Eleições em França: Razões para uma Reflexão, no Horizonte do Futuro

No passado dia 23 de abril deste ano de 2017, tiveram lugar as eleições francesas para a Presidência da República. Na primeira volta, foram mais votados Emmanuel Macron e Marine Le Pen. Nome aziago, este último.
A França e a Europa precisam de fermento, de perspetiva, de Horizonte e de Esperança. Mas os políticos precisam de um forte arroxo, o tempo de jogadas, como se os cidadãos não existissem, - e não entendessem - tem de pertencer definitivamente ao passado. Os cidadãos não estão apenas cansados, estão fartos, estão furiosamente indignados. Ou se acerta o Rumo, ou, caso contrário, a Europa não terá uma próxima oportunidade e poderá caminhar, de modo irreversível e perigosíssimo, para o abismo.
De que Fermento precisa a Europa? De ideias, de causas, de princípios atuantes, de ação esclarecida. Se fosse francês teria votado e votaria, sem um milímetro de dúvida, em Emmanuel Macron. Só o nome cria uma ambiência afetiva que nada tem a ver com as questões de género, como se vê, mas com o Género das Ideias. Embora Emmanuel Macron não deva ser uma soma de compromissos mas corporizar a unidade de um Projeto para a França e para a Europa. É, justamente, a França e a Europa que estão, simultaneamente, em causa. Salvar uma é salvar a outra, condenar uma é condenar a outra.
A Europa tem de revigorar os seus mais profundos Valores identitários, com pessoas que valem como Pessoas. A Pessoa vale como Pessoa e só aí está a sua Grandeza e a Garantia de Ser em Honestidade, em Valores Humanos.
Quem, por ser homem ou mulher, faz a diferença entre votar em matéria de leis pela vida ou a favor da eutanásia?, em salvaguardar os mais frágeis e abandonados, os Cristos Partidos? Nem Homem nem Mulher, em Política, mas o Género Humano. Eduquemos as Pessoas, o Género Humano.
Eduquemos as Ideias que nos fazem e com as quais somos, mais ou menos gente, mais ou menos Pessoas. E temos de ser Pessoas. Com as ideias, que temos ou não temos, fazemos mais e melhor Europa ou menos e pior Europa. A Dignidade escreve-se com Maiúscula, no feminino, ou no masculino. 
De que Género eram os Pais Fundadores da Europa? Eram do Género das Ideias altas, profundas e dignas. Das Ideias que nos fazem acreditar no melhor que há em nós, em cada um de nós, no ser Humano, no Género Humano. Os Pais fundadores da União Europeia (então CEE – Comunidade Económica Europeia) sentiam a dor das feridas e das chagas da Guerra. Eram valentes e sensíveis. Lutaram e aguentaram por um Ideal, um Ideal de Paz. Os Pais da União Europeia tinham – tiveram - o sentido da Maternidade e da Paternidade da Europa. Eram Homens de Inteligência, de Sensibilidade, de Visão, de Cultura. Eram Homens que se alimentavam da seiva e da polpa da Verdadeira Política, uma Política de Rosto Humano, de e para cada Pessoa, de cada Povo. Eram Homens que vibravam com a Palavra e com a Música que habitam o Tempo.
Ora, as eleições em França são cruciais para a própria França e, simultaneamente, para a Europa. Mas é preciso que a Europa tome sentido. A Europa e os seus líderes só o serão se tiverem a Sabedoria de criar condições para que cada Cidadão seja protagonista, que cada Povo seja protagonista. Ou o projeto é comum ou não é. Essa Europa a várias velocidades tem de ser explicada – desconfio dela – porque se reporta a razões económicas e financeiras, não a razões políticas, sociais e culturais. Ora a CEE deu origem à União Europeia. E a sua divisa é “Unida na Diversidade”. E o seu Hino é o Hino da Alegria. Esses valores têm de ser revigorados. A Paz, a Liberdade, o Desenvolvimento, a Justiça, a Segurança, a Diversidade, a Unidade em Diversidade.
Quando a maioria dos povos, melhor, dos governantes – com as suas ideologias – nas costas do Povo, decidiram não incluir no Preâmbulo da Constituição Europeia, a referência às raízes judaico-cristãs da Europa, senti que era uma Traição a Deus e uma traição aos europeus. Tal referência não tinha, como é natural, um vínculo programático.
Só os Valores dão força e coesão à Europa. Emmanuel Macron não tem um valor acrescido pela idade cronológica que tem. A sua juventude não vale por si. Nós temos a idade do nosso olhar, diz Vergílio Ferreira. Que olhar, profundo, tem Emmanuel Macron sobre a Europa? Será que nele mora o Espírito e a Alma da Europa? É Preciso ver latejar esse ideal e realidade. Ora, Jacques Delors, - Grande Presidente da Comissão Europeia, que foi – continua a dar sinais pujantes e provas de maturidade, - inequívoca -, de juventude, de pragmatismo e de sonho. As Utopias têm um potencial enorme de realização. Só um Coração Grande pode Saber Abraçar e Pensar a Europa. 
   

Nota: Este texto foi lido, originalmente, na Crónica Sinais no Caminho das Palavras, no Programa Entre Palavras, da Rádio Atlântida, no passado dia 30 de abril, deste ano de 2017. 


*Doutorado e Agregado em Educação e na Especialidade de Filosofia da Educação