que este ano imprimirá nestas festas?

AB – O que eu gostaria, e para isso tomamos algumas providências em conjunto com a Mesa da Irmandade do Senhor Santo Cristo, era, em primeiro lugar que tudo corresse bem, que houvesse ordem, harmonia e que as pessoas festejassem, mas que o fizéssemos dentro do maior respeito possível e da maior ordem pública possível.

Ao mesmo tempo gostaria, sobretudo no Sábado - de manhã com as promessas e à tarde com a procissão da mudança - e no Domingo, com a missa campal e a procissão, que se criasse um ambiente de maior espiritualidade, de maior concentração, que se respeitassem as pessoas que estivessem a pagar as suas promessas e que não houvesse grandes alaridos para que se criasse um clima até de algum silêncio. O trânsito estará interrompido até Segunda-feira e o nosso objectivo é criar um clima mais propício à oração para que os peregrinos que aqui se deslocarem se sintam, de facto, perto do Senhor Santo Cristo dos Milagres.

 

Que mensagem terá as festas do Senhor Santo Cristo de 2017?

AB – Este ano o tema escolhido foi uma frase lapidar de Nossa Senhora por um motivo muito simples: porque estamos a celebrar os 100 anos da aparição de Nossa Senhora em Fátima. Escolhemos uma frase do Evangelho de São João das Bodas de Caná que quando falta o vinho, falta a festa e a alegria e Maria diz aos serventes: «Fazei tudo o Ele vos disser». Tomando como mote esta frase, o que desejamos para este ano é que todos nós possamos olhar para o Senhor Santo Cristo dos Milagres e que ressoe nos nossos ouvidos e nos nossos corações as palavras de Maria. Vamos fazer o que Ele, Jesus Cristo, nos disse para fazer, para que haja mais amor, mais compreensão, mais respeito, mais tolerância e mais perdão nas nossas famílias, nas nossas casas e na nossa vida profissional e social. Se nós fizermos tudo o que Ele nos disser, de certeza teremos um mundo muito diferente.

 

Este foi um ano em que introduziu algumas novidades, uma delas foi a passagem para a Segunda-feira da homenagem dos Bombeiros, PSP, táxistas e motociclistas. Foi uma decisão bem aceite?

AB – Fico muito contente que a recepção que as pessoas tiveram a essa mudança foi muito boa. Não tive ecos negativos dessa decisão que foi tomada em conjunto com a Mesa da Irmandade. Conversamos bastante antes de tomarmos esta decisão e fizemos algumas reuniões com os responsáveis por este desfile de homenagem no sentido de propor esta alteração, que foi muito bem aceite por todos.

Eventualmente poderá alguém dizer que essa era uma tradição de longa data, mas convém dizer que assim estamos a proteger as pessoas que naquele dia estão de joelhos no Campo de São Francisco. Estamos apenas a separar as águas. Isso não quer dizer que uma homenagem seja mais importante que a outra, porque não é. Não estamos a colocar em segundo lugar essa devoção ao Senhor Santo Cristo dos Milagres, estamos sim a proporcionar a todos os intervenientes, quer os que fazem as suas promessas no Sábado, quer os que vão no desfile na Segunda-feira, um ambiente de maior segurança e protecção para todos. No Sábado procuramos ter maior silêncio, maior concentração e mais espaço na via pública para quem faz as suas promessas de joelhos.

 

Como olha para estas manifestações de fé?

AB – Arrisco-me a dizer que a devoção ao Senhor Santo Cristo dos Milagres está no nosso ADN de açorianos, e essa devoção adensa-se nestes dias. Todo o ano temos sempre pessoas no Santuário que nunca está vazio, há sempre alguém que está nas grades a rezar, há sempre pessoas a entrar e a sair e isto é um sinal da grande devoção e fé que o nosso povo tem ao Senhor Santo Cristo. Por estes dias aumenta a quantidade de pessoas que aqui vêm e que prestam a sua homenagem.

Em relação às pessoas que cumprem as suas promessas, é importante que se diga que nós devemos olhar para as pessoas com um respeito muito grande sobretudo porque qualquer pessoa que fez uma promessa fê-la numa altura de grande aflição. Ninguém faz promessas só porque deseja fazer. Se fizeram uma promessa e estão a cumpri-la, é ou porque pediram algo muito grande e precisam de a fazer, ou porque num momento de grande aflição, prometeram que haviam de o fazer, e nada lhes pode tirar isso. Se isso é daquela pessoa que ali está, da nossa parte só podemos mostrar o grande respeito que temos pela vida humana, pela dignidade humana e por aquilo que vai dentro do coração de cada um. Só essa pessoa e o Senhor é que sabem o que vai no íntimo de cada um. E é isso que nós também devemos proporcionar às pessoas que ali estão de joelhos. Não tem muito sentido haver grande alarido num sítio onde, ao mesmo tempo, está alguém de joelhos, a rezar e a atravessar o Campo de São Francisco. Esta é também uma mensagem que eu gostava que as pessoas recebessem, que nos respeitássemos uns aos outros e que fossemos capazes de ver que por detrás de cada pessoa há algo impensável para nós.

 

No que diz respeito às obras no Santuário, em que fase é que estão?

AB – Uma boa parte das obras já estão autorizadas pela Direcção Regional da Cultura e também pela própria Diocese. Vamos fazer as obras de uma forma faseada, sendo que a primeira fase será a intervenção nos azulejos do coro baixo. Será um trabalho moroso e delicado pelo que a empresa que irá levar a cabo este trabalho está certificada a nível internacional. Será um trabalho que vai levar algum tempo a ficar concluído. Gostaria que as obras arrancassem já este Verão. Como as obras vão ser feitas de forma faseada, não irão interferir com o normal funcionamento do Santuário, e este também é o nosso objectivo. As restantes obras irão sendo programadas, porque como são obras bastantes grandes, temos que as ir pensando a longo prazo. 

 

Para as festas de 2018, o Santuário irá apresentar-se de cara lavada?

AB – Pelo menos o coro baixo eu gostaria que já estivesse pronto.

 

Em relação ao culto a Madre Teresa da Anunciada. Em que fase está o processo de beatificação?

AB – Esta foi uma questão que D. João Lavrador me encarregou de fazer logo que assumi a reitoria do Santuário. Qualquer que seja o processo de beatificação tem duas etapas, a diocesana e a romana. Na etapa diocesana é preciso instruir um processo com um promotor da causa que, neste caso, é a Diocese de Angra, e um postulador que irá reunir uma equipa que vai incluir alguém relacionado com História para fazer a recolha histórica daquilo que foi a vida de Madre Teresa. Depois, numa outra fase, alguém estará encarregue de recolher todas as cartas que todos os dias recebemos a relatar factos que se passaram na vida das pessoas e que aconteceram por intercessão de Madre Teresa da Anunciada. Concluída esta parte, o processo segue para Roma, onde ficamos em lista de espera. A última informação que tive foi que existia em Roma, há cinco anos atrás, dois mil processos em lista de espera. Depois dessa parte e de Madre Teresa ser declarada venerável, ficamos à espera de um milagre de Madre Teresa, sendo que depois será preciso comprovar se foi mesmo milagre. Só depois de haver uma conclusão efectiva da existência de um milagre é que o Santo Padre declara a beatificação. Trata-se de um processo muito longo. A título de exemplo temos o caso dos pastorinhos de Fátima, que morreram na década de 1920 e só em 2017 é que foram canonizados, sendo que a sua beatificação também foi há relativamente pouco tempo. E não nos podemos esquecer que estamos a falar de pastorinhos que viram Nossa Senhora de Fátima. Temos que ser realistas. No entanto, a quantidade de cartas que recebemos no Santuário que nos relatam factos que se passaram na vida das pessoas e a grande fé que as pessoas têm na Madre Teresa da Anunciada é um processo que tem pernas para andar porque, de facto, há muita gente que pede por intercessão de Madre Teresa da Anunciada.

 

Este ano o Bispo de Fall River, D. Edgar da Cunha, irá presidir, pela primeira vez, às Festas do Senhor Santo Cristo. Como considera que ele olhará para esta grande manifestação de fé do povo açoriano?

AB – D. Edgar da Cunha é brasileiro e tem muito contacto com a nossa comunidade portuguesa emigrante em Fall River e onde tem também uma igreja dedicada ao Senhor Santo Cristo dos Milagres em que também aparecem milhares de açorianos. Eu parto do princípio que D. Edgar da Cunha tem uma ideia do que são as nossas festas, mas nada como estar presente e ver com os nossos próprios olhos. Quando ele vir, por exemplo, na procissão de Domingo, a multidão que vai passar à frente do Senhor Santo Cristo e a forma como passam, com os olhares que se cruzam com o olhar do Senhor e com as expressões de quem pende algo, nos rostos das pessoas, ele vai ver um mar de fé, fora do normal.

 

Quais são as suas expectativas para estes dias de festa?

AB – Em primeiro lugar, tenho rezado para não chover e para que as festas de Sábado e Domingo decorram com a maior normalidade. Estou à espera que as pessoas venham, aproveitem, num clima proximidade e de intimidade com o Senhor Jesus. Vou estar numa posição de maior atenção a tudo o que se vai passar. A minha preocupação será também estar atento às coisas que possam não correr tão bem ou que possam ser de maneira diferente para que, no futuro, possamos mudar e corrigir. Estarei nesta dupla função de tentar viver o mais possível com a minha fé e a minha devoção. Vou estar atento às pessoas e aos peregrinos que nos visitam, tentando estar o mais próximo possível das pessoas, mas ao mesmo tempo esperando que tudo corra bem e ver o que pode ser melhorado e modificado para o próximo ano.

 

Com toda esta responsabilidade, consegue ter tempo para os seus momentos de espiritualidade?

AB – Nestes dias, vou-me alimentando um pouco do alimento que os outros têm. Quando estive no aeroporto para receber o Bispo de Fall River estava lá um casal que vinha também dos Estados Unidos da América e antes de eles irem para casa, a primeira coisa que fizeram foi assistir à missa do Senhor Santo Cristo. Não conseguimos ir para casa se primeiro não formos à casa do Pai agradecer mais um ano de saúde e o facto de termos mais uma oportunidade de agradecer ao Senhor Santo Cristo e isso para mim é um alimento. Vamo-nos alimentando da fé uns dos outros. A título pessoal, acordando às cinco da manhã e estando sem parar todo o dia, fica mais difícil, mas hoje já estive junto do Santíssimo, já fiz a minha oração, mas um pouco mais breve do que nos outros dias. O principal alimento do meu dia é a Eucaristia, mas nesses dias eu sei que é mais complicado, mas vou-me alimentando daquilo que são os sentimentos dos outros. Acredito que sobretudo nos momentos em que possamos estar mais em baixo, estarmos junto a alguém que tem uma força grande e que tem fé, faz com que a nossa fé também aumente. E é isso que eu também peço, que aumente a minha fé, através da fé dos meus irmãos e dos peregrinos que aqui se deslocarem.