Uma saúde precária

A cidade retomava o seu ritmo habitual, interrompido pelo feriado da Segunda-Feira do Espírito Santo.
Um dos destinos mais procurados, durante a semana, é o Hospital do Divino Espírito Santo (HDES), instituição social da maior importância, pelos objetivos que persegue e pelo número de profissionais de saúde que lá trabalham.
Os cuidados de saúde, face ao crescente envelhecimento da população, constituem um serviço de inegável relevância nas nossas ilhas, embora apenas três Hospitais possuam cuidados de saúde diferenciados. É, certamente, por isso que largas dezenas de utentes ali se deslocam pela manhã, seja para consultas de especialidade, seja para exames complementares de diagnóstico.
Esta terça-feira, o serviço de recolha de análises esteve a abarrotar de gente com maleitas declaradas, a necessitar de cuidados atempados, como os diabéticos, idosos e outros mais que, de pé, sem espaço para se sentarem, seguravam, silenciosamente, as paredes à espera que alguém, de voz fagueira, os chamasse.
Tudo decorria numa tranquilidade inquietante, até que dois diabéticos dão sinais de desmaio. Uma das acompanhantes previne o pessoal de serviço para a lentidão do mesmo e para o adiantado da hora. Por volta das 10h10, uma doente descompensada desmaia e estende-se no chão, ao comprido. De pronto foi reanimada pelo pessoal do hospital com o tratamento adequado. Daí a pouco, outro senhor de idade dá também sinais de exaustão, mas consegue superá-la, com a ajuda de familiares. Dois exemplos que, segundo ouvi na sala, parecem habituais. 
Será que nada pode ser feito? Não se poderá implementar um processo de funcionamento mais célere? Ou os utentes daqueles serviços têm de sujeitar-se a espaços exíguos (ao lado estava uma sala mais ampla, quase vazia), e a situações que podem agravam o seu estado de saúde e a estabilidade emocional de que tanto necessitam?
A acreditação internacional que o HDES exteriormente ostenta, deveria levar os seus gestores a disponibilizarem serviços condignos em todas as áreas dos cuidados diferenciados. E se for preciso, que se ausculte os utentes, por telefone, como acontece – e bem!- nas consultas externas.
Com a saúde não se brinca, e os açorianos de várias ilhas,  privados de alternativas nos cuidados de saúde, têm o direito de exigir o melhor possível, dentro das disponibilidades existentes.
Há muito que se reclama melhorias significativas na prestação de cuidados médicos, mas esse direito tarda em concretizar-se.
Ao contrário do que seria de esperar, os vultuosos investimentos na construção de equipamentos hospitalares e centros de saúde, não foram acompanhados de significativas melhorias na prestação de cuidados diferenciados e nos meios de diagnóstico.
Fala-se e projeta-se, há cerca de 20 anos, a instalação de serviços de Telemedicina nos centros de saúde mais afastados dos Hospitais centrais, mas ainda não se passou de discursos bem intencionados.
Conclusão: confrontados com situações graves, os clínicos dos centros de saúde do Corvo a Santa Maria, vêem-se impotentes para tratar os utentes, quando, num simples contato à distância, usando  equipamentos de diagnóstico, poderiam ter a opinião abalizada de um médico da especialidade, e resolver tantas situações.
O caso mais falado é o da Ilha do Pico, onde foi recentemente construído, na Madalena, um novo Centro de Saúde, com espaços destinados a prestar valências hospitalares. Após alguma turbulência gerada pelo anúncio do encerramento noturno dos outros centros de saúde, tudo continuou como dantes e nenhuma melhoria se registou.
Diariamente os picoenses continuam a atravessar o canal Pico/Faial para simples consultas de especialidade, exames, ou tratamentos hospitalares, e as parturientes têm de deslocar-se antecipadamente para a Horta, à espera da sua hora.
O aumento do número de turistas em todas as ilhas, implica necessariamente, respostas atempadas e qualificadas na prestação de cuidados de saúde. Essa pode ser também uma mais valia a que noutra crónica já me referi.
Em primeiro lugar, porém, estão os açorianos de TODAS AS ILHAS, que merecem, onde quer que vivam, um Serviço Regional de Saúde capaz e credível.