Que custos para a SATA?

Tenho resistido a pronunciar-me sobre a redução das tarifas aéreas que as companhias “low-cost”(LC) anunciam ir praticar no início do verão IATA (31 de março), porque estou convencido de que ninguém dá nada a ninguém, muito menos empresas de transporte aéreo, cujo objetivo comercial é ganhar (muito) dinheiro, com o mínimo de custos. E não sou ingénuo ao ponto de pensar que o farão oferecendo serviços identicos à SATA-Internacional e à TAP.
A imprensa micaelense - honra lhe seja feita! - revelou, há dias, uma série de cláusulas penalizadoras dos utentes das transportadoras aéreas LC que oneram o transporte da bagagem de porão, a marcação de viagens, os processos de embarque e a marcação de lugares, as refeições a bordo, e até a utilização do terminal 2, em Lisboa, que gerou muita contestação, por alegadamente discriminar os voos para os Açores. Como os tempos mudam!... Será que os paladinos das LC já se esqueceram disso, ou os preços justificam todas aquelas restrições?  
No sítio da Ryanair, a maioria dos passageiros critica o serviço daquela companhia, contradizendo “as maravilhas” apregoadas pelos defensores das “low-cost”.
Agentes económicos, comentadores, políticos e sobretudo o público pagante, que nem todo é, afirmam que as atuais tarifas aéreas entre os Açores e o continente são exageradamente altas, por não haver concorrência à SATA-Internacional e à TAP.
A substancial redução do tarifário, vai ao encontro dessa reivindicação e os açorianos, em geral, ficarão mais beneficiados, pois as viagens através das LC servirão sobretudo os residentes em São Miguel.
A muito aplaudida “concorrência” oferecida pelo Secretário de Estado dos Transportes irá, porém, afetar e reduzir a atividade da transportadora aérea açoriana no seu todo e, em particular, os trabalhadores e até os habitantes das várias ilhas.
Num arquipélago onde as empresas com alta componente tecnológica contam-se pelos dedos, esta não é uma questão despicienda.
Ignorar que muitos trabalhadores da SATA são profissionais altamente especializados nos setores de voo e reparação de aeronaves, e que a empresa detém um “know-how” acumulado de dezenas de anos; ignorar que o pessoal de terra da SATA desempenha, com eficácia e agrado, as suas tarefas no arquipélago e fora dele; ignorar que a transportadora regional gera um  volume de negócios, com efeitos multiplicadores na economia regional; desconhecer que a SATA é a mais antiga e única empresa portuguesa de transporte aéreo regional, simbolos da capacidade empreendedora dos açorianos; passar uma esponja sobre a sua história e o trabalho de todos os seus trabalhadores, alguns dos quais pereceram em acidentes aéreos; ignorar tudo isto, desvalorizando a componente social da economia das ilhas, mas sacralizando a concorrência e o lucro, em prejuízo da empregabilidade e da estabilidade social, são erros de consequências muito graves.
Ao contrário, que novos postos de trabalho especializados e bem remunerados trazem as LC ao tecido económico regional, quando uma série de serviços aeroportuários são dispensados e até mesmo o turismo, assenta em salários baixos e mão de obra sazonal e precária? 
Nos últimos tempos, tenho assistido a críticas desabridas a várias instituições regionais. Muitas das motivações são de ordem político-partidária, e por isso deveriam ser mais judiciosas e prudentes. Algumas configuram meros interesses comerciais e poucas atendem à situação de isolamento e afastamento das ilhas, constragimentos que não se compaginam com o viver num continente, onde as distâncias facilmente se encurtam na doença, na atividade empresarial, no lazer e na educação.
Em qualquer dos casos, não deve nunca pôr-se em causa a nossa identidade e o sentimento de pertença e defesa de um arquipélago que moldou as nossas vidas e o nosso modo de ser e de estar.
Na questão das “low-cost” parece-me que muitos açorianos aplaudem poderes externos que mais não fazem do que abrir o espaço aéreo a lóbies económicos muito poderosos que, ou exterminarão a SATA, ou baterão asas e levantarão voo para outros destinos. O tempo dirá, se os Açores, no seu todo, ganharão com as LC, ou se não foram, uma vez mais, defraudados por corsários acolitados por açorianos sem escrúpulos.

jornalista c.p. 536