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“A expansão do aeroporto de Ponta Delgada será uma inevitabilidade”

 

andré oliveira 1"Investimento em infraestruturas: aplicação da análise de opções reais na expansão do aeroporto de Ponta Delgada”, é o título da dissertação de mestrado em Ciências Económicas e Sociais defendida na Universidade dos Açores por André Cabral Oliveira, um dos melhores alunos daquela instituição e que recebeu um prémio do Novo Banco dos Açores. A dissertação tem como objectivo avaliar o valor da expansão do aeroporto de Ponta Delgada, tendo em conta as oportunidades futuras de crescimento que advém do aumento expectável da atividade turística. O Diário dos Açores entrevistou André Oliveira, que resumiu nesta conversa as principais conclusões a que chegou na sua investigação.

 

Apresentou na Universidade dos Açores uma dissertação de mestrado sobre a expansão do aeroporto de Ponta Delgada. Trata-se de uma longa dissertação, que não cabe num jornal. Se lhe desafiarmos a sintetizar em poucas linhas sobre as conclusões mais importantes, o que diria?

O principal objectivo da dissertação foi avaliar uma possível expansão do aeroporto de Ponta Delgada utilizando, para o efeito, a análise de opções reais. 

A principal conclusão que deriva desta dissertação é que, tendo a conta o expectável crescimento da actividade turística nos Açores, a incerteza inerente a esta evolução e as limitações em termos de capacidade do aeroporto João Paulo II, a opção de expandir o aeroporto tem um valor positivo. 

Em termos mais práticos, podemos dizer que poderá ser captado valor adicional para os accionistas se se optar por expandir a capacidade do aeroporto por via do crescimento do turismo e da eliminação das restrições de capacidade.

 

Como surgiu esta ideia de apresentar esta dissertação?

Desde o primeiro momento em que convidei os meus orientadores da dissertação, o Professor Doutor Pedro Pimentel e o Professor Doutor Gualter Couto, que referi que gostaria de desenvolver a dissertação sob a temática da análise de opções reais, por ser uma área cada vez mais relevante no domínio das Finanças - a minha área de especialização do mestrado -, situação que foi prontamente aceite e até encorajada. 

A partir deste momento, faltava decidir sob que contexto prático é que seria desenvolvido a dissertação.

Foram levantadas várias hipóteses, como o TGV ou o novo aeroporto de Lisboa, mas o aeroporto de Ponta Delgada já levantava questões interessantes em termos de avaliação da capacidade existente face à crescente procura e foi consensual que se deveria realizar esta avaliação sobre o aeroporto de Ponta Delgada. 

Enquadrava-se perfeitamente num dos requisitos fundamentais da análise de opções reais, que é a existência de incerteza na procura que iria advir da liberalização parcial do espaço aéreo, e é um tema que tem impactos directos no desenvolvimento económico e social da Região Autónoma dos Açores. 

aeroporto PDLl

Quando diz que avaliou esta expansão do aeroporto de Ponta Delgada “para aproveitar as oportunidades de crescimento futuras que possam advir do desenvolvimento da actividade turística nos Açores”, é a pensar num futuro mais a longo prazo ou considera que já estamos a viver este momento, justificando-se a referida expansão?

Qualquer método para avaliar decisões de investimento implica a projecção da procura. 

No caso da minha dissertação, projectei a procura do aeroporto de Ponta Delgada por via de um modelo econométrico que relacionava o número de passageiros no Aeroporto de Ponta Delgada e o número de hóspedes alojados em estabelecimentos turísticos nos Açores. 

Projectei o número de hóspedes para os Açores até 2027 de acordo com as estimativas das taxas de crescimento de hóspedes do Turismo de Portugal para a região Açores, estimando-se, posteriormente, o número de passageiros e voos no aeroporto. 

A partir de 2028, considerei uma taxa de crescimento residual de 1%. 

O modelo utilizado para avaliar a expansão do aeroporto de Ponta Delgada foi uma árvore binomial. 

Isto significa que não foram considerados apenas cenários de crescimento, mas também cenários em que a procura não crescia, aumentando, assim, a incerteza da procura.

Este enquadramento serve para explicar que não considerei apenas que já estamos a viver um cenário de crescimento da actividade turística e que esta tendência se deverá manter até 2027, como também considerei que existe uma probabilidade de não existir esse crescimento em todos os anos. 

Calculando todos esses cenários, os resultados apontam para uma opção de expansão positiva, não sendo possível indicar, no período em análise (2016 a 2027), qual o momento ótimo para a expansão.

 

Seria fácil esta expansão ou há limitações?

Uma vez que estamos a falar de uma dissertação desenvolvida no domínio das Finanças, não se considerou a existência de eventuais restrições económicas, ambientais ou outras que pudessem limitar a expansão. 

A limitação da capacidade atual do aeroporto foi calculada em número de voos. 

Também não foi considerado qual seria a melhor solução técnica que se enquadrava para o aeroporto, uma vez que estamos a entrar em domínios das Engenharia e do Ambiente, os quais não domino e não era este o objectivo da dissertação. 

O que considerei foi uma eventual solução, seja ela qual for, com um determinado valor de investimento para aumentar a capacidade (medido em número de voos) e que se iria reverter em cash flows incrementais futuros, como em qualquer modelo de avaliação de investimentos.

 

Não sendo o aeroporto explorado pela região, como se poderá convencer o grupo que o explora da necessidade dessa expansão?

Qualquer accionista privado preocupa-se em obter retorno do seu investimento e há sempre dois factores na base de qualquer decisão de investimento: a rendibilidade e o risco. 

E a decisão de investir numa infraestrutura aeroportuária tem muito risco, uma vez que não depende apenas de factores endógenos (internos à empresa), mas também de factores exógenos (referentes, por exemplo, à atractividade do destino e ao crescimento da economia).

Também é importante ressalvar que o aeroporto de Ponta Delgada tem uma elevada importância a nível económico e social para toda a Região, pelo que é preciso ter em conta o saldo custo-benefício da expansão do aeroporto, não apenas na óptica dos accionistas, mas também numa óptica de bem-estar social. 

Na minha opinião, muito deste convencimento estará na capacidade de se demonstrar que uma infraestrutura de maior capacidade não terá baixas taxas de ocupação. 

Neste sentido, é preciso continuar, ou até reforçar, na qualificação do destino Açores e no aumento da sua atractividade.  

Penso que há, ainda, muita incerteza na mente de muitos investidores se este novo paradigma que estamos a viver no turismo é esporádico ou se se manterá de forma sustentável a longo prazo. 

Haverá outras formas de reduzir o risco para os investidores, como uma eventual comparticipação com fundos públicos, situação que deverá ser devidamente justificada e com a garantia que o erário público não será lesado.

Em suma, penso que, a continuar o crescimento de utilizadores do aeroporto como se tem verificado nos últimos anos, a expansão do aeroporto de Ponta Delgada será uma inevitabilidade. 

Um aeroporto lotado tem impactos negativos, não apenas no destino, mas também na rendibilidade das operações aeroportuárias, e os accionistas estarão, certamente, atentos a esta situação. 

Resta saber se iremos ter uma situação como o Aeroporto de Lisboa, com negociações prolongadas e uma operação caótica, ou se iremos caminhar para uma solução mais proactiva. 

 

Encontrou dificuldades no acesso a informação para a elaboração da dissertação?

Quando iniciei os trabalhos, eu e os meus orientadores tentamos obter informações directamente da ANA, Aeroportos de Portugal, S.A. sobre uma eventual solução para a expansão do aeroporto de Ponta Delgada, tentando aproximar o estudo a uma solução técnica em concreto que estivesse a ser considerado. 

Foi-nos informado que só poderíamos utilizar informação que já estivesse no domínio público, como os Relatórios e Contas da ANA, uma vez que a empresa que detém a ANA está cotada na bolsa francesa e não é possível fornecer informações adicionais. 

Compreendendo este argumento, tive que utilizar vários pressupostos, devidamente justificados, algo que é recorrente em trabalhos científicos desta natureza realizado por pessoas externas às organizações em estudo. 

De qualquer forma, foi desenvolvido um modelo de avaliação de investimentos tendo por base a análise de opções reais, que pode ser utilizado para avaliar esta e outras decisões de investimento em infraestruturas.

 

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