Mário Soares - O Valor da Memória para a Vida: O Futuro do seu Passado

Sempre apreciei a Figura do Doutor Mário Soares. Sempre gostei de o ouvir. A palavra ouvida, da sua boca, uma palavra lida ou dita tinha sempre sentido, na aceção topológica e na aceção de significação do termo. Abria um caminho, um rumo, uma direção. Ao mesmo tempo gerava sentidos. Ou se gosta ou não se gosta. Eu gostava do Doutor Mário Soares. Sempre tive esse sentimento, essa intuição. Mas é preciso clarificar. Nietzsche defendia que o gosto é um órgão do conhecimento, um conhecimento que se torna estético, que traz beleza à vida. Mas não gostar de uma Pessoa não pode legitimar, nunca, persegui-la. Nunca, jamais. O Doutor Mário Soares foi vítima da perseguição e da inveja. Só os ditadores, os fracos no sentido de medíocres, ficam perturbados com os que lhes fazem sombra. Mário Soares esteve preso muitas vezes, foi exilado e foi deportado. Mas não pôs nada fora. Soube fazer luz, até com as dificuldades, adversidades, atribulações e perseguições na sua vida. 
Na semana após a sua morte, vi vários documentários de e sobre Mário Soares. Os primeiros, em primeira pessoa, tinham um registo muito especial. No modo como falava, no seu jeito de falar com todo o corpo e com o corpo todo, dando corpo às ideias, tinha um sentido de narrar e de descrever que conciliava o rigor com o humor, criava boa disposição. A andar, ou mesmo sentado, Mário Soares era movimento em todo o seu ser, era energia e luz. Nele nada era estático. Pelo contrário, esse movimento e vivacidade eram hinos à vida e à Democracia, que nunca era uma conquista nem devia ser dada como adquirida, como sempre advertia. No seu Magistério Público, ouvi Mário Soares afirmar que a Democracia se faz e se defende todos os dias, em cada dia. E é verdade. Mas só dá valor quem lutou por ela e a sente por dentro. Para ele Liberdade e Desenvolvimento estavam em dinâmica permanente.
O comunismo-marxismo e o Nacional-Socialismo (ideologia nazista) foram dois males de que milhões e milhões de seres humanos foram vítimas de morte, indefesas, foram duas monstruosidades terríveis na História do Século XX, foram modos e formas de alienação monstruosas, barbaridades cometidas por psicopatas, que podem sempre (re)nascer na História, nas Instituições e nos Governos dos povos. Não basta a bondade das ideias, estas têm de descer do céu estrelado para a realidade na História, sem nunca nesta se alienarem. Fora do seu contexto, - neste caso do contexto histórico- as palavras ficam descontaminadas. “Estado Novo” de novo não teve nada, foi uma ditadura que perseguiu e aniquilo  as pessoas e o povo. Sem Democracia não há vida, das pessoas e dos povos. O Doutor Mário Soares esteve sempre na linha da frente do combate, sem nunca desfalecer, até ao fim da sua vida. Foi um Herói. 
Mário Soares (1924 - 2017) foi um Platão das Ideais com o realismo de um Aristóteles, a Utopia movida para a Realidade. Foi um Figura ímpar, Singular. Por isso soube encarnar, em cada época, o Espírito do (seu) tempo mas também soube fazer contra-correntes, com consciência histórica, para que outra História pudesse ser e acontecer. Os seus escritos sobre a “Globalização”, os (des)caminhos da Europa e os perigos do “capitalismo selvagem”, - para os quais João Paulo II advertira severamente -, foram razões fortes, entre muitas outras, para a intervenção cívica de Mário Soares, até ao fim mas que deve ficar, como Pensamento vivo, como Património vivo. São infindáveis os verbos, os substantivos e os adjetivos para falar de Mário Soares, esse Gigante da Política, que muitas vezes me fez acreditar numa outra Sociedade, melhor, sempre a Haver, num desígnio que Agostinho da Silva bem soube interpretar.
Mário Soares foi verdadeiramente português, europeu e um político-cidadão do Mundo. É um Homem que sabia muito. Desde logo, tinha a mais funda e profunda intuição do saber que é aquele que vem da experiência e da vivência, da sua,  que era muita, que era imensa. O Doutor Mário Soares era um Oceano de Conhecimento, era um Mar profundo, com imensos tesouros de Sabedoria. Desta que falta aos Políticos, ditos encartados, que são aqueles que facilmente se tornam situacionistas. Ora, assumindo-se como Político, Mário Soares sabia que nada é uma garantia para sempre, nada é um dado adquirido na História. Os seus discursos na Assembleia da República tinham tanto de solenidade como de espontaneidade, nos ambientes mais suspensos de respiração punha imensa naturalidade e a vida começava a circular. Era - também por isso se via - um Homem de Cultura, só a Cultura nos torna donos de nós próprios, em abertura, a respirar pelos nossos próprios pulmões, quando se sabe que as ditaduras o que pretendem é retirar o oxigénio, o ar puro. Os ditadores, de sinais contrários, têm horror à vida.
Como Cidadão, que nunca privei com o Doutor Mário Soares, mas que sempre o ouvia, tinha a sensação de que havia nele um pacto secreto com a vida. E na sua pessoa, a ser, ensinava tudo isso e muito mais. Foi um grande Pedagogo da e na vida Cívica, em Humanidade, concreta. Era um Político Culto e isso fazia toda a diferença. Ponha tudo a mexer. Não percebia de economia? Nunca tive essa noção. “Não estudava os dossiês”, - afirmação imprecisa -, certamente não ligava ao entulho mas sabia por onde passava o essencial, o respirável. Que tipo de dossiês podem salvar uma Europa, sem políticos, sem pensadores, sem visão de futuro, para as pessoas e com as pessoas?, uma Europa que esvaziou perigosamente a política, tornando-se tecnocrata, melhor, conduzida, - não liderada-, por uma ideologia perigosa, sem rostos, que pode levar ao regresso de nacionalismos agressivos e autoritários. Até como criticou o modo como os tecnocratas da Troika se apresentavam em Portugal, Mário Soares vincou que esses técnicos eram recebidos como se de políticos se tratassem. Era uma posição crítica que fazia - e faz -  a diferença de análise e de perspetiva entre a Política e as soluções técnicas que a ela se devem subordinar.   
Não interessava - nem interessa - ficar para sempre um “bom aluno” de uma Europa imposta, importa, sim, ser sempre um “bom estudante” de uma Nova Europa que tem de ir beber às fontes e à nascente, aos princípios para se relançar no Futuro para que o pior do século XX nunca mais aconteça. Para isso é preciso Cultura e ter o gosto por estudar, tudo, na sua complexidade, que é da natureza da inteligência, do ver. E o Doutor Mário Soares via-se que tinha um ímpeto pelo estudo, não apenas dos livros mas da vida. Costumo afirmar que os bons livros estão cheios de vida e a vida cheia de livros. Ora, Mário Soares vivia, sabia viver. Tinha um “faro” invejável. Como animais, que também somos, o Doutor Mário Soares, como várias vezes era dito, foi um “animal político”, na velha mas sempre nova conceção de Aristóteles, dos antigos que são sempre novos. Era um Homem reto e correto, com enorme sentido das causas, dos princípios e dos valores morais, no alto rigor de um Antero de Quental. Viu-se como esteve ao lado de Figuras Públicas, em Defesa -dando o seu Testemunho, que tanto me sensibilizou, como foi o caso da Dra. Leonor Beleza, - ou na visita, à prisão, ao Engº José Sócrates. Ensinou o que é a honra e a amizade. Que grandeza! Sempre se disse “Socialista, Republicano e Laico”. Nunca fui socialista. Mas vi nos seus gestos, numa república laica, - que também é minha - atos próprios de um verdadeiro cristão e isso move-me e comove-me. Era um Homem de Verdade, de Justiça, de Coragem. Foi um Homem que nunca esteve só, esteve sempre em intimidade com a sua Consciência Moral, com o seu Pensamento, que visava a ação e intervenção. 
Num documentário afirmou: “quem não tem inimigos não presta”, com isso, que tem de ser compreendido na fluência do contexto da entrevista, querendo significar que há que tomar posições, que o falso neutro é muito perigoso, e é, num mundo de falsidades e mentiras. Nesse mesmo depoimento - destaco o sentido - (não disponho das afirmações para pôr entre aspas, como se impõe), referindo-se a si e ao que havia escrito Nelson Mandela (julgo que o depoimento se reporta a 2013), dizia Mário Soares que uma Pessoa aprende mais na prisão do que na universidade, porque na prisão testa os seus limites. Que responsabilidade, acrescento, para as universidades, também nesta era Trump, serem templos e exemplo de liberdade, e liberdade criadora. Começa a ser tempo de distinguir o trigo do joio. Um bom legislador tem de saber ler o Doutor Mário Soares, no explícito e no implícito. Parafraseando Vergílio Ferreira, é no ininteligível que nós melhor nos entendemos! E como é tempo de dar corpo legal a esses princípios programáticos!... 
Nessa mesma entrevista, num tom e em gestos inconfundíveis, o Doutor Mário Soares, sem subestimar os cargos que ocupou, depois do 25 de abril de 1974, atribuiu, de longe, mais importância ao tempo em que foi um resistente e lutou contra a ditadura, porque aí escolheu e escolheu-se, na dureza e na pureza da luta e do combate. Foi aí que se revelou o seu ADN como Político, como Democrata, como Humanista. Nunca foi um situacionista nem antes nem depois do 25 de abril. Fez aprendizagens profundas e duradouras, que estão para além de qualquer conjunta, e por isso, nele, a mudança nunca foi um ‘slogan’ mas identificou-se com a causa da Liberdade,  “a substância do Tempo”, na bela e intemporal expressão da Grande Poeta Shophia de Mello Breyner Andresen: “E livres habitamos a substância do tempo”.
Por tudo isto se vê a conceção do Poder como Liberdade de que deu provas Mário Soares.  
O Doutor Mário Soares era uma Pessoa muito bem formada do ponto de vista intelectual. Aliás, era sempre intelectualmente honesto. Por si, por natureza, por fazer sempre o “bom combate”. Era licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas e em Direito. Era um estudioso e conhecedor da História de Portugal, da Europa e do Mundo. E tudo isto ajudou, também, a ser a Pessoa que sempre foi, sempre coerente mas sempre capaz de discernir as contradições e as dinâmicas da História. Mas percebia-se que lia as coisas por dentro, que antevia, como poucos, o curso das coisas e dos acontecimentos, lidando, com segurança, entre as incertezas. Edgar Morin fala na Ecologia da ação. Por isto, para esta ser bem direcionada precisa de pessoas cultas, e só daqui podem sair bons líderes e bons políticos. Profissionais - ou não - esse foi um despique colateral que deve ser contextualizado e muito relativizado. Explicado, também. Aqui o adjetivo é acidental, ao contrário de outros adjetivos que bem colocados são substantivos.
À Figura do Doutor Mário Soares associo sempre, também, a Figura da Dra. Maria Barroso, Culta, Doce e muito Firme.  Únicos mas cúmplices. Ambos foram, no sentido profundo, autores e atores. Representavam, na sua essência, o que eram, quem eram. E só foram grandes, numa e noutra dimensão, porque foram em Verdade, foram iguais a si mesmos, genuínos, Sempre.
Partiram, em Beleza. Em Poesia. O Espírito que foi e ficou.
Nas Honras de Estado, a Família esteve, simplesmente, exemplarmente.
Um Eterno Adeus.       

*Doutorado e Agregado em Educação  na Especialidade de Filosofia da Educação