Assim, não vamos lá

Um homem vestido de negro encostou-se ao balcão, confidenciando à funcionária o seu problema: o filho precisava da ajuda do pai para pagar a prestação da casa. Se tal não acontecesse ele sujeitava-se a ir para a rua e a família não lhe perdoaria.
Resolvida a contento a situação, o homem, na casa dos sessenta, voltou-se para mim e desabafou: O senhor sabe: “fui a São Vicente, ao cemitério, rezar uma Avé-Maria pela minha mulher e pelo meu filho, e à saída tocou o telefone. Era a minha filha pedindo que eu, que amealhei qualquer coizinha, ajudasse o irmão que trabalha numa firma, onde já não lhe paga há oito meses, e também não vai receber subsídio de Natal. O meu filho nunca me disse nada!... Eu tenho três filhos, mas nunca deixaria de o ajudar. Conheço o dono da empresa e até tenho medo de passar por ele, não me passe uma coisa pela cabeça!...”
O homem, ainda bem conservado, parecia terem-lhe retirado um peso de cima. Saíu do banco aliviado e meio-sorridente, talvez pela solução que a eficiente e simpática empregada lhe sugerira. Talvez...
No guiché ao lado, outro homem mais novo, resolvia idêntico problema com outra funcionária...
O calvário do desemprego e dos salários em atraso está a minar o tecido social e a estabilidade de muitas famílias.
A construção civil está estagnada – ouve-se comentar – mas a mim parece-me que nos próximos anos não haverá recuperação suficiente naquela indústria que absorva os antigos ativos, a maioria dos quais, desqualificados.
Sei que muitos desempregados, ao receberem o rendimento mínimo, que de inserção social nada tem, são obrigados a frequentar um tipo de ensino adequado à aquisição de conhecimentos básicos.
Alguns desses “alunos” manifestam-se satisfeitos e orgulhosos por estarem na escola onde os caminhos da vida nunca antes os atraíra, talvez porque a necessidade do trabalho para sustento da família era a razão mais  forte.
Outros ainda, mais adiantados na idade, convencem-se, aos poucos, da impossibilidade de encontrarem “um trabalhinho que fosse” para ocupar o tempo e amenizar as grandes dificuldades financeiras por que passam milhares e milhares de famílias açorianas.
É frequente, nesta quadra natalícia, efetuar-se peditórios para ajudas alimentares aos mais carenciados. Os cabazes de natal vão-se tornando vulgares, em instituições de solidariedade e não só. No entanto, essas campanhas correm o risco de transformar-se em mensagens publicitárias promotoras das instituições intervenientes.
Contra esta ajuda necessária, clama o direito e o dever da justiça. Um meu antigo professor, lutador incansável pelos direitos humanos, afirmava-nos com a convicção que o caracterizava: “Não deve dar-se por caridade, o que é dever de justiça!”
Neste tempos, em que nos sentimos impotentes perante a avassaladora economia de mercado que dita as leis do trabalho e a política salarial, a partilha de bens alimentares não pode ser a melhor medida para ultrapassar as dificuldades em que se encontra a maioria da população.
O atual modelo económico e social não é uma inevitabilidade. Há soluções alternativas, testadas em outras regiões e países, que conduziram os povos e a pessoa humana a soluções que promovem os direitos fundamentais ao trabalho, à educação, enfim, a uma vida digna.
As instituições públicas é que têm de estar abertas a novas alternativas e opções económicas. Caso contrário, corre-se o risco de os jovens e as pessoas ainda válidas para o trabalho permanecerem numa inatividade doentia que atrofia a vontade, o brio pessoal, a inteligência e o sentido da luta pela vida, como qualidades dignificantes do ser humano.
Certamente, há alternativas à economia vigente.
Cabe à escola, à universidade, aos investigadores e criativos, às igrejas e detentores de cargos públicos congregarem esforços em busca de novos caminhos de modernidade.
Tal como estamos, não vamos lá!

* c.p. 536