Imóveis da nossa História

Foi há dias notícia a venda da primeira casa construída na Avenida Gaspar Frutuoso, em Ponta Delgada, pertencente ao advogado e escritor Dr. Agnelo Casimiro. O projeto do edifício, “ao espírito da antiga casa portuguesa”(1) é da autoria do grande arquiteto continental Raúl Lino (1879-1974).
Desde muito novo, quando estudava no Seminário Menor de Santo Cristo, instalado no antigo Colégio dos Jesuítas, habituei-me a  olhar e admirar aquele imóvel, pois o seu estilo não se compaginava com a arquitetura tradicional de certos palácios e casas senhoriais da cidade.
Sobranceira ao Jardim de Antero de Quental, o seu proprietário, “açoriano de coração, continental pelo nascimento, quiz trazer para a nossa ilha um pouco do gosto de Portugal velho.”(2)
O imóvel, segundo a mesma revista, foi edificado pelo construtor civil A.J.Gama, com material local. O tijolo e a telha foram produzidos pela Cerâmica de Construção Micaelense. “O alpendre do lado sul, é decorado com três painéis de azulejos com cenas da vida regional, encimados por uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da casa. É o primeiro trabalho de azulejos do pintor Domingos Rebelo, fabricados por António José da Silva na sua pequena fábrica da Lagoa” – refere também a citada Revista “Os Açores”.
Perante tantos atributos, mal seria que o seu futuro proprietário não acautelasse esse património, seguindo as normas de preservação da arquitetura urbana construída; muito menos que as autoridades locais e regionais fechassem os olhos ao destino daquele importante edifício.
O Certo é que já assim procederam com outros edifícios, sem que mal nenhum viesse às suas decisões. O que me revoltou mais foi a destruição da Fábrica da Baleia dos Poços de São Vicente, pelas ligações que desde infância tenho com a cultura baleeira da ilha do Pico, e que me levaram a que, em vão, alertasse para o estado de abandono daquele património industrial.
O mesmo alerta fiz, há mais de uma década, sobre o estado de degradação do imóvel e recheio da Fábrica de Linho da Ribeirinha, inaugurada, em 23 de Julho de 1923.
Por tratar-se de uma das mais antigas atividades industriais destas ilhas, aquela fábrica não pode, pela incúria, desmoronar-se, sem que a opinião pública e os responsáveis pela história e cultura do povo micaelense demonstrem o seu empenho e interesse em revitalizar um passado de que todos nos devíamos orgulhar.
Que diriam hoje António Canavarro de Vasconcelos, Eugénio da Câmara e Artur Severim, se os seus olhos vissem o estado em que estão os teares alemães, fabricados pela casa Hartmann de Dresden, onde, no dizer de José Agostinho (3) se podiam produzir tecidos simples, adamascados, linhagem para sacos e até finas cambraias?
Sabendo-se que muitos dos nossos visitantes são alemães, a recuperação daquela infraestrutura em museu, seria mais um motivo aliciante, a que se poderia associar a cultura artesanal do linho nos terrenos contíguos, o tratamento e aproveitamento das plantas na ribeira e a sua transformação em produtos artesanais manufaturados.
A económica desta ilha envolveu, em tempos não muito recuados, iniciativas de produção industrial não só do linho, mas da espadana de onde se chegou a retirar apreciáveis resultados, antes do surgimento de fibras sintéticas.
A história do nosso povo deve ser preservada nos seus mais significativos detalhes, para que a geração atual e os vindouros possam compreender o nosso percurso histórico.
Deve, pois, haver uma atenção especial e constante, para que nada se perca do que fomos e somos como povo. O conhecimento que temos da nação norte-americana, com menos de 300 anos de história, pode ser um exemplo a seguir no modo como recuperar e reavivar a nossa Herança Cultural.
Os três exemplos citados são apenas alguns dos muitos exemplares arquitetónicos existentes nesta ilha – uns irremediavelmente perdidos, outros degradados, a maioria ainda não. É destes que devemos cuidar, sem desvelo.

*jornalista c.p. 536
http://escritemdia.blogspot.com