Viva a insubmissão

Estamos hoje felizmente a celebrar um feriado reconquistado pela insubmissão e pela luta persistente dos portugueses contra a prepotência de um governo que empobreceu e humilhou profundamente o país e o seu povo durante mais de 4 anos… Mas falemos de outras insubmissões:
Foram sucessivos os incumprimentos do défice acima dos 3%em vários países da UE, fossem eles “ricos” ou “pobres” e, apesar de previstas, para além dos alertas nunca houve lugar a qualquer ameaça concreta de sanções.
Eis que agora perante a hipótese de novo incumprimento em 2015, diga-se em abono da verdade que em consequência de políticas gerais impostas pela UE visando a proteção do sistema financeiro e servilmente acatadas pelos respectivos governos, a lâmina afiada das sanções por défice excessivo acompanhada da já habitual exigência de mais medidas ant-sociais é colocada sobre os pescoços de dois dos países ditos periféricos (os “PIIGS”, como agrada aos ingleses pejorativamente classificá-los): Portugal e Espanha. No mesmo ano a França também ultrapassou o défice dos 3% mas recusa-se a qualquer sanção alegando compromissos com o combate ao terrorismo, a Alemanha entra em incumprimento, neste caso por super-excedente comercial, mas sobre ela não pende qualquer sanção, ao mesmo tempo que o Reino Unido, já à margem dos incumprimentos por défice excessivo dado ter rejeitado a moeda única, ainda se dá ao luxo de chantagear a União Europeia (tendo esta cedido em toda a linha) com uma série de reivindicações, algumas violando os seus tratados, como condição para permanecer nela integrado.
A boa vontade que se está a ver em relação aos ingleses, aos franceses ou aos alemães, não se viu em relação a Portugal e à Espanha (tal como anteriormente à Grécia). Ou seja, em matéria de direitos sociais, políticos ou outros, a mesma Europa que não cede a Portugal duas décimas no défice sem chantagear desavergonhadamente um governo eleito, ou que adia decisões punitivas apenas para precaver os resultados eleitorais em Espanha, abdicou perante a pressão inglesa e contemporizou com os incumprimentos francês e alemão. Na economia do “ajustamento” imposta aos PIIGS não há um milímetro de cedência às “regras”, mas já nos direitos sociais, políticos ou de soberania, tudo é negociável ou ajustável… para pior. Como exemplo recente, temos a aplicação inexorável sem contrapartidas do fim das quotas leiteiras no espaço europeu apesar de se saber de antemão que tal “regra” iria beneficiar uns e ter, como já está a acontecer, gravíssimas consequências para outros, nomeadamente para a economia portuguesa e dos Açores em particular…
Não sendo a única, nem talvez a mais importante, uma das razões que se tornaram claras para que exista esta vil e intolerável desigualdade de procedimentos entre países, é que foram abertos precedentes para o efeito pela submissão acrítica e voluntariosa a Bruxelas dos governos dos países e dos povos que dela foram vítimas (primeiro Antónis Samarás na Grécia, depois Mariano Rajoy em Espanha e Passos Coelho e Paulo Portas em Portugal).
Óbvio se torna assim concluir, tanto por arrasto como pela evidência, que a insubmissão dos governos nacionais aos ditames de uma Europa injusta e discriminatória pode ser não só útil no combate ao retrocesso e ao empobrecimento, como se torna indispensável para afirmar os direitos e os interesses dos povos e dos países que integram a UE.
E a demonstrá-lo pelo absurdo está a espantosa e hipócrita tomada de posição da destrambelhada sucessora de Paulo Portas que, agora na oposição e face às ameaças punitivas do diretório europeu, teve a brilhante e peregrina ideia de recomendar ao governo que “faça voz grossa em Bruxelas…”

Percorro-te

Estou extasiado. Percorro-te. Os meus olhos deleitam-se no teu corpo nu, trilho com os dedos o afago da tua pele, percorro-te com o olhar e com o toque.
Encontro-me constantemente sedento de ti, inebrias-me. És cada vez mais fascinante, enlouqueces-me com o teu cheiro doce e o teu jeito picante.
Percorres-me, olhas-me, tocas-me, exploras-me com a precisão de um génio, conquistas cada centímetro da minha pele. Sou, irremediavelmente, teu.
Penso em ti, no teu beijo. Dás-me paz. Percorro centenas de vezes os recantos dos nossos momentos juntos.
E neste momento em que me encontro afastado de ti, em que não te vejo e nem te toco, percorro-te tão vivamente como sempre.

Ilustres Açorianos, Açorianas e restantes Comunidades Emigrantes espalhadas pela diáspora

Não escrevo por escrever. Escrevo, a maior parte das vezes, por uma questão de justiça social. É isso, mesmo!
Nestas linhas, venho manifestar a minha revolta sobre a forma como alguns deputados tratam os assuntos relacionados com a saúde dos açorianos. Escrevo como forma de protesto e para alertar os açorianos e as açorianas sobre os discursos enganosos, isentos de qualquer sinceridade, idoneidade, generosidade...
O anacronismo político é medonho, ou melhor, horripilante. Na verdade, o que se tem visto é um derradeiro esforço por parte de alguns deputados em vir justificar o que não tem justificação. Pois bem, antes estivessem calados! Lembro o ditado de Eduardo Galeano que diz “Quando as palavras não são dignas quanto o silêncio, é melhor calar e esperar”. Neste caso, proponho que se calem, mas mais do que isso, espero que atuem e tomem como urgente a saúde dos açorianos. Não nos deixem neste compasso, alarmante, de espera, porque horas, meses e anos podem significar ou exprimir um elevado número de óbitos. Por favor, suplico, não nos deixem morrer!
Tudo isso, para manifestar a minha e, também a indignação de muitos açorianos, que nos deixam testemunhos de vida de miséria, penúria e de calamidade. Mas, parece que ninguém se importa com isso!
Pois bem, aqui vai, a razão deste meu desalento:
No dia 18 de fevereiro de 2016, foi entregue a petição “Saúde nos Açores. Um direito”, da autoria do doente oncológico, Octávio Manoel de Oliveira Rego, à ALRAA, e que contou até à data da audição, que se realizou no dia 3 de Maio, pelas 15h, com cerca de 2224 assinaturas, e da qual me fiz representar, por motivos que se prendiam com a saúde deste cidadão. Na audição, fui recebida pela Comissão Permanente dos Assuntos num regime protocolar, repleto de cortesia. Mas, o que receava aconteceu. Conhecem aquela sensação de chegar a um lugar e sentir aquele clima... Sim, um ambiente que costumamos classificar como pesado, onde o desconforto é o adjetivo que prevalecia nos semblantes de alguns dos deputados que me ouviam. Neste momento, só me vem à memória o tão celebre texto bíblico “Ó homens, até quando tereis o coração pesado, e amareis o nada, e buscareis a ilusão?” Não, não era ilusão, era mesmo a verdade nua e crua. Em alguns momentos, apetecia-me beliscar, noutros momentos apeteceu-me mesmo chorar. Mas, houve quem quisesse chorar, ou melhor quem ficasse comovido, com lágrimas nos olhos, e mesmo assim fosse como censurado por estar naquele estado. Fiquei com a sensação que na política é proibido chorar, ainda ser ilegal exprimir sentimentos de compaixão pelos outros e também ilícito manifestar qualquer palavra de compadecimento pela dor alheia. Aqui segue o meu voto de protesto! A política não isso, é muito mais que isso, para informação de alguns, principalmente para quem se indignou e num ato atroz tenha saído daquela sala, pura e simplesmente por não ter gostado da emoção que se instalou. Sim, foi isso que senti. Neste ambiente, também senti tantas outras coisas, como constrangimento e ainda “ares” de opressão, por tudo o que os açorianos reclamavam nesta petição, como: a extinção das taxas moderadoras; a abertura de protocolos com centro de investigação genética; médicos de família para todos; a existência de tratamentos mais específicos no combate ao cancro; a abertura de protocolos com clínicas privadas para o encurtamento das listas de espera; procurar realizar um estudo de investigação sobre as causas das elevadas taxas de incidência de alguns tipos de cancro nos Açores, comparativamente a Portugal Continental e alguns países europeus; maior sensibilização para o deferimento dos requerimentos de pensão de invalidez dos doentes oncológicos açorianos; que os açorianos beneficiem dos mesmos preços de consultas e tratamentos pela ADSE em relação aos continentais; para refletirem sobre intervenção das equipas de cuidados paliativos e ainda para terem a atenção sobre a falta de material e de medicamentos nos centros de saúde e unidades hospitalares.
Então, surgem testemunhos num grito de agonia: “Todos temos direito à saúde e ao bem estar. Ninguém fica de fora. Ajudem o povo Açoriano que tem cancro, a ter qualidade de vida e de esperança.”; “ Políticos façam algo”...
Depois de pronunciados os diversos testemunhos, senti que cumpri a minha missão, que como obviamente, não acaba aqui.
Ainda, em resposta ao Vice-Presidente Parlamentar do PS sobre a sua comunicação, no Diário dos Açores, no dia 13 de Maio, acresce aos factos que, a falta de médicos não se prende só com a falta de recursos humanos, mas pelo descontentamento e insatisfação dos médicos, nomeadamente nas áreas de medicina geral, de saúde pública e ainda hospitalar, tal como denunciou a ordem dos médicos recentemente, no Açoriano Oriental, a 22 de abril. Portanto, as palavras do deputado em questão, não expressam a realidade sórdida e mórbida instalada no Sistema Regional de Saúde. De “falas” vãs e ocas estão os açorianos fartos!
Tenham vergonha e assumam publicamente a verdade dos factos. Mais, sobre as listas de espera que faz referência, neste mesmo comunicado e segundo os dados disponíveis referentes a abril de 2016, o número de utentes inscritos para cirurgia, acumulado por hospital e especialidade na RAA é de 10299. Este número significa, claramente, uma falta de respeito, uma atrocidade bárbara e desumana para com todos os cidadãos e cidadãs residentes nesta região autónoma.
Uma última palavra, sejam autênticos e façam política com legitimidade!

Geringonças

Há as que funcionam e as que não.
“A Educação liberta” (escreveu alguém). E talvez liberte mesmo. Pena que a gente não saiba em que país ele estava quando escreveu isto.
Não sei exatamente se é pela falta de motivação (monetária, claro) de muitos professores, se é pelo facto deles terem medo (para isto reforçam as regras e disciplina, mas não incentivam os alunos para serem criativos) como  ou até porque eles próprios são fruto de um sistema que não os educou para a criatividade e inovação.
As crianças das escolas públicas, na sua quase totalidade, vêm de famílias pobres e sem recursos. Muitos procuram algo diferente e não encontram. Isso gera sentimentos de tristeza, de desânimo, de revolta, de baixa auto estima, et cetera.
Os alunos das escolas privadas têm alguma tranquilidade e apoio em casa, e isto faz com que tenham um melhor desempenho.
O sistema educacional precisa de uma reforma completa e em todos os pontos. Vale ressaltar que talvez os recursos financeiros para melhorias em estruturas físicas nas escolas seja um dos pontos menos importantes. Os pontos mais importantes estão em formar verdadeiramente os estudantes para serem cidadãos críticos e capazes de se tornarem grandes cidadãos transformadores da sociedade.
Uma educação libertadora carrega as bases para se ter uma sociedade mais igualitária, mas para os “mandantes” essa palavra é assustadora.
E porque é assustadora ?

Na nossa sociedade, os que ganham mais são os que tem mais formação, quem tem o currículo mais cheio de cursos e especializações. E aqueles que se destacam na comunicação interpessoal.
Mas não é assim que nasce a mão de obra barata.
É neste ponto que as desigualdades sociais começam a crescer e a se consolidar.
É assim desde que surgiu o CAPITALISMO e a tendência deste sistema de governo é gerar mais e mais desigualdades sociais.
Nesta sociedade, quanto mais dinheiro os poderosos têm, mais eles querem. E para conseguir mais têm que aumentar a mão de obra barata, e para aumentar a mão de obra barata, esses empregados não podem ter o mesmo conhecimento que eles.
A geringonça funciona mas só para alguns.
Por que se trabalha 8 horas por dia?
Porque precisamos consumir para sermos felizes. Tudo o que temos não é bom o suficiente, precisamos da roupa igual à do actor ou actriz tal.
Pare-se, pergunte-se: “Eu realmente tenho NECESSIDADE disto?”. E o que é o necessário? Alimentação, água, um tecto, algumas roupas e dinheiro para coisas básicas e tempo.
O homem simples e sábio um dia dirá: “Não troco a minha vida pela desta gente que vive com medo de perder o que tem e que toma remédio para dormir por causa de tanta ansiedade.”
Quanto menos temos, somos muito, muito mais felizes.
O problema é que se nos convencermos disto, muitos funcionários públicos vão perder o emprego, juntamente com milhares de políticos.
As mudanças na sociedade, as novas geringonças, foram acontecendo devagar. Os grandes desequilíbrios, o aumento das doenças, de pessoas ansiosas e deprimidas, de gente endividada, de aumento do desemprego, et cetera, passou a ocorrer, de forma mais intensa após, a Revolução Industrial. Paralelamente com o aumento do consumo. O ciclo vicioso do consumo.
Muitas pessoas compram por impulso porque tem dificuldade de parar, respirar, olhar para a natureza, ouvir música, rir, ou, simplesmente, não fazer nada. Estão tão inquietas que gastam as suas energias de forma desequilibrada.
Precisamos de nos aquietar. E, com esta aquietação, a convicção de que não precisamos de muitas coisas. Bem mais importante que ter coisas é ter o amor dos nossos pais, do namorado(a), marido, esposa, filhos, tios, avós, amigos.
Ter gente querida por perto é uma das maiores riquezas que podemos ter na vida.

Fiquem bem.

A Lógica dos Factos: Um Arquivo Secreto, Romanesco e Escandaloso

Publicada pela Esfera do Caos (2011), a obra Arquivo Secreto do Vaticano, Expansão Portuguesa – Documentação, conforme referi na altura aqui no DA (17.12.2011) – ver em http://sinaisdaescrita.blogspot.pt/2011/12/do-fascinio-dos-arquivos-secretos-do.html e recentemente retomei no DI (18.12.2015) – reúne peças sumariadas do Fundo da Nunciatura de Lisboa, patentes no  “Arquivo Secreto do Vaticano”  e relativas ao período da Expansão Portuguesa (ao qual podemos chamar de “primeira globalização do Cristianismo na sua forma confessional católica desde a modernidade”). Sob coordenação de José Eduardo Franco (JEF), todo esse excepcional Repertório constituía logo, e mais – como então salientei –  tem vindo a constituir indispensável instrumento para quem quiser estudar o Catolicismo em Portugal e no Mundo: – Assim, ler essas fontes documentais, identicamente salientava JEF, é encetar “uma aventura de compreensão que deve ser, em primeiro lugar, a missão da construção da história como revisitação do passado, guiada por uma insistente interrogação”.
– Ora do Tomo I dessa obra, originalmente relativo à Costa Ocidental de África e Ilhas Atlânticas, acaba de fazer-se, como Volume Extraordinário do N.º 65 (2015) do Boletim Eclesiástico dos Açores, um Suplemento (485 páginas) propriamente relativo aos Açores (1691-1919). A edição-selecta, intitulada A Diocese de Angra no Arquivo Secreto do Vaticano, integra – lamentavelmente sem qualquer Índice remissivo... – 6115 entradas (datas-limite: 14.08.1813-11.08.1915), nelas constando, como subscreve o seu Director (Hélder Fonseca Mendes), “matéria abundante que roça o romanesco e até o escândalo. Tudo com nomes de pessoas concretas marcadas pelo conflito interior de quem numa altura da vida toma um compromisso para sempre, mas depois altera-se a vontade, e às vezes, com o amadurecimento ou a falta dele dão origem a um conflito exterior entre os direitos da liberdade individual e as normas que a limita. As transformações sociais também transparecem no caminho que leva ao laicismo e ao secularismo.
“Os conflitos entre Bispos e o Cabido também transparecem. É impressionante a quantidade de energias que se gasta em torno de quezílias internas (...). A mobilidade nas ilhas com a entrada de estrangeiros leva a que aumente o número de pedidos de dispensa de disparidade de culto. As igrejas reformadas entram em acção também nos Açores”.
– A imagem da sociedade açoriana e da Igreja que aqui está, com os seus prelados, clérigos, religiosos, etc., tal como torna a ressaltar da releitura de A Diocese de Angra no Arquivo Secreto do Vaticano nem sempre é muito lisonjeira, deplorando, por exemplo, o Bispo D. Estêvão, em 1644, “a falta de ministros com qualidades suficientes para pregarem a palavra divina, apontando como causas para esta situação a imoralidade de alguns, a decadência de conhecimentos teológicos e educação eclesiástico-religiosa”, a par de “irregularidades praticadas nas Ordens”, “desacatos”, “roubos”, “públicos(s) escândalo(s) em concubinato(s)”, freiras “enclausuradas no distrito de Angra (...) vivendo a maioria irregularmente e algumas em grande escândalo, encontrando-se situações semelhantes em S. Miguel e na Horta”, por entre autos e libelos, acusações, seduções, fugas, prisões, anátemas confessionais (v.g. antiprotestantes e antijudaicos...), excomunhões, censuras, conluios institucionais, etc., etc.
De resto, já em Outubro de 2011, por ocasião da apresentação da edição integral referida, D. Manuel Clemente (actual Cardeal Patriarca de Lisboa) logo salientou a importância,   recursos e potencialidades que uma obra desta natureza continha, com a particularidade – para nós indicativa, como escrevi antes – de se ter debruçado sobre a problemática conflitual (para ele dilecta e da qual é reputado especialista) do liberalismo, do primeiro republicanismo, do movimento católico português e das suas paradigmáticas configurações, ecos e ilustrações nas nossas ilhas, para tanto respigando, um exemplo documental de “sete anos antes da revolução liberal”, onde um prelado já dava notas de um outro tempo, que então chegava, ao referir “apreciar a religiosidade das pessoas do campo em oposição à cidade, onde diz que residem os libertinos e os maçons”, e bem assim com muitas outras e preciosas informações e pistas que ali variada e abundantemente constam... E isto mesmo fora ainda salientado por Arnaldo Espírito Santo (coordenador, com Manuel Saturino Gomes, do primeiro tomo da referida obra) ao escrever o seguinte:
– “Tomemos como caso notável a história regional e local das comunidades açorianas. Das centenas de pedidos de dispensa de impedimentos canónicos do matrimónio entre familiares, consanguíneos e afins, ressalta a verificação de que era restrito, no século XVII, o número de famílias do arquipélago, em grande parte descendentes daquelas que iniciaram o povoamento das ilhas. A prática religiosa é intensa. A enquadrar as comunidades urbanas e com uma grande inserção entre elas, exercem o seu fascínio os conventos e os institutos de várias famílias religiosas. Muitos e muitas acorrem a engrossar as suas fileiras. Seja por inadaptação ou por insatisfação, chovem os pedidos de mudança de lugar, uns alegando desejo de maior austeridade, outros denunciando dificuldades pontuais de convivência e conflitos pessoais. Uma abadessa solicita a exoneração do cargo; uma freira, já idosa, pretende licença para ter uma criada. A autoridade eclesiástica competente vai despachando conforme os casos, ora acedendo aos pedidos, ora recusando para não criar precedentes.
“Há matéria abundante que roça o romanesco. Uma freira foge do convento para Inglaterra com um marinheiro inglês. Outra salta o muro, dizem que com conivência do confessor. Um escândalo que fez correr rios de tinta e de documentos”…, e assim por diante, para encantadoras incursões e revisitações socio-históricas, públicas e privadas, culturais e existenciais, pelos caminhos do passado da vida nos Açores, no entrecruzamento de gentes, mentalidades e destinos do Mundo.
– Uma obra fascinante, portanto, torno a dizer, e plena de atractivos inter e pluridisciplinares, indispensável nas estantes pessoais e bibliotecas e arquivos regionais, para estudo, investigação e reprodutivo conhecimento crítico daquilo que fomos, e do muito que, de algum modo, ainda nos molda e condiciona hoje…
E depois, se a designação de “Arquivo Secreto do Vaticano” – aliás já acessível hoje até ao Pontificado de Bento XV (1914-1922) – inclina realmente o leitor para “um mundo subterrâneo, obscuro, perigoso, duvidoso, inacessível”, pode também criteriosamente contribuir com este Catálogo (cadastro...) “para que, de futuro, os investigadores, possam arquitectar e construir uma [outra?] História da Igreja nos Açores”, sem mitos ou novas mistificações, quiçá renovada espiritual e socialmente, e muito mais verdadeiramente fiel aos ensinamentos do seu Mestre...

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