A hora da verdade

O problema da retirada de quinhentos militares norte-americanos da Base das Lajes, conheceu esta semana pormenores importantes das negociações secretas entre os EUA e Portugal.
Era muito estranho que, de um momento para o outro, e só porque mudara a administração do Pentágono, os Estados Unidos anunciassem a redução substancial da sua presença militar na Terceira, sem que não houvesse a concordância portuguesa a este volte-face.
O Presidente do Governo dos Açores,  nos contatos mantidos, esta semana, com o Chefe do Estado e o lider socialista, aproveitou para esclarecer a opinião pública portuguesa para as graves consequências da decisão norte-americana e recusou-se a admitir a existência de jogos escuros nas costas dos açorianos. Todavia, uma notícia veiculada pela Antena 1-Açores revelou os contornos do “acordo”. Um outro dado indicador da “traição” do Governo de Lisboa às autoridades regionais, foi a forma como Rui Machete contestou Vasco Cordeiro que aventou a hipótese de utilização das infraestruturas portuárias e aeroportuárias das Lajes pelos chineses. Ironicamente, o Ministro, dias antes, afirmara, peremptoriamente, que a saída dos americanos poderia afetar as relações entre os dois países aliados. Pelos visto, eram falsas ameaças...
Segundo o Estatuto da RAA (Artigo 121.º), a Região “participa na determinação e condução da política externa da República, quando estejam em causa matérias que lhe digam respeito” nomeadamente, “a utilização de bases militares no território regional.”
Foi com base nesta norma que as autoridades regionais desenvolveram contatos em Lisboa e nos Estados Unidos com os deputados federais e estaduais, informando-os das implicações negativas que a debandada dos norte-americanos iria causar na Terceira: milhares de famílias são afetadas pelo desemprego, centenas de casas ficam vazias, a agricultura, comércio e  serviços terão quebras acentuadas... será uma autentica catástrofe económica e social.
Os americanos foram o maior factor de desenvolvimento económico da ilha Terceira, de tal modo que, nos anos 50 e 60, centenas de açorianos de outras ilhas, nomeadamente de São Miguel, ali encontraram trabalho bem remunerado e por lá ficaram.
Chegou a hora da verdade, a decisão há muito suspeitada, mas não pretendida, nem convenientemente preparada pela região e pela república, a quem compete, em última instância, prover o futuro e bem-estar de todos os portugueses.
O acordo de cooperação e defesa assinado com os Estados Unidos, prevê que os fundos da Fundação luso-americana (FLAD) visavam, também, um programa para o desenvolvimento dos Açores. Todavia, os Açores pouco ou nada beneficiaram com aquele organismo sedeado em Lisboa, e presidido, durante muitos anos, pelo atual ministro dos negócios estrangeiros. Se tal tivesse acontecido, certamente, agora não andavamos aflitos à procura de alternativas económicas. Deve, portanto, responsabilizar-se o Estado e a diplomacia portuguesa, por não terem acautelado os interesses terceirenses.
Cabe ao Estado soberano encontrar alternativas económicas e sociais para os prejuízos causados.
As “generosas indemnizações” aos trabalhadores despedidos, anunciadas pelo Embaixador norte-americano em Lisboa, o mesmo que desconsiderou a base das Lajes, designando-a Estação de serviço para abastecimento, são uma proposta afrontosa e ridícula, face à gravidade dos problemas laborais.
Desde a fundação da nação norte-americana, os açorianos, deram e dão muito de si àquele país.
Durante mais de 200 anos, milhares de compatriotas nossos emigraram para a América do Norte, onde construiram os alicerces da nação americana, do Atlantico ao Pacífico: desbravaram florestas, cultivaram vales e planícies, exploraram mares, minas de ouro, carvão e petróleo, trabalharam em fábricas, nos serviços. E hoje, com o seu saber e inteligência, a sua intervenção cívica e política, constroem uma nação multi-cultural a que se orgulham de pertencer. Não aceitam, por isso, este desfecho e tudo farão para obrigar os seus representantes seja no Senado seja no Congresso a contariarem a decisão do Pentágono, ou a ressarcirem os Açores pelos prejuizos causados. Muitos dos emigrantes têm a plena consciência das sérias dificuldades por que irão passar seus familiares, a quem não restará outra alternativa senão o caminho doloroso da emigração.
Não basta Portugal afirmar a sua soberania aqui. Queremos ser consultados sobre o nosso destino e não aceitamos ser usados como moeda de troca, sem as indispensáveis e justas contrapartidas financeiras.
Quando a política e a diplomacia trocam uns quilómetros de mar e uns ilhéus despovoados a sul, pelo bem-estar e prosperidade de um povo insular, só nos resta perder a confiança nos governantes de Lisboa e clamar como Ciprião de Figueiredo: “Antes morrer livres que em paz sujeitos”!
      
jornalista c.p. 536