Desabafos à Montanha do Pico

...e a Montanha sempre ali, acompanhando as minhas memórias, inquietações e protestos.
“Isto está muito diferente do seu tempo de criança!” – observa um simpático conterrâneo. “Lembro-me do senhor, quando eu estava na tropa, na Terceira e os seminaristas, o Bartolomeu, e o Manuel Azevedo passeavam na rua da Sé”.
“Já passaram cinquenta anos!... Daí para cá, muito tinha de mudar!” – retorqui. O homem, parecendo adivinhar os meus pensamentos, sorriu.
No trajeto de reconhecimento pela terra onde nasci, com a Montanha sempre ali, espelhando a luz do novo dia, vou à procura dos recantos mais bonitos para fotografar o Pico. As melhores perspetivas estão quase todas divulgadas, mas as tonalidades diferem de minuto a minuto, de manhã ao sol-posto.
Com a Montanha sempre ali, sou confrontado, junto a um miradouro, com sinais de perigo e de trabalhos que nunca houve, avisando a quebrada que há largos meses afeta a segurança da via. Puro desleixo - penso eu –, pois em menos de uma semana o conserto do muro de suporte estaria concluído, com uma miséria de dinheiro...
Aqui é assim. Tudo leva tempo, muito tempo, sobretudo porque o responsável regional está muito longe...
Este lado sul da Ilha, com a Montanha sempre ali, está muito longe da governança, dos gabinetes, dos contatos, mesmo durante as fortuitas visitas estatutárias.
Na estrada, as derrocadas parecem iminentes e estão à vista de todos, mas só quando desabam e interrompem o trânsito é que se grita aqui-d’el-rei! O mesmo se diga com o piso: os buracos não são muitos, é verdade!, mas estão há meses à vista de todos e os condutores, com a sua bonomia, habituaram-se à situação e até desculpam os responsáveis que, provavelmente, tomam outros percursos mais curtos e seguros, para enganar as evidências...
Com a Montanha sempre ali, aproximei-me do porto, onde outrora a faina baleeira terminava derretendo os cachalotes. Há anos, o município entendeu recuperar equipamentos antigos e apresentá-los em espaço museológico. Decorridos uns bons anos, o projeto encontra-se incompleto e não existe informação explicativa para milhares de pessoas que efetuam viagens de observação de cetáceos. Em lugar de se pretender construir um edifício para informação turística, junto ao Museu, seria mais avisado concluir-se o referido espaço, ou solicitar que outra entidade o valorizasse.
A Montanha logo ali, assiste à crónica inércia dos meios pequenos, essa pecha terrível a que se acomodam as populações envelhecidas e que esmorece os mais novos causando também graves inconvenientes ao património edificado. Do particular, é visível a degradação e abandono de edifícios antigos, sobretudo na rua Direita. Do público, é notório o desprezo a que está votado o património baleeiro da Lagoa de Cima, onde as casas dos botes albergam, a céu aberto, embarcações desportivas, também elas adquiridas com dinheiros públicos.
Há já um projeto de recuperação dos imóveis mas a sua execução não ata nem desata, talvez por falta de financiamento...
Com a Montanha logo ali, atenta aos meus curiosos passos, deparo-me com uma estrutura metálica, abandonada, sobre o porto de pesca. Talvez um desnecessário guindaste, pago com dinheiros públicos, aguardando montagem...
No largo do Museu, o “barracão do Estado” há muitos, muitos anos, construído para apoio à construção da muralha de defesa da Lagoa. Hoje os exíguos espaços, sem as exigências da lei, não servem nem funcionários nem utentes que no verão torram com calor e no inverno têm de esperar pela sua vez, à chuva. É assim que se dignifica os serviços de agricultura da Ilha, enquanto jaz fechado e apodrece, o amplo edifício da Alfândega que poderia alojar todos os serviços regionais?!...
 Será que algum responsável local e regional vai ler, este crítico desabafo, ou vai desvalorizar estas reclamações que andam, por aí, de boca em boca?
Com a Montanha sempre ali, testemunhando o muito que foi feito nos últimos quarenta anos, quedo-me, extasiado na beleza do pôr-do-sol e do luar de janeiro, esperando que os poderes públicos sejam parceiros do desenvolvimento desta terra e desta gente, para que viver aqui seja mais que uma saudosa utopia.

Lajes do Pico


* Jornalista c.p. 536