Viagens no Tempo: Pulgas, cães e gatos

Incomodativas e atrevidas são as pulgas, que não se cansam de morder, sugando o sangue de suas vítimas.
Quando estudava no Liceu, hospedara-me num quarto, em Ponta Delgada, e tinha toda a noite a visita de uma, duas, três, eu sei lá de quantas, aborrecidas pulgas, deixando os lençóis marcados do meu precioso sangue – falta de limpeza, claro.
Atualmente, as pulgas praticamente desapareceram – quase…
E digo assim, porque os cães levam a vida a coçar-se, pois não cuidam de si, a não ser aqueles de estimação, pelos seus dedicados donos, que os têm como se fossem seus netos, chegando a dormir – pasme-se – na sua cama!
Isso, se é solteira e, na falta de companheiro, sempre dá um jeito, deixando-se que as lambem e outras carícias em lugares recônditos...
Mas cada um tem direitos, de que deles não abdica – pois alevá…
De facto, os gatos rosnam, quando tudo lhes corre bem, mas assanham-se por qualquer estranho que invade o seu território.
Certa vez, a nossa gata apareceu com uma ninhada de bichanos e vejam só quem assumiu a paternidade, nem mais nem menos, o nosso saudoso Joli, um cachorro rasteiro por nós muto querido, passando todo o dia a proteger a ninhada, sendo necessário levar-lhe comida e água, que partilhava com a sua comadre, até que eles, os bichanos, saíram do lugarejo e foram às suas vidas, na companha da mãe-gata, sempre com o olhar protetor do seu amigo Joli.     
E assim conviviam na grande quinta, escorraçando os intrusos, que se atreviam a rondar – tudo aquilo lhes pertencia.
Ah, se as saudades falassem, era só dar-lhes corda e eu entraria de férias…

 

Reflexão

Os animais, nossos companheiros, de trabalho, de vigia e diversão, são aqueles a quem devemos grande parte da nossa amizade.

Amanhã, já será tarde!

Talvez por razões de agenda político-partidária, o órgão legislativo, representativo do Povo das nove ilhas dos Açores, persiste em continuar à margem da venda do Novo Banco (NB).
Já aqui abordei o tema mas, pelos vistos, não despertou interesse dos deputados regionais e nacionais, nem do próprio governo regional.
Em política, o que parece é, pelo que se nos bastidores há interesse em reduzir a participação de 57,5% do NB no Novo Banco dos Açores (NBA), a opinião pública açoriana e os depositantes devem sabê-lo.
O capital restante do NBA está dividido: 30% pertence à Santa Casa da Misericórdia de Ponta Delgada, 10% ao Grupo Bensaúde e 2,47% a 13 outras Santas Casas da Misericórdia de diversas ilhas.
O tema retoma acuidade e importância, após ter sido noticiado esta semana que o fundo norte-americano Lone Star, interessado na compra do NB convidou alguns dos principais grupos económicos portugueses a participarem minoritariamente no capital da futura instituição.
Perante isto, que pretendem os futuros donos do NB fazer do Novo Banco dos Açores. Vender a sua parte? Adquirir o restante capital? Integrá-lo, perdendo a sua autonomia de gestão? Encerrá-lo?... Questões que convém esclarecer, quanto antes e que, certamente, fazem parte das negociações com o acionista-Estado.
Será que, por interferência do Governo dos Açores, os interesses dos acionistas açorianos e a autonomia da NBA foram acautelados, atendendo à proximidade e à necessidade de financiamento da nossa economia? Não sabemos.
Há um silêncio ensurdecedor sobre este processo e as consequências da venda daquele banco no futuro do NBA.
Aos olhos da opinião pública, após os pronunciamentos de alguns representantes do empresariado e da imprensa micaelenses, que responsavelmente tem agitado o problema, os responsáveis políticas e governamentais deveriam ter-se pronunciado sobre o assunto. Não o fizeram. Parece assim estarem mais interessados nas suas agendas particulares que nos problemas da nossa vida coletiva.     Passar ao lado deste tema revela desinteresse e incompreensão.
Por outro lado, compete às treze Santas Casas da Misericórdia participantes no capital social do NBA, manifestarem-se sobre o futuro do seu capital adquirido através da prestação de serviços à comunidade e de doações dos utentes. Será que os propósitos iniciais do primitivo banco e a promoção da economia social a que aquelas instituições religiosas de direito canónico estão vocacionadas, continuarão acautelados?
Estes não são os propósitos dos acionistas maioritários. Por isso, importa reequacionar a função do Novo Banco dos Açores compatibilizando, se possível, os interesses de todos os acionistas, e não apenas dos sócios privados. De contrário, é preferível que as Santas Casas vendam as suas participações e integrem a Caixa da Misericórdia de Angra, cuja expansão levará proximamente à abertura de uma agência na cidade da Ribeira Grande.
O Novo Banco dos Açores, tem 17 balcões em São Miguel, Terceira, Pico, Faial e Santa Maria e “afirma-se como um banco de dimensão regional, com uma profunda ligação às comunidades de emigrantes açorianos.”1 Faz, pois, todo o sentido envolver a nossa diáspora num futuro projeto, caso ele venha a concretizar-se.
Das instituições financeiras criadas nos Açores só restam estas duas. A Açoriana de Seguros, já não existe. Na prática, foi integrada na Tranquilidade. Que lhes irá, pois, acontecer?
Os açorianos e sobretudo os seus representantes institucionais têm a palavra.
A determinação e capacidade empreendedora do empresariado regional, na senda de antigos e arrojados cidadãos, condicionarão o dinamiasmo presente e futuro da nossa economia. Só que o tempo urge e amanhã, já será tarde!

1 - http://www.novobancodosacores.pt

Mário Soares - O Valor da Memória para a Vida: O Futuro do seu Passado

Sempre apreciei a Figura do Doutor Mário Soares. Sempre gostei de o ouvir. A palavra ouvida, da sua boca, uma palavra lida ou dita tinha sempre sentido, na aceção topológica e na aceção de significação do termo. Abria um caminho, um rumo, uma direção. Ao mesmo tempo gerava sentidos. Ou se gosta ou não se gosta. Eu gostava do Doutor Mário Soares. Sempre tive esse sentimento, essa intuição. Mas é preciso clarificar. Nietzsche defendia que o gosto é um órgão do conhecimento, um conhecimento que se torna estético, que traz beleza à vida. Mas não gostar de uma Pessoa não pode legitimar, nunca, persegui-la. Nunca, jamais. O Doutor Mário Soares foi vítima da perseguição e da inveja. Só os ditadores, os fracos no sentido de medíocres, ficam perturbados com os que lhes fazem sombra. Mário Soares esteve preso muitas vezes, foi exilado e foi deportado. Mas não pôs nada fora. Soube fazer luz, até com as dificuldades, adversidades, atribulações e perseguições na sua vida. 
Na semana após a sua morte, vi vários documentários de e sobre Mário Soares. Os primeiros, em primeira pessoa, tinham um registo muito especial. No modo como falava, no seu jeito de falar com todo o corpo e com o corpo todo, dando corpo às ideias, tinha um sentido de narrar e de descrever que conciliava o rigor com o humor, criava boa disposição. A andar, ou mesmo sentado, Mário Soares era movimento em todo o seu ser, era energia e luz. Nele nada era estático. Pelo contrário, esse movimento e vivacidade eram hinos à vida e à Democracia, que nunca era uma conquista nem devia ser dada como adquirida, como sempre advertia. No seu Magistério Público, ouvi Mário Soares afirmar que a Democracia se faz e se defende todos os dias, em cada dia. E é verdade. Mas só dá valor quem lutou por ela e a sente por dentro. Para ele Liberdade e Desenvolvimento estavam em dinâmica permanente.
O comunismo-marxismo e o Nacional-Socialismo (ideologia nazista) foram dois males de que milhões e milhões de seres humanos foram vítimas de morte, indefesas, foram duas monstruosidades terríveis na História do Século XX, foram modos e formas de alienação monstruosas, barbaridades cometidas por psicopatas, que podem sempre (re)nascer na História, nas Instituições e nos Governos dos povos. Não basta a bondade das ideias, estas têm de descer do céu estrelado para a realidade na História, sem nunca nesta se alienarem. Fora do seu contexto, - neste caso do contexto histórico- as palavras ficam descontaminadas. “Estado Novo” de novo não teve nada, foi uma ditadura que perseguiu e aniquilo  as pessoas e o povo. Sem Democracia não há vida, das pessoas e dos povos. O Doutor Mário Soares esteve sempre na linha da frente do combate, sem nunca desfalecer, até ao fim da sua vida. Foi um Herói. 
Mário Soares (1924 - 2017) foi um Platão das Ideais com o realismo de um Aristóteles, a Utopia movida para a Realidade. Foi um Figura ímpar, Singular. Por isso soube encarnar, em cada época, o Espírito do (seu) tempo mas também soube fazer contra-correntes, com consciência histórica, para que outra História pudesse ser e acontecer. Os seus escritos sobre a “Globalização”, os (des)caminhos da Europa e os perigos do “capitalismo selvagem”, - para os quais João Paulo II advertira severamente -, foram razões fortes, entre muitas outras, para a intervenção cívica de Mário Soares, até ao fim mas que deve ficar, como Pensamento vivo, como Património vivo. São infindáveis os verbos, os substantivos e os adjetivos para falar de Mário Soares, esse Gigante da Política, que muitas vezes me fez acreditar numa outra Sociedade, melhor, sempre a Haver, num desígnio que Agostinho da Silva bem soube interpretar.
Mário Soares foi verdadeiramente português, europeu e um político-cidadão do Mundo. É um Homem que sabia muito. Desde logo, tinha a mais funda e profunda intuição do saber que é aquele que vem da experiência e da vivência, da sua,  que era muita, que era imensa. O Doutor Mário Soares era um Oceano de Conhecimento, era um Mar profundo, com imensos tesouros de Sabedoria. Desta que falta aos Políticos, ditos encartados, que são aqueles que facilmente se tornam situacionistas. Ora, assumindo-se como Político, Mário Soares sabia que nada é uma garantia para sempre, nada é um dado adquirido na História. Os seus discursos na Assembleia da República tinham tanto de solenidade como de espontaneidade, nos ambientes mais suspensos de respiração punha imensa naturalidade e a vida começava a circular. Era - também por isso se via - um Homem de Cultura, só a Cultura nos torna donos de nós próprios, em abertura, a respirar pelos nossos próprios pulmões, quando se sabe que as ditaduras o que pretendem é retirar o oxigénio, o ar puro. Os ditadores, de sinais contrários, têm horror à vida.
Como Cidadão, que nunca privei com o Doutor Mário Soares, mas que sempre o ouvia, tinha a sensação de que havia nele um pacto secreto com a vida. E na sua pessoa, a ser, ensinava tudo isso e muito mais. Foi um grande Pedagogo da e na vida Cívica, em Humanidade, concreta. Era um Político Culto e isso fazia toda a diferença. Ponha tudo a mexer. Não percebia de economia? Nunca tive essa noção. “Não estudava os dossiês”, - afirmação imprecisa -, certamente não ligava ao entulho mas sabia por onde passava o essencial, o respirável. Que tipo de dossiês podem salvar uma Europa, sem políticos, sem pensadores, sem visão de futuro, para as pessoas e com as pessoas?, uma Europa que esvaziou perigosamente a política, tornando-se tecnocrata, melhor, conduzida, - não liderada-, por uma ideologia perigosa, sem rostos, que pode levar ao regresso de nacionalismos agressivos e autoritários. Até como criticou o modo como os tecnocratas da Troika se apresentavam em Portugal, Mário Soares vincou que esses técnicos eram recebidos como se de políticos se tratassem. Era uma posição crítica que fazia - e faz -  a diferença de análise e de perspetiva entre a Política e as soluções técnicas que a ela se devem subordinar.   
Não interessava - nem interessa - ficar para sempre um “bom aluno” de uma Europa imposta, importa, sim, ser sempre um “bom estudante” de uma Nova Europa que tem de ir beber às fontes e à nascente, aos princípios para se relançar no Futuro para que o pior do século XX nunca mais aconteça. Para isso é preciso Cultura e ter o gosto por estudar, tudo, na sua complexidade, que é da natureza da inteligência, do ver. E o Doutor Mário Soares via-se que tinha um ímpeto pelo estudo, não apenas dos livros mas da vida. Costumo afirmar que os bons livros estão cheios de vida e a vida cheia de livros. Ora, Mário Soares vivia, sabia viver. Tinha um “faro” invejável. Como animais, que também somos, o Doutor Mário Soares, como várias vezes era dito, foi um “animal político”, na velha mas sempre nova conceção de Aristóteles, dos antigos que são sempre novos. Era um Homem reto e correto, com enorme sentido das causas, dos princípios e dos valores morais, no alto rigor de um Antero de Quental. Viu-se como esteve ao lado de Figuras Públicas, em Defesa -dando o seu Testemunho, que tanto me sensibilizou, como foi o caso da Dra. Leonor Beleza, - ou na visita, à prisão, ao Engº José Sócrates. Ensinou o que é a honra e a amizade. Que grandeza! Sempre se disse “Socialista, Republicano e Laico”. Nunca fui socialista. Mas vi nos seus gestos, numa república laica, - que também é minha - atos próprios de um verdadeiro cristão e isso move-me e comove-me. Era um Homem de Verdade, de Justiça, de Coragem. Foi um Homem que nunca esteve só, esteve sempre em intimidade com a sua Consciência Moral, com o seu Pensamento, que visava a ação e intervenção. 
Num documentário afirmou: “quem não tem inimigos não presta”, com isso, que tem de ser compreendido na fluência do contexto da entrevista, querendo significar que há que tomar posições, que o falso neutro é muito perigoso, e é, num mundo de falsidades e mentiras. Nesse mesmo depoimento - destaco o sentido - (não disponho das afirmações para pôr entre aspas, como se impõe), referindo-se a si e ao que havia escrito Nelson Mandela (julgo que o depoimento se reporta a 2013), dizia Mário Soares que uma Pessoa aprende mais na prisão do que na universidade, porque na prisão testa os seus limites. Que responsabilidade, acrescento, para as universidades, também nesta era Trump, serem templos e exemplo de liberdade, e liberdade criadora. Começa a ser tempo de distinguir o trigo do joio. Um bom legislador tem de saber ler o Doutor Mário Soares, no explícito e no implícito. Parafraseando Vergílio Ferreira, é no ininteligível que nós melhor nos entendemos! E como é tempo de dar corpo legal a esses princípios programáticos!... 
Nessa mesma entrevista, num tom e em gestos inconfundíveis, o Doutor Mário Soares, sem subestimar os cargos que ocupou, depois do 25 de abril de 1974, atribuiu, de longe, mais importância ao tempo em que foi um resistente e lutou contra a ditadura, porque aí escolheu e escolheu-se, na dureza e na pureza da luta e do combate. Foi aí que se revelou o seu ADN como Político, como Democrata, como Humanista. Nunca foi um situacionista nem antes nem depois do 25 de abril. Fez aprendizagens profundas e duradouras, que estão para além de qualquer conjunta, e por isso, nele, a mudança nunca foi um ‘slogan’ mas identificou-se com a causa da Liberdade,  “a substância do Tempo”, na bela e intemporal expressão da Grande Poeta Shophia de Mello Breyner Andresen: “E livres habitamos a substância do tempo”.
Por tudo isto se vê a conceção do Poder como Liberdade de que deu provas Mário Soares.  
O Doutor Mário Soares era uma Pessoa muito bem formada do ponto de vista intelectual. Aliás, era sempre intelectualmente honesto. Por si, por natureza, por fazer sempre o “bom combate”. Era licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas e em Direito. Era um estudioso e conhecedor da História de Portugal, da Europa e do Mundo. E tudo isto ajudou, também, a ser a Pessoa que sempre foi, sempre coerente mas sempre capaz de discernir as contradições e as dinâmicas da História. Mas percebia-se que lia as coisas por dentro, que antevia, como poucos, o curso das coisas e dos acontecimentos, lidando, com segurança, entre as incertezas. Edgar Morin fala na Ecologia da ação. Por isto, para esta ser bem direcionada precisa de pessoas cultas, e só daqui podem sair bons líderes e bons políticos. Profissionais - ou não - esse foi um despique colateral que deve ser contextualizado e muito relativizado. Explicado, também. Aqui o adjetivo é acidental, ao contrário de outros adjetivos que bem colocados são substantivos.
À Figura do Doutor Mário Soares associo sempre, também, a Figura da Dra. Maria Barroso, Culta, Doce e muito Firme.  Únicos mas cúmplices. Ambos foram, no sentido profundo, autores e atores. Representavam, na sua essência, o que eram, quem eram. E só foram grandes, numa e noutra dimensão, porque foram em Verdade, foram iguais a si mesmos, genuínos, Sempre.
Partiram, em Beleza. Em Poesia. O Espírito que foi e ficou.
Nas Honras de Estado, a Família esteve, simplesmente, exemplarmente.
Um Eterno Adeus.       

*Doutorado e Agregado em Educação  na Especialidade de Filosofia da Educação

Informação pouco séria

Exemplo evidente de uma informação pouco séria foi sem dúvida o afã das principais televisões e jornais nacionais para acirrar a novela de politiquice rasteira que se desenrolou à volta da mentira ou não mentira do ministro Centeno com que os dois partidos da direita, cada um buscando maior protagonismo que o outro nessa ação, procuraram desacreditar o governo do PS. Preferindo explorar a questiúncula até à exaustão ao invés de valorizar as questões prioritárias da consolidação e da credibilidade financeira do banco público português, alavanca importante do nosso desenvolvimento económico, esta informação e este jornalismo, prescindindo dos seus deveres deontológicos de isenção e independência, tomaram partido, ajudaram os abutres que anseiam por se apoderar de uma CGD privatizada e, mais grave ainda, prejudicando a Caixa, prejudicaram (prejudicam) objetivamente o país…
Mas outros exemplos recentes nos merecem também reparo.
Estando para mim assente que o rumo nacional não deve, não tem, nem precisa de se submeter aos diktat’s das agências de rating ou das organizações internacionais, parece-me apesar de tudo ser de relevar que em 14 de janeiro a Moody’s, em 3 de fevereiro a Fitch, no dia 6 a OCDE e depois no dia 13 a Comissão Europeia, longe de agravarem as espetativas para Portugal, mantiveram em geral um prognóstico estável e de confiança no país (no caso da OCDE admitindo mesmo “progressos impressionantes” em 2016, e no caso de Bruxelas melhorando os indicativos para 2017), reconhecendo o aumento das exportações e do emprego, da baixa do défice das contas públicas, e reconhecendo agora expressamente que os perigos principais não advêm, como era seu hábito salientar, do “aumento do salário mínimo” ou da “rigidez do mercado de trabalho” mas sim da situação da banca. No entanto, até à posterior confirmação de alguns destes dados pelo INE no dia 14, a abrir a maioria dos telejornais e na generalidade da imprensa, em todas as sucessivas datas das diferentes avaliações atrás citadas, estas referências passaram quase de lado e lá estavam antes de tudo os avisos e ameaças de incumprimentos múltiplos, a elevada dívida pública (que até aqui era silenciada pelo défice), o perigo da baixa de impostos, dos aumentos salariais e da diminuição dos horários de trabalho, etc. etc. num prognóstico ultra pessimista para Portugal só contornável com a adoção de novas medidas de austeridade. Com este comportamento pouco sério, em lugar de cumprir o seu papel a informação procurou assim, propositadamente, semear injustificadas desconfianças, insegurança e pessimismo entre os portugueses...
Ocorrem-me mais dois exemplos, desta vez a nível internacional.
Segundo as parangonas da RTP (em 5 de fevereiro): “Donald Trump disse que respeita Vladimir Putin, mas admite que o presidente russo é um assassino”. Ora quem admitiu, de forma no mínimo irresponsável, que Putin era assassino, foi o jornalista da Fox News que entrevistava Trump. Para além da truncagem abusiva nas suas parangonas, tivemos aqui a RTP a contribuir abertamente para deitar gasolina no fogo das tensões internacionais…
O Diário de Notícias (a 7 de fevereiro) em título pretensamente factual anunciava: “Regime de Assad tortura e enforca em massa”. Quanto a factos que suportassem a notícia, baseada num relatório da Amnistia Internacional (negado pelo governo sírio), percebeu-se afinal que eram testemunhos anónimos e desenhos de uma prisão, legitimando incertezas sobre a sua veracidade. Mas mesmo assim o Diário de Notícias não teve quaisquer dúvidas, e com tal ligeireza jornalística, juntamente com outros media, bem pouco contribuiram para o desejável sucesso das conversações de paz que entretanto decorriam no Cazaquistão entre governo e forças da oposição síria...

Mal-amados

A inclusão tem por base um conjunto de desígnios que permitem a integração e adaptação de crianças e jovens com necessidades educativas especiais na sociedade. Todavia, é preciso algum cuidado e contenção quando falamos sobre o processo de inclusão nas escolas. Inclusão, implica aceitar, formar para ensinar, num processo, com avanços e retrocessos, com se prevê, mas desvinculado de pretensões e de “expectativas estereotipadas”.
Requer, ainda, a realização de alterações profundas relativamente às infraestruturas das escolas, permitindo a deslocação das crianças e jovens com NEE.
Apesar dos enormes avanços nesta matéria, desde a Declaração de Salamanca (1994), e ainda a falta consensos entre os vários investigadores da especialidade, o processo de inclusão assumiu proporções catastróficas, sendo este “banalizado corriqueiramente” pelo próprio Sistema Educativo. Sim, atrevo-me a conotá-lo desta forma, com toda a legitimidade, que me conferem na qualidade de cidadã que luta diariamente por ver concretizado no terreno a distinção de práticas diferenciadas num mundo que se diz desigual, mas que preconiza um conjunto de princípios standard, como se nós fossemos todos iguais à nascença. 
Por estes motivos, a inclusão, e que me perdoem os mais sensíveis, é a mentira dos crentes. Aliás, não sou eu somente a aferir que nas escolas não existe qualquer inclusão. O que se verifica, na realidade, é uma tentativa de dizer-se que está a haver inclusão quando nada disso está a ser feito. É um ProSucesso, com alguns pontos positivos para a grande massa e com uma nota negativa para os chamados desincluídos, que não têm culpa nenhuma das circunstâncias que o destino fatídico lhes traçou.
Este é um assunto sério e por ser tão sério deve merecer o respeito de todos e todas como tal. Para além do nosso respeito, devemos promulgar a ideia de que a inclusão é um direito e não uma benesse que foi instituída por este ou aquele governo, quando lhes deu na real gana.
Não é só dizer que se faz isto e aquilo, é igualmente importante saber se estão reunidas as condições necessárias para que aconteça o processo de inclusão e ainda avaliar os reais efeitos. A iniciativa e a vontade não bastam. Afinal, não se trata de meros papéis, mas de crianças e jovens, portadoras de uma deficiência, que à luz da lei merecem dignidade.
Estou em crer, e porque há episódios de vida que assim o ditam, que as crianças e jovens com dificuldades de aprendizagem ou com problemas do neurodesenvolvimento são os mal-amados de uma sociedade que, ilegitimamente, se aproveita da palavra inclusão. Estes são como que aprisionados a uma doença ou dificuldade e ainda a um sistema educativo desvirtuado de qualquer compromisso.
Num país não basta formar engenheiros e doutores. Não basta despejar a matéria, porque isso todos o sabem fazer. É crucial entendermos que o ensino não deve ser estandardizado, mas acontecer num processo flexível, aberto, sujeito a reformulações e enriquecido com estratégias pedagógicas exequíveis, tendo em vista a unidade e não um todo. Não só são génios, crânios e conseguem ter sucesso. Tomemos como exemplo as grandes referências mundiais que na escola tinham negativas atrás de negativas e hoje são motivo de notícia e reconhecimento, nas mais diversas artes: na escrita, matemática, música, física, teatro...
Igualmente importante é reconhecer que o processo de ensino-aprendizagem assenta na democratização das desigualdades sociais, culturais e económicas.
Ainda, sobre esta matéria, os números divulgados no requerimento n. 47/XI – Dados Estatísticos do Sector da Educação, são pouco esclarecedores. Na verdade, o que era importante saber foi o que não se soube. Haverá alguma razão por detrás disso...
O referido documento, informa-nos sobre o número de alunos matriculados, nos anos 2015-2016 e 2016-2017, nas redes públicas e privadas, no ensino regular, por nível de ensino e unidade orgânica, em alguns casos, mas não específica o número de alunos, a frequentar a Educação Pré- Escolar, os 1.º, 2.º e 3.º Ciclos Ensino Básico e Secundário integrados no Regime Educativo Especial, o número de docentes especializados, técnicos, terapeutas... que apoiam estes alunos e alunas em cada estabelecimento de ensino e ainda número de alunos que usufruem de apoio educativo.
Pelas razões apresentadas, o Bloco de Esquerda adverte para a divulgação de dados estatísticos mais concretos, dando conta da verdadeira realidade da educação nos Açores.

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