Telemedicina ou a saúde adiada

Há uma conjugação de acontecimentos que me fazem regressar ao tema da prestação de cuidados de saúde nas ilhas servidas apenas por centros de saúde.
Um conterrâneo meu teve, há dias, de ser transferido do Hospital da Horta para o de Ponta Delgada. Tal só aconteceu, por forte insistência da esposa junto do médico assistente, após dois meses e meio de impasse face ao agravamento do estado de saúde do doente diabético, com uma ferida num pé, o qual corria o risco de ser amputado. Acresce que alguns enfermeiros incentivaram a senhora a pedir a transferência do marido para S.Miguel, alegando que tal só não acontecia devido a contenção de despesas imposta pela administração do Hospital da Horta.
Em Ponta Delgada o doente foi submetido a intervenção cirúrgica e encontra-se em fase de convalescença. Entretanto, do hospital faialense já foi proposto o regresso ao Pico, para tratamento pós-operatório na Horta o que o doente recusou, devido à situação difícil por que passou.
Casos como este e outros não são exceções.
Por temor, por ignorância, e até por resignação, muitos doentes e familiares, desconhecendo os seus direitos, depositam nas mãos dos profissionais de saúde uma enorme confiança e boa-fé. No entanto, quando os médicos, por falta de meios de diagnóstico, ou por não possuirem formação especializada não prestam aos pacientes todos os cuidados necessários, as consequências acabam por refletir-se no bem da própria vida. 
Por ser assim, e não se ter melhorado, até agora, a prestação de cuidados de saúde primários e diferenciados é que milhares de açorianos das ilhas onde não existem hospitais são tratados como cidadãos de segunda.
Em 1992, acompanhei na Sicília a conferência “Ilhas 2.000” onde se perspetivava o desenvolvimento económico e social dos povos insulares.
Na vertente da saúde, uma exposição fotográfica documentava a utilização da telemedicina pelos navios da Armada Italiana no Mediterrâneo. De imediato, julguei estar ali a solução para grande parte dos problemas de saúde das nossas ilhas e elaborei uma reportagem sobre o tema.
Desde então tenho abordado várias vezes o assunto que conheceu, desde então, grandes desenvolvimentos em várias regiões do globo, onde há carência de meios técnicos e humanos. Sei que, em anos passados, a Região adquiriu equipamentos para implementar a telemedicina. No Pico, por exemplo, o equipamento não chegou a ser instalado e acabou por estragar-se.
A telemedicina hoje está muito avançada e poderia ser utilizada não só pelos profissionais nas ilhas onde não existem cuidados diferenciados, mas até nos próprios hospitais, onde os clínicos em situações mais agudas, recorreriam a outros meios de diagnóstico mais eficazes e a uma segunda opinião médica. Num espírito de entre-ajuda e de partilha de conhecimentos que traria imensos benefícios aos utentes.
Na passada semana, decorreu em Angra, o 1º Encontro Regional de Telemedicina do Serviço Regional de Saúde, onde profissionais de saúde nacionais e regionais trocaram experiências.
O Secretário Regional do setor considerou, na ocasião, a Telemedicina uma das áreas fundamentais para o Serviço Regional de Saúde. Acrescentou, porém que na sua implementação “há resistência quer dos profissionais de saúde quer dos utentes.”
Para Luis Cabral a Telemedicina “aumenta a acessibilidade dos utentes a consultas de especialidade e a qualidade e segurança da resposta nas diversas áreas e na eficiência do serviço” pelo que é “uma das áreas fundamentais para o Serviço Regional de Saúde”. Deve, portanto, ser “encarada dessa forma por todos os profissionais”.
Perante os incontornáveis constrangimentos da insularidade, como a dificuldade de transportes rápidos e atempados inter-ilhas, ou a carência de clínicos gerais e especialistas em hospitais e centros de saúde, espanta que ainda não se tenha apostado, decididamente, na implementação da Telemedicina. O atraso na sua implementação é responsável por enormes despesas evitáveis e por grandes sacrifícios dos utentes.
Se os profissionais de saúde continuam a obstaculizar o pleno funcionamento da Telemedicina, e se a tutela, volvidos tantos anos, não consegue determinar como, quando, onde e com quem se vai operacionalizar esse sisteme, é porque não há abertura à inovação nem à modernização, e outros interesses falam mais alto.
Governar é responder, com determinação, às características e necessidades de cada ilha.
Nos tempos que correm, parece haver “uma tendência para o  mimetismo”(1) no sistema autonómico e no setor da saúde também. Regemo-nos por soluções nacionais em muitos casos, sem “termos a ousadia e a criatividade de idearmos aquelas estratégias e reunirmos aqueles instrumentos que vierem a ser considerados mais adequados para o cumprimento da nossa realidade e para o serviço dos nossos interesses”.(2)
Na política, na economia, na educação, na saúde… em tudo, afirmar a identidade do arquipélago dos Açores passa por ser e fazer diferente.
 

1)    Enes, José. Portugal Atlântico, pag.20, Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, 2015
2)    Idem, Prefácio Carlos E.Pacheco Amaral