Estou doente...

Não, não me desejem melhoras porque a doença é grave e parece não ter cura.
Na minha idade, as maleitas surgem com maior facilidade, por isso há que prevenir. Foi o que fiz.
Fui ao meu simpático e competente cardiologista que me tranquilizou: “À partida, parece-me não haver motivo para preocupação, mas...nunca se sabe. Vai ter de fazer uma ecocardiografia, no Hospital e umas análises”. Respondi-lhe “que sim”, parcialmente aliviado, pois o diagnóstico não estava completo. “As análises vai ter de as fazer num laboratório e terá de as pagar na totalidade. Sabe, é que se fosse o seu médico de família ou se fosse eu a pedi-las no hospital, não pagava nada. Assim vai ter de as pagar e só depois será parcialmente reembolsado.” Fiquei espantado. Um especialista em cardiologia só é reconhecido como tal, prestando serviço no hospital, pois numa consulta privada é menos que um clínico-geral. Como é isto possível? E eu que, desde 2008, ainda não consigui médico de família no centro de saúde de Ponta Delgada...
Mas não será por isso que deixo de fazer análises. Outros utentes, centenas, talvez milhares, teriam parado por aqui o diagnóstico à doença. Conheço muitos, junto de mim, que foram às urgências do hospital atacados pela tensão arterial e outras doenças, e que regressaram a casa sem remédios, porque uma reforma de 200 euros não chega para renda de casa, gás, uma sopa e uma pinga de chá à noite para calar as tripas... e há cada vez mais gente nestas condições.
Se não fossem os filhos, muitos idosos não teriam dinheiro para uma consulta da especialidade, reembolsada em menos de dois euros. Dois euros, digo bem, foi o que me reembolsaram contra uma fatura/recibo de 70 euros. E ainda me pediram uma certidão do IRS de 2013 para comprovar que um cidadão da classe média baixa tem de pagar também as custas da saúde, apesar do setor público não lhe dar resposta suficiente e atempada.
Estou doente com as arbitrariedades de uma portaria que me impuseram, desde outubro de 2014, sobre a qual não me pronunciei, não vi nem ouvi discutida, tão pouco minimamente divulgada.
Os utentes que se dirigem ao serviço de reembolsos, nunca sabem o que lhes é devido por lei, nem quanto vão receber. Apresentam faturas/recibo, o atencioso funcionário introduz no computador os dados e o programa informático faz a operação. Não se sabe por que é assim e não de outra forma, e se há alguma exceção nos reembolsos e no número de consultas. Nada. A lei é salomónica e a sua interpretação só tem a leitura incontestada e unívoca do governante que a produziu.
Por tudo isto, estou doente, cada vez mais atacado pelo vírus da autocracia que parece estar a alastrar pelos corredores dos palácios e a contagiar os gabinetes do poder.
Mas quanto me dói estar aqui a lastimar-me dos efeitos que este vírus mortífero pode provocar na democracia e num sistema em que acreditei, convictamente!...
É verdade que “não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe”, mas compete aos cidadãos dar o seu contributo para que se altere no sistema o que está mal e se valorize o que é bem feito.
E neste sentido, é meu dever salientar os progressos registados no atendimento aos doentes pela maioria dos profissionais de saúde, nos cuidados de saúde primários e diferenciados, nas infraestruturas, nos equipamentos de diagnóstico, sobretudo na consciencialização profissional de que os doentes são PESSOAS fragilizadas que merecem o maior apoio da família, da sociedade em geral e do estado, como presumível pessoa de bem.
Dói-me ouvir criticar doentes e idosos por terem magras carreiras contributivas e, por outro lado, beneficiarem de muitas prestações e direitos sociais que obrigam o Estado.
Dói-me quando governantes e políticos fazem depender os cuidados de saúde das insuficientes dotações orçamentais, quando é sabido que a doença influencia o bem-estar de um povo e a saúde proporciona o aumento da  esperança de vida.
Há uns anos, o slogan de uma força política garantia ao eleitorado: “As pessoas primeiro.”
Que se retome, de imediato, este compromisso, levando à prática tudo quanto ele significa, para que os cidadãos voltem a acreditar.


jornalista c.p. 536