Incenso ou faia do norte alastra, sem controlo, na floresta da Ilha do Pico

A Ilha Pico, a segunda de maior dimensão do Arquipélago, tem uma população a rondar os 14 mil habitantes, uma área de utilização de solo urbano de 957ha, uma cobertura florestal de 14.941ha e de uma área de culturas agrícolas ou de pastagens de 22.392,8ha (dados da DRRF, 2007).
Esta diferença nota-se a olho nú, ao andarmos em volta da ilha. É mais pronunciada no sul, nas proximidades da Montanha, nas terras altas de São Mateus, São Caetano e São João, e mais adiante nas Lajes e Ribeiras; a norte, nas freguesias de Santo Amaro, Prainha, São Roque, (ver imagem) e depois em Santa Luzia e Bandeiras. Parece até que, de ano para ano, (pese embora os apreciáveis reaproveitamentos de antigos terrenos vitivinícolas, que estão a modificar a paisagem) é mais serrada a superfície florestal inculta, devido ao surgimento das faias e incensos, em terrenos de mato abandonados pela população envelhecida, sem forças para trabalhar suas terras.
As consequências desta situação preocupante, que não traz qualquer proveito a uma economia sustentável, é existirem 956,2ha de Faias, enquanto o Incenso ou Faia do Norte abrange 11,705ha e cresce desalmadamente, sem que nenhum programa ou projeto florestal seja implementado para estancar a sua progressão.
Sabendo-se que o incenso impede o desenvolvimento de outras espécies, o seu “controlo (…) exige uma gestão bem planeada, que inclua a determinação da área invadida, identificação das causas da invasão, avaliação dos impactes, definição das prioridades de intervenção, seleção das metodologias de controlo adequadas e sua aplicação.”(1)
Analisando o quadro das principais espécies florestais existentes no Pico, São Miguel e Terceira, constata-se que a criptoméria ocupa no Pico 840ha, contra 8.540ha, e 1.609,9ha, na Terceira. É notório e evidente a importância económica da criptoméria na ilha do Arcanjo e na Terceira. E mesmo no Faial, a área desta espécie florestal suplanta a da ilha do Pico.(2)
Em 2014, um documento da Direção Regional dos Recursos florestais, intitulado: Estratégia Florestal para os Açores, reconhecia “A Cryptomeria japonica enquanto esteio da fileira florestal regional, imagem de marca da floresta de produção local, e a principal espécie presente nas áreas públicas e privadas”. E acrescentava: “assume um papel fulcral na definição da nova estratégia florestal, desde logo pela possibilidade da criação de emprego direto, quer nas atividades de exploração florestal, rearborização e manutenção dos povoamentos, quer na indústria de transformação a jusante.”
Desconheço se estas intenções passaram do papel à prática.
Na pesquisa efetuada junto das fontes oficiais disponíveis, nomeadamente DRRF e SREA, não encontrei dados recentes sobre a evolução registada neste setor. A maioria dos documentos existentes agrupam no todo regional o que deveria ser discriminado por ilhas, para melhor perceber-se a realidade de cada uma delas. Ao contrário do que afirma o documento estratégico, parece não ter sido feito nenhum inventário, nem mesmo “a disponibilização pública de uma plataforma digital inovadora, que agilize o processo de elaboração dos Planos de Gestão Florestal (PGF), e que simultaneamente disponibilize, de forma dinâmica, informatizada e atualizada a cartografia e os restantes elementos que alimentam estes instrumentos de gestão.” Desconheço se os PGF foram delineados para cada uma das ilhas, em que estádios de execução se encontram, e que dificuldades e aceitação mereceram dos proprietários dos terrenos.
O que o cidadão observa nesta ilha, é a ausência de uma política de promoção florestal sustentada e de reordenamento do território, que beneficie economicamente os proprietários e contribua para o aumento da riqueza.
Um simples exemplo da falta de uma política florestal foi o corte de criptomérias, efetuado há poucos anos na estrada regional, sem que novas plantas fossem lá colocadas.     Outro é a forma como são tratados os pinhais dos chamados “mistérios”, que, por falta de limpeza, começam a ser infestados por incenso e faias.
Como faziam anteriormente os serviços florestais regionais, confidenciou-nos um antigo funcionário do setor, é necessário um contato direto com os proprietários dos terrenos, demonstrando-lhes as vantagens da florestação de terras agrícolas, da reconversão e beneficiação florestal, acompanhando-os nos trabalhos de campo e explicando-lhes os apoios financeiros disponíveis.
“Foi assim que se construiu o perímetro florestal do Nordeste, em São Miguel”- rematou a mesma fonte.
Aqui no Pico dá-se mais importância ao abate de incensos, de faias, e de urzes, fiscaliza-se e penaliza-se os “infratores”, mas desvaloriza-se o reordenamento do território e a plantação de espécies florestais rentáveis.
O problema é da maior atualidade para a economia da ilha. Para o enfrentar, impõe-se um urgente e eficaz Plano de Gestão Florestal, de forma a que o galopante declínio demográfico e a consequente desertificação, não redundem em empobrecimento das populações rurais.
Ou agora, ou então já será tarde!

*jornalista c.p. 536
http://escritemdia.blogspot.com

1) invasoras.pt
2)Estratégia Florestal dos Açores (EFA), DRRF, SRAA, 2014