Folar de Páscoa

Anda no ar um cheiro a fumo de lenha queimada, talvez incenso, talvez faia das ladeiras repletas de árvores frondosas que cobrem as paredes dos terrenos de milho e batata que outrora alimentavam esta gente.
Quantas mães e avós se levantavam ainda lusco-fusco para espreitar a massa sovada a levedar, batida num grande alguidar de louça da Lagoa, já o serão ia longo! Algumas encostavam-se ao travesseiro, vestidas de avental e de lenço na cabeça, outras repousavam a cabeça sobre a mesa da cozinha e dormitavam, não fosse o fermento levedar em demasia e extravasar a massa, deitando a perder tantas canseiras. Seria uma desperdício! Pois se até era de tradição fazer uma cruz sobre a massa sovada, para que Deus abençoe os que nEle confiam!...
O dia de cozer no forno -normalmente ao sábado- era de muitas trabalheiras. A maior parte delas sobrava para a mulher, pois ao homem competia arrastar a lenha para casa e cortá-la em achas.
Manhã cedo, é tempo de acender o forno, primeiro com gravetos de incenso e faia, depois com madeira grossa.
O forno vai aquecendo, lentamente, e só quando a porta de pedra de basalto negro e o interior da abóboda ficam cinzentos, se  remove o braseiro com uma vassoura de urze. De seguida, coloca-se os folares já tendidos com ovos, sobre uma folha de roca de velha. Quando há crianças em casa, tende-se um folar mais pequenino com um ovo, para alegria e enlevo da criançada. Os maiores levam quatro ou mais ovos. No vai-vem da pá, não há tempo a perder para aproveitar o calor do forno. As mulheres habituadas a esse ritmo acelerado, só descansam quando arrastam a porta de pedra do forno, sempre sob invocação da proteção divina.
O sol já despertou o dia, mas a lida da casa dispersa-se por mais trabalheiras: arrumar a cozinha, varrer a casa, fazer as camas, tratar dos pequenos, pôr-lhes a comida na mesa...uma labuta permanente. De permeio, uma espreitadela ao interior do forno, com a ajuda da lamparina, para ver quando a massa enloirece. E repete-se a jaculatória tradicional: Louvado seja o Senhor! Seja tudo por amor de Deus!
Chegado o tempo, tira-se os folares do forno.
As mulheres juntam-se, novamente. Reacende-se a lamparina e retira-se o pão, um a um, com todo o desvelo, limpando as folhas queimadas e colocando a massa sobre uma toalha na mesa do quarto de jantar onde, para brio das padeiras, se mostra às vizinhas. Cobertos com mantas, os folares ficam a arrefecer, como numa estufa, até serem destinados a familiares, amigos e vizinhos.
O folar de Páscoa é um alimento tradicional, típico dos Açores. Os feitios e sabores diferem, no entanto, dos temperos característicos de cada localidade ou ilha.
Uma coisa é certa: não há melhor alimento para assinalar as celebrações pascais.
Em pequeno, era habitual, a família sentar-se à mesa no Domingo de Páscoa, para tomar o pequeno-almoço. A ementa cingia-se  ao folar com manteiga ou queijo, ovo cozido e café de cevada com leite. Cada criança consumia o seu pãozinho e, o que sobrava, guardava-se, cuidadosamente, para a refeição seguinte.
Hoje o consumismo alterou esses hábitos e o que anciosamente aguardavamos, após tantos dias de contenção alimentar, imposta pelos hábitos tradicionais de penitência, abstinência e jejum, transformou-se num produto  de quase todo o ano. Por isso perdeu o sentido genuíno dos frutos da Primavera, símbolos de vida nova, biblicamente comparados aos efeitos da Morte e Ressurreição de Jesus (Se o grão de trigo ao cair na terra não morrer, fica só. Mas se morrer, produzirá muito fruto. João 12, 24).
Há, de fato, um tradicional e contagiante aroma pascal por estas ilhas.
Por mais que a economia neo-liberal, desumanizada, descristianizada, pretenda impor os valores do dinheiro, do consumo e da economia, menosprezando a igualdade e dignidade humanas, o direito de acesso de todos aos bens da terra, a partilha e a solidariedade com os carenciados, haverá Morte, mas sem Ressurreição.
É pela verdadeira Páscoa que cada vez mais povos inteiros anseiam.
 

*jornalista c.p.536