Davos: onde a lógica do capital desvaloriza o Homem

Neste dia, em que se silenciam opiniões e comentários políticos, alegadamente para não influenciar o escrutínio nacional para a  escolha do Presidente da República, o mundo continua a girar, indiferente ao que se passa neste “país à beira mar plantado”.
Indiferentes ao personagem eleito que será o primeiro magistrado da nação, os senhores do dinheiro reuniram em Davos, pela 46ª vez, para refletir sobre a quarta revolução industrial sob o lema: ‘Dominar a quarta revolução industrial’. Enquanto muitos países ainda persistem na segunda revolução industrial, já se descortinam, com base na evolução da internet e da sociedade da informação, novas formas de produção que extinguirão, segundo os entendidos, 5 milhões de empregos, nos próximos cinco anos.
Coisa pouca, certamente, para os mais ricos e influentes senhores do mundo que se estima se tenham juntado a governantes, empresários, artistas e tantos outros, em número estimado entre as duas mil e as três mil pessoas.
Perante a crescente e incontrolável instabilidade e insegurança mundiais, os senhores do Forum Económico Mundial mostram-se indiferentes a milhões de seres humanos, escravizados pela pobreza e pelo sub-desenvolvimento. Para fazer face a esses clamores constantes da maior parte da humanidade, têm os dirigentes de muitos países de se deslocar à Suiça e implorar investimentos para que mão de obra barata produza em quantidade e qualidade produtos que as sociedades ricas facilmente consomem.
O Forum, faz recordar o conhecido episódio evangélico do rico avarento e do pobre Lázaro.
Os interesses ali negociados não visam a resolução das desigualdades sociais e o termo dos infindáveis conflitos regionais que ceifam milhões de vidas humanas, mas interesses pessoais e de grupo, de questionável bondade social.
Ciente de tudo isto, o Papa Francisco lançou um apelo aos participantes na Cimeira, para “abrir(em) os olhos para ver as misérias do mundo, as feridas de muitos irmãos e irmãs desprovidas de dignidade”. E acrescenta: “Não esqueçais os pobres! Este é o principal desafio que, como líderes no mundo dos negócios, tendes diante de vós”.
Compreendendo embora as mudanças profundas e o desenvolvimento científico, Francisco exorta os dirigentes mundiais a  “garantir(em) que a iminente ‘quarta revolução industrial’ e os efeitos da robótica e das inovações científicas e tecnológicas não levem à destruição da pessoa humana – a ser substituída por uma máquina sem alma”.
São cada vez mais notórias as desigualdades sociais: a concentração da riqueza nos cofres de muito poucos contrasta com a expansão da pobreza num universo de milhões de seres humanos, cujos rostos clamam por justiça.
Ao clamar por sociedades pacíficas, em que o trabalho com justos salários seja acedido por todos, estamos a tentar construir sociedades inclusivas, de bem-estar.
Num grito final o Papa pede aos participantes no Forum Económico Mundial: “Não tenhais medo de abrir a mente e o coração aos pobres”.
Como eu desejava que este apelo entrasse na mente dos donos do dinheiro!...
Pelos vistos, o mundo dos negócios rege-se por princípios onde só o capital comanda e que não contempla nem a dignidade, nem os direitos da pessoa humana.
    Para fazer face à quarta revolução industrial, há que desencadear, em simultâneo, uma outra revolução de mentalidades, impondo o Homem ao capital e o destino universal dos bens ao lucro e benefício de muito poucos. Só assim a Humanidade terá paz, equidade e desenvolvimento.


*jornalista c.p. 536
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