A luta pela saúde

À medida que avançamos na idade, tornamo-nos mais sensíveis à doença e a tudo quanto respeita aos cuidados de saúde.
Frequentemente nos chegam notícias de amigos ou familiares afetados por doenças incuráveis, às quais a medicina e os cuidados médicos e hospitalares não dão resposta satisfatória, seja pela falta de conhecimentos científicos, seja por carência de meios de diagnóstico e de tratamentos.
Em muitos casos, a ciência continua a investigar; noutros, são as dificuldades financeiras que impedem os pacientes de ser tratados com modernas tecnologias e novos produtos farmacológicos ministrados em países mais desenvolvidos.
Uma coisa é certa: num arquipélago com 240 mil habitantes e nove ilhas, a maioria das quais envelhecidas, a saúde - direito de todos os cidadãos, vivam no Corvo ou em São Miguel- deve ser a prioridade da política governamental, a par da  educação, secundadas pelo ambiente e pela economia.
Nos últimos tempos, no setor da saúde, tem-se assistido a medidas governativas que visam sobretudo a contenção de despesas. A prestação de cuidados de saúde primários e diferenciados, sobretudo aos utentes com difícil acesso aos três hospitais, é penalizada, muito mais quando os doentes padecem de  tumores malignos. O caso mais evidente é o da Ilha do Pico.
Um estudo publicado em 20111, revela que a Ilha do Pico é a terceira onde o cancro da mama(CM) tem maior incidência. Para além desta investigação de caráter sociológico, não foi efetuado um estudo científico mais profundo que apurasse  as causas dos “factores de risco (FR) hereditários e ambientais, modificáveis e não modificáveis que podem contribuir para o aparecimento do CM”, se bem que os  autores do estudo indiquem ser “importante encorajar alterações no estilo de vida das mulheres, sensibilizando-as para os FR”.
Impunha-se, portanto que os doentes daquela ilha fossem LOCALMENTE acompanhados por pessoal médico e técnicos especializados, em ações de controlo da doença, como sucede com pacientes de outras ilhas. Esta situação discrimina  os picoenses e agrava a situação clínica dos pacientes, contradizendo a Estratégia Europeia para a Saúde, promovida pela presidência portuguesa da União Europeia, em 2007. O próprio Plano Regional de Saúde (2009/2012) afirma que a “incidência do cancro na Região Autónoma dos Açores demonstra a amplitude e gravidade deste problema na Região.”
“No período (2000-2002), das principais doenças evitáveis constam o cancro da mama e o cancro do colo e corpo do útero, sendo particularmente sensíveis à promoção da saúde o cancro da traqueia, brônquios e pulmões. O tumor maligno da mama feminina (TMMF) continua a ser a causa de morte por cancro mais comum entre as mulheres. Foi responsável, em 2006, por 12,2% de mortes prematuras e no quinquénio 2002/2006, por 7,1%. Todavia, o TMMF é, actualmente, considerado como uma das causas de morte evitáveis, sensíveis aos cuidados médicos.
Naquele ano foram diagnosticados nos Açores um total de 2.248 novos casos de cancro (58,6% nos homens e 41,4% nas mulheres), ou seja, uma média de 750 novos casos por ano. Nos homens os tumores malignos mais frequentes foram os da próstata, pulmão, estômago, colon e reto, e bexiga, e nas mulheres, os tumores malignos mais frequentes foram os da mama, colon e reto, corpo do útero, tiróide e linfoma não Hodgkin.”2
Estes desenvolvimentos contradizem, portanto, as diretrizes traçadas, pelo que os poderes públicos têm de cumprir os seus programas, tomando medidas urgentes e eficazes para alterar esta situação. Uma delas é, certamente, proceder-se à necessária investigação da doença, e descortinar as verdadeiras causas da grande incidência do cancro no arquipélago.
Urge, por isso, criar uma instituição científica que investigue e explique, em parceria com organismos de reconhecida competência nacional e internacional, a génese dos diversos tipos de cancro e os ambientes e circunstâncias em que eles se desenvolvem, pois, nos Açores, mais que noutra região do país, esta patologia encontra campo propício à sua expansão. Esta deve ser uma prioridade urgente da política regional de saúde. Envolvam-se instituições e entidades competentes, utilizem-se apoios financeiros da UE e de outros parceiros externos, porque não podemos continuar a assistir, impávidos e serenos, à morte precoce de tantos açorianos afetados por vários tipos de cancro, cuja incidência é superior à média nacional.
E por que não se tomam já medidas drásticas e penalizadoras, restringindo o consumo do tabaco que favorece o desenvolvimento do cancro da traqueia, brônquios e pulmão?
Foi por tudo isto, numa atitude de cidadania, e em homenagem aos que prematuramente partem, que um grupo de cidadãos se juntou quinta-feira, no largo da Matriz de Ponta Delgada.

* Jornalista c.p. 536

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1   CANCRO DA MAMA NA ILHA DO PICO (1998-2008) Uma Perspectiva Epidemiológica, Ana Sofia MENDES, Francisca MATEUS, Joana NOGUEIRA, Liliana BRANCO,Luís RODRIGUES, Sara Simões DIAS, Luís NUNES, Jorge TORGAL
    Acta Med Port 2011; 24: 687-694
2   Cancer in the Azores: initial results from a recently established population-based cancer registry, Lacerda GF1, Pinheiro PS, Cabral JM, Câmara JG, Rodrigues VL.