Arquipélago com tanto mar

O navio afasta-se do Cais e o fumo embacia o dorso da Montanha.
O Pico imponente e altivo, verdadeira sentinela das ilhas do triângulo, constitui o marco constante de passageiros e marinheiros, em dia de sol estival, fazendo lembrar um julho ardente que não houve este ano.
Admirados e em silêncio, centenas de viajantes registavam as últimas imagens de férias, pois dia claro como aquele – todos reconheciam - não se via há dias.
Estas ilhas são imprevisíveis na beleza e no clima, todavia há ditados populares, ainda referidos na previsão do tempo que atribui à Montanha o papel de barómetro principal.
Este saber empírico que, aos poucos, se vai desvanecendo face à científica e segura previsão meteorológica, denota a sabedoria de um povo, disseminado por nove ilhas - nove mundos diferentes, conjugadas num enorme espaço atlântico que, aos poucos e cada vez mais, começa a ser descoberto por forasteiros e residentes.
Já o Santorini viajava a meio-canal entre Pico e São Jorge e encontro, sentado num banco a bombordo, o velho amigo, Álvaro de Lemos. A sua ligação ao mar, levou-o a mostrar aos netos todas as ilhas que ele bem conhece. Assumiu esse encargo, com gosto. “Os outros países que os revelem os pais.” Iniciou em Agosto um cruzeiro pelos Açores - “uma semana aqui, outra ali, revendo amigos, saboreando a culinária da terra, apreciando os lugares e a paisagem... e tudo por uma cascarrilha!”.
Quedei-me de pé, junto ao antigo comandante de Bombeiros de Ponta Delgada, pois o mar estava chão e o navio não mexia.
“Já digo há muitos anos: esta é uma autonomia castrada. Estamos cada vez mais dependentes e podíamos estar bem melhor.”
A conversa parecia ser a mesma de outros tempos, mas não: “Há dias disse-me um amigo que, estudos feitos, dão conta de que as nossas  potencialidades naturais valem mais de 800 MM€, o que daria para sustentar estas ilhas durante largas dezenas ou centenas de anos”.
Nos últimos anos tem-se falado sobre o “cluster” do mar açoriano, não tanto como seria de esperar, pois uma área de 1 milhão de Km2, tem, necessariamente, potencialidades submarinas, como as descobertas noutras zonas do globo. Quais, está no segredo dos deuses ou nas teses académicas.
Portugal não dá grande importância à sua dimensão atlântica, nem à Zona económica exclusiva e essa crassa ignorância dos políticos traduz-se na cultura popular.
Esta semana num programa da RTP perguntava-se qual a localidade portuguesa mais ocidental da Europa e a resposta não se fez esperar. De entre as quatro possíveis, estava Sta Cruz das Flores. Peniche, respondeu a concorrente. “Não!” disse J.C.Malato: ”Sta. Cruz das Flores, capital da ilha e a Fajã Grande” [que pertence ao concelho das Lajes].
É este crónico e ancestral desconhecimento dos Açores, propositado e reincidente que se vai moldando a cultura continental portuguesa, a ponto de se abrir um enorme fosso entre o território continental e os dois arquipélagos com instituições Autonómicas próprias.
Bem fez Mota Amaral, ao convidar Mário Soares para uma presidência aberta pelas nove ilhas a qual deu a conhecer aos portugueses o que fomos e somos como povo. O Presidente da República teve o cuidado de convidar para as celebrações do 10 de junho, escritores e estudiosos de renome. Recordo Jorge Amado que quase passou despercebido na plateia do teatro Micaelense.
Mas para além do papel de anfitrião, Mário Soares teve o mérito de levantar na opinião pública questões relacionadas com: o aproveitamento das potencialidades do território atlântico, a ecologia, (num painel realizado na Lagoa das Furnas) e sobretudo relevar a identidade açoriana traduzida no pensamento e obra de Antero de Quental, Vitorino Nemésio e tantos outros.
Daí para cá, Jorge Sampaio foi o único que pretendeu recolocar na agenda política, essas questões, as quais, infelizmente, voltaram a ser esquecidas, ou ainda pior, hoje são questões conflituais entre São Bento e Santana.
Perante estes fatos, que vale um voto nesta ou naquela força política, se ele não terá tradução política a favor dos Açores, queiramos ou não?
Neste sentido, oxalá o referendo na Catalunha possa abrir novas perspetivas às nacionalidades e refrear a ibérica conceção centralista.    Assim os políticos o compreendam pois é na mudança que “o mundo pula e avança”.


*jornalista c.p. 536
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