“Vila Franca é provavelmente o sítio mais interessante da costa sul de São Miguel”

Miguel - terra azul Foi na Bolsa de Turismo de Lisboa que o Diário dos Açores falou com o responsável da empresa Terra Azul, localizada em Vila Franca do Campo. O empresário destacou as potencialidades  turísticas daquele concelho, que não têm sido devidamente aproveitadas, segundo defendeu. “Há muito a potenciar em termos turísticos, mas o potencial tem que ser concretizado”, defendeu.


Qual o objectivo da presença da empresa Terra Azul na Bolsa de Turismo de Lisboa?
Miguel Cravinho - A Terra Azul marca presença na Bolsa Turismo de Lisboa (BTL) e há 15 anos que existe na Marina de Vila Franca do Campo. Fomos acompanhando este processo de evolução do turismo nos Açores e registamos com muito agrado que tem sido um sector em crescimento, com alguns altos e baixos, mas que parece estar consolidado.
As expectativas da Terra Azul ao vir aqui é, mais uma vez, estar presente junto dos seus parceiros de negócio, nomeadamente agências e operadores turísticos, quer nacionais, quer internacionais.

Que resultados tem obtido dos contactos efectuados na feira?
MC – Os resultados vão-se conhecer ao longo desta época. Só aí poderemos contabilizar o investimento que fizemos para estar aqui presentes, tal como nas outras feiras em que marcamos presença ao longo do ano. A grande expectativa aqui é perceber a sensibilidade dos nossos parceiros para a observação de cetáceos nos Açores. Eles têm, primeiro, que conhecer os Açores e onde podem ficar alojados. No nosso caso, sabemos que a probabilidade de ficarem na nossa zona – Vila Franca do Campo -, fora de Ponta Delgada é também um problema a ter em conta. Ponta Delgada tem 85% da oferta de alojamento isso é uma condicionante para nós. Só depois de conhecerem os Açores, reservarem voos e alojamento é que pensam em ir ver baleias e golfinhos. Há toda uma cadeia que integra os pacotes turísticos das agências, nacionais e internacionais, e temos que ter uma estreita colaboração com estes operadores.
Quer seja o serviço de whale watching, de natação com golfinhos ou do mar em geral são produtos bastante fortes na oferta turística dos Açores. E a nossa oferta qualificada pode acrescentar valor ao destino Açores. É esta a nossa expectativa.

Como é que correu a actividade da Terra Azul em 2016?
MC – O ano passado foi um ano difícil, com obras na Marina de Vila Franca do Campo, com muito pó, gruas, movimento de camiões, betoneiras. E este ambiente não é propício a quem vem de férias e que procura tranquilidade e a imagem de sossego que se passa para o exterior. Não foi um ano nada fácil para quem trabalhou na Marina da Vila. No caso particular da Terra Azul, por vezes era difícil prestar uma informação a um cliente ou uma reserva sem estar aos berros, devido ao barulho. Ainda assim, fizemos o nosso melhor e o facto de estarmos no mercado há 15 anos permitiu atenuar este efeito negativo, sendo que o resultado no final foi positivo e acompanhou a dinâmica de crescimento do destino. Mas na realidade estranhamos muito os timings em que foram realizadas as obras, que não são compatíveis com a actividade turística.

Em relação aos turistas com que a Terra Azul trabalha, são de que destinos?
MC – A nossa actividade está muito distribuída por várias nacionalidades. A Alemanha tem um peso muito significativo, tal como o mercado holandês. Também o francês tem vindo a crescer bastante e o espanhol. O mercado português está muito concentrado nos meses de Julho e Agosto, seguindo uma tradição que se tem verificado ao longo dos anos. O mercado inglês também é um mercado com alto poder de compra e com um nível de formação bastante superior e os ingleses são verdadeiros ‘whale whatchers’. São bastante conhecedores do nosso produto. É neste nicho que nós actuamos. Não entramos no campeonato dos grandes catamarãs de Ponta Delgada. Estamos muito mais ligados ao ecoturismo, que é muito sustentado na perspectiva de educação, da conservação, da experiência personalizada. É neste segmento de mercado que nos queremos afirmar.

Enquanto empresário que opera em Vila Franca do Campo, qual a sua opinião sobre o facto de o município vilafranquense não estar directamente representado no stand dos Açores da BTL?
MC – Esta é uma boa pergunta. Como empresário, o que posso dizer é que toda a promoção e divulgação é bem vinda e necessária. Estamos a falar de uma indústria do turismo que é global e a grande questão que se coloca é saber o que faz as pessoas irem aos Açores. Se isto não for devidamente promovido e potenciado, não há razão nenhuma para as pessoas lá irem.
Do ponto de vista do potencial endógeno, dos recursos, Vila Franca é provavelmente o sítio mais interessante da costa sul de São Miguel, pelas praias que tem, pelo ilhéu – que é uma coisa única, pela vista da ermida da Senhora da Paz – que é uma das mais bonitas da ilha -, pelas tradições que tem – como o São João -, passando também pela vontade de receber as pessoas. Vila Franca tem também muita tradição e história. Foi a primeira capital da ilha e este sentimento ainda perdura no bairrismo da população.
Todos estes aspectos podiam ser convertidos em algo positivo de mobilização dos turistas para o concelho.
Mais um exemplo, é a cultura marítima de Vila Franca do Campo, como a batalha naval de 1582, foi uma das mais importantes da Europa e que ainda hoje é estudada por numerosos especialistas a nível internacional.
Outro aspecto que temos é o caiaque da vila. Uma coisa única que resulta, precisamente, do facto de termos o ilhéu ali à frente. Já Armando Côrtes Rodrigues dizia que não se compreende o ilhéu sem a Vila nem a Vila sem o ilhéu… Há muito a potenciar em termos turísticos, mas o potencial tem que ser concretizado.

Falta esta parte da concretização?
MC – Eu enquanto empresário faço a minha parte. Hoje em dia damos emprego a seis pessoas em permanência. Levamos cerca de 8500 pessoas por ano a Vila Franca do Campo através das nossas actividades e isso traz benefícios não só para nós como para a economia do concelho, porque acabam por consumir nos cafés locais ou comprar, por exemplo, as famosas queijadas da vila.
Penso que somos um factor de atractividade para a Marina de Vila Franca e para o concelho em geral, mas sentimos alguma indiferença em relação a este contributo que damos para o concelho. Poder-se-ia fazer mais e melhor em termos turísticos nos Açores.

 

Por: Alexandra Narciso