DTH ou pagas para não ver TV

 O acesso à informação é um direito que, em Portugal, está consubstanciado, entre várias formas, pelo serviço público de televisão.
Numa sociedade democrática, a informação é essencial para o exercício da cidadania, pelo que a desigualdade no seu acesso fragiliza o esclarecimento do(a) cidadão ou cidadã.
O acesso a canais de sinal aberto, incluindo como é óbvio a RTP, é um direito de qualquer cidadão/cidadã. Um direito que até é pago directamente, mensalmente, através do imposto do audiovisual. Contudo, no caso da televisão e devido ao processo de transição do sinal analógico para o digital (TDT), o(a)s cidadãos(ãs) que não tenham televisores recentes ou televisão paga, através de um operador privado, terão de adquirir, obrigatoriamente, um descodificador que lhes permitirá aceder ao serviço que já paga todos os meses.
O processo de transição tecnológica na difusão do sinal de televisão tem sido, no mínimo, atribulado na generalidade do país, mas é mais atribulado em determinadas regiões do que em outras e muitas questões pertinentes têm sido colocadas. Porque não foram disponibilizados mais canais de televisão na TDT? Por exemplo, os vários canais da RTP: a RTP/Memória, a RTP/Informação, a RTP/Açores (no continente e Madeira), a RTP/Madeira (no continente e Açores) e até a ARTV (canal da Assembleia da República).
Estamos em 2012. Todos os Açores foram cobertos pelo sinal TDT… Todos? Não! Duas ilhas, as Flores e o Corvo não estão, ainda, ligadas ao cabo de fibra ótica. Por isso não têm acesso à TDT. A vida não é fácil para florentinos e corvinos, até o acesso à televisão, acesso que pagam como qualquer outro açoriano, não está garantido. Mas, segundo PS, PSD, CDS/PP e PPM, não há qualquer problema! Basta que cada florentino e corvino pague por um qualquer ‘pacote’ de televisão paga ou em, alternativa, se não tiver dinheiro para isso, que suporte o custo (€138) de um descodificador e de uma antena parabólica e respectiva instalação, numa solução a que designam por DTH (Direct to Home). É certo que depois de feita a despesa, e se o corvino ou florentino, não tiver grandes possibilidades financeiras, lá receberá um reembolso. Assim, o direito à informação ficará garantido por €30, o correspondente a sensivelmente 1 ano de taxa audiovisual.
Vivemos tempos estranhos. Tão estranhos, que um governante é capaz de declarar com orgulho que o acesso à TDT está garantido na Região, ou seja que os açorianos e açorianas, apesar de pagarem, mensalmente, a taxa de audiovisual terão de pagar mais um extra para manterem o seu direito à informação. Mas vai mais longe, quando não vê qualquer problema em que os florentinos e corvinos (sem esquecer alguns residentes em outras ilhas que têm o azar de viverem nas designadas zonas sombra) terão de pagar muito mais! O motivo de orgulho é tão ‘bizarro’ que o governante ainda ‘enche o peito’ para proclamar que as ilhas das Flores e do Corvo tem aderido a serviços de TV paga e que se tem vendido descodificadores e parabólicas como nunca! Ou seja, orgulha-se por florentinos e corvinos pagarem duas vezes pelo direito ao acesso à televisão.
O acesso à TV, enquanto forma de acesso à informação, é um direito de cidadania. Compete ao Estado e à Região garantir esse mesmo acesso, o que não aconteceu em todo este processo, em que as pessoas tiveram de pagar para continuar a aceder à oferta pública (canais em sinal aberto) de TV. No caso dos florentinos e corvinos, o custo que cada cidadão terá de suportar por esse direito é ainda maior, com a agravante de serem ilhas, onde os seus cidadãos têm uma maior necessidade de acesso à informação, devido à sua condição geográfica que lhes impõe um maior isolamento e menos oportunidades de acesso à cultura, informação, desporto, etc.
Não deixa de ser curioso que a mesma recomendação da União Europeiaa que traça as linhas gerais do que serão os processos de transição da televisão analógica para a TDT é a mesma que aconselha o investimento, por parte dos Estados-membros, nas infraestruturas necessárias para a difusão da internet de banda larga em zonas rurais, o que está longe de ser uma realidade nas Flores e no Corvo.

Portugal sem Abril?

 Quando se anuncia como bom que os custos do trabalho em Portugal estão a baixar de tal forma que já conseguem atrair investimento externo para o nosso país tão bem como para México ou para a Índia; que a política que Portugal necessita para combater a crise e satisfazer entidades externas é a política de favorecimento da banca, do capital financeiro e dos grandes grupos económicos, e, simultaneamente, a da austeridade e do empobrecimento para o povo; que para entesourar, visando cumprir compromissos (de validade questionável numa boa parte da sua extensão) é inevitável retirar aos portugueses o direito universal de acesso à saúde; é necessário fechar escolas, aumentar para 30 o número de alunos por turma, e se torna impositivo extinguir freguesias por decreto; que se devem promover cortes generalizados nos abonos sociais, nas pensões e nos rendimentos de subsistência, no preconceito de que, em geral, tais rendimentos constituem injustas regalias e não direitos, porque incidem sobre indigentes e preguiçosos e não sobre pessoas sérias e honestas; que não existe outro caminho, apesar de nunca este ter sido eleitoralmente sancionado, senão o de decidir nas costas de todos e à má-fé cortar reformas antecipadas, cortar salários e subsídios de férias e de Natal para sempre, e preparar despedimentos na administração pública; que, para salvar Portugal, o aumento galopante do desemprego se torna inevitável e não tem forma de ser combatido; que à geração mais nova se impõe o comprometimento do seu futuro, em nome do imaginário futuro das gerações seguintes; que o recurso à emigração não é mais senão a retoma do tradicional fado dos portugueses, etc. etc. etc., vêem-me à memória, os caminhos e as razões de Abril, nesta data em que escrevo...
Fazer Abril em 1974 foi necessário para salvar Portugal de uma ditadura opressiva, violenta e obscurantista que enaltecia a pobreza, enquanto protegia as famílias opulentas e os monopólios (ou oligopólios) económicos a elas ligados, atentava contra a dignidade humana, perseguia, prendia, torturava e assassinava os oposicionistas, proibia os partidos políticos e o voto das mulheres ou dos analfabetos na farsa suas eleições, oprimia os povos das colónias e mantinha uma guerra sem saída contra eles, desde 1961, a qual estava a destruir física e espiritualmente toda a geração jovem de então, contabilizando-se entre os militares portugueses, até ao golpe revolucionário do 25 de Abril, 8.300 mortos e 14.000 deficientes físicos...  
Fazer Abril em 1974 foi necessário para salvar Portugal e proporcionar o desenvolvimento, promovendo a emancipação do seu Povo através da instauração da Democracia no conjunto das suas componentes intrínsecas (política, económica, social e cultural). As liberdades, os partidos políticos, os sindicatos, os direitos das mulheres e das minorias, a participação e a co-gestão empresarial, o fim dos latifúndios, a produção e o emprego, mas também a saúde e a educação universais, a habitação, o salário mínimo e as reformas.
Muito embora isso até já aconteça nalguns casos, sem dúvida que, de forma geral, não regressámos, em 2012, ao 24 de Abril de 1974. Mas, agora sob a bandeira da democracia formal e da “bandeira à lapela” do poder político vigente estamos, como dizem os militares de Abril: “a regressar à condição de protectorado, sem capacidade autónoma de decisão, protegendo os privilégios, desvalorizando o trabalho e aumentando a pobreza e a exclusão social. A Constituição Portuguesa está a ser rompida e a dignidade dos portugueses a ser vilipendiada”. Pouco escapa à fúria revanchista, ao ajuste de contas dos novos herdeiros de um Portugal sem Abril.
E, sem Abril, na época actual, Portugal nem é livre, nem é democrático… nem é português.  

O Inimaginável da Globalização e o Enigma do Futuro

 Podemos considerar como a primeira era da globalização, a época dos descobrimentos marítimos, com a nova abertura ao mundo.
De meados do século XIX até finais dos anos 20 o mundo conheceu uma nova era de globalização.
Não havia controlo de divisas, de modo que, mal foi estabelecida a ligação transatlântica por cabo em 1866, as crises financeiras bancárias em Nova York, passaram a fazer-se sentir em Londres ou Paris.
Até 1914, não se exigia passaporte para viajar, salvo em tempo de guerra.
As invenções do barco a vapor, do telégrafo, do caminho de ferro, do telefone e do automóvel, marcam a segunda era de globalização e de capitalismo financeiro global, que foi quebrada pela 13-Guerra Mundial, pela Revolução Russa e pela Grande Depressão.
O mundo dividido, geográfica e ideologicamente, que emergiu da 2ª Guerra Mundial, foi então congelado pela Guerra Fria, que foi um sistema internacional, que durou de 1945 a 1989, quando com a queda do Muro de Berlim, foi substituído por outro sistema, a nova e atual era da globalização pós Guerra Fria.
De onde se deduz que, o período de cerca de 75 anos, entre o início da 1ª Guerra Mundial e o fim da Guerra Fria, mais não foi do que um longo intervalo, entre uma era de globalização e a outra.
Para imaginar a ordem de grandeza entre as duas épocas de globalização, segundo F.M.I., só em 1997, o fluxo de capitais privados do mundo desenvolvido para todos os mercados emergentes, totalizou 215 biliões de dólares, quando, em 1900, se mediam em centenas de milhões de dólares.
A segunda era de globalização, foi construída à volta da baixa do custo dos transportes, graças à invenção dos caminhos de ferro, do barco a vapor e do automóvel.
A atual era de globalização, está a ser construída à volta da baixa do custo das telecomunicações, graças aos microchips, aos satélites, ás fibras óticas e á Internet. Estas novas tecnologias, têm a capacidade de tornar o mundo mais apertadamente interligado. Em 1930, um telefonema de três minutos entre Londres e Nova York custava 300 dólares ( em dólares de 1996); hoje, através da Internet, é praticamente de graça.
O que torna a nossa era de globalização única, não é apenas o fato de estas tecnologias estarem a permitir, às tradicionais nações-Estados e às empresas, chegar mais longe, mais depressa, com menos custos, e mais profundamente, em todo o mundo, do que em qualquer outra época da história; é o fato de permitirem que, simples pessoas, individualmente o façam também. Por exemplo, uma americana, residente nos EUA, jogar bridge na Internet, com três franceses residentes em França, ou com uns fulanos na Sibéria; ou o caso de uma pessoa nos EUA sentada numa cadeira junto do seu computador ligado à Internet, carregar num botão - click no rato é o termo técnico - enviar ou transferir milhões de unidades monetárias, para os antípodas geograficamente ou de uma pessoa na Europa, transferir pelo mesmo processo, uma avultada importância de dinheiro para um banco offshore sediado algures numa das ilhas da zona das Caraíbas.
As prodigiosas maravilhas do computador, ligado ou não à Internet, do telefone celular, pelo qual se fala, enviam mensagens e se tiram fotografias, do fax, que parece um truque mágico, de colocar uma mensagem numa caixa e ela ir sair noutra caixa para onde a desejamos enviar, causam-me confusão e provocam pouco entusiasmo. Mas, eu já tenho mais seis anos, além dos três quartos de século de idade. Contudo reconheço que são uma banalidade e cartilha obrigatória e indispensável para as novas gerações. Quanto a mim, pode aplicar-se o ditado: burro velho não aprende línguas...
Todavia, e em contrapartida, tenho o mérito de ter aprendido o novo acordo ortográfico. Caminho na direção certa da atual ortografia do português. Quanto ao português é que, não sinto vibrar em mim, a expressão porque me orgulho de ser português, título de um livro de Albino Forjaz de Sampaio, pois esse orgulho tem-se esvaído, desde há uns anos atrás, pela política e pelos políticos do meu País.
É um fato ( sem ser peça de vestuário masculino...)
Ainda relembro as palavras do meu falecido primo, Dr. José Estrela Rego, que me disse - a propósito dos meus artigos para o Jornal Diário dos Açores e, do curso de economia que não concluí, primeiro, por motivo de doença e, segundo, porque fui apanhado pelo 25 de Abril, mas pelo qual, depois, me apaixonei, aprofundando o estudo e atualizado - ter sido uma pena eu nunca me ter interessado pelo computador.
E hoje, sinto as consequências desse meu desinteresse, quando agora estou a preparar para publicação, a biografia de meu Pai, feita por mim, por força das circunstâncias, guardada há muitos anos e, presentemente, a ser dactilografada e digitalizada no computador, por um primo meu, da nova geração, tenho quase o dobro da idade dele !
Depois desta breve divagação, volto ao assunto de que me ocupo aqui neste artigo.
Como foi que esta nova era da globalização, se tornou o sistema internacional dominante, no final do século XX, substituindo o sistema da Guerra Fria ?
Há várias obras literárias, que se esforçam por definir, compreender e vaticinar o mundo pós Guerra Fria: O Fim da História e o Último Homem de Francis Fukuyama; O Choque de Civilizações, de Samuel Huntington e, os ensaios e livros de Robert Kaplan.
A pretensão destas obras literárias, é a incerteza e o enigma do futuro, para além desta nossa atual era de globalização, a era pós Guerra Fria, que muitos já compreenderam e sentiram e, da qual, outros ainda andam alheios. Nestas obras literárias, a interpretação prospetiva e reveladora do futuro não é muito holística e, também, muito menos é apodítica.
Se queremos compreender o mundo pós Guerra Fria, temos de começar por compreender, que um novo sistema internacional lhe sucedeu - a globalização. Sob o sistema da globalização encontramos, simultaneamente, choque de civilizações e a homogeneização de civilizações, desastres ambientais enormes e espantosos salvamentos ambientais, o triunfo do capitalismo liberal de mercado livre - a teoria neo-clássica de desregulação, da qual, foram paladinos Reagan e Teacher, na esteira do economista monetarista Milton Friedman - e a reação contra ele, a durabilidade de nações-Estados e, a emergência de atores não estatais, imensamente poderosos.
Comparemos as duas eras, a da Guerra Fria e a que lhe seguiu, a atual era de globalização.
O sistema da Guerra Fria, tinha as suas próprias ideias dominantes: a luta entre comunismo e capitalismo, a détente, o não-alinhamento e, por fim, a fase da mudança, com a perestroika e a glasnost, que foram, impercetivelmente, o prenúncio do fim do comunismo e da queda do império da U.R.S.S.
Tinha a sua própria medida definidora: a capacidade de carga dos mísseis nucleares; tinha a sua própria angústia definidora - a aniquilação nuclear.
O sistema da globalização, ao contrário da Guerra Fria, não é um processo estático mas dinâmico: envolve a enexorável integração dos mercados, nações -Estados e tecnologias, num grau nunca antes visto. A globalização, conduz à homogeneidade e, portanto, a uma perda de identidade, e esta está associada à tradição; o presente - ou talvez futuro - substitui o passado. A inovação substitui a tradição.
A ideia motora por detrás da globalização, é o capitalismo de mercado livre - quanto mais deixarmos agir as forças do mercado e, quanto mais aberta ao comércio livre e à concorrência forem as nossas economias - mais florescentes serão. A globalização significa, a generalização do mercado livre, a praticamente todos os países do mundo.
A globalização, tem também, o seu próprio conjunto de regras económicas - regras que giram à volta de abrir, desregular e privatizar a economia.
Culturalmente, e é a ideia fixa dos seus adversários, ainda que não inteiramente, é o alastramento da americanização, a uma escala global, como é o caso, por exemplo, da proliferação por toda a parte, até em países pobres, dos MC Donalds.
A globalização tem as suas próprias tecnologias definidoras: a computação, a miniaturização, a digitalização, as comunicações por satélite, as fibras óticas e a Internet.
Se a perspetiva definidora do mundo da Guerra Fria era a divisão, a perspetiva definidora da globalização é a integração. Enquanto a medida definidora da Guerra Fria era o peso das ogivas nucleares, que os mísseis conseguiam transportar, a medida definidora do sistema da globalização é a velocidade - velocidade de comércio, de viagem, de comunicação e de inovação.
Segundo o teórico político alemão Carl Schmidt, a Guerra Fria era um mundo de amigos e inimigos; a globalização tende a transformar tanto amigos como inimigos em concorrentes.
O sistema da globalização constrói-se à volta de três equilíbrios, que se sobrepõem e afetam reciprocamente. O primeiro, é o equilíbrio tradicional entre nações-Estados. O segundo equilíbrio, é entre nações-Estados e mercados globais. Estes mercados globais, são constituídos por milhões de investidores, que transferem dinheiro pela forma que já referimos.
Thomas Friedman, chama-lhes o rebanho eletrônico, e este rebanho, agrupa-se em determinados centros financeiros globais chaves, a que Friedman chama os Supermercados.
As atitudes e ações do rebanho eletrônico e dos Supermercados, podem ter um impacte enorme nas nações-Estados, ao ponto de provocarem a queda de governos.
Os EUA, podem destruir um país, largando-lhe bombas em cima e, os Supermercados, podem destruí-lo atirando abaixo o valor das suas ações.
O terceiro equilíbrio do sistema da globalização, o mais recente de todos, é o equilíbrio entre nações-Estados e indivíduos, que se classificam como Superpoderosos. Foi o caso do conhecido milionário saudita, Osama bin Laden, que dispunha de uma rede global própria, que foi apodado de A Sharia mais a Internet e que em finais da década de 90, declarou guerra aos EUA, e a Força Aérea americana viu-se obrigada a lançar um ataque com mísseis de cruzeiro contra ele, como se fosse outra nação-Estado. Foi depois ele o autor do célebre ataque terrorista de 11 de Setembro de 2001 nos EUA. É o caso do influente investidor institucional bilionário George Soros. E, no mundo de hoje, não estamos livres, de atos terroristas de algum tresloucado ou fanático que podem ter um alcance e perigo mundiais.
Nunca se poderá compreender o sistema da globalização, sem atender à complexa interação entre todos e cada um destes três atores: Estados contra Estados, Estados contra Supermercados e Supermercados e Estados contra indivíduos Superpoderosos.
Por agora vou terminar, tenho aqui na minha secretária do escritório, dois livros novos que me interessam ler e, este artigo, já deve ter a extensão mais ou menos ideal, para publicar no jornal, pois este vive sempre pressionado e com limitações, devido ao tablóide.
Continuarei brevemente.

Foz do Douro
Abril 2012

O estranho caso do capitão Dreyfus

Nos finais do século XIX, um acontecimento social e político tornou a França num campo de batalha da opinião pública à volta de um grande escândalo. Espionagem a favor dos alemães, que podia ser pior?
Era o caso Dreyfus. Os franceses, durante anos, não falavam de outra coisa. Em público, ou privado, quem tocasse no assunto, arriscava-se a uma tal discussão que acabava em desacatos ou até numa boa bordoada. Mas que caso era esse que muito ultrapassou acontecimentos aparentemente bem mais graves e colocou os franceses falados nos quatro cantos do mundo?
Até então, Alfred Dreyfus, (1859-1935) era apenas mais um capitão francês, de família alsaciana, que podia talvez até ter uma bela carreira. De repente, uma série de suspeitas caem sobre ele. Acusam-no de traição e de conspirar contra a pátria a favor dos alemães. Os indícios foram sempre muito polémicos e confusos.
Surgiu um documento altamente comprometedor de espionagem nas repartições do Estado Maior alemão, em 1894. Uma empregada de limpeza encontrou-o num caixote de lixo e daí começava um caso que inflamou os ânimos dos franceses dividiu a nação e até muitos outros países do mundo incluindo Portugal e o Brasil.
As características deste capitão Dreyfus são importantes para o entendimento do caso. Era da Alsácia, província perdida pelos franceses há bem pouco na guerra. Era judeu e ainda por cima de família de industriais ricos. Muito reservado e com ar um pouco agradável, não tinha muitas simpatias. Podia-se desconfiar dele com o antissemitismo crescente. Era ainda o primeiro judeu a chegar a um posto tão elevado.
Sem consenso acerca do modo como foi descoberto o tal documento comprometedor, o certo é que um mal-estar e desconfiança invadiam o Ministério de Guerra e alastravam-se por todo o lado. Quem seria o culpado ou os culpados? Havia um traidor oculto e não se podia saber até onde o caso podia ir. Para apaziguar os ânimos e manter a moral face ao escândalo, era preciso, o mais depressa possível, identificar o espião, ou conseguir um bode expiatório que seria excelente para acabar com o clima de suspeita que se vivia.
O documento fatal, ou o “bordereau”, como ficou conhecido, era uma carta sem assinatura e que precisava de ser identificada. Foi sobre o capitão Dreyfus, que era então oficial de artilharia, que caíram as suspeitas.
A culpa ou inocência do oficial alsaciano discute-se por todo o lado. As provas? Passavam a segundo plano.
Foi rápida a solução oficial do caso. É acusado em setembro, em outubro Dreyfus é preso e o julgamento por um tribunal militar foi célere, bastaram quatro dias, pouco antes do Natal de 1894. Dado por culpado, Dreyfus é condenado.
A sentença foi prisão perpétua na Ilha do Diabo para onde embarca logo em Fevereiro do ano seguinte. Antes, a 5 de janeiro, num espetáculo terrivelmente humilhante, retiram-lhe os galões e quebram a sua espada de oficial. A multidão ululante seguiu os acontecimentos com furor e o julgamento foi dado pela opinião pública.
A colónia penal na ilha do Diabo, nas Guianas francesas, ironicamente denominado arquipélago das ilhas da Salvação era uma monstruosidade. O livro “Papillon” de Henri Charrière, 1969 e o filme do mesmo nome, demonstram a vida infernal dos presos, onde era fácil enlouquecer, suicidar-se ou morrer de mil doenças do clima insalubre. Além disso, o capitão estava a ferros, sem ver a luz do sol e tinha ainda tais castigos que só demonstravam o ódio que criara à sua volta.
O antissemitismo, ajudado pelo ódio aos alemães e desprezo por traidores, deu provas de grande força pelo enorme tumulto da multidão enfurecida que acompanhou o caso. A opinião pública tomava conta da situação e não eram os tribunais que ditavam a sentença.
O castigo de Dreyfus não calou o público. Pode dizer-se que era a ponta de um enorme icebergue do ataque aos judeus que aconteceria anos mais tarde, com toda a sua violência. Algum tempo depois da ida de Dreyfus para o degredo, aparece outra acha para a fogueira. Em outubro de 1896, o jovem jornalista Bernard Lazare, um poeta e anarquista da época, inicia a publicação de mais de 60 artigos intitulados “O erro judiciário - A verdade sobre o caso Dreyfus” no jornal “L’Echo de Paris”. Todo o francês lia e discutia a ferro e fogo o assunto.
Entretanto um irmão do acusado, Mateus Dreyfus, estava convicto de que era preciso haver novas investigações antes das campanhas para revisão do caso.  
A exaltação dos franceses acendeu-se ainda mais quando apareceu no jornal “Le Matin”, uma nota a confirmar a assinatura do prisioneiro no fatal memorando.
Faltava ainda mais um golpe de teatro. Nos fins de 1897, Mateus Dreyfus, sempre seguro da inocência do irmão, descobre que Charles-Ferdinand Walsin Esterhazy era o verdadeiro culpado. Sem mais dúvidas, a sua assinatura é reconhecida. Um banqueiro de origem portuguesa, de nome Castro, afirma que a assinatura encontrada é de um seu cliente Esterhazy.
Face às provas que evidenciavam a inocência de Dreyfus, agora era possível um segundo julgamento. O caso contava já com o apoio do escritor Zola e muitos outros dreyfusianos ilustres. Para indignação e espanto de uns, incompreensão e suspeita de outros, Dreyfus é novamente julgado e recebe a uma sentença outra vez condenatória. Agora, porém era “com atenuantes” o que não deixa de ser confuso. É óbvio que cresceu a indignação dos que acreditavam na inocência do oficial judeu. Por outro lado, como entender esses atenuantes se dão nova condenação agora com 10 anos de trabalhos forçados?
Acirraram-se os ânimos e as polémicas por todo o lado. Os antissemitas franceses estão exaltadíssimos e há fortes manifestações em Paris clamando contra os judeus. Porém os anti dreyfusianos depararam-se com defensores dos judeus, em número crescente, enquanto do outro lado a reação também subia de tom. Aos defensores de Dreyfus, Bernard Lazare e Scheurer veio juntar-se o jornalista Teodoro Herzl, criador do sionismo, do ideal do Estado de Israel, muito perturbado pela vaga de antissemitismo que alastrava na França e no resto da Europa.
Este ódio aos judeus tinha fortes raízes. O escritor Edouard Drumont, em 1886, publicara “La France Juive”, uma obra muito polémica contra os judeus. Outras obras semelhantes aparecem. O clamor era grande e o clima reacionário crescia com ataques a judeus, roubos, pilhagens, mortos e feridos. Na Argélia houve até autênticos “pogroms” com muitos mortos e as revoltas sucediam-se.
A escritora judia, Hannah Arendt recentemente ainda evocava “toda a vida política da França durante a crise Dreyfus passou-se fora do Parlamento”. Seria à volta de um assunto do foro dos tribunais, que os franceses tanto se exaltavam e ainda mais se agitavam. Demonstra bem os terríveis conflitos que se escondiam por trás de um só homem. Vítima ou culpado, no fundo era de menor importância. Nada melhor do que o sentimento da vingança e do insucesso para empedernir o coração e debilitar a razão.

Continua

Por: Lúcia Simas

Emílio Porto: o maestro morreu de pé

EMILIO-PortoLá se foi mais um amigo juntar-se ao coro d’Além.
O M. Emílio Porto morreu no seu posto de Maestro, quando ensaiava o Grupo Coral das Lajes do Pico que ele fundou, em 1983, para celebrar o centenário da Festa de Lurdes e da actividade baleeira.
O Grupo, no entanto continuou e continuará, certamente, pois os seus cantores e tocadores encontrarão uma alternativa para o infortúnio que, inesperadamente lhes bateu à porta.
Vem de longe o amor e dedicação de Emílio Porto à música, sobretudo à música coral que ele, nos últimos tempos, partilhava com os amigos no Facebook. As obras de arte e beleza que o Orfeão e a Capela do seminário tinham interpretado e outras peças clássicas, distribuía-as por aqueles que haviam sido “tocados” nos tempos da sua formação.
Emílio Porto tinha qualidades musicais inatas, de grau superior. No entanto, ao longo da vida foi aperfeiçoando a sua cultura e os seus conhecimentos técnicos, de tal modo que, do seu legado, fazem parte, não só arranjos polifónicos de temas do folclore musical açoriano, de melodias actuais de músicos regionais e também de canções populares portuguesas.
“Na memória das gentes” vai permanecer o seu arranjo coral da “Chamateia” (música de Luís Bettencourt, letra de A. Melo Sousa), a melodia “Montanha do meu destino” (Emílio Porto/José Enes) e a peça de maior fôlego “Nossa Senhora-Ilha à roda” (Emílio Porto/José Carlos) poema épico-musical de cariz religioso que enaltece o povo picoense cuja cultura e vivências ele tão bem soube interpretar e projetar.
A história dos grupos corais açorianos tem as suas raízes no Seminário de Angra, com os Padres José d’Ávila e Edmundo M.Oliveira.
Emílio Porto, enquanto seminarista foi regente da capela. Como pároco, implementou esses grupos nas paróquias e instituições por onde passou. Compôs muitos melodias sacras em vernáculo, adequadas aos tempos litúrgicos tendo a preocupação de inovar no respeito pelas normas conciliares do Louvor a Deus, da afirmação da fé e do recolhimento interior. Esse era um princípio de que não abdicava e que lhe servia de critério para ajuizar do canto sacro que se canta nas celebrações religiosas.
Emílio Porto pode muito bem equiparar-se ao maestro e compositor Fernando Lopes Graça.
O seu enorme interesse em conhecer o genuíno folclore musical destas ilhas, levou-o a pesquisar temas do cancioneiro popularte relacionados com as atividades em terra, no mar e nos tempos de lazer que as gentes antigas celebravam com alegria e entusiasmo.
Ficaram célebres temas tradicionais das várias Ihas cujos arranjos para coros constituiram, durante 30 anos, temas dos reportórios do Grupo Coral das Lajes do Pico em muitas deslocações pelo Arquipélago, Continente e  estrangeiro. A qualidade musical desses temas, reunidos em “O Meu Cancioneiro”, (2001) passou também a constar das atuações de outros grupos açorianos e continentais a quem Emílio Porto cedia gratuitamente, tal o desejo que dedicava à promoção da  música açoriana.
A recolha de melodias  populares em honra do Divino Espírito Santo e da quadra natalícia constituem um espólio importante que o Maestro reuniu em CD´s e em programas realizados pela RTP-Açores.
Estou certo que no seu escritório existirão muitas composições suas, inéditas, que não deixarão de ser divulgadas e interpretadas.
Não se pense, porém, que E. Porto se dedicava apenas à música.
Da Igreja, de que era um fiel consciente e preocupado, criticava a mediocridade intelectual de algum clero, a falta de reflexão teológica e a aversão da cúria romana à renovação. Em março passado, escrevia no seu blogue “Alto dos Cedros”: Decorrem 50 anos do concílio Vaticano II, um concílio que tanto prometeu, mas que nunca foi além do vernáculo na missa. Alguém, de créditos firmados, diz que o Concílio é agora. Vou mais longe: é agora, sim, mas já devia ter sido. Muito tempo se perdeu atrás de vaidades e preconceitos sem pés nem cabeça. Os apelos a uma prática antiquada são cada vez mais pontos de desorientação e afastamentos.
Parece que existem duas forças antagónicas. Uma que parte do Vaticano e que aponta sempre no sentido do seu passado interno. Outra que espera abertura a novas formas de estar dentro da Igreja.
A lucidez com que apreciava o rumo pastoral da Igreja, trouxe-lhe alguns engulhos e incompreensões mas nem por isso deixou de afirmar, de forma séria, as suas convicções.
M. Emílio Porto é uma personalidade cujo nome ficará para sempre na história da música e da cultura açoriana, ao lado de Francisco Lacerda e de Tomás Borba.
Se a arte se eterniza no tempo, a do Compositor e Maestro do Grupo Coral das Lajes do Pico será, para as gerações vindouras, uma valiosíssima herança patrimonial. Divulgá-la será a melhor homenagem que lhe farão os agentes culturais dos Açores e desta Ilha Montanha que o viu nascer e morrer.
PS: Quando terminei esta memória fúnebre fui confrontado com outra morte: a de outro picoense - Professor, Jornalista e Comendador - Fernando Melo. Acompanhou-me, durante vários anos, na produção de reportagens televisivas sobre as gentes destas ilhas. Nos arquivos da RTP-Açores há vários documentários, uma herança inestimável que merece ser revisitada. Para além da sua ação na imprensa faialense e terceirense e das funções educativas e sociais que desempenhou, o cidadão Fernando Melo prestou um contributo inestimável a estas ilhas.
jornalista c.p. 536

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