Um novo céu e uma nova terra

Acordei há pouco de um sonho maravilhoso.
Encontrei um novo céu e uma nova terra. Nao consigo localizar a geografia desse espaço, mas vivenciei experiências que não mais esquecerei.
Nunca o nascer do sol fora tão deslumbrante. A estrela rompeu a manhã numa roda de fogo que doirou o oceano e foi clareando o negro da terra pintada de pontinhos brancos, onde se escondiam os habitantes da ilha.
Pelo mar azul, pequenos barcos sulcavam as ondas, em direcção ao horizonte, enquanto na ilha, a vida recomeçava: os pássaros chilreando foram os primeiros a saudar a vida; depois, uma após outra, as chaminés do povoado assinalaram o surgimento da azáfama diária que transforma e ressuscita a vontade de viver, tudo numa tranquilidade contagiante que abraçava o pequeno mundo.
Extasiado, iniciei a jornada, percorrendo caminhos e canadas como viajante ávido de encontrar um modo de vida diferente que há muito ambiciono.
Os caminhos de terra estreitos, recortados entre paredes de pedra negra, estavam alcatifados de musgos altos, e pequenas flores silvestres cortejavam as minhas leves passadas, acompanhadas de estridentes solos de melros e de sinfonias para violino de canários da terra.
Ao longe, descortinei uma mulher que me esperou junto à cancela da casa. Que pretendia ela, se não me conhecia? Ao aproximar-me, a senhora vestida de negro até aos pés, abeirou-se de mim e com um sorriso franco e delicado, transparecendo uma alma límpida como o claro dia, exclamou: “Bom dia! Queira vossa mercê entrar. Ofereço-lhe do que tenho:pão de milho das nossas terras, leite e queijo das nossas vaquinhas, e a paz de Deus que nos dá a vida e o sustento!”
Perante tanta graça e doçura, não me fiz rogado e entrei.
A mulher recebeu-me, como se nos conhecêssemos há muito, na cozinha, o quarto maior da casa, iluminado por duas janelas e uma porta, onde habitualmente, se geriam as labutas do dia-a-dia. Ao fundo, o forno crepitava enormes troncos de lenha, preparando-se para a secagem das maçarocas de milho. Ao lado, sobre uma trempe carcomida pela ferrugem, uma cafeteira negra e amolgada fervia café de fava, com aroma apetecível; do fumeiro pendiam morcelas e linguiças para o conduto de todo o ano. Sobre uma mesa grande, retangular, havia queijo e pão de milho partido às fatias.
Foi neste ambiente silencioso e rupestre, entrecortado, pelo cantar de um galo e pelo ladrar cavernoso de um cão, que tomei a primeira refeição do dia. A senhora sentada num pequeno banco descascava batatas e lá continuou a sua lida, após agradecer-lhe o acolhimento e a gostosa refeição.
Prossegui viagem, ancorado num bordão de cana de bambú, cortada num terreno abandonado.
Sob um calor abrasador e húmido subi um pequeno monte, por uma canada coberta de faias e incensos frondosos, perseguido por um aroma inebriante. Eram flores de incenso, certamente, que exalavam tal perfume.     Cansado, encostei-me a uma parede alta. De repente, descobri ao longe, um casal que vinha na minha direcção. Aguardei a sua aproximação, sobretudo para quebrar o isolamento da viagem. Eram, certamente, estrangeiros, pois a indumentária e os equipamentos denotam tratar-se de gente feita a longas caminhadas por sítios desconhecidos. Cumprimentámo-nos e trocámos impressões. Eles viviam em Paris, cidade luz de outros tempo, agora pejada de insegurança. Por isso ali estavam, em busca de paz, do sossego e do contato com a natureza. “Estamos adorando! - atalhou a senhora- Se o céu existe, aqui é o paraíso! Esta paz, esta tranquilidade!... Isto é que nos transforma e humaniza. Paris?...brrrrr!”
Disse-lhes que viajava por ali à procura da simplicidade de vida e da fraternidade e que as encontrara logo de manhã. Contei-lhes o que me sucedera e eles atalharam: “Aqui sim, as pessoas são felizes!”
Despedimo-nos e seguimos viagem em sentidos opostos, e eu fiquei cada vez mais convencido de ali encontrara a terra prometida, “o novo céu e a nova terra.”
De repente, acordei em 2015.

*jornalista c.p. 536