Aquele dia que um Santo passou nos Açores!

Faz agora 26 anos que, em 11 de Maio de 1991, se passou em Ponta Delgada um sonho de grande intensidade emocional, como nunca tinha acontecido, com a Visita Pastoral de São João Paulo II à nossa Diocese. 

Foi «como se a história da salvação passasse por momentos entre nós», gravando no nosso coração a imagem daquele Papa Peregrino que durante o seu longo e edificante pontificado viajou pelo mundo levando uma mensagem de salvação e de ternura que Ele tão bem sabia transmitir, arrebatando o povo micaelense e promovendo momentos de alta tensão que parecia que o Céu e a Terra se fundiam sobre o solo açoriano!

Vivi esse dia algum tempo antes - por via duma cuidada preparação religioso/pedagógica que «sonhamos» e pudesse ser desenvolvida nas nossas escolas do 1º ciclo, juntando no mesmo sentimento de fiel e de aliança ao Papa que hoje é Santo, uma comovente unidade de pensamento e de acção, com os alunos, com os professores e ainda os seus familiares, através dum projecto a que simbolicamente então resolvemos chamar de «ENCONTRO COM UM AMIGO», mas que imediatamente se transformou num momento cheio de ternura como nunca se havia repetido entre nós, sobretudo quando o coração do Papa se juntou a cada um de nós!

Foi como se nesta terra amanhecesse um novo dia, através da transformação que esse ternurento encontro chegou ao alcance de todos - aos presentes no Campo de S. Francisco, e aos que em casa o viram através da Televisão ou o ouviram pela Rádio – podendo assim presenciar não só a presença de S. João Paulo II, como participar na cerimónia da Proclamação da Palavra e ainda naquele comovente olhar frente a frente com a Imagem do Senhor Santo Cristo.

E, por isso, no seu regresso ao Vaticano, pode afirmar: «não posso recordar todos os pormenores, mas gravou-se profundamente no meu coração o encontro com o ECCE HOMO, em Ponta Delgada».

Contou-me o meu saudoso amigo António Costa Santos, que, de acordo com o protocolo e após ter cumprimentado as principais autoridades ali presentes o Papa dirigiu-se aos membros da Irmandade; e, primeiramente, para o seu Provedor. Contudo, no momento em que o ia cumprimentar, São João Paulo II fixou, como num relance místico, o rosto que inspira a Imagem do Senhor Santo Cristo, ali presente no seu andor; e que decerto, reparando naquele olhar diferente e misericordioso que a Veneranda Imagem revela, passou adiante de todos para apressadamente se dirigir e só se centrar, de joelhos, numa atitude de prolongada e orante veneração, esquecendo-se de si mesmo e dos que aguardavam se iniciasse a Celebração da Palavra, a ponto do Bispo D. Aurélio, lhe ter segredado (contra a vontade de alguns dos membros do episcopado presentes), que era chegado o momento de terminar aquele Encontro tão pessoal, que afinal só traduzia uma grande intensidade de pessoal.

Aliás, a esse propósito, como então escreveu o cónego António Rego «foi tudo como se tivesse rebentado um vulcão», pois o nosso povo como talhado em basalto cinzento, soube escutar e viver o apelo de interioridade que a Igreja e as escolas souberam transmitir; e a lava correu como lágrimas de emoção que a todos tocou e inspirou naquele momento em que parecia que a terra micaelense e o Céu se tocaram de maneira tão resplandecente!

Tive a honra de estar junto desse Santo, (a quem hoje tantas vezes recorro), por via da bondade de outro grande Amigo, Monsenhor José Ribeiro Martins, que quis demonstrar o seu reconhecimento pelo trabalho de preparação que realizámos nas escolas.

No lugar que me tinha sido reservado, João Paulo II chegou a tocar-me… mas o « fiel» guarda costas não deixou que lhe beijasse a mão!

Soube mais tarde que a nossa Diocese, por via das escolas de S. Miguel e de Santa Maria, foram as únicas que «romperam» as barreiras da laicidade (hoje muito desvanecidas com a eleição do nosso actual Presidente da República) … e conseguiram realizar um trabalho tão intencional.

Aliás, nessa altura, a Autonomia vincou o seu lugar ao  creditar a realização desse trabalho pedagógico e de elevado sentido e Fé e de religiosidade; por isso, neste testemunho que hoje quis reservar para esta colaboração, não quero deixar de lembrar «a carta branca» que o então Presidente Mota Amaral me quis conceder.

Creio que foi um serviço que muito deve ter contribuído para cada vez mais unir os açorianos, pois com esse «ENCONTRO COM UM AMIGO», na carta de agradecimento que mais tarde recebi do assessor do Papa, Monsenhor Sandri, este afirmava que « Sua Santidade confiara-lhe a honrosa incumbência de nos agradecer o testemunho de estima e de corajoso espirito cristão demonstrados, como sinal de vitória , esperança e força dos corações».

Relembro esse dia memorável com enorme emoção e sei que muito do que se passou se ficou a dever ao espirito de serviço dos meus mais próximos colaboradores. 

Apesar dos anos que passaram, saúdo com muita amizade e louvor os professores e os alunos, pois que nos seus locais de trabalho, souberam entender este acontecimento como uma vivência, muito para além duma normal «ordem de serviço», mas com verdadeiro e esclarecido espírito de educadores e de educandos, alguns independentes das suas convicções religiosas.