Carnaval açoriano

Estamos na quadra do Carnaval, tempo de diversão, alegria e confraternização.
Muito se tem escrito sobre a origem destas celebrações que tomam feições diferentes consoante os países, as regiões e as localidades.
Neste arquipélago de nove ilhas, as manifestações carnavalescas revelam-se de modos diferentes, mantendo-se todavia, a matriz comum da diversão, da alegria e da festa.
O Carnaval nos Açores é um misto de entrudo, bailes, corsos, desfiles de disfarces e mascarados, batalhas de limas, marchas, danças, bailinhos e touradas de estudantes.
Cada uma destas manifestações tem a sua identidade bem definida, consoante as ilhas em que ocorram.
Das antigas tradições desapareceram as batalhas de flores e os desfiles de carros alegóricos que, em Ponta Delgada, por exemplo, enchiam as ruas principais da cidade. Noutros locais eram as batalhas de água e farinha de que só restou a tradicional batalha das limas na Avenida Marginal.
Em quase todas as ilhas mantiveram-se os bailes de salão, cujo expoente máximo são os Bailes de gala do Coliseu Micaelense que remontam à década de 20 do passado século, frequentados pelas classes mais abastadas. Nas últimas décadas, os bailes democratizaram-se, sem perderem, no entanto, o requinte dos trajes cerimoniosos e dos disfarces. Esses serões dançantes, envolvendo as elites locais e as classes mais abastadas, ocorriam também em Angra, no Clube Musical Angrense e no Lawn Tenis Club, e na Sociedade Amor da Pátria, na Horta. Para outras classes sociais realizavam-se matinés e bailes nos amplos salões das sociedades recreativas e culturais, sempre ao som de orquestras e agrupamentos musicais formados para o efeito ou contratados a bom preço.
A democratização resultante da revolução de Abril alterou alguns destes procedimentos e introduziu outros espaços de diversão noturna.
Nas últimas décadas, porém, tem-se assistido a um ressurgimento de antigas tradições carnavalescas, reveladoras da diversidade de manifestações identitárias das gentes destas ilhas.
As danças e bailinhos da ilha Terceira são, indubitavelmente, as expressões mais singulares do carnaval açoriano. A riqueza cultural dessas manifestações teatrais e musicais de cariz popular, em tudo semelhantes ao teatro vicentino, constituem  momentos de crítica social e política que os governantes regioais e locais ouvem com  atenção. Se bem que os autores dos textos e da música assinem vários trabalhos, os temas versados são, por vezes, propostos pelos grupos, revelando os alvos da sua crítica social e a sua perceção da vida e da sociedade.
Nenhuma outra dança popular terceirense é tão bem preparada e cuidada na indumentária, resultando simples e eficaz a mensagem transmitida a milhares de pessoas que não arredam pé dos salões por onde passam em exibição, habitualmente, cerca de meia centena de grupos.
O falecido advogado José Orlando Bretão recolheu e investigou o fenómeno das danças terceirenses que há poucas décadas, ressurgiram, fruto da liberdade, com uma dinâmica impressionante. Oxalá outros continuassem os seus estudos, não só investigando a evolução dos temas como a música, e também a expressão plástica manifestada na indumentária e na coreografia. Como o fizeram já os estudiosos do folclore regional de algumas ilhas.
Curiosamente, em algumas ilhas, como o Pico, ressurgiram as danças de espadas, inicialmente formadas por homens e agora abertas também às mulheres. Habitualmente, versam temas da História de Portugal e apresentam-se ao ar livre, no domingo gordo, após as missas.
Outra manifestação de cariz popular, para além dos “temerosos” mascarados, é o Bando, tradicional na freguesia da Piedade, Ilha do Pico. Impregnado de sátira mordaz, o Bando ou Testamento do burro, é proclamado  por homens vestidos com vestes talares ou eclesiásticas, denunciando situações e figuras locais.
As batalhas da farinha acabaram, bem como as “folgas” que, nesta época do ano, aconteciam, vulgarmente, na sala maior da casa onde se festejava a matança do porco. No Pico, esse era o conduto mais apetitoso do Carnaval, juntamente com as folhós e cuscurões – noutras ilhas, nomeadamente em São Miguel, as malassadas.
Em memória, retenho também os assaltos e serões dançantes em casas particulares, ao som de pianos antigos que debitavam valsas, tangos e boleros para adultos e jovens enamorados que naqueles encontros revelavam suas paixões...
Oxalá preservemos o que nos distingue em qualquer das quadras festivas.


* jornalista c.p. 536