O grande desafio

Sou contra os balanços de fim-de-ano. Parecem-me mais relatos cronológicos do amontoado de acontecimentos que sucederam sem cessar, do que análises criteriosas sobre os dias recentes que recordamos facilmente e que marcaram profundamente o nosso viver.
Esta é a grande dificuldade de se fazer a história contemporânea. Não que ela não envolva elementos suficientes para determinar o rumo das sociedades, mas porque é tão complexa a análise e são tantos os acontecimentos que não vislumbramos, facilmente, a teia em que eles urdiram a história humana.
Não quero com isto significar que o ano que está prestes a findar não assinale ditos e feitos de grande importância para a humanidade.
Sem remexer muito na memória, recordo dois ou três temas internacionais: o avanço dos partidos da extrema direita na Europa, o fundamentalismo e a implantação do estado islâmico, e a crise económica mundial.
Em Portugal, não nos sai do penoso quotidiano o drama do desemprego, o assustador aumento da pobreza e das desigualdades e a triste sina da emigração. Com problemática tão importante e pertinente, não é fácil descortinar uma réstea de esperança em dias melhores.
Os jovens mais propensos a acreditar em utopias não vêem uma luz ao fundo do tunel que possa iluminar seus sonhos lindos. Os mais velhos, não encontram motivos para sorrir, porque são confrontados com incertezas e instabilidade que nunca julgaram vir a acontecer: a precariedade do trabalho, o desemprego em massa, salários em atraso, redução de subsídios sociais, incapacidade de satisfação de compromissos com a banca, enfim...os valores da honra e da palavra, sossobraram perante leis ditadas por agentes externos, em benefício de paradigmas económicos que colocam o homem dependente da economia e do capital.
2014 ficará na história portuguesa como um ano “horribilis”, devastador do emprego e da estabilidade social e familiar, um ano em que as palavras de ordem dos analistas e comentadores alinhados com o sistema económico se traduziu na redução imperiosa do estado social e na desresponsabilização dos poderes públicos para fazer face a direitos consagrados.
E quando se julgava que a degradação das condições sociais não chegaria aos Açores, a realidade prova o contrário: o desemprego continua muito alto e sem perspetivas de baixar; a fome atinge muitas crianças em idade escolar; os cuidados de saúde são racionados nas ilhas onde não existem hospitais e médicos especialistas; o baixo poder de compra afeta, gravemente, o comércio; tarda em rentabilizar-se a economia dos tempos livres e da exploração dos nossos mares que poderão vir a absorver mão-de-obra qualificada que aqui não encontra emprego.
Perante tão grave situação económica que alastra também por vários países europeus, não vemos que, no arquipélago, os agentes políticos e económicos, apontem novos caminhos e novas saídas.
Os sectores económicos tradicionais – agro-pecuária e pescas – que durante dezenas de anos absorveram largas somas dos orçamentos regionais e dos fundos comunitários, não abdicam dos seus “privilégios”. Antes, com o fim do regime das quotas leiteiras, em março, pretendem ser compensados dos prejuízos que daí possam advir para as explorações e indústria.
Nas pescas, a modernização e o dinamismo empresarial não têm correspondido aos elevados investimentos públicos em infraestruturas portuárias e só agora é que se fala com mais clareza e determinação em investimentos na aquacultura.
No domínio da exploração das riquezas do subsolo dos mares dos Açores, tema investigado pela academia açoriana, não se conhece uma posição governativa firme, determinando metas para o seu aproveitamento económico. O que se sabe, publicamente, respeita a uma polémica com a república sobre quem manda em quê, quanto e como.
Por que não envolver nas investigações dos fundos marinhos, técnicos e cientistas açorianos emigrados, trabalhando em instituições e universidades estrangeiras, e também estabelecer convénios com outras academias para acelerar esse polo de desenvolvimento futuro?
Não podemos perder tempo! Temos de encontrar novos destinos para o futuro económico dos Açores, sem descurar os setores tradicionais, sob pena das ilhas esvairem-se de gente capaz, jovem e promissora.
Se pretendermos que 2015 traga força anímica aos açorianos de todas as ilhas e idades, temos de apresentar-lhes novas propostas de desenvolvimento social e cultural, envolvendo-os na reflexão e no encontro de novas soluções para o crescimento da sua terra.
Esse é o grande desafio que se coloca às instituições públicas, privadas, sobretudo às instituições promotoras do saber.

Dia de Natal de 2014