Romeiros de São Miguel

Tinha acabado de entrar nos quadros da RTP-A. O chefe de redação, Fernando Balsinha, chamou-me ao gabinete e propôs-me: “vais fazer uma grande reportagem sobre os romeiros. Vou destinar-te um operador da câmara (José França) e começas já para a semana.”
Fiquei preocupado com a incumbência, pois não tinha nem experiência, nem formação adequada à narrativa televisiva. Mas aceitei o desafio, ciente de que deveria abordar aquela manifestação religiosa, numa posição distanciada e de uma forma crítica.
Estavamos no início da década de oitenta e havia quem acusasse as romarias de serem uma viagem turística pelos caminhos e veredas turtuosas de São Miguel, uma semana de descanso, e não uma caminhada de oração e recolhimento, um tempo de conversão.
A minha preocupação era, portanto, descobrir sinais de fé por detrás da típica demonstração pública de religiosidade, cujos rituais, súplicas e melodias caraterizam a centenária romaria popular masculina micaelense.
António da Silva, mestre de romeiros e administrador do BCA, confessou-me, sem qualquer azedume, que, no início da revolução republicana, as romarias haviam sido proibidas de passar pelo centro da cidade, informação confirmada pelo nonagenário Manuel Inácio de Melo (MIM). A paixão deste nordestense pelas romarias traduzia-se na “local” que, durante a Quaresma assinou, anos e anos, no Diário dos Açores, dando conta da constituição dos grupos, dos locais de pernoita, etc, facilitando o acolhimento dos grupos em viagem. Surpreendeu-me também em MIM o ter-se apresentado na entrevista coberto pelo seu antigo xaile de romeiro, e o respeito e entusiasmo com que falava do tema.
Acompanhei e convivi com o rancho da Ribeirinha dirigido pelo mestre Hermínio Sousa, desde a preparação à saída, após missa celebrada pelo Pe Manuel Medeiros Sousa, noite escura ainda, nem os galos cantavam... até ao festivo regresso à Paroquial onde, entre lágrimas, beijos e abraços foram recebidos pelos familiares, crianças, rapazes e homens maduros.
Um dos mais velhos encontrei-o, na Lombinha da Maia, retirado a um canto, alimentando-se de pão e água, em cumprimentos de uma promessa que não me revelou. Apesar da sua manifesta fragilidade, transpirava uma felicidade contagiante, enquanto outros “irmãos” do grupo se saciavam com  pão e chouriço caseiro, cujo aroma abria o apetite a um doente.
Nas Feteiras do lado sul da ilha, o procurador das almas, confessou-me ter recebido muitas orações e intenções pela saúde e bom êxito da viagem do Papa João Paulo II, à América Latina, o que me surpreendeu, por não saber  que o atentado em Fátima, fora tão sentido pelos fiéis.
A recolha das imagens e dos depoimentos ia sendo feita, com a sensibilidade e competência do operador de câmara José França e do seu assistente José França Mota. Nada ficou para trás, inclusivé o lavar dos pés ao mestre Hermínio e a outro irmão mais novo, em casa do Lopes, na Caloura, antigo camarada da tropa. Durante o jantar, ainda cedo, que no dia adiante a romaria recomeçava às quatro da manhã, recordaram outros camaradas de guerra, as andanças pelos quartéis e as partidas e chegadas a mundos nunca dantes navegados.
Entendi, então, que as romarias eram/são muito mais que o longo e penoso caminhar por canadas e caminhos enlameados, expostos ao frio e ao sol, ao vento e à chuva invernosos; que eram/são manifestações religiosas e encontros insondáveis entre os homens e Deus, e que os simples justificam a sua fé não com argumentos teológicos e apologéticos muito elaborados, mas com o testemunho de vida.
A montagem da reportagem não foi fácil. Passou a Quaresma e só ficou concluída, por dificuldades várias, já no período pascal. Alguns pormenores interessantes perderam-se com outros afazeres e o produto final podia ter sido mais bem elaborado não fosse a descontinuidade da montagem e a impreparação do repórter.
“Romeiros de São Miguel” constitui um documento histórico/etnográfico que, como outros, atesta a importância dos ranchos na tradição cultural micaelense.
Dessa vivência que não mais esquecerei, guardo, religiosamente, o bordão que os responsáveis pelo grupo de romeiros da Ribeirinha me ofereceram, considerando-me um dos “irmãos” que com eles fiz a caminhada na Quaresma de 1983.

* jornalista c.p. 536