Questões açorianas

1. José de Almeida, líder da FLA. Os Açores perderam um líder político que vai, certamente, figurar entre as personalidades mais prestigiadas da história açoriana do pós-25 de Abril.
Embora não tenha acompanhado, em Portugal, o ressurgimento das liberdades (encontrava-me a prestar serviço militar em Angola), fui-me apercebendo, à distância, que os ventos da mudança estavam a passar por aqui. Quando regressei, em Agosto de 1975, deparei-me com uma opinião pública dividida, entrincheirada numa esquerda (PS, PCP e MDP) anti-FLA, e numa direita anti-comunista, constituída por diversos estratos populacionais, a maioria simpatizante e militante do PPD. O ideal independentista confundiu-se com o PPD e o integracionista com o PS, PCP e partidos mais à esquerda.
A proximidade dos anos não permite, ainda, uma análise desapaixonada de acontecimentos que geraram conflitos populares que há muito não se via nestas ilhas, e que o rodar do tempo já conseguiu sanar.
Extremaram-se posições, abriram-se fissuras no ambiente social, de tal modo que o novo poder político-partidário decorrente da autonomia constitucional instalou-se, em todos os setores da sociedade açoriana, de modo transversal, mas dominador.
No pensamento do Dr. José de Almeida expresso numa entrevista que me concedeu na RDP-Açores, em 1979, nunca vislumbrei, porém, qualquer divisionismo entre direita e esquerda ou convicções políticas ligadas à direita tradicional. Apercebi-me que o líder da FLA, por formação religiosa e académica, era um seguidor da Doutrina Social da Igreja e um lutador apaixonado pelo processo da Independência dos Açores, reafirmando, vezes sem conta, que TODOS nele tinham lugar, independentemente das suas ideologias.
Durante algum tempo, houve quem pretendeu transformar o processo histórico independentista num tribunal acusatório, apontando o dedo a quem recuou em determinada direção, quando tudo levava a crer que a consagração da “nação açoriana” estava próxima e não tinha retorno.
Presentemente, julgo que o desígnio da FLA, embora com o regime autonómico alargado, está, novamente na agenda política internacional, devido ao surgimento dos processos reivindicativos de auto-determinação independentista que crescem em Espanha, Grã-Bretanha e por esse mundo fora.
José de Almeida já não assistirá à consagração da Independência dos Açores, por que tanto lutou e sofreu na sua vida privada, profissional e pública. O seu nome, fica, porém, ligado à História Açoriana, ao ousar propor e defender a desintegração de Portugal que ele dignificava como pátria-mãe, e explicando esse desígnio junto de individualidades e instituições estrangeiras.
Aqui presto a minha homenagem ao Homem culto, sério e honesto, ao Político determinado e convincente, ao Líder nato e carismático de um movimento e de um projeto que assenta na açorianidade, na dignificação dos açorianos e nas potencialidades da terra e do mar do arquipélago.
2. Novo Banco dos Açores. A transformação do BES dos AÇORES em Novo Banco dos Açores, dadas as circunstâncias em que aconteceu e ao seu futuro imprevisível, constitui motivo para uma necessária e séria reflexão da opinião pública açoriana e das Misericórdias acionistas que, juntamente com a Bensaúde, detém apenas 43% do capital da instituição, criada em julho de 2002. Na verdade, as consequências da aquisição da maioria (57%) do capital do Novo Banco dos Açores por um investidor externo, são imprevisíveis, porque podem causar danos irreparáveis às Misericórdias e à economia regional.
Nunca fui de opinião que a Caixa Económica da Misericórdia de Ponta Delgada fosse incorporada no BES-Açores, detendo na estrutura acionista apenas 30% do capital em troca da sua identidade e do seu próprio património. Disse-o, então, como irmão, ao Provedor.
As justificações de que a CEMPD não teria futuro, já então, não condiziam, com a crescente atividade da sua congénere de Angra do Heroísmo, que, desde que o BES Açores foi formado em 2002, continuou a expandir-se, tendo, presentemente 13 balcões em 5 ilhas e uma centena de trabalhadores.
A anunciada venda do Novo Banco deve, por isso, levar os açorianos residentes e da diáspora, a refletirem sobre a importância de se reunirem sinergias para adquirirem a maioria do capital do NB-Açores, a fim de gerirem, sem mandatos externas, um instrumento financeiro, essencial à economia.
A perda do BCA e da Açoriana de Seguros, constituem exemplos recentes de como o tecido produtivo açoriano, nas suas diversas vertentes, saiu prejudicado por ter abdicado de duas empresas criadas e sedeadas na região.
Na aquisição da maioria do capital do NB-Açores, deveria entrar também como parceira, a Caixa Económica da Misericórdia de Angra, porque é a mais antiga instituição de crédito regional e tem muita credibilidade junto dos seus clientes. A este respeito, convém dizer que as instituições sobrevivem e desenvolvem-se quando ultrapassam conflitos particulares ou de grupo, em favor do bem-comum.
A não acontecer a tomada de poder no NB-A por investidores regionais, o  futuro é incerto para o capital detido pelos acionistas açorianos.
Há, porém, bons indícios de que o empresariado regional e a Misericórdia de Ponta Delgada pretendem tomar a maioria do capital social do NB-A. A decisão passa também pelo Governo dos Açores que tem um papel fundamental a desempenhar, “avalizando” a iniciativa e intervindo junto do Banco de Portugal para que o processo se concretize. Até agora não se ouviu uma palavra sobre este assunto, mas já é tempo do Governo de Vasco Cordeiro  tomar posição.

*jornalista c.p. 536