Em terra de (c)egos quem tem olho é rei

Mas as monarquias andam a morrer e os reis também.
Existem vários tipos de “cegueira” e eles são soberbamente apresentados por José Saramago no seu “Ensaio sobre a cegueira”.
“Quando o “primeiro cego” chegou ao consultório do oftalmologista para tentar descobrir uma solução para o seu problema de visão, o médico considerou o caso urgente e passou-o à frente dos demais pacientes que aguardavam pela consulta. Porém, a mãe de um menino que aguardava sua vez não se sensibilizou diante da urgência do paciente inesperado e “...protestou que o direito é o direito, e que ela estava em primeiro lugar, e à espera a mais de uma hora. Os outros doentes apoiaram-na em voz baixa, mas nenhum deles, nem ela própria, acharam prudente insistir na reclamação, não fosse o médico ficar ressentido e depois “cobrar” a impertinência fazendo-os esperar ainda mais”
 “É dessa massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade”.
E não nos apercebermos que isto também é cegueira.
E não as dirigimos apenas aos outros, mas também a nós mesmos. A solidão é o momento em que estamos completamente expostos a nós mesmos. Apresentamos tanta oposição à solidão e/ou a esses momentos, mas muitos de nós não os preenchemos com pessoas, mas com coisas.
A pressa e insensibilidade, e o facto de as pessoas serem escravas das suas próprias vontades e desejos imediatos, impedem-nas de “ver” mais longe, outras saídas, outras possibilidades.
“ … a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis … “
E não nos apercebermos que isto também é cegueira.
O homem hoje parece-se com um animal domesticado que se adapta, aceita cómoda e fatalisticamente à situação em que vive.
O medo, o comodismo e o fatalismo levam uma pessoa a se habituar a tudo, incluindo o deixar de ser pessoa:
“Que isto, meus senhores, é comer e dormir. Bem vistas as coisas, nem se está mal de todo. Desde que a comida não venha a faltar.”
E não nos apercebermos que isto também é cegueira.
Fiquem bem

Em jeito de despedida

Onde vai toda esta gente pernoitar durante a sua estadia na Ilha Montanha? - pergunto-me ao ver tantos visitantes nacionais e estrangeiros que todos os dias chegam ao aeroporto do Pico.
Chegam, e pouco tempo depois estão a viajar nos carros das rent a car por essas estradas fora.
Este ano foram mais uma vez os alemães, franceses e italianos que aqui vieram para passar 3 ou 4 dias. E se mais quartos e viaturas para alugar houvesse, tudo se teria vendido – comentaram alguns empresários do setor.     Mas a época alta ainda não terminou e, contrariamente ao que aconteceu noutros anos, há muitas reservas até finais de outubro, nas instalações de Alojamento local.
É aí que se instala grande parte dos visitantes e não querem outros aposentos, pois como os demais do turismo rural, não existem, praticamente, diferenças nas tipologias.
Os proprietários dessas habitações já compreenderam que os antigos edifícios existentes nas zonas mais periféricas, mas com excelentes vistas e acessos, têm de preservar e documentar o viver tradicional desta gente que habitou em zonas rurais, rodeada de animais e de pequenas propriedades, de onde retiravam grande parte do sustento.
Ainda esta manhã, ao admirar uma casa construída em pedra, no lugar da Terra Alta, freguesia de Santo Amaro, com vista soberba para a ilha de São Jorge e parte da Terceira, observei um estrangeiro relatando por telemóvel ao seu interlocutor a vista maravilhosa que desfrutava da varanda da casa.
E são muitos os edifícios de alojamento local existente nesta ilha.
Segundo dados da Direção Regional de Turismo, gentilmente cedidos por Gilberto Vieira das “Casas Açorianas”, há 189 alojamentos locais (AL) na Ilha do Pico: 121 moradias, com 236 quartos e 525 camas, 50 apartamentos, com 192 camas e 11 estabelecimentos de hóspedes, com 136 camas.
No total, sem falar na hotelaria tradicional, esta ilha dispõe de 884 camas (AL): 405 no Concelho de São Roque auto-designado de “capital do turismo rural”, 278 nas Lajes do Pico e de 201 na Madalena. Isto sem referir as unidades hoteleiras tradicionais.
Para fazer-se uma ideia do quanto aumentou este tipo de equipamentos nos Açores, refira-se que das cerca de 900 unidades existentes, 413 situam-se em São Miguel, ( 967 quartos e 2.075 camas)(1) logo seguido da Ilha do Pico (884) e do Faial (584).
Isto é prova do enorme investimento privado efetuado, nos últimos anos, num setor em que muitos acreditam, e contribui para diversificar o tecido económico desta Ilha Maior (2).
Em redor do Pico, passam despercebidas as casas destinadas ao alojamento local. Nota-se, porém que, quem constrói junto ao mar, ou no interior das localidades, preserva o mais possível todos os equipamentos que antigamente davam sustentação ao viver no campo: a chaminé, o forno exterior para cozer a fornada de pão de milho ou o bolo e secar o milho no outono; o tanque e respetivo eirado onde se recolhia a água das chuvas; os balcões: o da porta da sala, onde se secavam as sementes e a mulher conversava com as vizinhas, fazendo renda no pouco tempo de descanso, e o da porta da cozinha, serventia da casa, por onde se passava para a loja ou para o interior do edifício.
Se bem que a remodelação dessas habitações tenha conservado, o mais possível, os equipamentos antigos, foi introduzido mobiliário moderno e novos equipamentos que proporcionam conforto e o repouso indispensável a quem procura estas paragens insulares.
Há quem faça sentir a falta de unidades hoteleiras no Pico para grupos com mais de 30 pessoas. Esses investimentos, porem, só são possíveis para empresas ou empresários abonados e de média dimensão, mas têm de ser programados e realizados.
Os habitantes desta ilha já demonstraram a sua capacidade empreendedora noutras circunstâncias (na atividade baleeira e na safra do atum), arriscando suas vidas e suas poupanças. Agora fazem-no na nova indústria do turismo ou na economia do lazer.
Importa ainda acrescentar que a procura por esta ilha se deve, não só à sua beleza e riqueza naturais, mas também ao esforço que vem sendo feito na abertura de novos trilhos e beneficiação dos existentes.
No interior e ao longo de toda a costa, há imensas extensões basálticas lajeadas, resultantes das erupções vulcânicas, que encantam qualquer amante da natureza e atraem quem por aí anda, despreocupadamente, a pé.
Esta é uma crónica de adeus à minha ilha, e é também o testemunho do meu apreço por uma população que, apesar de cada vez mais envelhecida, acredita que nesta ilha vale a pena viver.
Oxalá, quem de direito reconheça a sua valentia e a dote das condições exigíveis para uma vida digna e saudável.


*Jornalista c.p. 536
http://escritemdia.blogspot.com
 
1)    Dados da DRT de 30 agosto de 2016
2)    Expressão do poeta Almeida Firmino

A Lógica dos Factos: Autonomia Regional e Consciência Histórica

Em boa hora e com devida percepção das coisas e valores que lhe cabem reassumir contemporaneamente – por vocação, tradição interventiva, horizonte de reflexão, estudo e divulgação editorial e académica –, daquele que foi, desde a sua criação, um projecto de formação da consciência histórico-cultural, cívica e social desta ilha (dos Açores e do País, que de muitos e variados modos de tudo isso sempre careceram...) – nos contextos societários e geracionais da respectiva génese e acção ao longo de décadas –, decidiu o Instituto Histórico da Ilha Terceira (IHIT), agora presidido pelo nosso amigo e confrade João Maria Mendes, proceder a frutuosa parceria de colaboração regular com a Câmara Municipal de Angra do Heroísmo (CMAH), a qual tem louvavelmente correspondido, com vantagens mútuas, a tão abonado propósito, como aliás havia sido sempre defendido no nosso Instituto (e analogamente também o fiz, com outras agremiações regionais e nacionais, pelo que não posso deixar de congratular-me com essa resolução prática).
– De resto, tal produtiva cooperação decorre felizmente de uma renovada e positiva coabitação institucional, ao contrário do que anteriormente se verificou em vários casos (porventura com culpas ou equívocos de entidades públicas e governamentais para com o IHIT, e vice-versa).
Ora acaba o nosso Instituto de levar a efeito mais uma Jornada Histórica com o apoio da CMAH, desta vez sobre os 250 Anos da Capitania Geral dos Açores e durante a qual conferencistas e credenciados estudiosos da época em análise – Avelino Meneses, Madruga da Costa, Alberto Vieira, João Madruga, Alfredo Borba, Manuel Faria, Margarida Vaz do Rego, José Damião Rodrigues e Álvaro Monjardino –, procuraram recolocar criticamente e problematizar de novo aquele marco da vida político-institucional açoriana e portuguesa que trouxe, como sinalizara Reis Leite, “a mais radical alteração político-administrativa que alguma vez se operara nestas ilhas, [...] numa visão administrativa típica do século XVII e do despotismo iluminado”.
– Naturalmente que nem todas as perspectivas de abordagem possível a esta vasta e complexa problemática histórico-política, institucional, social e cultural foram ali aportadas, ficando talvez ausente, a meu ver, como principal lacuna das apresentações e dos poucos debates, uma mais detalhada e aprofundada atenção ao modo como a Capitania Geral foi recebida, entendida, sentida e particularmente contrariada em S. Miguel, e cujos modos ficaram plasmados não só nos acontecimentos da época, quanto também numa historiografia mais marcadamente construída a partir de outras leituras e propostas socio-geográficas, político-económicas, classistas e ideologicamente alternativas ou contrapostas, nos Açores, no País e no Estrangeiro, àquela que acabou por ser, de algum modo, a mais consagrada ou essencialmente mais consensual ao longos dos tempos e até hoje...
E isto mesmo pode aliás ser detectado nos conhecidos trabalhos e obras clássicas sobre este tema (nomeadamente nos sempre obrigatoriamente referenciáveis livros de Francisco Machado de Faria e Maia sobre os Capitães-Generais e na Corographia Açórica de João Soares de Albergaria e Sousa...) e, evidentemente, nas sugestivas teses académicas e demais ensaios elucidativos que tem vindo a ser produzidos e publicados entre nós (v. g., entre outros, por Avelino Meneses, Reis Leite, Madruga da Costa, Damião Rodrigues e Carlos Riley), tanto mais quanto também nesses diferentes e diferenciados horizontes críticos e doutrinários vai entroncar – ainda por variável  relação (assumida ou refractária...) a inspiradores contextos continentais europeus, britânicos e americanos (Brasil e Estados Unidos) – muita da subsequente produção teórica (e impulsos práticos...) sobre a Autonomia Regional, os chamados primeiros e segundos Movimentos Autonómicos e Separatistas, e as sucessivas tentativas de governação dos Açores, nessa roda do Tempo que percorremos (e sofremos...), como lhes chamou Álvaro Monjardino:
– “ (...) Algumas com êxito institucional mas sempre comprometidas por penúria financeira, (...) até 1940 e ao Estatuto dos Distritos Autónomas das Ilhas Adjacentes, outorgado pelo Estado Novo e sujeito à rigorosa disciplina financeira que o caracterizou; este 3º período durou até 1976, em que terminou com a extinção dos distritos e a criação constitucional das Regiões Autónomas dos Açores (e da Madeira), precedida por alguns meses (1975/76) de Juntas Regionais, ainda dependentes do governo central. Só então as tendências autonomistas frutificaram, pode dizer-se que em pleno, no nosso arquipélago atlântico, algumas delas até exageradas na sua medida, nos seus meios de realização e até em ilusões de importância, quiçá de esplendor, que alguns julgaram poder-se atingir”...
– Valeu assim bastante esta rica Jornada, apesar do apertado Programa e do intenso ritmo das suas Conferências e Comunicações, pelas retomadas reflexões sobre o passado, todavia com os olhos bem postos, ou possivelmente mais podendo vir a ser criticamente dirigidos comparativamente ao presente e ao futuro dos Açores.

Professor Doutor Gustavo de Fraga: Um Ilustre Universitário e um Açoriano de Vocação Universal (IV)

Também neste artigo, iremos apoiar-nos em alguns depoimentos sobre a Magna Figura de Gustavo de Fraga exarados  - como em parte já evidenciámos - no Suplemento de Educação, nº 44, do Jornal Correio dos Açores, publicado no dia 13 de maio de 2004, com o título genérico: “Em Memória e Homenagem ao Professor Doutor Gustavo de Fraga. Uma Referência Maior da Filosofia e Cultura Contemporâneas”, no qual foram publicados textos de vários autores. Na impossibilidade de referir todos em extensão e na profundidade, que pretendíamos, remetemos o leitor, interessado, para o referido documento que dá muito a conhecer sobre o Caráter do Grande Professor Catedrático, que foi Gustavo de Fraga. Nunca abdicando do seu lugar de Professor na Universidade de Coimbra e, depois, a Cátedra (1981), foi Ilustre Professor na Universidade dos Açores, - colocando-se ao SERVIÇO da Instituição - nunca se servindo dela, mas servindo-a -, desde logo, em “Comissão de Serviço” (1976) - então Instituto Universitário dos Açores -, foi Vogal da Comissão Instaladora, foi Distintíssimo Vice Reitor, Vogal do Conselho de Administração, foi cinco vezes reeleito, sucessivamente, Presidente do Conselho Científico, para além de outros cargos. Foi um Professor Singular, Único, de elevadíssima Categoria Académica. Nunca chegava às aulas antes do quarto de hora académico. A sua chegada tinha tanto de natural como de cerimonial. O tempo dedicado à matéria, era sempre de uma substância de reflexões e sínteses admiráveis, que permaneciam. Era um tempo em que os estudantes sabiam escutar o que era dito – com a autoridade de quem sabe - e seguiam as indicações de leituras e faziam pesquisas com autonomia. O que lecionava era sempre em qualidade, com Rigor e Humor, - e o humor também trazia matéria, trazia vida para pensar - matéria e modos de nível universitário, incompatíveis com pressas e métricas, medíocres, feitas com mediocridade. E o combate contra a mediocridade sempre uniu os Grandes e Verdadeiros Académicos, em todos os tempos e lugares.
Neste contexto, impõe-se outra grande Figura, o Professor Doutor Machado Pires, que sempre fez um combate - e continua a fazer, e muito bem - contra a mediocridade. Para o Professor Machado Pires, numa Universidade só o Mérito é que é Juiz. E é, melhor, deve ser, tem de ser. Na obra de ambos, de Gustavo de Fraga e de Machado Pires, há a defesa e a apologia do Culto e Respeito pela Competência.
No referido Suplemento de Educação, o Professor Doutor António M. B. Machado Pires refere-se ao Professor Doutor Gustavo de Fraga como “Magister et Praceptor” e afirma: “Pude frequentemente presenciar os seus padrões de exigência universitária que, além das épocas e estilos institucionais próprios, criam uma imagem de prestígio de caráter universalizante” (Pires, 2004, p. 3.) [itálico nosso] e mais adiante no seu texto escreve: “Tinha de ficar até muito tarde nos gabinetes para preparar as reuniões; tinha de falar com docentes e funcionários para elucidar sobre o que se podia fazer e o que era conveniente e universitário fazer-se. Tinha de ajudar a fazer a Universidade - o que só se faz quando se é realmente universitário”. (Pires, 2004, p. 3). [itálico nosso] Estas são, ainda e sempre, práticas, conceções e atitudes inspiradoras e abrem caminho para uma Verdadeira Pedagogia Universitária, que é urgente ser pensada, por Quem Sabe. As reuniões presididas pelo Professor Gustavo de Fraga não eram de expediente alfandegário. Pelo contrário, eram reuniões de um Universitário Sapiente, isto é, também, reuniões ao nível de uma Universidade, para que o seja.
Um outro Notável Depoimento, - “Homo universitatis” - no referido Suplemento de Educação, é da autoria do Professor Doutor Vasco Garcia, que foi Distintíssimo Reitor da Universidade dos Açores. Homem de uma Profunda Inteligência, de Invulgar Sagacidade e Perspicácia. Para com ele terei sempre, em justiça, uma palavra de altíssima consideração. No exercício do Cargo de Reitor e no seu modo pessoal de ser, em comunicação, pude verificar as suas qualidades humanas em vários momentos e situações académicas, que guardo na memória e em registos. Apanha, e apreende, os assuntos em rápidas intuições. Tem uma capacidade de perceção impressionante. Sei que quando bem aconselhado, informado, ou quando conhece as pessoas, até os seus impulsos se transformam em importantes meios de conhecimento. Não sendo um retrato nem um perfil, essas considerações em parte estão implícitas no modo como vê e se refere à Figura do Professor Gustavo de Fraga.
Afirma Vasco Garcia: “Ao longo dos primeiros anos de vida da nossa universidade, fui-me apercebendo da enorme riqueza intelectual de Gustavo de Fraga. Contudo, só quando fui secretário do conselho científico num dos 5 mandatos sucessivos para que o Prof. Fraga foi eleito, tive realmente a percepção de quem ele era verdadeiramente. Hoje, à distância de muitos anos, recordo as longas conversas que tínhamos, antes e depois das reuniões do Conselho. Registei muitas das peripécias da sua vida que me contou e me fizeram ter dele uma ideia muito diferente da que tinha inicialmente, e para muito melhor...”. (Garcia, 2004, p. 5). [itálico nosso]  Adiante, acrescenta o Professor Vasco Garcia sobre o Professor Gustavo de Fraga: “Considero o seu livro “Fidelidade e Alienação”, de que me ofereceu um exemplar em 1977, uma verdadeira lição sobre a Universidade e tudo o que gira à volta do pensamento universitário. Aliás, sobre ele falámos muito - e, sobre o que nele está escrito se baseou muita da forma de encarar a Universidade Portuguesa. Mas não foi só isso que me impressionou, nas amenas - e nem sempre serenas ... - discussões com o Prof. Fraga. Impressionaram-me as “estórias” da sua vida como jornalista do “Diário de Notícias”, em Lisboa; das pessoas com quem conviveu; da sua vastíssima experiência europeia, nas universidades e fora delas. Por detrás da aparente fachada austera do universitário coimbrão, estava o vivido homem do Mundo. Que nem sempre se via, mas eu pude ver.” (Garcia, 2004, p. 5). [itálico nosso] Note-se, “mas eu pude ver”, escreve o Professor Vasco Garcia, introduzindo uma adversativa, sem a qual não há pensamento nem afirmação singular. E o ver coloca-nos sempre numa dimensão de Futuro, de Visão. 
É que o ver é pessoal e intransitivo. Esse é o fascínio mas também o drama. Há que educar, também, a ciência do ver e o ver da ciência. A Universidade só deve promover e premiar a inteligência e os valores universais, de quem os tem, com consistência. Nada menos que isso. O contrário é a alienação, a negação e - no limite gnoseológico - a destruição. Também por isso, é da maior relevância reler, ler e dar a ler “Fidelidade e Alienação”, de Gustavo de Fraga. Nesse livro há muito a aprender sobre o que é a Cultura, a essência de uma Universidade e a sua Pedagogia. Cultivar o Conhecimento é um imperativo contra a ignorância destrutiva, que nada tem a ver com a ignorância fértil e valorativa, que constitui uma espécie de subsolo do Saber. 
Ninguém ofusca a Luz da Inteligência e da Consciência.


*Doutorado e Agregado em Educação e na Especialidade de Filosofia da Educação

Incenso ou faia do norte alastra, sem controlo, na floresta da Ilha do Pico

A Ilha Pico, a segunda de maior dimensão do Arquipélago, tem uma população a rondar os 14 mil habitantes, uma área de utilização de solo urbano de 957ha, uma cobertura florestal de 14.941ha e de uma área de culturas agrícolas ou de pastagens de 22.392,8ha (dados da DRRF, 2007).
Esta diferença nota-se a olho nú, ao andarmos em volta da ilha. É mais pronunciada no sul, nas proximidades da Montanha, nas terras altas de São Mateus, São Caetano e São João, e mais adiante nas Lajes e Ribeiras; a norte, nas freguesias de Santo Amaro, Prainha, São Roque, (ver imagem) e depois em Santa Luzia e Bandeiras. Parece até que, de ano para ano, (pese embora os apreciáveis reaproveitamentos de antigos terrenos vitivinícolas, que estão a modificar a paisagem) é mais serrada a superfície florestal inculta, devido ao surgimento das faias e incensos, em terrenos de mato abandonados pela população envelhecida, sem forças para trabalhar suas terras.
As consequências desta situação preocupante, que não traz qualquer proveito a uma economia sustentável, é existirem 956,2ha de Faias, enquanto o Incenso ou Faia do Norte abrange 11,705ha e cresce desalmadamente, sem que nenhum programa ou projeto florestal seja implementado para estancar a sua progressão.
Sabendo-se que o incenso impede o desenvolvimento de outras espécies, o seu “controlo (…) exige uma gestão bem planeada, que inclua a determinação da área invadida, identificação das causas da invasão, avaliação dos impactes, definição das prioridades de intervenção, seleção das metodologias de controlo adequadas e sua aplicação.”(1)
Analisando o quadro das principais espécies florestais existentes no Pico, São Miguel e Terceira, constata-se que a criptoméria ocupa no Pico 840ha, contra 8.540ha, e 1.609,9ha, na Terceira. É notório e evidente a importância económica da criptoméria na ilha do Arcanjo e na Terceira. E mesmo no Faial, a área desta espécie florestal suplanta a da ilha do Pico.(2)
Em 2014, um documento da Direção Regional dos Recursos florestais, intitulado: Estratégia Florestal para os Açores, reconhecia “A Cryptomeria japonica enquanto esteio da fileira florestal regional, imagem de marca da floresta de produção local, e a principal espécie presente nas áreas públicas e privadas”. E acrescentava: “assume um papel fulcral na definição da nova estratégia florestal, desde logo pela possibilidade da criação de emprego direto, quer nas atividades de exploração florestal, rearborização e manutenção dos povoamentos, quer na indústria de transformação a jusante.”
Desconheço se estas intenções passaram do papel à prática.
Na pesquisa efetuada junto das fontes oficiais disponíveis, nomeadamente DRRF e SREA, não encontrei dados recentes sobre a evolução registada neste setor. A maioria dos documentos existentes agrupam no todo regional o que deveria ser discriminado por ilhas, para melhor perceber-se a realidade de cada uma delas. Ao contrário do que afirma o documento estratégico, parece não ter sido feito nenhum inventário, nem mesmo “a disponibilização pública de uma plataforma digital inovadora, que agilize o processo de elaboração dos Planos de Gestão Florestal (PGF), e que simultaneamente disponibilize, de forma dinâmica, informatizada e atualizada a cartografia e os restantes elementos que alimentam estes instrumentos de gestão.” Desconheço se os PGF foram delineados para cada uma das ilhas, em que estádios de execução se encontram, e que dificuldades e aceitação mereceram dos proprietários dos terrenos.
O que o cidadão observa nesta ilha, é a ausência de uma política de promoção florestal sustentada e de reordenamento do território, que beneficie economicamente os proprietários e contribua para o aumento da riqueza.
Um simples exemplo da falta de uma política florestal foi o corte de criptomérias, efetuado há poucos anos na estrada regional, sem que novas plantas fossem lá colocadas.     Outro é a forma como são tratados os pinhais dos chamados “mistérios”, que, por falta de limpeza, começam a ser infestados por incenso e faias.
Como faziam anteriormente os serviços florestais regionais, confidenciou-nos um antigo funcionário do setor, é necessário um contato direto com os proprietários dos terrenos, demonstrando-lhes as vantagens da florestação de terras agrícolas, da reconversão e beneficiação florestal, acompanhando-os nos trabalhos de campo e explicando-lhes os apoios financeiros disponíveis.
“Foi assim que se construiu o perímetro florestal do Nordeste, em São Miguel”- rematou a mesma fonte.
Aqui no Pico dá-se mais importância ao abate de incensos, de faias, e de urzes, fiscaliza-se e penaliza-se os “infratores”, mas desvaloriza-se o reordenamento do território e a plantação de espécies florestais rentáveis.
O problema é da maior atualidade para a economia da ilha. Para o enfrentar, impõe-se um urgente e eficaz Plano de Gestão Florestal, de forma a que o galopante declínio demográfico e a consequente desertificação, não redundem em empobrecimento das populações rurais.
Ou agora, ou então já será tarde!

*jornalista c.p. 536
http://escritemdia.blogspot.com

1) invasoras.pt
2)Estratégia Florestal dos Açores (EFA), DRRF, SRAA, 2014

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