7.400 dias

Diz a voz popular, que um qualquer valor é muito se for para pagar e pouco se for para receber. Pode-se dizer coisa parecida dos 7.400 dias, conforme aquilo a que se reportam: se for uma vida inteira, é pouco. Se for férias pagas, já é simpático. Se for a longevidade de um governo em democracia, é mau, pois a democracia não é compatível com um regime monopartidário. A Madeira padece deste mal, com o mesmo partido no Governo desde que a Região é Autónoma e desde que elege a sua Assembleia democraticamente. Mas, neste capítulo, os Açores estão tão mal como a Madeira, apesar de, por cá, o maior ciclo de governação de um mesmo partido estar a caminho dos 24 anos. Mesmo assim, já lá vão 7.400 dias: 20 anos e mais ou menos 100 dias.
Há cerca de 20 anos os telemóveis estavam a dar os primeiros passos no nosso país (a TMN e a Telecel tentavam cativar clientes para estas novidades). Aguardava-se o milénio com grande expectativa e o mundo desdobrava-se em especulações preocupações quanto ao bug do ano 2000. Jorge Sampaio era Presidente da República e António Guterres era primeiro-Ministro. A Contra-Informação estreava na TV. O FC Porto, com Jardel a melhor marcador, ganhava o tri. O Eusébio e a Amália Rodrigues estavam vivos. O Cristiano Ronaldo tinha 11 anos… eu tinha menos 20 anos que agora. Um temporal fazia encalhar um navio na Baía de Angra e um ano depois dava-se a tragédia da Ribeira Quente.
Passaram estes anos todos e o poder político está igual, cristalizado e entranhado no PS. Por um lado, a falta de alternância conduz a uma teia de dependências facilmente explorável pelo poder político. Por outro, a falta de poder económico independente do poder político e o fracasso do ensino como impulsionador da mobilidade e da ascensão social, permitem que o poder político mande sozinho, sem contrapeso. Não só o poder político é o único poder, como ainda é também o principal poder económico e o principal fator de mobilidade social.
O PS está no Governo dos Açores há 7.400 dias (20 anos e 100 dias)! O atual presidente do Governo Regional já faz parte do Governo Regional desde 2003, nas pastas da economia e da agricultura e pescas. Antes fazia parte do grupo parlamentar do PS. As soluções que o PS apresenta são as mesmas que anuncia desde há 20 anos, algumas que nunca chegou a implementar ou completar. E os problemas dos Açores, apesar da muita maquilhagem, continuam sem resposta adequada.
A análise política destes 7.400 dias não corresponde à análise eleitoral, essa sim positiva, pois o PS mantém o poder de forma contínua ao longo desses milhares de dias. A análise política destes 100+7.300 dias é negativa, pelos indicadores económicos e sociais e pelo clima de tensão e opressão que se sente e se vive na Região. E a opressão já nem é escondida, chegando ao plano institucional: o PS, incomodado com vozes discordantes, propõe-se alterar o regimento da Assembleia Legislativa Regional, para tirar tempo e capacidade de intervenção à oposição (diga-se, em abono da verdade, que quando chegou ao poder em 1996 fez o oposto do que pretende agora fazer, quiçá ajudado pelo CDS/PP e pela falta de maioria absoluta).
Ao contrário do discurso triunfalista do PS, a Região está pior com estes 20 anos de governação contínua do PS: acentuou-se a desertificação em várias ilhas; acentuou-se o centralismo numa só ilha; acentuou-se a dependência – eu diria quase irreversível – da economia em relação ao poder político e ao dinheiro público; as diferenças de riqueza e desenvolvimento acentuaram-se entre as ilhas; as ligações entre as ilhas degradaram-se (ironicamente, pois há mais facilidades de ligação); o desenvolvimento assenta no modelo de atribuição de apoios e não em encontrar soluções sustentáveis; o número de dependentes do orçamento do estado e da região nos Açores é de quase 60% da população ativa…
Em 20 anos quase nada de essencial mudou por impulso do PS. O PS governa como se o seu único propósito fosse manter-se no governo, esquecendo-se deliberadamente que esta construção Autonómica tem como fim o desenvolvimento económico e social da Região.
Neste caso, 7.400 dias são demasiado tempo! E ainda faltam mais 1.360 dias até novas eleições regionais! Valha-nos o Carnaval para esquecer esta triste realidade durante uns 4 dias...