Nova crise económica no horizonte?

Nos últimos dias o setor da produção leiteira tem vindo a manifestar, de forma consistente, as suas inquietações face ao fim das quotas leiteiras.
A maioria dos lavradores não entende por que há uns anos foram oficialmente aconselhados a aumentar a sua produção, para o que tiveram de fazer investimentos apoiados pelos fundos comnunitários, e agora, atingida a meta pretendida da produção regional, defrontam-se com avisos de que o leite terá de baixar para fazer face à feroz concorrência de outros mercados mais competitivos.
A história sócio-económica destas ilhas repete-se, ciclicamente,  se bem que com nuances diferentes.
Em meados do século 19 e para fazer face ao declínio do ciclo da laranja, proprietários agrícolas micaelenses, integrados na Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense, foram à procura de culturas alternativas que proporcinassem um aproveitamento económico dos terrenos agrícolas disponíveis e optaram pelas produções do ananás, do chá, da beterraba sacarina, da chicória e do tabaco. Mais tarde, já no início do passado século experimenta-se a cultura da espadana, mas sem grande sucesso. Dessas produções resultou, naturalmente, uma série de pequenas e grandes agro-indústrias, algumas das quais entraram em declínio: as da chicória já desapareceram, a cultura do ananás, confronta-se com a concorrência desigual do abacaxi e a beterraba sacarina parece que já deu o que tinha a dar.
O incremento da produção leiteira fez com que os lavradores  apostassem nessa atividade que se tornou lucrativa devido aos vastos apoios da União Europeia, ao abrigo dos programas destinados a fazer face aos constrangimentos das regiões ultraperiféricas.
“A lavoura é que recebe muitos apoios”- confirmava há dias, no Mercado da Graça, um pequeno produtor agrícola. E, justificando os baixos preços dos seus produtos afiançava: “Isto dá é prejuizo.” 
Seja como for, nos Açores, é a produção agro-pecuária e a função pública que ainda vão mantendo o tecido comercial e a mão de obra ativa, uma vez que a construção civil não mostra indícios de recuperação, nem na reabilitação do parque habitacional urbano, a olhos vistos, cada vez mais degradado e desocupado.
Não entendo, pois, como a lavoura transparece tanta dúvida e instabilidade quando foi um setor tão beneficiado com fundos europeus.
A razão, a meu ver, reside na lógica do mercado que, levada às últimas consequências, esmaga os mais fracos, nomeadamente as regiões e países ultra-periféricos, penalizados pela distância dos grandes centros consumidores. É aqui que reside o maior problema da produção agro-industrial açoriana.
Não faz qualquer sentido defender que “o preço do leite tem de baixar para competir com os outros mercados”1, pois mesmo que isso aconteça os nossos produtos, cuja qualidade e propriedades medicinais são por demais reconhecidas, nunca terão o justo preço. Há outros fatores de produção agrícola, industrial e comercial que penalizam as nossas produções.
Compete às instâncias regionais, nacionais e europeias estudar novas formas de viabilizar a atividade económica e a vivência dos povos nas regiões insulares, tendo como provável que pode estar a aproximar-se o fim da “monocultura da vaca” e o surgimento de uma nova crise económica e social de maiores proporções que as anteriores, face ao patamar da nossa qualidade de vida.
Há muito, defendo a necessidade de diversificar o tecido produtivo açoriano. O turismo foi uma aposta certa e reune condições de desenvolvimento ainda por explorar. Em todas as ilhas.
Continuam, entretanto, por investigar as potencialidades económicas da plataforma marítima que nos envolve. Dá a impressão que tememos que outros descubram o baú do nosso tesouro que guardamos a sete chaves sem saber o que contém. Nada mais errado.
Quanto aproveitaríamos se o arquipélago, no meio do Atlantico Norte, se transformasse numa plataforma de investigação científica dos fundos marinhos, explorada, em parceria ou não, por entidades externas?!
Não foi assim que fizeram outras nações que, acautelando interesses próprios, arriscaram parcerias e trilham hoje novos caminhos de desenvolvimento?
Quanto mais nos enredarmos em tensões políticas e jurídicas sobre a competência da gestão dos nossos mares, menos tempo nos sobrará para descobrirmos saídas novas para uma crise que se avizinha.
Esta é a hora de os responsáveis, com coragem e determinação, apontarem um novo futuro para estas ilhas, onde os jovens afirmem saberes e competências pelo desenvolvimento da sua terra.

*jornalista c.p. 536