Professor Doutor Gustavo de Fraga: Um Ilustre Universitário e um Açoriano de Vocação Universal (III)

Este é o terceiro artigo sobre o Professor Doutor Gustavo de Gustavo na sequência da atribuição, a título póstumo, da “Insígnia Autonómica de Reconhecimento”. Ainda mais nos tempos que correm será sempre pouco o muito que há a escrever sobre este Ilustre Universitário e Açoriano de Vocação Universal. 
Neste artigo, terei como referência o Suplemento de Educação, n.º 44, do Jornal Correio dos Açores, publicado no dia 13 de maio de 2004, com o título genérico: “Em Memória e Homenagem ao Professor Doutor Gustavo de Fraga. Uma Referência Maior da Filosofia e Cultura Contemporâneas”, no qual foram publicados textos de vários autores. 
Neste artigo irei Citar, também no que significa em termos etimológicos e filosóficos. Citar é honrar e homenagear. Citar é dar a ver, é mostrar com as palavras com que os outros quiseram dizer, exprimir e expressar. Citar é partilhar pão e água, que alimenta e sacia, em valores humanos onde falta a humanidade em concreto, no saber, no saber fazer, no saber ser, no saber fazer ser, no Ser a Ser, em evidências e dinâmicas de Vida. Estamos num tempo em que é preciso recuperar a Categoria do Ser, à qual se deve subordinar a categoria do Ter. Temos todos cada vez menos porque somos cada vez menos. 
No referido Suplemento de Homenagem ao Professor Doutor Gustavo de Fraga, escreve o Professor Doutor Avelino de Freitas Meneses, na altura Distintíssimo Reitor da Universidade dos Açores, em texto “O meu Testemunho”, afirma: “Ainda nos anos cinquenta, num tempo em que a internacionalização não constituía uma exigência científica nem uma imposição académica, frequentou diversos centros universitários europeus, sobretudo na Alemanha, obtendo uma formação filosófica especializada. […]”
Noutra etapa do texto acrescenta: “Gustavo de Fraga foi, por tudo isto, uma personalidade estruturante da Universidade dos Açores. A sua acção traduziu-se sempre em acréscimo de credibilidade institucional. Para tanto, valeu-se da sua condição de filósofo de renome internacional, autor de meia centena de títulos, de cuja competência tive a oportunidade de beneficiar, enquanto seu aluno no decurso de dois anos lectivos. Para tanto, valeu-se da sua experiência académica, um exemplo de convivência universitária, de que todos nós usufruímos.” (Meneses, 2004, p. 2).
Sublinhemos a afirmação do Professor Avelino de Freitas de Meneses: “Gustavo de Fraga foi, por tudo isto, uma personalidade estruturante da Universidade dos Açores”. Como ex-aluno do Professor Gustavo de Fraga, como seu monitor, - que fui - como docente, como professor, investigador, - sem esquecer, nunca, a minha condição de pessoa e cidadão - há muito vinha a sentir a necessidade e o imperativo institucional, no âmbito do exercício das minhas funções, - em plena consciência e exigência universitárias - de dar a conhecer, no que me era – e é – possível as figuras e as obras de José Enes e de Gustavo de Fraga, às diferentes gerações e à Sociedade. O futuro encarregar-se-á de densificar e esclarecer esse modesto mas fortíssimo imperativo moral, científico, pedagógico-didático, cultural e cívico. 
Também no referido Suplemento de Educação, o Professor Doutor Machado Pires, que foi Distintíssimo Reitor da Universidade dos Açores – para onde levou e onde fecundou, a um nível ímpar e singular, o Saber, a Ciência e o mais Alto Respeito, pessoal e institucional, por todos e cada um, - tem um Depoimento intitulado Gustavo de Fraga. Magister et Praeceptor, que importa reler, revisitar e reperspetivar, com benefício para a formação pruridimenisonal.  
 Afirma Machado Pires: “Gustavo de Fraga foi um dos pilares da fundação e desenvolvimento da Universidade dos Açores. (Pires, 2004, p. 3).
Adiante afirma Machado Pires: “A Universidade é um espaço de encontro de visões do mundo e da vida, no seu sentido interior, individual, e na sua dimensão social e universal.” (Pires, 2004, p.3).
Numa justíssima caraterização do Perfil do Professor Doutor Gustavo de Fraga, afirma Machado Pires: “Chamado desde os princípios de funcionamento do então Instituto Universitário dos Açores (1976), o Prof. Gustavo de Fraga, pelo valor da sua própria carreira de professor de Filosofia (com ideias próprias) da Universidade de Coimbra (dos tempos do magistério de Joaquim de Carvalho e depois de Miranda Barbosa, com uma importante passagem demorada pela Alemanha), pelos relacionamentos que lhe permitiram trazer muitos professores a colaborar no planeamento e leccionação nos primeiros anos de ensino universitário nos Açores, e ainda e sempre pela sua continuada acção de persuadir, esclarecer e aconselhar assistentes e colaboradores, foi uma personalidade decisiva na criação de uma “tradição” institucional e de uma prática de funcionamento. Pude frequentemente presenciar os seus padrões de exigência universitária que, para além das épocas e estilos institucionais próprios, criam uma imagem de prestígio de carácter universalizante.” (Pires, 2004, p. 3).
Afirma o Professor Doutor Machado Pires, na evocação à Figura do Professor Doutor Gustavo de Fraga: “É preciso ter-se uma consciência do que é ou não é universitário fazer-se, dizer-se, consentir-se, condicionar-se. Não se nasce universitário, como se nasce poeta ou artista; ao contrário do nascitur, non fit, na Universidade cada um se faz – fit, non nascitur – se tem qualidades e garra para isso. Por vezes era preciso dizê-lo às pessoas, com tacto, com firmeza, às vezes mesmo com emoção.”[…]. Referindo-se ao Professor Doutor Gustavo de Fraga, escreve o Professor Doutor Machado Pires, também fazendo doutrina, sempre atual e atuante: “(…) tinha de falar com docentes e funcionários para elucidar sobre o que se podia fazer e o que era conveniente e universitário fazer-se. Tinha de persuadir ou mesmo de convencer. Tinha de ajudar a fazer a Universidade – o que só se faz quando se é realmente universitário. O que significa ser mais do que erudito ou laureado: o que exige um tacto especial e muita capacidade argumentativa.” (Pires, 2004, p.2)
Também em Memória e Justiça é de refletir sobre estas afirmações do Professor Machado Pires em relação ao Professor Gustavo de Fraga: 
“Ninguém é infalível. Todos os que conseguem alguma coisa, também fazem descontentes. Mas esses mesmos não sabem que, para além da divergência ou da persuasão, lhe devem inúmeras e discretas diligências de gabinete em gabinete, para garantir a continuidade de projectos ou salvar carreiras. Tudo isso sem deixar de participar na docência e publicar artigos e livros. Soube também desempenhar, com maturidade e savoir faire, as funções representativas dos cargos que ocupou.”
De facto, “ninguém é infalível”. Mas o Professor Doutor Gustavo de Fraga pensava tudo em vários ângulos e profundidade, e com muita sensibilidade e justiça, nunca lesando ninguém. NUNCA. Dormia certamente tranquilo.  
O Professor Machado Pires refere-se ao Professor Gustavo de Fraga como Magister et Praeceptor.
Só Professores assim são a Justa Medida de uma Verdadeira Universidade.

Referências bibliográficas:
Meneses, Avelino de Freitas de (2004). O meu testemunho. In Medeiros, Emanuel Oliveira Medeiros [Coordenador]. Suplemento de Educação – Em Memória e Homenagem ao Professor Doutor Gustavo de Fraga, nº 44, Jornal Correio dos Açores. 13 de Maio de 2004.

Pires, António M. B. Machado (2004). Gustavo de Fraga. Magister et Praeceptor. In Medeiros, Emanuel Oliveira Medeiros [Coordenador]. Suplemento de Educação – Em Memória e Homenagem ao Professor Doutor Gustavo de Fraga, nº 44, Jornal Correio dos Açores. 13 de Maio de 2004.


*Doutorado e Agregado em Educação e na Especialidade de Filosofia da Educação


Há uma Europa em desagregação

Depois de toda a pressão ilegítima, subliminar, intimidatória e chantagista que foi feita externa e internamente tanto pelos chamados mercados financeiros como pelos diversos membros do diretório da União Europeia e pelos mídía ao seu serviço com vista a atemorizar o eleitorado britânico caso optasse pela saída da União Europeia, este, apesar de tudo isso, respondeu com uma afirmação de soberania e de vontade autónoma, manifestando a intenção expressa de deixar a União.
Com a verdade dos factos em cima da mesa nem por isso se verificou a catástrofe prognosticada pelos apologistas da desgraça nem tão pouco a Europa deixou de ser a Europa. Já a Suiça e a Noruega também por referendo rejeitaram a integração e nada indica, até hoje, que tal facto os tenha de alguma forma prejudicado do ponto de vista sócio-económico. E se a União Europeia com a próxima saída do Reino Unido (com ou sem Escócia)não ficará igual, não terá sido por culpa dos britânicos, nem da sua xenofobia contra os emigrantes. Da parte do Reino Unido o que aconteceu foi um legítimo ato de soberania e democracia, rejeitando em final de contas permanecer num enquadramento supra-nacional comandado por um diretório não eleito que é responsável por um continuado sufoco daqueles dois valores e de erradas políticas geo-estratégicas e para os refugiados que, essas sim, têm alimentado fortemente em toda a Europa a xenofobia e o racismo, e têm contribuído para a desagregação da UE.
Também de Espanha, após as eleições de domingo e apesar da vitória do PP sem maioria absoluta, sopram desde dezembro passado ventos de mudança por uma outra Europa que os jornais procuraram confundir comparando resultados com sondagens em vez de resultados com resultados, falando na derrota do Podemos aliado à Esquerda Unida, quando na realidade este partido continuou a garantira forte implantação conquistada em Dezembro e que acabou com a bipolarização no país vizinho. É justo ver na confiança atribuída a esta aliança de esquerda uma manifestação objetiva do eleitorado espanhol por maior soberania, respeito por quem trabalha e pela reabilitação dos valores democráticos no seio da UE, contra uma oligarquia dirigente toda-poderosa que abandonou os valores da coesão e da solidariedade para substituí-los pelo distanciamento dos cidadãos, pelo princípio sacralizado da supremacia dos interesses do capital financeiros obre quaisquer outros, fazendo-os valer pelo recurso continuado às ameaças sobre os povos e à sua legítima vontade, à submissão dos países membros pela chantagem da dívida e respetivos juros, à austeridade e às sanções económicas…
É esta Europa enquanto super-estrutura que, conforme se passou com o referendo do Reino Unido ou com a reafirmação eleitoraldo Podemos em Espanha, está a ser posta em causa e, quer seja pela sua eventual desagregação ou pelo possível afastamento (voluntário ou involuntário) de alguns dos seus países membros, é da mais elementar prudência que, no caso português, não sejamos surpreendidos pela subsequente desintegração da união monetária ou a saída involuntária da moeda única.
Sem temores de ameaças chantagistas,exercendo a nossa vontade soberana e democrática, e até por uma questão de simples bom-senso político, não é tarde para que no nosso país nos batamos pela renegociação da dívida pública e estejamos preparados para uma eventual saída do Euro, venha ela a consumar-se ou não.
Sem respeito pela soberania dos estados-membros nem pela democracia no seu funcionamento, a União Europeia estará a prazo inevitavelmente condenada...

A propósito da criação do Museu da Imprensa

“É que já em outras e idênticas circunstâncias verifica-se que se está irreparavelmente a perder todo um outro património, sobretudo ligado à actividade industrial e comercial; ao ensino; à radiodifusão e até à agricultura, sobretudo ao que ainda resta do que foi a rica cultura da laranja.”

O Director deste Jornal, Osvaldo Cabral, com o conhecimento que tem da sua terra e dos ciclópicos problemas que enfrenta, tem sido uma personalidade que muito se tem distinguido na apreciação crítica que faz dos mesmos, indiferente à opinião sustentada pelos políticos; e, quase sempre, com aquela acutilância que é de louvar, porque acima de tudo entende que é dever dum jornalista responsável, defender o bem estar duma população e, na hora exacta, os problemas que mais a afectam.
Desta vez o seu pensamento voltou-se para a preservação do nosso património histórico, ao defender um assunto que sempre nos foi muito caro – a criação dum MUSEU DA IMPRENSA.
O assunto não é novo e já tem sido abordado várias vezes por pessoas que intimamente se interligaram com os problemas da Imprensa regional e com o importante papel que esta pode desenvolver em vários períodos da nossa vida política e social, com a particular evidência de, apesar de vivermos numa terra pequena, sempre abundou a publicação dos mais variados «títulos» e até aqui nasceu o mais antigo jornal que se publicou no nosso país - «O Açoriano Oriental»!.
Só este facto deveria merecer uma atenção muito especial de todos os açorianos – e não só – com vista a manter a preservação do que ainda existe, daquilo que foi o seu espólio ,(nos últimos anos salvaguardado, com pessoais sacrifícios de Manuel Ferreira de Almeida, seu director e proprietário ) .
E apesar de, felizmente, o Jornal se manter, como mesmo título e em renovada circulação, há qualquer coisa que falta, sobretudo no que se refere à preservação da maquinaria e todo o velho material de composição, porque é aí que está um valor histórico/patrimonial que cada vez se vai tornando mais distante das novas gerações, numa caminhada pedagógica e cultural que faz parte da própria aprendizagem da vida.
E, ao citar o «Açoriano Oriental» não quero deixar de não alargar esse meu «sentimento de pertença» para com aquilo que ainda pode restar do que também foi o património do «Diário dos Açores», do «Correio dos Açores» e até de «A Ilha», felizmente salvaguardado e exposto na «Oficina-Museu» das Capelas, numa benemérita e inteligente atitude pedagógica e de cidadania do seu fundador, o Professor Manuel João da Silveira Sousa Melo, com a prestimosa colaboração de sua esposa, Maria Emília, aliás uma estrutura museológica que creio ser única no seu género nesta Região e, sem dúvida, a merecer um substancial apoio das entidades competentes.
É por isso que a interrogação que nos lançou Osvaldo Cabral na edição de 26 de Maio passado «PARA QUANDO UM MUSEU DA IMPRENSA AÇORIANA?» deve merecer, por parte dos sectores culturais e sociais do Governo e até dos nossos Municípios, o mais pleno apoio, justificando-se, sem mais demoras, a necessidade de se recolher e catalogar o que ainda existe duma das mais ricas páginas da história do jornalismo local.
É que já em outras e idênticas circunstâncias verifica-se que se está irreparavelmente a perder todo um outro património, sobretudo ligado à actividade industrial e comercial; ao ensino; à radiodifusão e até à agricultura, sobretudo ao que ainda resta do que foi a rica cultura da laranja.
 E, se não se acudir, «depressa e em força», qualquer dia… há mesmo que riscar do catálogo do nosso património aquilo que de mais evidente ajudou a que crescêssemos como povo.
Em qualquer parte do mundo, um Museu é sempre um centro de interesse turístico, uma forma de preencher um pouco dos tempos livres de quem nos visita e procurar integrar-se na história do conhecimento.
Vejamos o exemplo da Madeira…
Prolongar no tempo a defesa dessas causas justas é continuar a concorrer para aquele desafio aliciante que nos foi lançado pelo Dr. Carlos Falcão Afonso em «PONTA DELGADA – VANDALISMO OU DESENVOLVIMENTO?», decerto que será uma permanente e injusta realidade!

A lição dos manuais

Na manifestação nacional em defesa da escola pública realizada no passado fim de semana com muitos milhares de participantes, marcaram  presença sobretudo professores, estudantes ou trabalhadores não docentes de todas as cores incluindo certamente da área do PSD e do CDS, mas oficialmente tanto um como outro dos dois partidos citados, invocando razões pouco claras, demarcaram-se desta iniciativa pública relevante para a defesa dum direito constitucional, de forma coerente aliás com os ataques sistemáticos à escola pública e com o desinvestimento drástico nesse sector por eles perpetrados durante os 4 anos e meio do seu governo de coligação.
A experiência desastrosa ainda fresca (e dorida) deste governo de direita na República, vivida pela esmagadora maioria dos portugueses tanto na área da educação como em quase todas as restantes, deverá servir de preventivo aos eleitores açorianos a claramente questionarem eventuais soluções maioritárias envolvendo o PSD, ou o PSD mais o CDS, em resultado das eleições regionais de Outubro próximo…
Mas este facto não obsta a que no campo das possibilidades alternativas a esta, já experimentadas pelos portugueses e pelos açorianos em particular, não seja possível encontrar por sua vez diferenças substanciais entre a experiência das governações do PS sozinho, com maioria absoluta, ou do PS sozinho, mas sem maioria absoluta. E a verdade para a maioria dos portugueses é que entre o governo de Sócrates, com maioria absoluta, e o governo de António Costa com o apoio parlamentar do PCP e do BE, a diferença é grande e para melhor relativamente a este último. A verdade é que nos Açores o governo de Carlos César em 1996 sem maioria absoluta foi capaz de legislar ou aprovar propostas mais de acordo com os interesses dos trabalhadores, das populações e dos mais desfavorecidos que os restantes governos regionais do PS com maioria absoluta.
Sem dúvida que, desde 2008/2009 com a chegada a estas ilhas da chamada crise global, arrastada pelo predomínio económico mundial do grande capital financeiro e pelo correspondente predomínio político-institucional do neo-liberalismo na Europa, os factores externos foram dominantes para a degradação acentuada das condições de vida e de trabalho dos açorianos e do exercício da própria Autonomia. Mas isso não obsta a que, pelas experiências já vividas tanto a nível nacional como regional, seja legítimo concluir que mais e melhor poderia ter sido feito nos Açores para contrariar esse caminho de degradação imposto do exterior se, afastados à partida da maioria e do governo os seus maiores cúmplices, isto é, os partidos de direita, o PS não tivesse obtido uma maioria absoluta de deputados no parlamento regional, e os partidos mais à esquerda tivessem obtido uma maior representação parlamentar.
Para o demonstrar poderia invocar diversos exemplos, mas, já que começámos com a educação e a escola pública, acabamos com o mesmo tema socorrendo-nos apenas de um exemplo, a meu ver paradigmático. O PCP propôs no Parlamento açoriano  em meados de Abril passado, tal como foi aprovado no Continente pela maioria de esquerda na Assembleia da República, a progressiva gratuitidade dos manuais escolares nos Açores a começar pelas crianças do 1º ciclo do ensino básico já a partir este ano. Desde logo o PSD se opôs e o CDS absteve-se, mas ao PS e à sua maioria absoluta, certamente com o desacordo de muitos socialistas, nada mais ocorreu senão, após invocar as possibilidades existentes de acesso a manuais usados, opôr-se também à iniciativa do PCP, inviabilizando-a, e assim determinar por omissão legal uma indesejável e injusta situação discriminatória negativa das crianças dos Açores relativamente às crianças do Continente…

Ao que chegámos!...

“A velhice é um problema humano, familiar e social, mas não pode ser considerado como “um risco financeiro”. O maior risco reside em dar a primazia ao dinheiro e em reduzir a pessoa humana a um objeto descartável e pouco valioso.”

As redes sociais colocam-nos, muitas vezes, perante afirmações da maior importância de responsáveis de instituições e organismos mundiais, que julgávamos impensáveis e indizíveis.
Esta semana fui alertado para uma declaração afrontosa de Christine Lagarde, Diretora Geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), sobre a terceira-idade, avisando que “a longevidade é um risco financeiro”. E acrescentou: “Os idosos vivem demasiado e isso é um risco para a economia global! Há que tomar medidas urgentes.”
    As afirmações da antiga ministra francesa das Finanças revelando a mentalidade economicista e neoliberal que se vem alastrando pelo mundo ocidental, foram, no entanto, contestadas por muitos cidadãos. É que tão funestas ideias, revelam o desprezo a que organismos internacionais tão relevantes, atribuem a uma crescente parte da população.
Sendo certo que nos países desenvolvidos o índice médio de vida vem aumentando com a melhoria dos cuidados de saúde e com os avanços feitos no tratamento das doenças, isso não implica que os estados devam tratar os seu idosos como gente descartável e improdutiva. Pelo contrário. Há cada vez mais a noção de que a sociedade necessita de cuidar das pessoas da terceira-idade, porque são elementos chave na estabilização e continuidade das tradições familiares e porque, com a sua experiência de vida, transmitem valores humanos e uma herança que devem ser preservados, dando suporte à caminhada que as gerações mais novas estão a trilhar.
A velhice é um problema humano, familiar e social, mas não pode ser considerado como “um risco financeiro”. O maior risco reside em dar a primazia ao dinheiro e em reduzir a pessoa humana a um objeto descartável e pouco valioso. Isso sim é condenar os idosos à eutanásia forçada, à morte programada, a uma sociedade sem futuro, sem carinho, sem memória e sem presente.
Nas últimas décadas, governos e instituições sociais têm desenvolvido iniciativas de mérito para proteger e dignificar os idosos, sobretudo os desprotegidos da família ou abandonados na solidão dos seus lares, sobrevivem afetados pela doença e pelo desprezo.
Para contrariar estas situações condenáveis, muito há ainda a fazer, como: desenvolver relações intergeracionais que envolvam crianças, jovens e adultos, e integrar os idosos nas comunidades onde cresceram, vivem e deram o melhor de si à família e aos amigos.
Neste sentido, o Papa Francisco, no Encontro mundial de idosos e avós, realizado em Roma, em 2014, afirmou: Não há futuro para um povo sem o encontro entre as gerações. E acrescentou: “O futuro de um povo pressupõe, necessariamente, este encontro: os jovens dão a força para fazer caminhar o povo e os idosos revigoram esta força com a memória e a sabedoria popular.”
Referindo-se aos lares, Francisco defendeu que “eles não sejam como prisões, mas pulmões da humanidade numa cidade, num bairro numa paróquia”. Isto porque “apesar das dificuldades ligadas à idade, os idosos podem ser árvores que continuam a dar frutos”.
Quão diferente é a mentalidade economicista da Sra Christine Lagarde e a visão humanista do Papa Francisco!...


*jornalista c.p. 536
http://escritemdia.blogspot.com 

Subcategorias