Aquele dia que um Santo passou nos Açores!

Faz agora 26 anos que, em 11 de Maio de 1991, se passou em Ponta Delgada um sonho de grande intensidade emocional, como nunca tinha acontecido, com a Visita Pastoral de São João Paulo II à nossa Diocese. 

Foi «como se a história da salvação passasse por momentos entre nós», gravando no nosso coração a imagem daquele Papa Peregrino que durante o seu longo e edificante pontificado viajou pelo mundo levando uma mensagem de salvação e de ternura que Ele tão bem sabia transmitir, arrebatando o povo micaelense e promovendo momentos de alta tensão que parecia que o Céu e a Terra se fundiam sobre o solo açoriano!

Vivi esse dia algum tempo antes - por via duma cuidada preparação religioso/pedagógica que «sonhamos» e pudesse ser desenvolvida nas nossas escolas do 1º ciclo, juntando no mesmo sentimento de fiel e de aliança ao Papa que hoje é Santo, uma comovente unidade de pensamento e de acção, com os alunos, com os professores e ainda os seus familiares, através dum projecto a que simbolicamente então resolvemos chamar de «ENCONTRO COM UM AMIGO», mas que imediatamente se transformou num momento cheio de ternura como nunca se havia repetido entre nós, sobretudo quando o coração do Papa se juntou a cada um de nós!

Foi como se nesta terra amanhecesse um novo dia, através da transformação que esse ternurento encontro chegou ao alcance de todos - aos presentes no Campo de S. Francisco, e aos que em casa o viram através da Televisão ou o ouviram pela Rádio – podendo assim presenciar não só a presença de S. João Paulo II, como participar na cerimónia da Proclamação da Palavra e ainda naquele comovente olhar frente a frente com a Imagem do Senhor Santo Cristo.

E, por isso, no seu regresso ao Vaticano, pode afirmar: «não posso recordar todos os pormenores, mas gravou-se profundamente no meu coração o encontro com o ECCE HOMO, em Ponta Delgada».

Contou-me o meu saudoso amigo António Costa Santos, que, de acordo com o protocolo e após ter cumprimentado as principais autoridades ali presentes o Papa dirigiu-se aos membros da Irmandade; e, primeiramente, para o seu Provedor. Contudo, no momento em que o ia cumprimentar, São João Paulo II fixou, como num relance místico, o rosto que inspira a Imagem do Senhor Santo Cristo, ali presente no seu andor; e que decerto, reparando naquele olhar diferente e misericordioso que a Veneranda Imagem revela, passou adiante de todos para apressadamente se dirigir e só se centrar, de joelhos, numa atitude de prolongada e orante veneração, esquecendo-se de si mesmo e dos que aguardavam se iniciasse a Celebração da Palavra, a ponto do Bispo D. Aurélio, lhe ter segredado (contra a vontade de alguns dos membros do episcopado presentes), que era chegado o momento de terminar aquele Encontro tão pessoal, que afinal só traduzia uma grande intensidade de pessoal.

Aliás, a esse propósito, como então escreveu o cónego António Rego «foi tudo como se tivesse rebentado um vulcão», pois o nosso povo como talhado em basalto cinzento, soube escutar e viver o apelo de interioridade que a Igreja e as escolas souberam transmitir; e a lava correu como lágrimas de emoção que a todos tocou e inspirou naquele momento em que parecia que a terra micaelense e o Céu se tocaram de maneira tão resplandecente!

Tive a honra de estar junto desse Santo, (a quem hoje tantas vezes recorro), por via da bondade de outro grande Amigo, Monsenhor José Ribeiro Martins, que quis demonstrar o seu reconhecimento pelo trabalho de preparação que realizámos nas escolas.

No lugar que me tinha sido reservado, João Paulo II chegou a tocar-me… mas o « fiel» guarda costas não deixou que lhe beijasse a mão!

Soube mais tarde que a nossa Diocese, por via das escolas de S. Miguel e de Santa Maria, foram as únicas que «romperam» as barreiras da laicidade (hoje muito desvanecidas com a eleição do nosso actual Presidente da República) … e conseguiram realizar um trabalho tão intencional.

Aliás, nessa altura, a Autonomia vincou o seu lugar ao  creditar a realização desse trabalho pedagógico e de elevado sentido e Fé e de religiosidade; por isso, neste testemunho que hoje quis reservar para esta colaboração, não quero deixar de lembrar «a carta branca» que o então Presidente Mota Amaral me quis conceder.

Creio que foi um serviço que muito deve ter contribuído para cada vez mais unir os açorianos, pois com esse «ENCONTRO COM UM AMIGO», na carta de agradecimento que mais tarde recebi do assessor do Papa, Monsenhor Sandri, este afirmava que « Sua Santidade confiara-lhe a honrosa incumbência de nos agradecer o testemunho de estima e de corajoso espirito cristão demonstrados, como sinal de vitória , esperança e força dos corações».

Relembro esse dia memorável com enorme emoção e sei que muito do que se passou se ficou a dever ao espirito de serviço dos meus mais próximos colaboradores. 

Apesar dos anos que passaram, saúdo com muita amizade e louvor os professores e os alunos, pois que nos seus locais de trabalho, souberam entender este acontecimento como uma vivência, muito para além duma normal «ordem de serviço», mas com verdadeiro e esclarecido espírito de educadores e de educandos, alguns independentes das suas convicções religiosas.

 

Notas do meu cantinho - Maio florido

Outrora o mês de Maio era o mês “de encanto e de flores”. Estava-se em plena Primavera e os campos apresentavam um ar festivo com encantos mil. Os tempos vêm mudando e hoje não se vêem árvores verdejantes nem flores mimosas por essas encostas e nos pequenos jardins das residências.
“Mês de encantos e de flores/Maio ditoso floriu...”
Na Igreja, o mês era dedicado à Virgem e, em todas ou quase todas as paroquiais, um grupo de jovens, normalmente de meninas, preparava-se para acompanhar a devoção diária ante a Imagem de maior devoção, com uma assistência fora do comum.
Não eram somente as chamadas “beatas” de missa diária, mas muitas outras pessoas, devotas da Mãe de Deus.
Cantavam-se variados cânticos, que a apologética devocional era muito variada e alguns cânticos eram de uma beleza musical fora do comum.
Havia quem fosse à igreja, somente no mês de Maio, para ouvir os belos cânticos que o coro apresentava diariamente, normalmente novos e com belas melodias.
As igrejas eram excelentemente decoradas com as mais belas flores da época, principalmente rosas das mais variegadas cores e com aromas estonteantes, que se espalhavam por todo o templo, grande ou pequeno. Flores, afinal, que eram trazidas dos campos ou, principalmente, dos pequenos jardins que, normalmente, todas as casas possuíam. E se não existiam jardins delimitados, havia roseiras brancas, vermelhas, cor-de-rosa, amarelas, que todos tinham o prazer de cultivar, até nos cantos dos quintais ou até nas encostas das habitações, e que, naquele mês, levavam à sua igreja, em homenagem à Senhora do Rosário, Nossa Senhora de Lourdes, Senhora da Piedade, Mãe de Deus, ou Senhora da Alegria e, mais recentemente, Nossa Senhora de Fátima. Embora os títulos fossem diferentes a devoção era a mesma e sempre crescente,
Que belos eram os jardins públicos das cidades açorianas. Lembro o de Angra, na minha distante juventude, onde existia um variado roseiral de variegadas cores e qualidades, que tornava aquele magnífico recanto um local ameno onde apetecia ficar, à sombra das frondosas árvores e num ambiente aromático. Cuidadoso e hábil era o respectivo jardineiro para cuidar daquele verdadeiro oásis, onde os angrenses se deleitavam nas tardes de Primavera e Estio. Os jardins das outras cidades do Arquipélago não cheguei a conhecer, nessa época de saudosa memória.
Mercê dos altares cuidadosamente floridos e dos perfumes que evoluíam das flores que os engalanavam, as igrejas açorianas alimentavam ambientes místicos, onde a fé dos crentes rejuvenescia, no exemplar espírito religioso que neles se sentia e a todos atraía. E ainda hoje…
A Liturgia actual, principalmente a resultante das reformas introduzidas pelo Concílio Vaticano II, trouxe algumas modificações à prática religiosa. Deu-se mais importância à Missa ou Eucaristia, como é natural, mas as celebrações só têm lugar quando há sacerdotes, o que, infelizmente, na ilha do Pico nem sempre acontece. Basta considerar que, para cerca de vinte paróquias, existem seis ou sete párocos, quando, antes daquelas reformas, todas as paróquias e até os curatos estavam providos de párocos residentes e, por vezes, também de curas. Mas os tempos mudaram. As vocações diminuíram e não poucos membros do sacerdócio pediram escusa...
Estamos no mês de Maio. Verdade que os tempos são outros. As invernias são mais prolongadas. Tudo é diferente... Até o mês de Maio tem sido algo invernoso. Não é o mesmo de outros tempos, quando belos coros cantavam devotamente à Virgem:
Mês de encanto e de flores,/ Maio ditoso findou.../ Mas não cessem os favores,/Que seu carinho outorgou!

Vila das Lajes do Pico,
Maio de 2017

A União Europeia não é um banco

A minha formação humanista teve como suporte a cultura greco-romana e judaico-cristã. Os meus professores formaram-se em universidades europeias e aí beberam as ideias do pensamento europeu moderno, derivado da Reforma e da Revolução Francesa.
A influência da cultura francesa na minha geração foi tal que, o curriculum liceal obrigava os alunos a terem cinco anos de Francês e apenas três de Inglês. A própria História universal relevava a França em detrimento de outras grandes nações. Isso fez com que ligássemos mais às novas experiências e doutrinas que chegavam de França e de outros países francófonos.
Os tempos hoje são diferentes.
Na ordem do dia, estão a ideologia e as propostas dos candidatos ao Eliseu situados entre a extrema-direita e o centro, o que me leva a pensar que os supremos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, que se expandiram para todas as latitudes, são subvertidos por velhas ideologias que julgávamos arredadas do pensamento político contemporâneo.
O ciclo histórico que vivemos tem-nos trazido muitas surpresas: a eleição de Trump, o Brexit, a ameaça e ascensão ao poder de políticos e partidos europeus de extrema-direita, a crise da União Europeia, tudo resultantes de acentuadas diferenças sociais e do atropelo aos direitos humanos, que levam os cidadãos a olharem para a Europa, com uma acentuada descrença e grande preocupação.
Em Portugal, a integração na CEE, em 1 de janeiro de 1986, trouxe benefícios incalculáveis, sobretudo para as regiões menos desenvolvidas.
Nos Açores, o estatuto de Região Ultraperiférica consagrou a majoração de apoios financeiros destinados a debelar uma série de condicionantes que envolvem diferentes setores de atividade: das pescas à agricultura, dos transportes e comunicações à educação, do ambiente à indústria, etc.
Os vários pacotes financeiros permitiram, em trinta anos, alavancar o desenvolvimento socioeconómico açoriano, embora muito haja ainda a fazer.
O Orçamento Regional para 2017 prevê a transferência de cerca de 207 milhões de euros da UE, destinados a investimentos nos vários setores de atividade, enquanto as transferências do Estado para a Região foram de 80 milhões apenas.
Há, pois, que aproveitar bem as avantajadas verbas vindas de Bruxelas, para que possamos ultrapassar, de uma forma sustentada, os constrangimentos inerentes à insularidade, e não nos tornarmos um povo de invertebrados pedintes.
Causa-me certa estranheza ver a sobranceria do discurso permanentemente acusatório de responsáveis da lavoura açoriana, ameaçando o governo de manifestações por todas as ilhas, exigindo soluções para os seus problemas e a satisfação das suas pretensões. Como se a lavoura e os produtores não fossem responsáveis pela gestão e riscos da sua atividade e vivêssemos numa economia dirigida, ou do Estado patrão.
A ser assim, não nos espantemos de ver o comércio tradicional, o setor dos transportes e comunicações, os pequenos empresários de construção civil, os desempregados e outros, reivindicarem também programas e apoios específicos no âmbito do POSEI, para ultrapassarem as graves dificuldades por que passam.
Todos sabemos o quão tem sido beneficiada a agricultura no seu crescimento produtivo, cujos resultados estão à vista. Mas não se pode atribuir às entidades governamentais a má gestão de lavouras, os constrangimentos do mercado, ou a incapacidade da indústria para inovar e modernizar os produtos láteos. Repito: não vivemos numa economia dirigida, mas numa economia livre.
Para muitos, a UE a 27 foi encarada apenas como uma entidade financiadora de projetos e investimentos regionais, e pouco importou se foram bem ou mal geridos e se eram ou não sustentáveis.
Perante a incerteza de uma União Europeia que por estes dias assinala mais um aniversário da declaração de Robert Schuman, feita em Paris em 1950, os cidadãos dos Estados Membros têm de refletir se preferem pertencer a uma Europa pautada pela “cooperação pacífica e pelo respeito pela dignidade humana, pela liberdade, democracia, igualdade e solidariedade entre nações e povos europeus” , ou se só pretendem ser clientes de um banco rico de um momento para o outro pode fechar a torneira dos euros.
É que uma UE assim, não tem futuro.

*Jornalista c.p.536
http://escritemdia.blogspot.com

Viagens no Tempo - Que vício o de tagarelar

Assim rezam os dizeres de quem o equilibro da linguagem de gente cordata aconselha moderação, quanto baste.
Bastas vezes nos confrontamos com alguém que não prescinde daquela vontade de, sobre tudo, tecer considerações, quantas vezes ocas, sem o mínimo sentido percetível daquela lemga lenga sair coisa palpável e objetiva que nos permite algum prazer em ouvi-lo.
Conheci, em tempos, um fulano da nossa praça, que nutria imenso gozo em conversar disto e daquilo, sem qualquer intuito de vasculhar a vida alheia – Deus o tenha.
Certa vez, deu-me boleia da mata da doca, onde decorria uma feira de gado. Tudo bem e muto disse sobre o evento, não permitindo, seu hábito, ouvir alguma opinião contrária.
Chegámos ao Largo 2 de Março, onde morava numa rua adjacente, agradeci-lhe a boleia, abrindo a porta do automóvel e ele sempre a malhar em ferro frio, enquanto me afasta do carro – assunto arrumado julgava eu.
Para surpresa minha, o cavalheiro abriu a sua porta e seguiu-me. Meu Deus como vou sair-me desta…
Sendo domingo, inventei a desculpa de ter de ir à Ponta Garça visitar a família.
Ele atendeu à minha pressa e apartámo-nos
Chegado à mina terra contei-lhes o fastidioso sucedido. O meu saudoso irmão Nuno, que já lá estava, “tiveste mais sorte do que eu, porque, de tanto conversar, encostou demasiado a sua cara, como se aquilo fora porventura um segredo de estado, enganchando os seus óculos nos meus, e cada um levantou do chão o que era seu…” – risada geral.
Meu pai que ouvia muito mal, embora nunca se habituasse ao aparelho auditivo, pôs a mão em concha para não perder pitada e, já se vê, riu-se divertido.
Todos habitam o Reino do seu Além. Quem sabe do que falarão…
Certamente, da paz em que todos fruíam neste mundo, que ao tempo ainda era um oásis.

 

Reflexão

Há Escuta

Há gente que se entretém com o que corre na vida alheia, vasculhando a sua intimidade, e pior, propalando as suas fraquezas. Diz-se que são as mulheres as que mais se dão a essa devassa. Porém, os homens, e isso confirma-se, não fogem à regra.

Recordando o Prior José Luis de Fraga

- virtuoso sacerdote e impulsionador da música e do folclore regional

Há dias o Grupo Folclórico da Fajã de Baixo comemorou 43 anos de existência, tendo havido no Centro Cultural Natália Correia na Fajã de Baixo uma sessão evocativa deste acontecimento, na qual houve um momento musical e feita uma resenha histórica da vida daquele agrupamento e ainda sido salientadas várias figuras que no «antigamente» muito contribuíram para a divulgação do folclore e da musica regional, desde os seus primórdios.
De entre essas figuras recordadas evocou-se a figura do Padre José Luís Fraga, como um dos seus primeiros e grandes impulsionadores, pela notabilidade que pode desenvolver para que a música e o folclore que nos legaram os nossos antepassados «regressassem», naturalmente, à partilha dos valores culturais do povo açoriano.
Aliás, por coincidência – se bem que em tempos diferentes - no período desta Páscoa, a propósito da colaboração que publiquei neste Jornal, recordei a sua figura quando pároco da freguesia de S. Pedro, mas na qualidade de «orador-oficial», das principais cerimónias religiosas que se realizavam na Igreja de S. José, onde fui paroquiano durante mais de 50 anos.
Desde então, fui-me habituando a «entender» a sua vasta cultura teológica e também o sentido humano que inspiravam as suas palavras, decerto pela grande aproximação que sempre demonstrou para com as famílias mais carenciadas da sua área paroquial, onde uma parte vivia do mar.
Era nítido que estávamos perante Alguém que sempre pregou o Evangelho da caridade e do amor, ao mesmo tempo que não tinha pejo em denunciar os grandes males que enfrentavam a sociedade local daquele tempo, ainda muito no seguimento da ressaca provocada pela 2ª guerra mundial e dos efeitos que teve no plano económico, incluindo a falta de trabalho, o que obrigou ao que pode dizer-se à 2ª grande fase da emigração, sobretudo para o Canadá, isto no inicio da década de 50.
Também recordo que, numa Quinta Feira Santa ia caindo «o carmo e a trindade», após o sr. Padre Fraga ter pronunciado o sermão do lava-pés, (que antes do Concilio era de tarde, separado da missa celebrativa da instituição da Eucaristia); e, entre nós, era tradição que durante o período da Páscoa se realizassem torneios de futebol com a participação de equipas açorianas, sobretudo da Terceira. E, a Associação de Futebol de Ponta Delgada entendeu marcar um desses encontros para a tarde de sexta-feira Santa!
Do alto do púlpito o sr. Padre Fraga, com a firmeza que lhe era tão peculiar, discordou da intenção e acrescentou que a única resposta dum cristão seria pura e simplesmente ignorar o facto e não comparecer.
Já se vê que a Associação de Futebol, que era presidida por António Horácio Borges, não gostou da «sugestão» e na imprensa aduziu das razões que, em seu entender, em nada comprometiam a solenidade e o simbolismo do dia.
Naquele tempo era assim, cada momento tinha o seu lugar próprio…
Quando em 1953 fiz estágio na escola S. Pedro, no edifício do «Plano dos Centenários» que ainda hoje se situa na Rua Mãe de Deus; e, no ano lectivo de 1954/55, ali trabalhei já como professor, coube-me uma turma da 4ª classe.
O ambiente escolar era amigável e a presença do Senhor Padre Fraga para orientar as lições de Moral e Religião constituía sempre um especial e diferente espaço de convívio, que tanto aproveitavam tanto os alunos como os professores, tal era a intuição como se dispunha a orientar o tema das lições.
E, se por um lado se aperfeiçoavam as verdades da Fé, por outro, obrigava-nos a reflectir o verdadeiro sentido da vida e até da camaradagem e a ajuda-mútua que deveria existir entre todos, conceitos que iam muito para além duma catequese dominical.
Mas o que de mais original distinguia essa sua presença era o facto de se fazer sempre acompanhar dum gravador - coisa rara naquele tempo- que transmitia através de bobines em fitas gravadas o que era, entre nós, um instrumento raro, só conseguido para quem tinha um amigo na Base das Lajes ou então um parente nos Estados Unidos.
Esse facto que tanto ilustrava a sua intuição de educador era factor que não só amenizava a lição, mas sobretudo procurava incutir nos alunos o conhecimento pela música regional açoriana, como ainda os despertava para os valores mais intrínsecos duma cultura que nos havia legado os nossos antepassados, quem sabe mesmo desde o povoamento.
O Sr. Padre Fraga rodava e tornava a rodar o material musical precioso que as bobines continham e, de semana para semana, era visível que os alunos se iam entusiasmando por uma arte musical que andava um tanto ou quanto esquecida  dos nossos gostos culturais, incluindo os balhos populares.
Recordo que um dos meus alunos desse tempo era o Victor Melo - que sempre deve ter acompanhado, com especial interesse, esses momentos de prazer - e até os soube absorver, de tal maneira com a intuitiva mestria que lhe transmitiu o sr. Padre Fraga, que é hoje um elemento dos mais valiosos na divulgação, no estudo e na investigação da música regional, aliás uma qualidade a que se juntaram tantos outros que, como ele, continuaram a dedicar-se à recolha folclórica, transmitindo esse dom pelas novas gerações.
Por obra que não é do acaso, senti a feliz oportunidade de com ele trocar algumas informações que confirmassem o conteúdo desse testemunho; e, porque são passados mais de 60 anos, pude ter a alegria de saber que após as audições que o senhor Padre Fraga transmitia, toda a classe passou, doravante, nos tempos destinados ao canto coral, a entoar não só as canções que obrigatoriamente os manuais da Mocidade Portuguesa exigiam, como também nos dedicamos à música folclórica que habilidosamente saíra daquele precioso gravador…
Posso pois afirmar que o senhor Padre Fraga deve ser mesmo considerado como um dos precursores que lançou as primeiras bases da música regional pelas escolas por onde passou; e nelas deixou um especial rasto de sensibilidade e de simpatia, proporcionando que os professores pudessem ser capazes de introduzir uma prática de açorianidade na aprendizagem, porque mais tarde essas canções surgiram nos orfeãos que animavam as festas escolares e, anos depois, até apareceram alguns grupos folclóricos infantis.
Creio, igualmente, que deve ter constituído uma achega valiosa nesse empolgante conhecimento e divulgação da música folclórica, o facto de, em 1953, como bolseiro da Junta Geral do Distrito, ter estado entre nós a proceder a uma recolha dos nossos cantares, o Professor Artur Santos, considerado então a maior autoridade no seu género no pais, pois após as recolhas que realizou em várias ilhas, as mesmas foram gravadas e chegaram a preencher muitos dos programas produzidos pelo então Emissor Regional dos Açores, o que ajudou a «agitar» essa onda de interesse que foi envolvendo a população local.
Com a cooperação de Manuel Inácio de Melo, (seu paroquiano /autodidacta e sempre desperto para os valores culturais e etográficos do povo), o Senhor Padre Fraga ajudou a fundou o grupo de Cantares «Tavares Canário», a que se seguiu a criação do «Grupo Folclórico de S. Miguel», enfim um período de excepcional valor no conjunto do nosso panorama músico/cultural e que hoje representa um dos mais representativos valores patrimoniais onde quer que represente S. Miguel em terras estrangeiras e mesmo no continente português.
Ainda no campo sacerdotal exerceu as funções de substituto do ouvidor de Ponta Delgada; e, uma das ausências de monsenhor José Gomes coincidiu, em Junho de 1948, com a primeira vista a S. Miguel da Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima, cabendo ao senhor padre Fraga a organização do triunfal programa delineado para cada uma das nossas freguesias.
Esse acontecimento foi depois reunindo em livro, por iniciativa de Manuel Inácio de Melo e constitui hoje um documento histórico de grande valor pelos emocionantes momentos de Fé e de apoteose que registam.
Por indicação do Bispo D. Manuel Afonso de Carvalho, o Sr. Padre Fraga foi anos depois colocado em Vila Franca do Campo, como Prior da histórica Igreja Matriz de S. Miguel e ainda como ouvidor eclesiástico, onde continuou a sua notável obra apostólica e cultural, que ainda hoje é ali recordada, na complementaridade da época dos «padres-mestres» que preparavam alunos para o ensino secundário e também para os estudos preparatórios no Seminário de Angra.
Os contactos que com ele mantive rarearam mais, mas sempre acompanhei por via do meu colega e Amigo Professor Teotónio Machado de Andrade o seu continuado percurso sacerdotal, pois os dois também mantinham um comum interesse pelos estudos etnográficos e musicais.
Aliás, também nos chegamos a encontrar naquele agradável convívio anual de amigos que o professor Teotónio promovia no belo recanto que era a sua «Fonte Milagrosa», ali para os lados da Rua da Cancela, para uma prova dos «sabores da Vila», que era mestre em preparar.
Era um momento de rara e amena cavaqueira e tinha como habituais convivas o Poeta Armando Cortes Rodrigues, o prof. José da Costa, o Reitor Dr. João Anglin, o Dr. Augusto Botelho de Simas e também Manuel Inácio de Melo, bem como outras pessoas ligadas às letras e às artes.
E, nesta quadra, do Poeta Armando Cortes Rodrigues, tudo se expressa:   
   
    Esta Fonte Milagrosa
    É recanto de amizades:
    Quem vem encontra ternura;
    Quem parte leva saudades.

Depois veio a doença … e a paragem habitual do senhor Padre Fraga, tantas vezes acompanhado pelo professor Teotónio, passou a ser à sombra do velho cedro que existia no Jardim público, onde ambos naturalmente discorriam sobre as coisas da Vila, da sua história e também do seu folclore.
São estas as saudosas imagens que ainda hoje guardo do Prior José Luís de Fraga, infelizmente uma figura que a cidade esqueceu… e que bem merecia ser reavivada pela obra apostólica e cultural que nos deixou. Aliás foi um sacerdote que esteve sempre muito acima do que era comum nos movimentos da vida da Igreja.
E foi pena que não pudesse ter vivido, em plenitude, os conceitos expressos no Concilio Vaticano II, pois pelo seu perfil de pensador acredito que, em muitas ocasiões, talvez o tivesse antecipado!           

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