E a fome continua

Gritos de fome levantam-se, de novo, sinalizando antigos e crónicos focos de pobreza que tardam em desaparecer.
Nos últimos tempos, temos visto, ouvido e lido clamores e protestos de mães de família, com mesas vazias, sem pão para matar a fome aos filhos. Nada que não fosse previsto, derivado desta malvada austeridade, do flagelo do desemprego e do decréscimo do poder de compra que penaliza sobretudo os mais pobres e deserdados da classe média.
Afirmar que “ser pobre, é acima de tudo uma questão de autoestima” como o fez o Presidente da União das Misericórdias, Manuel Lemos, reconhecendo, embora que, hoje, o número de pessoas apoiadas – 150 mil – é o dobro do registado há dez anos, é uma afronta. Muito menos se aceita a justificação de que a pobreza se deve “ao desconhecimento” e à “vergonha”, de que são exemplos os “pais desempregados que continuam a vestir-se como se fossem para o trabalho só para os filhos não notarem diferenças, ou aqueles que vão a cantinas sociais e evitam e exposição da família”.
No meu entendimento, estes comportamentos aceitam-se, perfeitamente, pois revelam a preocupação dos atingidos pelo infortúnio em manter a sua autoestima e o apreço que eles devotam à preservação da sua dignidade e de suas famílias.
São, portanto reprováveis os comentários de Manuel Lemos, sobretudo porque visam pessoas deprimidas e sem horizontes de curto prazo, como demonstram os estudos sobre o desemprego.
Muitos responsáveis por instituições de solidariedade social (IPSS) têm uma visão pejorativa dos carenciados. Raramente, relevam e apostam nas suas capacidades de reabilitação, e promovem e valorizam os seus projetos de vida. A sua ação favorece a pobreza crónica, baseada na expressão evangélica descontextualizada: “pobres sempre os tereis”. É uma forma dissimulada de discriminação social que não se compagina com os ensinamentos da doutrina social da Igreja a que pertencem muitas das IPSS.
Enquanto a sociedade em geral e as instituições públicas e privadas não colocarem em primeiro lugar a igualdade e promoção dos direitos da pessoa humana, a fome, a guerra, e todo o rosário de calamidades não desaparecerão.  
Entre nós, em várias localidades, nomeadamente em Rabo de Peixe, agora Vila  com um moderno e bom porto de pescas, a fome atinge famílias de pescadores, tradicionalmente numerosas. O produto do pescado é muito baixo, nem dá para os cigarros, e quem sofre são as crianças.
As mães reclamam ajuda, mas os sistemas de apoio não lhes valem. Porquê? Diz-se que a legislação não prevê ajudas naquelas situações. Todavia, se o problema atingisse a lavoura, a agricultura, o comércio, a indústria... haveria grandes protestos e reclamações e, de imediato, se encontrariam soluções a contento.
Para os pescadores que fazem do mar o sal de suas vidas, não há apoios de emergência. Antes, prefere-se a ajuda assistencial que torna as pessoas dependentes e sujeitas, de mão estendida à esmola que, só pontualmente, resolve mas não promove, nem liberta.
Quando uma sociedade não cuida dos desafortunados e os governantes não respondem ao clamor dos mais fracos, questiona-se a legitimidade do poder e a idoneidade dos seus responsáveis.
O arcebispo de Olinda e Recife, Dom Helder Câmara, afirmou um dia: “A fome dos outros condena a civilização dos que não têm fome.”
É pois tempo de mudar e de escutar o clamor silencioso de centenas de famílias que não têm pão, nem dignidade.
É isso que pedem os pobres e carenciados que por aí vagueiam, calando a revolta pelos caminhos da vida.

* Jornalista c.p. 536