Pré-Parados, claro!

thank-youSe estamos preparados ou pré-parados não é uma questão shakesperiana de estar ou não estar! É, no que me concerne, muito mais que isso, porque implica uma resposta filosoficamente angustiante: estamos ou não? E para termos umas pistas, nada como observar a realidade, essa conselheira das boas e más coisas.

Este episódio aconteceu esta semana, no momento mais alto da vida turística açoriana – pelo menos a ter em conta a quantidade de cronicáveis azóricos que se deslocaram à Bolsa de Turismo de Lisboa, a expensas nossas – ou seja, sem vergonha nenhuma! Chega Passos Coelho, o Odiado, ao pavilhão dos Açores (todo construído em paletes, ou assim) e diz: “espero que os investidores possam agora reagir também de forma pronta, não direi de um dia para o outro ou da noite para o dia, mas que possam aproveitar esta janela de oportunidade para agarrar novos clientes, novos turistas”.

Falava das low cost, evidentemente. A partir daqui foi o descalabro… A governança, como teve toda a noite para estudar as declarações do PM, preparou um texto à altura. Melhor, “uma resposta”: “Para quem encara os novos desafios como ultimatos, digo-lhes apenas que cumpram com a sua parte, porque os Açorianos, as empresas açorianas e todos aqueles que trabalham o destino saberão cumprir a sua”… E não esteve só, pois o delegado da Associação de Hotelaria de Portugal veio logo dizer que “gostava de convidar o senhor Primeiro-Ministro a ir aos Açores, passar uns dias de férias para ver se nós não estamos preparados para os turistas que nos visitam”.

E então, estamos ou preparados ou pré-parados? Refira-se que estamos preparados para responder e, se preciso for, com o nariz bem empertigado e até, se necessário, com uma boa dose de malcriação! Aliás, nada que não seja o nosso apanágio em várias áreas ligadas ao turismo, e que até são bastante badaladas: às vezes o nosso des-trato (falta de trato) é a nossa imagem de marca! Porque foi isso mesmo que o governo fez: em vez de receber com um sorriso agradável as palavras do PM (como qualquer recepcionista que se preze deve responder a uma sugestão de um cliente), optou por as considerar uma espécie de afronta apenas passível de uma resposta de desprezo (como qualquer mau empregado faz)! É esse o estilo que vamos aplicar aos turistas? Bem, vindo o exemplo de cima, não tenho quaisquer dúvidas: estamos preparadíssimos – mas é para asneirar em toda a linha! A esse propósito – porque sei que muita gente não acredita que possamos asneirar em toda a linha, mas apenas até 50% – devo lembrar outra passagem deste Testamento, quando alguém com responsabilidades disse, no mesmo registo, que “os Açores não andaram a dormir estes anos todos”. Eu entendo, mas penso que as opções neste caso são entre o mau e o pior: se estivessem a dormir creio que o pesadelo teria sido arrasador; se não, bem , se não é caso para agradecer a Deus que ainda tenham os vossos pelouros intactos… Olhem, há pelo menos uma estrutura que está pré-paradíssima e teve lá fora o seu ilustre responsável a promover-se sabe-se lá de quê! Não se percebeu lá muito bem como ou porquê, mas parece que alguém detectou que a obra do telhado do Mercado da Graça estava com uns problemas.

Eu não fui, garanto, e como aquilo é obra camarária, imagino que também ninguém seja responsável por nada. Mas o facto é que detectaram não sei o quê, e como isto é tudo muito responsá- vel, começaram de imediato as obras. Quer dizer, selaram o miolo do mercado com umas redes, desviando os vendedores para os lados, e o mercado entrou em “modo de obras”, como é mais correcto dizer. O que eu sei é que na semana passada perguntei a um dos vendedores “então, quando é que a obra acaba”, ao que tive uma espécie de coro como resposta: “como é que podemos saber, se ainda nem sabemos quando é que começa”! Oh diacho, então aquilo está bloqueado há 6 meses e ainda ninguém mexeu uma palha? Palha parece que mexeram, pois aparentemente há trabalhadores lá a andar de um lado para o outro; agora fazer alguma coisa é que parece que não. A Praça está, portanto, pré-parada! O que me faz grande impressão, porque o Mercado da Graça é, pela sua própria natureza, um dos principais pontos turísticos de Ponta Delgada. E, portanto, se ele está pré-parado, o que não se há-de dizer de outros locais de menor importância. Eu deixaria uma dica, que retirei de um episódio que aconteceu comigo aqui há uns tempos.

Quando descobri que a rua do Mercado ia entrar de novo em obras no ano passado (acho que dessa vez foi para renovar a calçada, ou lá que raio foi, pois isto aqui parece que nunca está pronto, e até tremo de imaginar qual será a parte de Ponta Delgada que estará encerrada este Verão), fiquei menente! Outra vez? Mas não há maneira destes desgraçados do Mercado terem algum descanso e fazerem o seu negociosito descansados? Já ia na 3º Especial no Travassos quando decidi ir falar com o mestre responsável, e disse-lhe isso mesmo: “eme, outra vez em obras?, sempre no mesmo sítio? esta gente não tem descanso… vocês estão a dar cabo da vida desses pobres”… e por aí adiante. O homem lá compreendeu e, sensibilizado, ouviu a minha conclusão: “ouçam, eles são tão pobres como nós, eles trabalham para viver e não podem perder mais clientes por causa do trânsito interrompido: vocês que terminem esta obra rápido, e depois vão compensar em cera noutro lado qualquer com menos precisão”! Olhem, foi remédio santo: nunca vi uma obra tão rápida. No espaço de menos de 3 semanas lá estava o Mercado liberto de novo! Conclusão: Especial é que está a dar!!! Mas como imagino que quem nos rege não anda lá muito por esses caminhos deviantes, estamos há 6 meses com o Mercado semi-fechado sem que ninguém tenha a mínima ideia de quando é que ele será intervencionado – quanto mais sobre quando a obra terminará! Imagino que neste caso também irão dizer que ninguém está a dormir… Pois não!!! Pré-paradas estão também as finanças regionais e toda a oposição – e esta é uma área em que eu não paro de me tonificar (ou será atonificar, ou atonitar?) Ora bem, para reduzir os impostos Vasco Cordeiro fez o que César teria feito: convocou o PP para “um acordo” e esfregou-o na cara do PSD. É um clássico que aparentemente não sai de moda! Do acordo apenas sabemos uma parte – que os impostos vão baixar, com pelo menos os votos do PS e do PP – já quanto à outra parte (um acordo é isso, acho eu) não sabemos ainda mais nada! Registe-se que nem seria preciso dar nada a ninguém, porque o PS quando quer sabe muito bem que tem maioria mais que absoluta – e mostra-o amiúde. Mas deve ter dado alguma coisa, senão não era acordo mas outra coisa qualquer.

Depois são os números. A redução dos impostos implicava uma redução da receita de 18,5 milhões de euros e Vasco Cordeiro até convocou todos os repartidos da oposição para dizerem o que é que cortariam no Orçamento para satisfazer essa redução. Aquilo era tão importante que todos eles até tiveram de ir a Sant’Ana para uma audiência de prestamento de contas. Não se sabe que cortes propuseram ao certo, se algum, e curiosamente apenas o PP disse na altura que guardava para mais tarde uma posição, pois não conhecia lá muito bem o Orçamento, ou algo do género! No fim saiu-lhe um acordo.

Qual não foi o meu espanto quando o desgoverno vendou, perdão, o governo desvendou esta semana quais seriam os cortes. Tambores, por favor: “Para ser possível diminuir os impostos nos Açores, a proposta de revisão do Orçamento será concretizada através de uma redução de 20% das despesas na aquisição de bens de capital, de 10% nos encargos financeiros com os juros e de 6% na aquisição de bens e serviços correntes”. Ufa… Ora, 3X4=28 noves fora, isto dá qualquer coisa como – espera, isso não me dá lá muito certo, pensei eu para com os botões que me restam. Me’lá a ver: 6% da aquisição de bens e serviços são 928 mil euros dos 15,46 milhões que constam do Orçamento. 10% nos encargos financeiros com os juros dá 1,5 milhão de euros dos 15 milhões que constam no Orçamento.

Até agora já temos 2,4 milhões, e portanto só faltam ,dchavê, 16 milhões.

Portanto, 20% das despesas na aquisição de bens de capital, eu confesso que foi onde me engatei mais. Eu não fiquei bem certo de quais são essas despesas na aquisição de bens de capital – admito que contrair dívida tenha uma despesa qualquer, mas não vejo isso lá no Orçamento. Por via das dúvidas, decidi calcular os 20% sobre as “despesas de capital”, o que dá qualquer coisa como 4 milhões de euros dos 20 milhões que lá constam. Portanto, temos um total de 6,5 milhões de euros (mais coisa menos coisa). Ou seja, só faltam 12 milhões! Só faltam? Como é só faltam? Essas três rúbricas deviam dar os 18,5 milhões, acho eu de que! Como é faltam? Não sei! E provavelmente nunca vou saber pois, tanto quanto já percebi, esta minha dúvida, numérica e existencial, resumese a mim próprio, pois não ouvi nenhum partido regional levantar qualquer vírgula ou piscar qualquer olho sobre o assunto! E assim se vai andando… Enfim, tudo pré-parado! A pré-paração também se verifica ao nível da educação.

Esta semana, o GACS, com os seus 200 jornalistas (estou a exagerar qualquer coisa, mas não levem a mal), noticiou que “o Governo dos Açores não quer passagens administrativas na educação”. Registe-se que até compreendo o conteúdo e posso estar de acordo com o que foi imputado ao Secretário como tendo dito, nomeadamente quando refere que “as lideranças escolares devem ser cada vez mais pedagógicas e menos burocráticas”. Os meus receios são outros: é que os gagseiros escrevem que “há medida que o tempo for passando”, e que raio, numa notícia sobre educação fica, como dizer, mal…

 

ORDEM DE MARCHA

A partir da próxima semana os leitores do Diário dos Açores estão proibidos de ler estas crónicas. A ordem que vos deixo é para cumprir, até porque, para garantir que assim é, irei deixar de as escrever! Não sei se voltarão com o mesmo formato, nem sei quando, mas para já é o que vos deixo.

Símbolo da sua irreverência, estas cró- nicas nunca tiveram qualquer título e por isso eram apenas referidas como “artigos do sábado” e sei que foram do agrado de alguma gente e desagrado de outra gente.

O que, pelo seu formato, era uma tarefa exigente: textos longos, sem quebras ou entretítulos, facilmente consideráveis “chumaços” – reconheço que não se destinavam a qualquer um! O seu propósito era o de, ao mesmo tempo, “brincar com a língua, arrancar um sorriso e precipitar a crítica”, e penso que isso foi sendo conseguido, umas semanas melhores que outras, mas a vida é assim mesmo.

A questão é que passei os últimos 15 anos ao serviço do Diário dos Açores, e entendi que era altura de provocar algumas alterações – na minha vida e na do jornal.

Será salutar para todos. No meu caso, irei estar ligado a um projecto de turismo rural e produção agrícola biológica, o que me permitirá investir um pouco na minha saúde, até porque já não estou propriamente a ficar mais novo. Vou para o oxigénio e acho que me vai fazer bem – ao corpo e à cabeça, pois a pressão dos jornais também faz mossa.

A todos os que seguiram a minha colaboração no Diário dos Açores, um forte abraço, um até já e o desejo de que a saúde nunca vos falte! 

Rabo de Peixe: o futuro mora ali

A visita de um grupo de intelectuais aos Açores, em Maio de 1924, pretendeu dar a conhecer “o que são estas tão injustamente ignoradas e esquecidas ilhas, o que são e o que valem os Açores, o que d’eles os Açoreanos têem feito pelo seu trabalho de séculos, o que lhes compete pela sua riqueza e pelas fontes de prosperidade com que a natureza os dotou”(1).
A iniciativa partiu de José Bruno Carreiro, fundador do Correio dos Açores e os seus efeitos ainda hoje são visíveis, mais não fosse pela publicação do livro de Raúl Brandão, As Ilhas Desconhecidas, que constitui um precioso vade-mécum para qualquer visitante.
Recordei a vinda dessas figuras das letras portuguesas, ao folhear, há dias, a revista “Os Açores”, onde me deparei com a reportagem da sua visita a Rabo de Peixe, em Domingo do Espírito Santo. O largo fronteiriço à Igreja paroquial, apresenta, numa foto, repleto de gente rodeando os carros de bois efeitados com os simbolos do Divino, e os ilustres forasteiros.
A freguesia deveria ter, então, cerca de 4.500 habitantes.
Hoje, Rabo de Peixe, elevada à categoria de vila em 25 de Abril de 2004, tem uma fisionomia social e económica, completamente diferente.
Durante anos a fio, e por razões familiares, olhei para Rabo de Peixe  numa perspetiva sócio-educativa em que a carência de condições habitacionais, convivendo, normalmente, com a pobreza e o alcoolismo, afetava a aprendizagem das crianças. Todavia, para além destas mazelas sociais e humanas que estigmatizavam a freguesia, mantinha-se uma cultura ancestral, com manifestações de carácter etnográfico e folclórico que ainda perduram a par da melhoria das condições sócio-económicas.
Os 8.866 habitantes residentes em Rabo de Peixe(2), não se dedicam todos à pesca, se bem que A Vila, virada ao mar do norte, possua, hoje, melhores condições para aquela atividade por que é conhecida, popularmente.
A ampliação do porto de Rabo de Peixe é um investimento de grande alcance. Permitirão - estou certo – modernizar e ampliar os barcos de pesca, tradicional e solidariamente concebidos para dar trabalho aos que se sustentam do mar; obrigarão os profissionais de pesca à indispensável formação; disponibilizam largos espaços, em terra, com equipamentos adequados à preparação da faina, e facilitam e incentivam atividades náutico-desportivas, tão do agrado dos jovens locais.
Para trás ficou uma mentalidade ancestral que minimizava a escola e os benefícios da educação, em benefício do trabalho infantil.
Nas últimas décadas, um imenso esforço foi feito junto das famílias, pelos docentes das escolas, para reduzir o abandono e o insucesso, que, normalmente, conviviam com as condições muito precárias dos alojamentos e dos agregados familiares.
Segundo o último censo, a população escolar daquela jovem vila, tinha 3.836 crianças no ensino Básico, 799 no ensino secundário, 50 no profissional e havia 546 pessoas com ou a frequentarem o ensino superior.  Estes dados contrastam com a visão miserabilista da mais jovem e mais populosa freguesia dos Açores.
Para tanto, contribuiram os vultuosos investimentos feitos nos setores da habitação, da educação, dos apoios sociais, na indústria, onde nunca é demais realçar o impacte positivo no emprego feminino, da instalação da fábrica da COFACO, e mesmo na agricultura, pois Rabo de Peixe possui uma área assinalável de pomares e produção de frutas e hortículas.
Mesmo assim, ainda há quem olhe para esta vila, de forma preconceituosa, ressuscitando um passado de miséria que obrigou à debandada de centenas de pessoas para o Canadá e Estados Unidos, onde, pelos seus méritos e capacidades, singraram na vida e são o espelho do melhor a que a sua terra sempre aspirou.
Rabo de Peixe, vive um tempo novo, baseado na qualificação e na promoção dos seus habitantes.
E se hoje, passados 90 anos, os intelectuais portugueses revisitassem Rabo de Peixe, perceberíam que, a par da evolução e da modernidade, as típicas tradições populares se mantêm, porque é nessa simbiose que os povos afirmam a sua identidade.



*jornalista c.p. 536

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1) In Correio dos Açores, 23-03-1924
2) Censo de 2011, fonte SREA

Campos há muitos...

Regresso às aulas.
Depois da interrupção escolar da Páscoa, são algumas as crianças que regressam com histórias para contar da sua experiência de campos de férias. Deveriam ser mais com mais histórias, mas a bem verdade, são menos com menos histórias.
Os campos de férias são parte da vida de um jovem participante. Mais do que actividades, os momentos! Partilhados em perfeita sintonia com os “amigos dos campos”, onde o stress positivo torna os dias agradáveis e construtivos, numa permanente base de segurança.
São um espaço educativo e saudável, em que a componente emotiva é vivida e sentida espontânea e solidariamente. Onde tudo tem um início e um fim temporal, mas que o ciclo geracional não permite que a missão e conceito termine. Hoje crianças participantes, amanhã adultos facilitadores de futuros participantes.
Esta “escola” de educação não formal, deve ser frequentada assiduamente pela maioria dos jovens açorianos, possibilitando um aumento do conhecimento da cultura da sua terra, da história dos seus antepassados, da recreação dos tempos antigos, da arte e do desporto moderno praticado nas áreas protegidas.
Esta “vida” de jovem é tanto mais bela quanto mais contacto existir com experiências positivas numa óptica de partilha, cooperação e sentido de responsabilidade em grupo. São estes momentos que o farão crescer com sentido crítico por uma cidadania mais activa e participativa, em que as acções de sensibilização para a protecção do ambiente, das dependências e da igualdade de géneros serão sólidas englobando o “eu” e os “outros”.
 Os campos de férias possibilitam a formação de novos vínculos afectivos, o contacto com a natureza, as relações estabelecidas com a comunidade local, a experimentação de novas actividades e a superação dos próprios limites, sendo estas razões suficientes para combater o ócio e monotonia muitas vezes presente nas férias sazonais.
São a melhor rede social criada, com muitos “Amigos” e “Gosto” reais, evidentes e duradouros. Onde os programas potenciam a participação de jovens oriundos de outros concelhos, ilhas e países, numa óptica global reforçando a compreensão e respeito pelas origens e intercâmbio de ideias e ideais. Incentivador da percepção da individualidade e uma oportunidade para momentos inspiradores e inesquecíveis.
Não importa quem, mas sim como conseguiremos tornar os campos de férias numa ferramenta indispensável para o desenvolvimento das crianças. Não ocupar por ocupar, não recrear por recrear, mas sim ocupar e recrear tendo sempre presente o horizonte pedagógico que o conceito e missão dos campos de férias devem sustentar.
Porque campos há muitos, mas muitos não são campos.

Fragmentos de luz do que nunca foi e jamais deixará de ser.



Quando o esquecimento está de bom humor transforma-se em saudade. Mostra quadros do passado sorridente e distante, procurando confortar as recordações que se reúnem à porta da consciência com cascatas de fantasias e trabalho aturado da imaginação.
  Naquilo que se diz ser um “trabalho de luto” para os freudianos, não é mais do que um aforismo ou ditado que já há muito os franceses tinham criado e a que chamaram “vestir o morto”.  Mal desaparece uma pessoa começam todos os que conheciam num processo de esquecimento de todos os seus defeitos, enaltecendo vagas qualidades e inventando outras, até que o falecido, carregado de odor de santidade, fica por uns tempos afamado.
É fácil ver tal facto a cada dia, nomeadamente em figuras públicas. O pior é que, passado esse tempo, os “paparazzi” para as figuras públicas e a crítica para gente comum desatam a procurar esqueletos no armário e, na sua missão mais cega do que a justiça, atacam o morto que não se pode defender.
Entre a saudade e o esquecimento é difícil escolher. O pior é que a vida trata de eleger por nós se não tratarmos bem do nosso passado. Cultivar o que de bom se aprendeu não tem nada a ver com saudade, mas a ausência sentida de uma pessoa ou de um local é mais do que a consciência intencional da saudade. É um vazio que paradoxalmente dói pois de nada de consistente se recorda.
Já as boas recordações podem ter origens absurdas para as lembrarmos com afeto.
É assim que o que era desagradável, como tomar umas boas colheradas de óleo de fígado de bacalhau porque a crença de que fortalecia era geral e era da praxe dar às criancinhas, transforma-se num gosto doce e, traiçoeiramente, passamos a “gostar” só porque nos reporta a um tempo em que parece que tanta falta nos faz. A comida caseira exalta-se, mesmo que fosse sempre repetidamente a mesma, os ralhos paternos quase que nos fazem rir, as mágoas dos joelhos esfolados, das regras de gramática e da tabuada decoradas à força são lindas.
O mapa do território que a saudade desenha é bem mais aprazível do que o território por onde semeamos pegadas.
Antigamente, diz sarcasticamente o esquecimento, a vida era muito mais tranquila, as crianças eram mais sossegadas, os jovens muito mais cumpridores dos seus deveres. Lembramos vagamente domingos parados na esquina das semanas, os fatos domingueiros nos cabides das recordações, as nódoas das roupas arrancadas à força de tanto esfregar com sabão azul e bastante sol para “corar”
A terra distante fica no sabor de comida simples, caldo de couves e peixe frito passaram a iguaria fina. Quantas vezes meus olhos viram pobres mulheres, tiritando de frio, no pino do inverno, a tentar vender lapas, sabe Deus com que esforço apanhadas?, para poderem depois comprar um pouco de pão e não ter de assentar mais contas no rol dos fiados.
A saudade é traiçoeira como um político em eleições. Mostra filmes coloridos quando o preto e o branco dos pés descalços, mesmo em dias de procissão, se vê facilmente em velhas fotografias que cada vez se gosta mais e se remira com miopia crescente. Como eram boas as pessoas que hoje acusamos de serem cínicas. Vestiam um vivo por alma dos seus e, a alegria de uns, era a paz reencontrada na consciência de outro.
Uma vez, ofereceram-me uma cana. Por mais que deve voltas à cabeça não entendia uma oferta daquelas. Depois entendi que era uma cana-de-açúcar e posso afirmar que rilhar canas doces passou a ser algo bem apetitoso e a menina que ma deu ficou registada nas lembranças dos seus cabelos encaracolados enfeitados com fita que as crianças mais desafortunadas não tinham.
Viver de saudades é frase comum e  viver de enganos. Todas as vezes que as coisas correm mal, foge-se para um tempo e um espaço interior, uma espécie de “amigo fantasma” que os adultos usam quanto mais  envelhecem.
Aquele eu que fui sou eu que não me quero reconhecer e gosto mais de mim por não ser quem sou em vez de aceitar que aquele outro é que me ajudou a chegar aqui. A dialética do tempo mostra a sua fragilidade pois todo o futuro é um passado antecipado.
Um filme de que se diz prodígios é o Citizen Kane, traduzido por “O Mundo a Seus Pés”, uma magnífica obra sobre a vida atribulada de um multimilionário. Ao morrer, a sua última palavra é “Rosebud” e, à volta dessa misteriosa palavra, um jornalista procura desvendar um segredo. Através de fragmentos do passado de Kane reconstrói-se a sua vida. Por fim, descobre-se que Rosebud era o nome do seu querido trenó da infância que viu queimar antes da partida de Xanadu.
Talvez todos nós tenhamos um trenó queimado algures nos confins de uma infância que se teima em chamar saudade. O meu Xanadu tem um cavalinho de papelão que teima em surgir lindíssimo e incomparável de arreios vermelhos e demasiado grande para viajar na partida.
Louco será quem tentar regressar ao seu Xanadu. Se ainda não tentou voltar, o melhor é arranjar um recanto do coração onde o coloque vivo e animado, tal qual as boas recordações o aceite permanecer sempre. Intacto e intangível como as ideações da saudade que, no meu fraco entender, tanto floresce na Dinamarca, como em Nova Iorque. A saudade é a florzinha miosótis azul do “não-me-esqueças” que floresce nos Alpes ou no jardim do vizinho. A rosa tinha o mesmo perfume se mudasse de nome. Nada do que se consegue recordar afinal é nosso. As palavras da Bíblia, dos gregos, Shakespeare ou Kierkegaard chegaram primeiro. A história não se repete nem ensina nada, a ingenuidade está em acreditar que o velho é novo, quando apenas se veste com a roupa da estação. O som da palavra é oco mas o sentimento tem tal força que até o eco nos fala. Silêncio assusta muito para quem carrega às costas sacos de saudades do que não foi mas podia ter sido.
Esse “podia ter sido” choca-se com o testemunho dos outros que negam as nossas saudades com as suas lembranças tão diferentes que nem queremos confrontar com as nossas certezas.
Se “ a história usa a história para fazer história” no célebre debate entre Sartre e Claude Lévi-Strauss, que os mais jovens confundem com marca de calças, também a saudade usa a saudade para fazer fenómenos saudosistas que jamais podem ser filosofia, ou um sentimento comum a todos. Comum é o tempo e cada um lhe dá a dor, a alegria, o entusiasmo ou desprazer que parece que se objetivam nas palavras mas depois cada um recolhe à sua casa, à sua lareira imaginária onde, nas chamas apagadas, recolhe as cinzas e imagina luz. Quantas vezes já nos enganamos pelo sentido oculto de palavras para as quais cada qual encontra um sentido bem seu?
Exorciza-se hoje a saudade. Não se fala da morte. É tabu da pós modernidade. As pessoas desaparecem, a vida continua. Saudade é doença quase uma forma de ser bipolar pois, em vez do dia de hoje, viaja para trás. Quando o presente convida à festa, quem se vai negar? A saudade tinha muita semelhança com ler um livro muitas vezes. Isso hoje espanta as pessoas.
Já li. Para que vou repetir? Ainda não li tantos livros novos e ia voltar a ler o mesmo?
 Talvez por isso o crédito na História esteja a desaparecer a olhos vistos. Aliás, parece que tudo está a desaparecer. O problema é que não se nota porque se substitui logo.
A infância, que se repete em cada geração diz que não é bem assim. As crianças, na sua sabedoria que ninguém lhe deu, repetem sempre:
 Não, não quero uma história nova, nem quero um livro novo. Quero ouvir a mesma história! Conta outra vez! Conta!

Sinais no Caminho das Palavras: Mentira, VERDADE, Crise, Indignação…

Triste sina. Foram cem anos. Uma Primeira República que não soube afirmar a Democracia, uma Ditadura que matou inteligências e trancou o Caminho do Progresso, uma Terceira República, em Portugal, desde o 25 de Abril, que demonstra, claramente, que não soube credibilizar a Democracia, dignificar a Política, Promover o Mérito, mas o Compadrio, a Corrupção, a Mentira!
Os Partidos Políticos são instrumentos fundamentais em Democracia. Digo apenas instrumentos porque alguns não chegam a ser instituições genuínas, tal como se exige, no seu sentido pleno e dinâmico. Aproximam-se eleições e já começou a cantiga do costume. A caça aos independentes, aos pensadores de serviço, à perigosa assimilação, integração e posterior neutralização da inteligência que poderia fazer a diferença, porque crítica.
Os aparelhos mandam, comandam e tendem a tirar partido das manifestações que estão aquém e para além dos partidos. Sim, porque os partidos, tal como estão, já se viu o que são, o que fazem. Que há gente digna na Política, disso não há dúvida. Temos provas muito credíveis. Que a política é, em si, em abstracto, uma actividade nobre, ninguém duvida. Mas o que tem sido a realidade? Mostra que muitos agentes concretos não têm estatura intelectual, profissional e moral para os cargos que exercem. Não porque os cargos devam ser ocupados por impolutos. Todos somos humanos. A imperfeição é da natureza humana. Mas precisamente porque a imperfeição é uma realidade e o erro é inevitável é que se tem de fazer todo o possível para o evitar e para superar as imperfeições, com elevada exigência ética. A actividade política está a mostrar, de modo que se tornou claríssimo, que tem sido baseada na Falsidade e na Mentira. Que não se digam todas as verdades, compreende-se. Até é prudente. Mas mentir como forma, sistemática, de estar na política tinha de rebentar, era já insustentável. As pessoas atingiram o limite da paciência. A indignação cresce. Nunca se falou tanto em Verdade na Política, isto é, da falta dela, da necessidade dela. E falar dela, assim, é o sinal mais evidente que onde deveria ter imperado a Verdade, o INSTINTO DE VERDADE, imperou a Mentira, a Manipulação, a Instrumentalização. As pessoas acordaram. E nelas cresce a dimensão da cidadania. Mas antes da cidadania tem de estar, deve estar, a Educação como pilar de Discernimento Crítico. A ordem será, pois, Educação e Cidadania. A Educação deve estar Sempre Primeiro. Ela é fundante de tudo o mais.
O País não produz. Pois não. Como pode haver produção onde se confunde competição como condição de qualidade? O que tem feito a psicose de avaliação nos vários sectores públicos? Será suportável haver vários funcionários que, apesar de avaliados com “excelente”, não progridem porque não há quotas? Mas a qualidade tem quotas? Alastra o mal-estar, a ânsia pela reforma como antecipação de um tempo de tranquilidade que contrarie muitos ambientes de trabalho infernais. Não pode ser. Não deve ser. Chegou a Altura de os melhores tomarem conta, democraticamente, dos Negócios Públicos, da “Coisa Pública”. Esta Ideia, aliás, já está bem expressa na República de Platão. Para quando a revisão da lei eleitoral? Quantas pessoas já não têm falado nisto? Se quisermos avançar e devolver saúde à democracia, Os Melhores, - no seu sentido integral -, em várias formas de associação, coesas, têm de poder chegar a deputados. Têm de chegar ao Poder. Tal como a Liberdade, a Cidadania desenvolve-se e aprofunda-se com o seu exercício, com a sua prática, vendo resultados. É fundamental dar sequência ao eco e às expectativas, mais do que legítimas, dos cidadãos. É preciso muito bom senso e calma. A Democracia Representativa pode ser aperfeiçoada e só se aperfeiçoa com a sociedade civil a participar mas a decidir também. Não podemos continuar a dar cheques em branco. É preciso encontrar formas, ponderadas e sensatas, de criminalizar na actividade política.
Este País está irrespirável. Nesta situação de podridão, há que recuperar a decência moral, que é o conteúdo real e vivido da ética, em todos os sectores. Não se trata, de modo algum, de qualquer forma de moralismo, visto que este é já uma degenerescência da ética.
Quem, nas últimas décadas, tem ouvido os Grandes Líderes Políticos e Religiosos, Espirituais? Há um Nome Maior que ligou – e liga - estes dois Mundos na sua Humildade e Superioridade Moral: João Paulo II. Quem o ouviu, A Tempo, a Denunciar os males letais do Comunismo, na História, e os Perigos, Tremendos, do “Capitalismo Selvagem” como o designou? As boas ideias, as atitudes certas e fortes, os bons propósitos, o discernimento e o Desejo do Bem de todos e cada um fazem a grande diferença. As Verdadeiras Utopias nunca morrem. No dia em que elas morrerem já não existirão Causas pelas quais lutar e fazer o “Bom Combate”. Agora todos sentem forte necessidade de superar a Crise porque tocou, toca e continuará a tocar no bolso de todos e de cada um. Mas o Dinheiro, embora fundamental e necessário, nunca é – não deve ser - um fim em si mesmo. É apenas um meio, decisivo, todavia. O fim é a Pessoa, são as pessoas e estas estão a agonizar de diversas formas. Esta deve ser a verdadeira Causa que se deve salvaguardar, sempre. É preciso dizer com Stephan Hessel: “indignai-vos”.
Ou será que já não nos sentimos? 


(Crónica proferida no dia 10 de Abril de 2011, no Programa Entre Palavras, da Rádio Atlântida, num espaço, da autoria do próprio, intitulado Sinais no Caminho das Palavras).

*Doutorado e Agregado em Educação e na Especialidade de Filosofia da Educação