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Mota Amaral quebra silêncio: "Uma candidatura que afinal não foi"

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"Nunca fiz qualquer diligência para ser candidato ao Parlamento Europeu e sempre tive até algumas reticências sobre a força da legitimidade democrática e os modos de funcionamento de tão poderosa instituição, conforme testemunham vários dos meus escritos sobre temas europeus, que estou agora reunindo em livro, com data de lançamento já fixada para 27 do corrente e apresentação garantida por Jaime Gama e Pedro Gomes. 

Foi por isso com alguma surpresa que recebi o convite formal de Alexandre Gaudêncio, em nome e por deliberação unânime da Comissão Política Regional do PSD/Açores, para aceitar ser indigitado aos órgãos nacionais do Partido, tendo em vista uma futura inclusão na lista de candidatos às eleições europeias do final do próximo mês de Maio.

 Exprimi logo algumas objecções, a mais substancial dizendo respeito às minhas conhecidas discordâncias com algumas das linhas de actuação do Partido Popular Europeu, sob cuja bandeira milita o PSD no âmbito das instituições europeias. E, naturalmente, pedi algum tempo para pensar e aconselhar-me sobre o assunto.

Quando a voz correu dessa minha possível indigitação, fui envolvido por um movimento espontâneo de simpatia e apoio, oriundo de várias ilhas e até de fora da Região, traduzido em felicitações e até na sugestão de tarefas a cumprir, perante as quais não eram tomadas a sério a minha aliás bem sincera lembrança de que a questão estava em fase de delicadas negociações internas no seio do PSD e portanto ainda em vê-lo-emos… 

A bem da verdade, devo referir que algumas das pessoas amigas a quem pedi opinião se exprimiram negativamente, argumentando com as praxes comumente aceites sobre o cumprimento de um mandato regional no PE, pouco condizentes, diziam, com o meu perfil e estatuto. Mas a generalidade dos pareceres foram positivos e incentivadores, salvaguardando que cada um imprime ao exercício do mandato a sua própria marca e que eu não deixaria de ter a minha. 

Foi assim que comecei a entusiasmar-me com a ideia, sem ignorar os óbvios problemas que a minha candidatura levantava na feitura da lista do PSD. O próprio líder nacional do Partido reconheceu isso mesmo ao dizer que o meu nome teria de ocupar uma posição mais do que elegível… Ora, a realidade é que o número de lugares elegíveis pelo PSD, a acreditar nas sondagens disponíveis, não vai além de seis e os interessados são mais do que muitos, tal como os compromissos pelos vistos assumidos pelos dirigentes máximos do Partido!

Começaram a chegar-me por isso sinais de que melhor seria desistir da candidatura, por não ser possível colocar o meu nome nos primeiros lugares, como teoricamente me competiria. Ora, eu sempre entendi este processo, em total sintonia com Alexandre Gaudêncio, como uma forma de garantir um lugar elegível para o PSD/Açores e uma voz social-democrata daqui procedente no Parlamento Europeu. Estava portanto totalmente fora de causa facilitar a vida aos dirigentes nacionais com uma desistência voluntária. 

Aliás, deixei claro desde o início que concorria para ajudar o PSD/Açores e não para um qualquer lugar de destaque na lista nacional, pondo como única condição que se tratasse de um lugar elegível, concretamente até ao quinto, sem excluir que fosse mesmo atrás do atribuído à Madeira, já que entendo que os candidatos valem por si próprios e não pela ordenação que lhes é atribuída.

O embaraço derivado da minha indigitação manteve-se até final e provocou inúmeras declarações explicativas de dirigentes nacionais do PSD. Só tardiamente veio a saber-se, por carta do Secretário- Geral do Partido a Alexandre Gaudêncio, que a Comissão Permanente da Comissão Política Nacional tinha decidido,” há algumas semanas”, que os candidatos representantes das Regiões Autónomas deixariam de ter assegurado lugar elegível, como sempre tinha acontecido, passando a reservar-se a uma delas apenas tal garantia, alternando em legislaturas sucessivas. Para as eleições deste ano tal lugar caberia à Madeira, sendo os Açores remetidos para o oitavo lugar, claramente inelegível, julgado incompatível para alguém “que constitui uma das principais referencias políticas do PSD e do País”, segundo José Silvano.

Ora, elogios desses são dispensáveis quando, lançando pela borda fora um compromisso estrutural e histórico com a Autonomia Constitucional dos Açores e da Madeira, o PSD desiste de acolher a voz das duas Regiões Autónomas na sua lista de candidatos ao Parlamento Europeu. E até soam a falso, perante o elenco final da dita lista.

Para além disso, o Presidente do PSD, quando se deslocou aos Açores, na fase de campanha para as eleições internas para a liderança, expressamente respondeu, em sessão pública, que manteria a tradição de haver um candidato dos Açores em posição elegível na lista para o Parlamento Europeu. A sua credibilidade política fica assim debilitada perante os militantes, simpatizantes e potenciais eleitores do PSD na Região Autónoma dos Açores.

Alexandre Gaudêncio prometeu uma resposta forte à desconsideração agora sofrida e já se levantam rumores de processos disciplinares, que caiem aliás totalmente no ridículo… Em 26 de Maio próximo teremos a resposta do Povo Açoriano e será decerto inequívoca!"

 

Por: João Bosco Mota Amaral