Haja saúde!

Estávamos no início da década de oitenta. A Região dava os primeiros passos na administração dos cuidados de saúde, havia que delinear estratégias e tomar opções.
Carlos Costa Neves, secretário do setor, encarregou José Lopes da Nave, Diretor Regional de Saúde, dessa tarefa que reuniu um grupo de pessoas ligadas à saúde, à educação, ao trabalho e à comunicação social, para pensarem o problema e lhe proporem medidas adequadas para responder a tão momentoso e urgente problema.
No final do encontro de Angra, de que fiz parte, os profissionais de saúde, nomeadamente médicos, presentes em maioria, defenderam que as políticas governamentais deveriam orientar-se, primordialmente, para a melhoria dos cuidados de saúde diferenciados, ao contrário dos restantes elementos que optaram pelos cuidados primários.
Foi a partir daqui que toda a política de saúde foi organizada, e os seus efeitos ainda hoje se fazem sentir.
É certo que os hospitais estavam quase no grau zero dos equipamentos de diagnóstico de toda a ordem e que eram graves as carências de profissionais especializados. A diferença entre a saúde nos Açores e nos principais centros urbanos do continente era assinalável e só quem passou por essa experiência traumatizante o pôde atestar.
Havia, pois, que dotar os três hospitais de meios indispensáveis para responderem, em tempo útil, dadas as dificuldades de comunicações, às situações graves que surgiam.
Essa tarefa imensa demorou anos e ainda continua, pelo que são bastante sensíveis os benefícios alcançados, sobretudo para os utentes de São Miguel, Terceira e Faial.
Ao contrário, saíram prejudicados os cuidados de saúde primários. Apesar dos investimentos efetuados na construção de novos centros de saúde e na remodelação dos existentes, bem como na aquisição de meios auxiliares de diagnóstico, faltam profissionais de saúde, o que prejudicou a educação para a saúde. E esta é o suporte básico de uma vida mais saudável, porque a educação começa no ventre da mãe, no berço e nos bancos da escola, com profissionais preparados.
Em 2010 criou-se o enfermeiro de família. Os Açores foram pioneiros na criação dessa função, mas divergências entre médicos e enfermeiros impediram, até agora, de se avançar na sua implementação no arquipélago.
Para juntar a tudo isto, não há médicos de família suficientes. Só em Ponta Delgada, segundo fonte do Centro de Saúde local, há cerca de 20 mil utentes sem médico de família. Este é um problema grave. A prioridade – e bem! – é dada às crianças, aos doentes cardiovasculares, aos idosos… e nem os doentes oncológicos e diabéticos são atendidos. Eu próprio e o meu agregado familiar estamos em lista de espera há oito anos, sem que se vislumbre uma luz ao fundo do túnel…
Sabendo-se que o desemprego atinge centenas de lares e é um flagelo para as famílias carenciadas sem capacidade para ir a uma consulta particular, nem para pagar as taxas moderadoras, não é difícil de prever que a saúde está muito doente e que, por este andar, continuará nos cuidados paliativos…
Não pretendi, com este escrito, lançar mais uma acha para a fogueira do debate político, mas apenas e só constatar que o problema é grave, e não é de agora. As suas causas, entre outras, estão, sobretudo, na insularidade e no despovoamento populacional, que dificultam a atração de profissionais de saúde em número suficiente.
Este, porém, é também um problema ético e deontológico, porque há médicos, enfermeiros e outros técnicos que colocam os seus interesses particulares em primeiro lugar.
Não compete às entidades públicas zelar pelo bem comum e pela saúde dos cidadãos, obrigando os técnicos de saúde a prestar serviços no interior e na periferia, pelo menos durante um certo tempo, como sucedeu com os médicos à periferia? Ou será que os direitos individuais devem continuar a sobrepor-se ao interesse de populações indefesas? 
Já vai sendo tempo de, quem de direito, agir com firmeza, para que o despovoamento da maioria das ilhas, que é também um problema nacional, seja rapidamente travado.

Coapresentação do livro (I): Pipi e Popó. Apenas para Quem Educa!

É com muita alegria que aqui estou, na Escola Básica Integrada de Capelas, para coapresentar o livro Pipi e Popó. Apenas para Quem Educa!, da autoria do Professor Nelson Soares, a quem muito agradeço.
O Dr. Nelson Soares é licenciado em Educação Básica e Mestre em Educação Pré-Escolar e Ensino do 1º Ciclo do Ensino Básico. Por inerência, decorrente da profissionalização e da apresentação, pública, de um Relatório de Estágio, está qualificado para a Docência como Educador de Infância e Professor do 1º Ciclo do Ensino Básico, duas valências com identidade própria mas também com pontes de continuidade e de ligação. Aliás, na Educação Pré-Escolar já se antecipam, com a devida ponderação pedagógica e didática, aspetos que serão retomados e recuperados no 1º Ciclo, para além de a Educação Pré-Escolar configurar, em pleno, o sentido de uma educação integral, íntegra e integradora que o próprio processo de escolarização vai esbatendo e, até, desconfigurando e que o livro, de um modo ou de outro, não deixa de nos sugerir, mesmo que de modo implícito. E esse fenómeno de (des)identificação dos níveis de ensino e educação tende a acentuar-se ao longo das várias etapas do processo escolar e do sistema educativo e de ensino. Daí, como forma, também, de compensação, sempre com alguma deformação -  se não for feito com Cultura – a insistência retórica e prática (mais retórica do que experiencial) na e da interdisciplinaridade. Disciplinaridade, interdisciplinaridade, transdisciplinaridade e transversalidade dos Saberes, que, apara além da diversidade, não dispensam a unidade do Saber e do Conhecimento. Mas só um Educador ou um Professor Culto é capaz de fazer isto. Não se trata de uma soma, trata-se de um labor que exige muito dos sujeitos do conhecimento (professores e alunos) e dos objetos, conteúdos, assuntos, temas e problemas. Não basta saber é preciso saber organizar os saberes, e transmiti-los com o sabor que eles próprios têm na sua seiva. Nunca será demais insistir no valor da experiência como conhecimento. O Dr. Nelson Soares dá provas - também com o seu livro - de saber lidar com cultura nos processos educativos. Não são muitos que o fazem, ou querem fazer, ou sabem fazer. É preciso uma vontade muito própria e um sentido de discernimento que se impõe ter, ser e promover.
Na Educação de Infância – e não só – é preciso saber potenciar os porquês e os para quês, tão bem expressos, como sinais, de interrogação e exclamação, no livro que aqui nos convoca: Pipi e Popó – Apenas para Quem Educa! Mas a Infância é um tempo primeiro, é um tempo original e originante, é um tempo de unidade, é um tempo de construir um Mundo, mundos de significação e de sentidos, através da imaginação, da inteligência, da sensibilidade, do raciocínio, da interrogação, das perguntas, da questionação, um termo e atitude que sempre colheu especial atenção de Vergílio Ferreira, um Escritor da minha predileção. É nesse tempo primeiro que o Ser e o Aparecer surgem em intimidade fenomenológica, na sua razão de ser, no seu sentido, no seu fundamento e, como tal, é aprendido mas, acima de tudo, e antes, ainda, apreendido. Apreender é mais do que aprender, por isso muitos professores podem ficar no exterior, incapazes de atingir a profundidade e alcance do interrogar de uma criança, que é criança antes de ser aluno, se está a crescer como pessoa boa e boa pessoa. E haverá humildade para isso? É essa humildade que faz o filósofo, o cientista, o escritor. A criança não é nem filósofo, nem cientista, nem escritor, embora possa esboçar e balbuciar questões e saberes que exigem um Educador e Professor muito atentos para a novidade, as novidades, de quem está a crescer, a ser e aprender. E por trás dessa novidade pode estar a Palavra que abre o segredo que possa levar à expressão de maravilhamento de que fala Piaget: “Ah, já percebi”. Esta expressão é apenas o momento terminal de um processo - quase subterrâneo - de maturação e compreensão, muitas vezes lenta, com avanços e recuos. Quando (se) faz luz, o caminho prossegue. E tantas são as profissões que já na Educação Pré-Escolar as crianças abordam como possíveis projetos de ser, que até podem variar num intervalo de tão pouco tempo. Também por isso, exigem abordagens didáticas com muita sapiência. É o chamado cantinho das profissões, que o livro transportou, todavia, para os quartos de Pipi e Popó, onde Joana e Filipe cresciam na sua intimidade, física e interior. Onde cresciam, sem medos, em plenitude e segurança. E que mais não tinham do que ser percebidos pela Educadora Amélia que, afinal, demonstra que bem precisa de voltar para os bancos da Escola, da Universidade, da Universidade da Vida, para aprender tanto e tanto, em dinâmicas de problematização, entre outras, em Filosofia da Educação e Deontologia Educacional. O Educador e o Professor têm o Dever de saber que os deveres, isto é, as obrigações do que tem de ensinar, não anulam, pelo contrário, promovem a criatividade de ser, de crescer e de aprender, isto é, criar um ambiente axiológico que permita aprendizagens convergentes e divergentes. O mundo não é preto e branco, o mundo é a várias cores, independentemente do género, porque o que nos une é sermos pessoas, diferentes, mas pessoas, unidas no Género Humano. Ora, as questões de género começam já a ser muito pouco face a muitas outras situações que, mais do que socialização, têm muito de humanização. Na nossa Cultura e em Democracia alguém se admiraria – no Cantinho das Profissões - que uma criança, uma menina, escolhesse uma farda de soldado e dissesse que quando fosse grande gostaria de seguir a vida da tropa? E, por acaso, a Educadora Amélia – referida na história do livro - perguntaria,  questionaria, sobre as razões por que aquela menina desejaria e ideava ser um soldado/da da Paz, um capacete azul, para ir em missões de salvamento, de socorro, de ajuda humanitária? Afinal, talvez fosse o desejo de resgatar a Humanidade que está pelas ruas da amargura. O Ser de cada pessoa está muito para além das normas e das leis da sociedade. O Ser de cada pessoa só se pode subordinar às leis que o Criador nela inscreveu. E quem tem o direito de desventrar esse mistério? Paradoxalmente, não é tempo de socialização, é tempo de humanizar. Já o escrevi, e cada mais me revejo nesta afirmação: nem individualismo nem coletivismo. A Pessoa é que É. A Pessoa é que deve ser, como indivíduo, na sua dimensão pessoal e social. A nossa intimidade é o lugar sagrado da nossa singularidade. O Deus trino ensina-nos a profundidade de coexistir em comunidade num tempo de tanta exclusão.
Com o subtítulo do seu livro, o Dr. Nelson Soares abriu imensos horizonte: Pipi e Popó. Apenas para Quem Educa! Este “apenas” é um convite de abertura, mas de grande exigência, para todos. Exige um trabalho, imenso, de problematização e questionamento, condição da e em Educação em sentido profundo e pleno, para o Género Humano. 

*Doutorado e Agregado em Educação e na Especialidade de Filosofia da Educação

Nota: O livro Pipi e Popó. Apenas para Quem Educa!, da autoria do Professor Nelson Soares, foi apresentado no dia 28 de junho, deste ano de 2016, entre as 18h e as 21 horas, na Escola Básica Integrada de Capelas, no Concelho de Ponta Delgada, em S. Miguel, numa sessão presidida pelo Vice-Presidente do Conselho Executivo, Dr. António Carvalho, Professor do 1.ºCiclo do Ensino Básico.  

Viagens no Tempo: A vaidade e os seus riscos

No tempo em que os animais falavam…
Não há pior desaire do que a vaidade de querer botar a palavra, sem ter os pés bem assentes no chão.
Isso acontece a muito boa gente, presumida dos seus “doutos” saberes, quando afirma a pés juntos que foi assim que os compêndios dispunham, e pronto.
Discutiam os dois indivíduos um assunto de lana-caprina, que tal e coisa, e coisa. Sem chegarem a resultado palpável.
Todavia, o mais velho deles, por já ter passado por situação idêntica, não desviava uma vírgula das suas convicções e não arredava dali, sequer um simples ponto e vírgula da sua parte.
A discussão tornava-se já acesa com cada um a esticar a corda para seu lado.
Sem mais querer descer do seu burro, o mais novo deles disparou um tal coice, “caríssimo, eu tenho livros, que falam disso tudo e vossemecê ferraduras.
A coisa ficou por aí, porque o mais velho tinha uns livros encadernados com lombada a couro…
Eu achava prudente proceder a uma grande vassourada nisso tudo – estantes e leitores…

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Burros – veredas e coices

Os burros, pacientes e trabalhadores animais, eram merecedores de um sindicato.
Foram eles, num passado de poucos séculos, que riscaram muitas das estradas que ainda hoje utilizamos, ou servem de base a engenheiros. Se não lhes dão a razão merecida, escoucinham e zurram…
B. S.

Cinco Prolegómenos a toda a dúvida possível

Por que é que ainda se compram ovos ou chávenas às dúzias e não às dezenas? Existem dois paradigmas, ou mais, lado a lado, sem descrédito para nenhum. Se há o sistema decimal de origem animal de pata ou mão faber, ainda se fala em dúzias?
Toda a gente diz setembro, outubro, novembro e dezembro, sem que lhe chamem a atenção para o erro, pois os meses falam em sete até doze e ninguém reclama, nem pelos duodécimos. Nunca se chocam porque reina uma liberalidade imperturbável.
O problema maior é que há quem aceite que só é ciência dentro da chamada na época “normal” com um modelo aceite. O resto é senso comum, ou que se justifica pela mente como um balde para onde vai tudo o que sabemos.
A nossa mente exige que se diga científico, se possível experimental e aplicada, sem reparar que também a ciência anda aterrada de ser apanhada de chinelos pelos seus corredores. A irreverência com que James Watson em “A Dupla Hélice”: Era “demasiado belo para não ser verdade” tem tanto de entusiasmo como descaramento de jovem novato nessas andanças. Um jovem com um Nobel espantoso, conseguido por meios que ele, desavergonhada e irreverentemente confessa os meios de chegar aos resultados tira-nos toda a inocência e pureza do olhar a nobre ciência e seus impolutos sequazes.
Historiar os erros é menos banal e mais complexo do que contar a história dos êxitos da ciência que temos. Foi porém pelos erros que se chegou a melhores certezas e é aí que a consciência humana é mais verdadeira e se agarra melhor as realidades.
  Um dos pormenores relevantes antes de começar a filosofar é o problema da compreensão. Na Era da comunicação o que se diz não interessa tanto como o dizer e não há entrevistador que não interrompa um discurso filosófico.
- Não podia explicar isso “por miúdos” para o público em geral?
  Ninguém se atreveria a pedir a um astrofísico que simplificasse a explicação da ida de uma sonda a Marte. Já a irritação cresce às perguntas simples do filósofo que questiona sobre as dúvidas da sua racionalidade e do sentido que esta tem sobre a vida, ou o que pensa da sua subjetividade.
O mito que fica de pedra e cal. Não vem da velha Grécia, mas de um certo cientismo positivista que penetrou nas mentes de modo inveterado. A separação das ciências “duras” das ciências ditas humanísticas, deu perfeito crédito e legitimidade para um lado. Curiosamente não é o lado humano.
 Ter uma especialização acerca de uma especialidade acaba com as românticas visões holísticas dos adeptos das ditas “ciências” alternativas.
  Entramos sincreticamente em mitos urbanos quando se fala de terapias holísticas, em auras e chacras que transportamos e espalhamos em nosso redor para gáudio das fenomenologias, de que já se perderam as origens, com os estudos sobre a epistemologia da hidroterapia, da fitoterapia, da argiloterapia e recursos a quiropraxias com imaginação mais ou menos delirante e seguidores mais ou menos desesperados ou obstinados.
Com os receios de não ter modernismo suficiente na velha filosofia passarmos da epistemologia para um conceito novo e que até soa estranhamente Filosofia da mente. Platão escreveu no pórtico da sua Academia: “Aqui só entram geómetras”.
Pelo contrário, em “A Filosofia da Mente” nem geómetras entram.
Tudo isto porque se tornou muito dispendioso “dar notas” e não menos complicado “dar” aulas. Fechou-se a liberdade de duvidar em obras cada vez mais eruditas e carregadas de adjectivos de espanto por todos os citados.
  Dar parece antónimo de valioso ou útil. O delírio do estudo fenomenológico da inteligência emocional ainda não se apossou no que se trata de verificar nos animais não humanos mas, encaminhou neurologistas, vagos frenologistas, criminologias e alegres sofisticados intelectuais para tratar o subjetivo de um modo novo: a forma “dura”. A consciência dura já é científica hoje, mesmo que nem pense em desarticular o cérebro da mente. Quando o aleatório toma a via dos estudos quânticos não admira que se possa dizer “ser e não ser” ao mesmo tempo em graus de certezas. Os desafios
Esquecida que está a “glândula pineal” do maltratado Descartes, mal aceite por todos os lados, culpada do zumbido dos ouvidos e quiçá da nossa ligação ao Cosmos eis um elemento de peso para entrar na filosofia dita “dura” da mente. Ao assumir que a filosofia tem preconceitos contra as tecnologias, a cibernética e a inteligência artificial, entre outros estamos a colocar um corte entre saberes duros e os que não são.
  Mas todos nós usamo-los em casos de importância vital. Tirar a filosofia do homem comum é colocar erva numa redoma e reservá-la a uns poucos donos da Verdade.
Os ditos “bem pensantes” carregados de vocábulos caríssimos, de especializações sem fim, afastam-se da vida e a vida humana só vale se for pensada e não distribuída com critérios disciplinados e metódicos.
A filosofia nunca pode ser um saber adquirido, fechado e arquivos e menos ainda ser uma disciplina! É uma revolta constante do já sabido, é a desorganização do metódico, é a subjetividade única de cada um a tentar compreender-se a si e aos outros.
Cada pessoa tem um único caminho, não pode ir no lugar de outros. Em todas essas duras ou incertas ciências há um terrível imperativo. - Segue-me… Pensa como eu, eu tenho a estrada só me falta o peregrino.
Se a poesia se torna uma flor dos adolescentes, a árvore do todo o saber tem raízes bem fundas na terra e só por isso são verdes os ramos. Os riscos de filosofias da Mente estão em colocar comparativamente estudos de autores e assuntos muito diferentes. Aceitar Darwin como psicólogo ao lado de Locke ou compará-lo com estudos de Diderot, são hilariantes comparações para “criar” novos estudos das sensações. Rigorosamente ninguém as sente. É um dado biológico que só é consciente nas perceções. As raízes dos grandes pensadores sem “consciência dura”estão na Vida e esta, claudicante e frágil, habita a mente de cada homem adormecido ou desperto. Toda a gente sabe responder. A questão é haver sempre uma pergunta nova. 

Uma nova operação em curso…

Eis que, com a chegada do outono, novas ameaças pairam sobre Portugal e sobre o seu governo legítimo, desta vez relacionadas com o possível corte dos fundos estruturais da UE (que irão ser discutidos este mês pelo Parlamento Europeu), na sequência das pressões anteriores relacionadas com o incumprimento do défice no ano transato. As recentes declarações dos responsáveis do Eurogrupo e da Comissão Europeia sobre o eventual congelamento dos fundos comunitários confirmam a existência de um tácito desígnio de condicionar a elaboração do Orçamento do Estado para 2017.
Sob a artificiosa invocação do incumprimento por défice excessivo (em 2015), que ninguém aliás prevê se venha a verificar em 2016, a que agora juntam, inusitada e de forma perversamente conveniente para os seus desígnios, o eventual incumprimento das metas para 2016 e a aberrante necessidade da adoção de novas medidas de austeridade, está em curso mais uma operação das instituições e do diretório europeu visando obrigar o país (e submeter os portugueses) a uma reviravolta de políticas que restaurem a agenda de exploração e empobrecimento que vinha sendo ciosa e fielmente cumprida pelo anterior governo de Passos Coelho e Paulo Portas.
Estamos assim perante uma situação que revela o carácter crescentemente inconciliável entre a submissão a imposições da UE e uma política capaz de dar resposta efetiva e coerente aos problemas nacionais.
O que é facto é que os portugueses derrotaram o governo que aplicou diligentemente as orientações de Bruxelas e interromperam essas orientações as quais, de forma acelarada, estavam a desmantelar importantíssimas conquistas económicas, sociais e mesmo civilizacionais alcançadas ao longo de dezenas de anos com muita luta, sacrifícios e persistência.
Com essa derrota e a tomada de posse do governo PS suportado por uma maioria que inclui o PCP, o BE e “Os Verdes”, na Assembleia da República, já foi possível: a eliminação dos cortes salariais e a reposição das 35 horas na administração pública, o aumento do salário mínimo, a redução das taxas moderadoras na saúde, o reforço das prestações sociais, o aumento dos abonos de família, do complemento solidário para idosos e do rendimento social de inserção, o descongelamento das pensões e a eliminação da sobretaxa do IRS. Entre várias outras medidas, foi possível ainda, a partir de 1 de Julho, diminuir o IVA na restauração (depois de uma prolongada luta dos pequenos empresários do sector) e os manuais escolares começaram a ser gratuitos a partir do 1º ciclo.
Apesar da importância do que foi feito, é preciso prosseguir no combate à precariedade, na defesa da contratação coletiva, dos salários justos e das carreiras contributivas, no aumento das pensões mais baixas, no apoio às jovens famílias e às crianças, no reforço da licença de maternidade e paternidade, na rede de creches e jardins-de-infância ou na salvaguarda da habitação de pessoas idosas. Isto é possível, mau grado os ventos contrários que sopram de Bruxelas, porque Portugal é um país democrático, com 888 anos de história, zeloso da sua independência e empenhado em alcançar, com mais justiça social, melhores condições de vida para o seu povo.
E se esta Europa se sente incomodada com a presença de Portugal livre e democrático no seu seio. Pois Portugal livre e democrático terá todo o direito de se sentir incomodado em permanecer no seio desta Europa discricionária, mesquinha e chantagista…

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