Viagens de estudantes e outras estórias

Estão a aproximar-se as férias da Páscoa.
Nos tempos da minha juventude, era usual os finalistas do curso complementar do Liceu de Ponta Delgada visitarem a cidade de Angra, num intercâmbio sadio que se prolongava pelas univerdades, pelo serviço militar e pela vida fora.
Angra, na Semana Santa, era uma cidade tristonha. Pela rua da Sé, os peões passavam cabisbaixos, talvez sensíveis aos mistérios da Paixão e Morte de Jesus, que se desenrolavam em procissões e cerimónias quase fúnebres. Na Catedral, presidia ao culto o Bispo ladeado pelo cabido e por superiores e alunos do Seminário cujo coral, colocado no coro do lado esquerdo, participava nas proclamações da Paixão do domingo de Ramos e de Sexta-feira Santa, cantando em latim os “impropérios” dos textos bíblicos.
Os longos cerimoniais atraíam ao velho templo seiscentista gente das redondezas, mas não despertavam grande interesse nos jovens visitantes micaelenses.
Estes, com programa cuidadosamente elaborado, preenchiam o tempo com partidas de futebol no campo do Seminário contra a equipa da casa e do Grupo Juvenil da Sé, com passeios pela ilha e à Base Americana das Lajes e outras atividades com que os terceirenses presenteiam, habitualmente, os visitantes.
As férias da Páscoa eram também a época do ano em que se disputava o Torneio Açoriano de futebol que apurava o representante dos Açores à Taça de Portugal.
A prova rodava pelas três capitais dos ex-distritos e constituía sempre um aliciante para as equipas participantes.
Lembro-me de, na década de 60, os representantes da Horta, de Angra e de Ponta Delgada serem, habitualmente, o Fayal Sport Clube, o Lusitânia e o Clube União Micaelense. No Fayal jogavam, entre outros, Gaspar Neves, Renato Lima e Jorge Faria que, devido à sua qualidade, rumaram aos leões de Angra, bem como o Honorato que mais tarde viria a ser meu colega de trabalho na RDP e RTP-Açores também conhecido por Luís Furtado e o Fernando Faria. No União Micaelense, o Miguel, que depois vestiria a camisola dos verdes e outros mais. Aquela prova futebolística era a montra dos melhores craques açorianos e agitava toda a cidade com caravanas de apoiantes das equipas forasteiras que viajavam nos “carvalhinhos” (Cedros e Arnel) da Insulana e nos iates do Pico.
O Campo de Jogos de Angra, rebentava pelas costuras, sobretudo quando as equipas da Terceira e de São Miguel se defrontavam. Quase sempre, levava a melhor a equipa da casa.
Os maiores feitos do Lusitânia foram, como representante dos Açores, ter-se defrontado contra o Marítimo do Funchal e o Sporting de Lourenço Marques, equipas, então, de grande nomeada.
As chegadas a Angra, a bordo do Carvalho Araújo eram assinaladas com pompa e circunstância. No velho Cais da Alfândega desembarcavam os passageiros do navio fundeado na baía. As equipas eram recebidas pelas autoridades distritais e locais, por banda de música e aplaudidas por centenas de pessoas que enchiam o Pátio da Alfândega e depois integravam o cortejo até à Praça Velha para a tradicional sessão de boas-vindas, nos Paços do Concelho.
As receções destacavam-se, largamente, na imprensa e rádio angrenses, comentavam-se nas tertúlias dos cafés, nas ruas, e culminavam nos disputadíssimos jogos de apuramento.
Tanto como as Festas de São João que, nesses tempos, se limitavam, quase exclusivamente, às touradas de praça, ao cortejo da rainha e pouco mais.
Nas férias da Páscoa, Angra era, de fato, a cidade do encontro de estudantes e futebolistas, o centro religioso da Terceira, pois a falta de comunicações e de informação isolava cada ilha no seu mundo. Não fosse o Rádio Clube de Angra e os relatos desportivos e, do arquipélago no seu todo, pouco se saberia.
Bem diferente do que hoje se passa. As tradicionais celebrações da Semana Santa, a não ser os Romeiros de São Miguel, já não marcam o quotidiano destas ilhas, nem os campeonatos nacionais de futebol, passada a euforia e as “loucuras” inciais, despertam muito interesse.
É caso para dizer: Outros tempos!...


*jornalista c.p. 536