Azedo!

Confesso que já tinha decidido deixar de escrever à limão galego (azedo, como qualquer limão, mas avermelhado, condição esta que não tem propriamente a ver com o “tom” das crónicas, é apenas um fait divers colorido). A razão é simples: quando comecei a “galegar”, fui pressionado por muita gente a refrear a limonada. Que era exagerado, que eu ia-me “queimar”, que as pessoas não iam gostar, que era quase uma questão de bom gosto não ser tão ácido! Reconheço que na altura pouca gente se dava com limão galego, pelo menos a ter em conta as críticas que eram produzidas nos jornais ou até nas redes sociais. Mui poucas, já se sabe...
Hoje o limão parece estar generalizado. E o que parecia (e era) uma excepção há tão pouco tempo, é hoje a norma. Todos criticam, com mais ou menos sabor, e parece que já ninguém tem medo de dizer que o Rei vai nú! Levou algum tempo a retirar as olheiras e abrir os olhos a todos estes novos cronistas que aparentemente não têm qualquer medo de represálias ou de não estarem na moda. Hoje a moda é exactamente azedar! E com razão, acho eu!
O papel que me cumpre como profissional destas andanças – e também sou profissional quando escrevo as minhas opiniões, pois um jornalista não pode apenas botar postas de bacalhau sem confirmar se não são de paloco do Pacífico. Para terem uma ideia, há artigos de opinião que são autênticas investigações, levando horas a pesquisar antes que eu possa digitar uma única letra! Ossos do ofício, já se sabe! Outros, sem a obrigação de acertar no bacalhau, serão talvez mais ligeiros, eventualmente ainda mais acutilantes, mas não obrigatoriamente mais verdadeiros!
Bom, mas o que me cumpre como pessoa que recebe um ordenado para olhar e ver o que se passa à minha volta, e depois escrevinhar o que consigo concluir, é estar um passo mais à frente. Estive-o quando comecei a limonada; e agora espero voltar a estar, quando passar para o meu novo sabor: a laranja azeda! A nêspera tinha sido a minha primeira opção, e confesso que não me desiludi com as primeiras que comi este ano (primeiras e últimas, provavelmente, pois não me parece que essa produção esteja propriamente organizada, à imagem de quase tudo nos Açores). A época da goiaba também passou rápido e apesar de ser de qualidade excelente, durou pouco. Tal como a anona! Sei que os araçás já estão em flor e se não houver nenhuma tempestade de monta iremos saboreá-los com desvelo!
Mas então, com tanta variedade possível, porquê a laranja, perguntarão? Simplesmente porque a laranja tem uma conotação histórica, tem um passado nestas ilhas, e até já foi responsável por um ciclo económico (é imaginar o ciclo da vaca, mas com mais folhas, quintas e navios ingleses no porto de Ponta Delgada – e os filhos dos ricos a estudarem nas capitais europeias, para regressarem à terrinha e nos colocarem no mapa europeu das grandes ideologias e filosofias do seu tempo; a vaca foi bem menos produtiva, parece-me). E há pelo menos dois anos consecutivos que não consigo pôr o dente numa Laranja de Umbigo, que é docíssima e quanto a mim, e aos raros que já as puderam saborear, é talvez a melhor do mundo! Se existisse, claro! Portanto, laranja por causa do seu seu simbolismo, azeda porque é o travo que a maior parte das que resistem tem. Ou seja… Há uma tentativa de alterar o sumo, digo rumo, sem me afastar em demasia do “corte” que caracteriza os frutícolas mal amanhados que temos!
Mas é difícil esquecer o limão! E por mais que queira, este governo – se é que o termo é aplicável – não me sai da ideia! Mesmo que o quisesse, a última edição do “Açores9” não me deixava: o órgão oficioso do PS, pago com dinheiro de todos os contribuintes (os que são e não são do PS), realizou uma espécie de “edição de ouro”, em que o PS e o Governo se fundem no patrocínio: memorável! Esta é a faceta dos princípios, da ética e da vergonha! Da falta deles, quero dizer!
A outra, do desgoverno, vai-se lendo todos os dias através do GACS, na versão oficial, e através da imprensa nacional, quando se quer ver a versão real. O caso da ligação de fibra óptica é um exemplo deste desmando – já por mais que uma vez tinha dito que o José Contente estava a revelar-se uma surpresa na área da info-exclusão, e isso parece confirmar-se! Esta gente não vive na Lua: provavelmente vive em Marte e quer manter-nos no centro de África!
Depois há o caso da “exploração dos fundos do mar”, que, tubarões me mordam, só pode trazer água salgada no bico! Ainda não sei ao certo quem é que vai lucrar com a delapidação dos fundos do mar açoriano, mas tenho cá os meus palpites em relação à sua origem: virão todos da família que se instalou no poder nos últimos anos – até aos sobrinhos, cunhados e netos! Aliás, já está cada vez mais gente de olho sobre o assunto, o que é salutar – e assustador!
E a incineração! É a última “revolução” que o cesarismo irá deixar à beira-mar plantado (não a mais cara, que essa é scutica), mas é outro erro tão grosseiro que até mete dó! Essa gente ainda não conseguiu perceber que o seu rumo está praticamente todo errado – desde os erros patéticos realizados nas lagoas e nas termas, ao modelo à la Monaco cuja expressão máxima é o Casino Fantasma da Calheta! E agora é a mais recente: uma incineradora em S. Miguel! Deus me perdoe, mas tal como em todos os outros casos, aqui denunciados quando ainda se poderia ter evitado o erro, e posteriormente confirmados pela triste realidade, esta é mais uma herança para esquecer! Eles ainda não perceberam que os Açores só terão presente e futuro se estiverem ligados indelevelmente ao Ambiente e à Ecologia! Nem nunca vão perceber! Ao menos tivessem a humildade de o reconhecer e não decidir, em fim de mandato, investimentos que nos condicionarão para os próximos 20 anos ou mais! É triste demais – e muito, muito azedo!
Claro que a populaça não é propriamente activa! Há uma pequena elite, informada, que sabe pensar, mas que não é propriamente dada a grandes extroversões: o silêncio é d’ouro, mesmo sem produzir espíritos (é um simples trocadilho com o Vinho do Porto). Ou seja, é uma elite sobretudo contemplativa, o que não é obrigatoriamente mau, mas não contribui lá muito para o melhoramento social.
E há os outros, os que lêem por alto, vêem por alto e ouvem por alto! A sua opinião também é por alto e se bem que por vezes falem pelos cotovelos, essa articulação não é propriamente conhecida por ser lá muito boa a reflectir, problematizar ou concluir! Curiosamente, é sobre esse mar de cotovelos que os governos têm a maior parte dos seus ouvidos e desejos. Por isso não será de admirar que a maior parte das decisões políticas sejam tomadas pelos cotovelos governamentais… É uma delícia! Raramente acertam, mas é só porque o cotovelo não está bem afinado!
Fico com a sensação que o Governo devia todo tomar a mesma decisão do seu líder (quer dizer, não sei se é líder, herdeiro de líder, ou eventual líder, tal é a trapalhada que está instalada nesta nomeação): abandonem os seus postos, nomeieem os assessores dos seus antecessores, e vão todos para deputados da Assembleia Regional. Teriam muio mais tempo para se dedicarem à pesca (penso que é esta a mensagem de Vasco Cordeiro sobre o Parlamento) ou ao que quisessem fazer e não fazer, e deixavam-se de governanças de fim de ciclo! Era um descanso!
Eu, por mim, podia finalmente dedicar-me à laranja azeda, com algumas incursões por outros frutos, à medida que fossem aparecendo em alguns quintais!
Já agora, alguém me sabe dizer como se distingue uma mandarina de um limão galego só pelo olhar? Eu digo: um tem umbigo, e o outro não! Claro que para um expert não é precido olhar para o umbigo da coisa para se perceber quem é quem! Já agora, o galego é que tem umbigo, e a mandarina não! Mas isso é até fácil! O que é mesmo difícil é governar bem, e obviamente que isso não está ao alcance de todos!

À parte:
Um amigo meu lembrou-me que o caso dos cágados aqui tratado na passada semana deixou no ar uma questão que me esqueci de resolver: como retirar os cágados das árvores sem os magoar! Realmente não sei! Para os retirar das árvores terá de ser pelo mesmo sistema, mas invertido – se alguém os pôs lá, outro alguém os terá de tirar, pois os cágados também não descem das árvores sozinhos! Agora, não há qualquer garantia que eles não se magoem! Desde logo, é provável que a massa muscular esteja algo definhada, porque no cimo das árvores eles não fazem muito exercício, a não ser agarrarem-se bem para não caírem. Portanto, é provável que seja necessária alguma fisioterapia. Em termos psicológicos também não me admira que seja necessário algum apoio, pois o mundo visto cá de baixo é muito diferente... Só espero é que não cheguem à conclusão que será mais barato deixá-los lá em cima, até porque eles já estão bem adaptados... Mas realmente, cada cágado representa um imbróglio complicado! E há tantos...

Lembrar o Dia internacional do Trabalhador/a porque lutar é preciso

 O 1º de Maio é uma jornada de luta solidária pela liberdade e pelos direitos dos trabalhadores/as de todo o mundo. É também um dia de lembrar aqueles/as que, no decurso da História, têm caído nesse combate, cujos objectivos nunca foram totalmente conseguidos. Hoje, assistimos, até, a um estrondoso retrocesso. Por isso, agora, como no passado, a luta continua!
Foi a 1 de Maio de 1886 que os operários dos Estados Unidos da América vieram para a rua em protesto contra as suas condições de trabalho, os baixos salários, a exploração do trabalho infantil, as extenuantes jornadas que, frequentemente, excediam as 12 horas. Em Chicago, a greve paralisou as fábricas e prolongou-se por vários dias. Contra a onda grevista, os patrões mobilizaram a polícia e mercenários (os pinkertons), que mataram vários trabalhadores e feriram muitos outros.
No Congresso da Internacional Socialista de 1889, em Paris, foi decidido proclamar o 1º de Maio Dia Internacional do Trabalhador em homenagem aos “mártires de Chicago”; a bandeira vermelha permaneceu o símbolo do sangue derramado pelos trabalhadores. Desde aí, milhões de trabalhadores de todo o mundo têm-se manifestado e apresentado as suas reivindicações no 1º de Maio.
Hoje em Portugal, a coberto da crise mundial, europeia e nacional com o Governo da Troika/PSD/CDS assistimos a uma degradação generalizada dos direitos dos trabalhadores. No país, e na Região, congelaram-se pensões, direitos de progressão, confiscaram-se, sem data, e inconstitucionalmente, os 13º e 14º mês, e ao mesmo tempo reduziram-se os apoios sociais, tudo isto num país em que mais de 99 por cento vive de reformas e salários de miséria.
Vivemos o alastramento do flagelo do desemprego e trabalho precário, mas nem assim se coibiram de alterar a Lei laboral de modo a que seja mais fácil: despedir, acabar com o devido pagamento das horas extraordinárias e descanso compensatório, destruir a estabilidade dos horários de trabalho com a introdução de um banco de horas determinado pela entidade patronal, prolongar o trabalho temporário, aumentar o período experimental, diminuir o valor e tempo do subsidio de desemprego, diminuir a capacidade negocial das Convenções Colectivas e dos direitos dos representantes dos trabalhadores, continuar a política de salários baixíssimos.
Tudo isto acontece em nome de quê e de quem? De quem trabalha é que não. Estas são escolhas políticas que levam a mais desemprego e mais precariedade sem direitos, não resolvem a crise, aumentam sim a pobreza e as desigualdades sociais de forma galopante.
Hoje como há 125 anos é necessário estarmos despertos e lutar contra o ataque à dignidade de quem vive do seu trabalho!

O Estranho Caso do Capitão Dreyfus 2

 Quer fosse inocente ou culpado, o caso do capitão Dreyfus, teve um tal impacto que ultrapassa em muito os aspectos pessoais. A ligeireza com que os Ministérios trataram a situação deu lugar à desconfiança e ao medo. Cresceu o temor de graves consequências da guerra com a Alemanha. A França tornava-se num barril de pólvora e com bons motivos para explodir  
Os ânimos já muito irritados exaltam-se e a discussão da inocência ou da culpa do oficial é a questão fulcral de todo o país. Emociona, comove, enfurece e irrita, sem haver nada concreto pois o julgamento foi a portas fechadas e ninguém podia verificar as provas.
As razões de Estado são sempre sólidas. Só que este é  um bom pretexto para mostrar descontentamento e reactivar conflitos da época tão mal curados. As guerras perdidas causavam raiva e soavam a retaliação cada vez mais alto.
Aquando do primeiro julgamento, toda a França tremeu, as disputas faziam furor nos cafés e botequins, enquanto os jornais alimentavam a polémica, suscitando paixões, entusiasmos ou um ódio fatal ao oficial judeu que, depois das piores humilhações, fora condenado.
A imprensa deu tal destaque que não há memória de outro caso igual. Choviam artigos a favor e contra de todos os lados a mostrar que não se tratava só do capitão alsaciano, mas era muitíssimo mais do que isso. Era a divisão interna da França, com vontade do regresso à monarquia de uns, ressentimentos que a comuna causara a outros, mais a guerra franco-prussiana, a perda das províncias acrescentando o receio crescente de espiões entre os franceses patriotas ou ainda a tese dos judeus estarem ocultos na sombra à espera da hora de atacar. Foi a opinião pública que guiou a sentença dos magistrados. Fez tremer a mão de Dreyfus, ao copiar o documento incriminatório e, como os heróis, não tremem, era culpado. A sua vacilação quase ditou a sentença. Quem podia duvidar de um veredicto pronunciado por multidões seguras das convicções para além dos factos?
A culpa do verdadeiro autor do “bordereau”, levanta fortes questões ainda hoje muito obscuras. Teria sido a cobardia e o ódio de um outro militar, Esterházy (1847-1923) um oficial do exército francês, de nobre família húngara que, por detestar Dreyfus, urdira toda a trama e o documento que serviu de prova. O ódio bastaria para uma tal denúncia? O caso envolvia também quantias elevadíssimas, depoimentos contraditórios e desconfianças muito confusas, à mistura com cartas anónimas e artigos nos jornais.
Os factos são contraditórios e dão um clima de suspeita que se alastrava. Se Esterházy era um espião, ou um caluniador, é bem estranho que, quando foi descoberto e julgado, não fosse castigado, mas sim absolvido.
Saberia ele demasiado? Era preciso calá-lo? À distância a que estamos dos factos, há novas perspectivas. Será que havia mais espiões e de patentes ainda mais altas? Eram vários os culpados e o caso estendia-se como um polvo ao qual se tinha de cortar os tentáculos? A situação interna não respirava senão aspectos ambíguos. No fundo acusava-se a França e não um só homem que não passava de pretexto.
Se foi uma acção de propaganda contra a república, de forças antissemitas e xenofobia face a uma França desunida, ou um acto de corrupção e de espionagem por parte dos mais altos oficiais do Ministério de Guerra, nunca se poderá descobrir.
A questão Dreyfus foi muito mais do que o próprio Dreyfus, aliás um militar cumpridor, pouco simpático, muito reservado, menos nas cartas do degredo. Pelas que escrevia à esposa, os seus protestos de inocência são ecos da terrível e lamentável situação. Ciente de que seriam lidas por muitos, esconderiam o intuito de comover muita gente para além da esposa? Não há sinais de valentia ou de estoicismo face ao sofrimento. Tais cartas muito perturbariam a mulher e os dois filhos pequenos. Mas a família procurava defesas e veio a encontra-las.
O veredicto do segundo julgamento causou a maior indignação ao escritor Émile Zola que publica o artigo “ J´acuse”, 1898, no jornal “ L Aurore”. O artigo fez furor e esgotou a edição do jornal. O texto apresentava, provas da inocência do capitão, pelas investigações de Picquart. Mas o mais importante do texto de Zola era o facto de citar directamente uma série de nomes sonantes do exército e tornou o escândalo ainda maior do que a sentença: Zola foi épico, inflamado e único, na sua carta aberta ao Presidente da República, Félix Fauré. Ergueu a França num coro de protestos, ao ponto em vários locais havia tais discussões, com tumultos graves.
  “O meu dever é falar, não quero ser cúmplice. As minhas noites seriam atormentadas pelo espectro do inocente que paga, na mais horrível das torturas, [ na terrível Ilha do Diabo] por um crime que ele não cometeu. .
 Nunca artigo algum teve tamanha fama e um tal eco no mundo jornalístico. Recorda um tribuno romano pela espantosa capacidade de despertar emoções pela escrita insuperável. A revolta de Zola deu brado e alertou os franceses contra a arbitrariedade do julgamento e condenação do capitão Dreyfus. A petição para a revisão do processo fora assinada por dezenas de intelectuais, como o famoso escritor Marcel Proust, Anatole France, que cheio de indignação, devolveu a sua medalha da Legião de Honra, e muitos outros intelectuais. Fez coro com eles a indignada massa estudantil e muitos populares. Nada disso demoveu as forças do Estado, nem ministérios, nem tribunais.
Durante anos, entre suspeitas e acusações, afirmações de inocência e incriminações a França viveu o drama deste militar. O próprio Zola, depois do artigo ter esgotado a edição de 30’00 mil exemplares foi levado a tribunal, com graves consequências pelo seu gesto, prisão e multa, que foi paga por um amigo Octávio Mirabeau. O Director do jornal foi preso e também pagou uma pesada multa. Zola foi para um exílio em Inglaterra, para poder escapar à prisão. Em 1899 - o tribunal de cassação anula o julgamento de 1894 e reabre o processo. Dreyfus é reenviado a um novo conselho de Guerra em Rennes para novo julgamento em 1899. Isso não liberta Dreyfus. Continua a ser considerado culpado, e é condenado a 10 anos de cadeia. Repare-se que as penas vai diminuir, como se a opinião pública é que desse a sentença. É uma ironia ou pasmo ainda maior que, no dia 19 de Setembro de 1899, o capitão é amnistiado e deixa a prisão. Apesar de tudo isso, não lhe retiraram o estigma da culpa.
 Se, bem mais tarde, as provas levaram a julgamento Charles-Ferdinand Walsin Esterhazy, considerado então o verdadeiro culpado do crime de traição, há um tratamento completamente diferente para este espião descoberto. É uma Justiça sem verdade e com dois critérios como tantos casos se conhecem na História!
No meio de acusações e negações, algo escapa a um completo entendimento. A Justiça demonstra uma parcialidade incrível e só causa um descrédito espantoso. Que razões de Estado se escondem e como é que os Tribunais podem ser tão frágeis face à Verdade?   Por que razão afinal, depois de descoberto outro culpado, este é absolvido pelo tribunal? Se era culpado, porque não foi também para a ilha do Diabo? Haveria razões para temer que houvesse mais franceses, de altas patentes até, envolvidos na espionagem? Por que razão Dreyfus nunca pede uma indemnização ao Estado francês? Porque não acusa os tribunais? Porque se mantém sempre calado e demonstra um comportamento conformista?
Haverá sempre interrogações sobre  este caso mais do que sombrio que arrastou anos a fio os franceses a um clima de instabilidade social e descrédito político.
(Continua)

A boca de cena e o pano de fundo

 É inquestionável que a época atual, na zona europeia, se carateriza pelos avanços consecutivos do neoliberalismo económico, assegurando os seus agentes políticos no terreno um predomínio invejável dos interesses do capital financeiro e especulativo sobre os interesses dos povos e nações.
A revolução russa, a declaração universal dos direitos humanos, ou os sistemas democráticos surgidos no pós-guerra, todos eles significaram uma inversão à predominância de um desumano poder económico, colonialista e explorador, que se desenvolvera e instalara na América do Norte e na Europa, na sequência da revolução industrial do início do século XIX.   
Mas hoje, mau grado os crescentes protestos (confirmados e reforçados neste 1º de Maio que passou) face às injustiças, ao desemprego, à pobreza e às desigualdades também crescentes, um programa comum de austeridade vai-se entretanto impondo contranatura país a país, numa batalha desigual desencadeada pela nomenklatura europeia, sob a capa da necessidade de proceder a “reformas estruturais” que estabeleçam, um novo paradigma económico, o qual não passa afinal (a meu ver) da tentativa de restaurar para o velho continente, tal como acontecia antes, a legitimidade do predomínio absoluto do económico sobre o político.
Uma das boas razões para entender o carater desigual desta batalha, na opinião (que partilho) do filósofo holandês Rob Riemen (ao jornal “I” de 23 de Abril), prende-se com o facto de o neoliberalismo ter conseguido criar um sistema de educação e formação que deixou de manifestar interesse pela pessoa, e passou sobretudo a dar primazia ao tipo de profissões de que a economia necessita. Um sistema de educação e formação montado na base do que cada um pode vir a ter e não do que cada um pode vir a ser. Um tal sistema, pelo poder que emana da posse, debilita a capacidade crítica da sociedade, tornando-a, bem como às regras estruturantes e democráticas que a enformam, perigosamente vulneráveis e manipuláveis.
Para além do aumento do desemprego originado pela batalha lançada pelo governo da República (com o apoio do PS, no acordo troikista) em demanda das supracitadas “reformas estruturais”, o fato de 82 % dos desempregados destas ilhas terem habilitações iguais ou inferiores ao 3º ciclo do ensino básico mostra-nos como aquela batalha desencadeada contra o emprego, os salários e os rendimentos de quem trabalha, se torna ainda mais desigual nos Açores que no resto do País e da Europa.
Nesta batalha, a Autonomia Político-Administrativa pode no entanto interferir na desfavorável correlação de forças em presença e funcionar como uma arma estratégica para contrariar a vaga apologista do domínio absoluto do económico sobre o político que também se procura estender aos Açores...
Caso o parlamento regional ficasse composto por uma maioria absoluta dos mesmos partidos coligados na República, a expressão da vontade popular poderia obviamente ser substituída pela maior dependência regional de um poder central invasivo e desrespeitador da Autonomia, mas, como se tem comprovado (e aí estão, por exemplo, os cortes salariais regionais), também a maioria absoluta de outro partido, o PS, pode, ainda que em grau diferente, proporcionar tal dependência. Na conjuntura atual, só a existência de uma maioria relativa, em consequência de uma maior distribuição de votos e deputados pelas diferentes forças concorrentes, tornará o parlamento regional menos dependente do poder central e mais vinculado à vontade popular.
Nesta batalha desigual importa pois aos açorianos, em tempo oportuno e mais do que nunca, usar de fato a Autonomia com a finalidade para a qual ela foi criada, isto é, como uma arma a seu favor...

DTH ou pagas para não ver TV

 O acesso à informação é um direito que, em Portugal, está consubstanciado, entre várias formas, pelo serviço público de televisão.
Numa sociedade democrática, a informação é essencial para o exercício da cidadania, pelo que a desigualdade no seu acesso fragiliza o esclarecimento do(a) cidadão ou cidadã.
O acesso a canais de sinal aberto, incluindo como é óbvio a RTP, é um direito de qualquer cidadão/cidadã. Um direito que até é pago directamente, mensalmente, através do imposto do audiovisual. Contudo, no caso da televisão e devido ao processo de transição do sinal analógico para o digital (TDT), o(a)s cidadãos(ãs) que não tenham televisores recentes ou televisão paga, através de um operador privado, terão de adquirir, obrigatoriamente, um descodificador que lhes permitirá aceder ao serviço que já paga todos os meses.
O processo de transição tecnológica na difusão do sinal de televisão tem sido, no mínimo, atribulado na generalidade do país, mas é mais atribulado em determinadas regiões do que em outras e muitas questões pertinentes têm sido colocadas. Porque não foram disponibilizados mais canais de televisão na TDT? Por exemplo, os vários canais da RTP: a RTP/Memória, a RTP/Informação, a RTP/Açores (no continente e Madeira), a RTP/Madeira (no continente e Açores) e até a ARTV (canal da Assembleia da República).
Estamos em 2012. Todos os Açores foram cobertos pelo sinal TDT… Todos? Não! Duas ilhas, as Flores e o Corvo não estão, ainda, ligadas ao cabo de fibra ótica. Por isso não têm acesso à TDT. A vida não é fácil para florentinos e corvinos, até o acesso à televisão, acesso que pagam como qualquer outro açoriano, não está garantido. Mas, segundo PS, PSD, CDS/PP e PPM, não há qualquer problema! Basta que cada florentino e corvino pague por um qualquer ‘pacote’ de televisão paga ou em, alternativa, se não tiver dinheiro para isso, que suporte o custo (€138) de um descodificador e de uma antena parabólica e respectiva instalação, numa solução a que designam por DTH (Direct to Home). É certo que depois de feita a despesa, e se o corvino ou florentino, não tiver grandes possibilidades financeiras, lá receberá um reembolso. Assim, o direito à informação ficará garantido por €30, o correspondente a sensivelmente 1 ano de taxa audiovisual.
Vivemos tempos estranhos. Tão estranhos, que um governante é capaz de declarar com orgulho que o acesso à TDT está garantido na Região, ou seja que os açorianos e açorianas, apesar de pagarem, mensalmente, a taxa de audiovisual terão de pagar mais um extra para manterem o seu direito à informação. Mas vai mais longe, quando não vê qualquer problema em que os florentinos e corvinos (sem esquecer alguns residentes em outras ilhas que têm o azar de viverem nas designadas zonas sombra) terão de pagar muito mais! O motivo de orgulho é tão ‘bizarro’ que o governante ainda ‘enche o peito’ para proclamar que as ilhas das Flores e do Corvo tem aderido a serviços de TV paga e que se tem vendido descodificadores e parabólicas como nunca! Ou seja, orgulha-se por florentinos e corvinos pagarem duas vezes pelo direito ao acesso à televisão.
O acesso à TV, enquanto forma de acesso à informação, é um direito de cidadania. Compete ao Estado e à Região garantir esse mesmo acesso, o que não aconteceu em todo este processo, em que as pessoas tiveram de pagar para continuar a aceder à oferta pública (canais em sinal aberto) de TV. No caso dos florentinos e corvinos, o custo que cada cidadão terá de suportar por esse direito é ainda maior, com a agravante de serem ilhas, onde os seus cidadãos têm uma maior necessidade de acesso à informação, devido à sua condição geográfica que lhes impõe um maior isolamento e menos oportunidades de acesso à cultura, informação, desporto, etc.
Não deixa de ser curioso que a mesma recomendação da União Europeiaa que traça as linhas gerais do que serão os processos de transição da televisão analógica para a TDT é a mesma que aconselha o investimento, por parte dos Estados-membros, nas infraestruturas necessárias para a difusão da internet de banda larga em zonas rurais, o que está longe de ser uma realidade nas Flores e no Corvo.

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