Pedro Raposo da Taberna Açor: “Os restaurantes têm que acompanhar e dar respostas às necessidades dos clientes”

 

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Pedro Raposo é um jovem empresário que decidiu levar a cabo um projecto de restauração em Ponta Delgada. A Taberna Açor nasceu em Outubro de 2014 com um conceito diferente: servir apenas petiscos, como faziam as tascas de antigamente. Passados quase cinco anos de actividade Pedro Raposo contou ao Diário dos Açores como tem sido esta experiência.

 

Diário dos Açores - Como nasceu este projecto?

Pedro Raposo – Este projecto começou da mesma forma como começam muitos outros projectos: numa conversa de café entre amigos. Na altura considerávamos que faltavam em Ponta Delgada restaurantes que apostassem nos produtos regionais e na gastronomia tradicional açoriana. Não me refiro ao Bife à Regional, mas sim àquela gastronomia que se vê muito pouco nos restaurantes locais. Depois de falarmos, comecei a amadurecer esta ideia e, durante dois anos, fui elaborando este projecto na minha cabeça. Fui analisando o que fazia falta, andei por outras ilhas dos Açores para ver que tipo de gastronomia tinham por lá e assim começou a Taberna Açor.

 

E porquê uma Taberna?

PR – Em primeiro lugar por causa do conceito que queria implementar que passava por ter um espaço, como havia antigamente, onde as pessoas se encontravam para petiscar qualquer coisa. Eu queria fugir aos restaurantes convencionais que servem os pratos completos. Depois porque o edifício onde estamos localizados foi a primeira taberna de Ponta Delgada, onde, na altura, o mar ainda vinha até à porta. Os barcos paravam aqui perto e as pessoas vinham até essa taberna para comer e beber qualquer coisa. Mais tarde este espaço foi um restaurante de nome Açor e eu optei por juntar estes dois factores: o conceito de taberna e o nome do último restaurante neste espaço.

 

E como tem corrido o negócio nestes quase cinco anos de actividade?

PR – Estamos a caminho dos cinco anos e, felizmente, o negócio tem corrido bem. Temos tido muita afluência tanto de pessoas locais, continentais e de estrangeiros. No Verão, que é a nossa época alta, a maior parte dos nossos clientes são turistas, algo que também fica a dever-se ao bom nome que estamos a conseguir ter fora de portas. No Inverno temos muitos locais. A Taberna Açor é um espaço onde convém fazer sempre reserva, porque corre-se o risco de chegar cá e não ter espaço disponível. É preciso que, principalmente as pessoas de cá, se habituem a fazer reserva. Cada vez temos mais turistas e muitas vezes torna-se complicado podermos atender todas as pessoas que nos procuram. Tentamos fazer os possíveis para satisfazer a todos, mas nem sempre é possível.

 

Onde está o segredo para este sucesso com apenas quatro anos de existência?

PR – O produto regional, aliado ao conceito de taberna que não existia cá. Fui buscar uma ideia antiga, mas inovadora. Aliás, isso vê-se muito em Portugal Continental, em particular em Lisboa e no Porto, mas por cá era algo inexistente e acredito que o facto de ser uma novidade ajudou ao sucesso da Taberna Açor. É claro que não só por isso, também o facto de termos bons produtos, boa comida e uma equipa de cozinheiros empenhada que, todos os dias, se esforça por fazer e apresentar o que de melhor pode e sabe para que o cliente saia satisfeito, fez com que ficássemos muito bem referenciados no exterior. Creio que foi a junção de vários factores que faz com que estejamos a ser bem-sucedidos.

 

No que concerne à oferta, qual é a vossa maior aposta?

PR – O nosso ponto forte são as nossas tábuas de queijos e enchidos e tapas. Aliás, foi assim que começamos. Mais tarde tive a necessidade de aumentar a minha oferta ao cliente e introduzimos petiscos com peixes e carnes. Graças a isso, todos os clientes que por aqui passam, voltam mais vezes.

Hoje em dia temos um menu bastante vasto, também fruto da evolução da própria Taberna e da equipa de cozinheiros que procura sempre evoluir e apresentar novidades.

 

Tudo isso mantendo sempre o conceito inicial de taberna?

PR – Sempre! O conceito é para manter. Aqui só temos petiscos. Para além dos queijos, enchidos, tapas, assaduras, moelas, torresmos, etc., temos alguns petiscos que foram introduzidos recentemente como o polvo e bacalhau na telha ou a cataplana. O único prato que, se quisermos, pode fugir a este conceito, mas que para mim não foge, é o bife na pedra. Quem quiser vir à Taberna jantar só petiscos sai daqui totalmente satisfeito e sem fome alguma. Garantidamente! Gabo-me por isso, até porque é raro termos alguma reclamação quanto ao nosso serviço ou à nossa comida.

 

E o petisco pede um bom vinho?

PR – Também neste aspecto fiz questão de ter uma boa carta de vinhos. Foi uma outra aposta minha. Tenho um pouco de tudo o que existe em todo o país, desde o Norte ao Sul, passando pelas Regiões Autónomas. Só dos Açores tenho 22 vinhos e de Portugal Continental tenho 120 referências diferentes. É uma variedade bem grande e permite ao cliente uma escolha bem diversificada.

Neste momento também faço cocktails, isto porque há certos clientes, principalmente alguns estrangeiros, que gostam de tomar um cocktail ou antes ou depois da refeição. Ao perceber isso, introduzi mais esta oferta, tendo ao dispor 8 cocktails diferentes, tudo para a satisfação do meu cliente. Do mesmo modo, também criamos um menu vegetariano e outro vegan, uma vez mais para responder às necessidades do mercado. Entendo que os restaurantes têm que acompanhar e dar respostas às necessidades dos clientes, porque se não o fizerem, correm o risco de parar, estagnar e morrer.

 

Para ter todos estes cuidados com o cliente e para a oferta que dispõe é fundamental, certamente, também ter uma boa equipa…

PR – Com toda a certeza! A equipa é o complemento da perfeição de uma casa. Sem uma boa equipa, a casa não vale nada! Até posso ter uma boa equipa na cozinha que faz tudo do bom e do melhor, mas se o funcionário na sala falhar, aquela refeição de pouco servirá e o cliente não vai sair satisfeito. O contrário também pode acontecer. Ou seja, também de pouco valerá ter grandes colaboradores na sala, se a cozinha não apresentar qualidade naquilo que serve. Também sou cliente em outros restaurantes e quando acontece ser mal atendido, garantidamente não volto àquele lugar e posso até ter gostado da comida.

Considero a minha equipa elementos-chave do meu negócio. Sem eles o meu negócio não avança. Os meus colaboradores são simpáticos, atenciosos, sabem explicar ao cliente a carta e sabem recomendar quando lhes é pedido. Por exemplo, todos os meus coladores da sala estão preparados e têm conhecimentos suficientes sobre a nossa carta de vinhos, desde os vinhos mais acessíveis ao mais caro, dependente do que for a intenção do cliente.

 

A vossa equipa é composta por quantas pessoas?

PR – Neste momento tenho 13 colaboradores. Comecei com três pessoas e agora já tenho esta grande responsabilidade.

 

E quais foram as maiores dificuldades ao longo destes quatros anos?

PR – No início a maior barreira prendeu-se com a parte bancária. Quando decidi abrir este negócio estávamos em pleno ano de crise, e só para obter a aprovação do crédito foi preciso esperar quase um ano. Esta foi uma das maiores dificuldades.

O outro momento foi depois de abrir as portas. Não eramos conhecidos, ninguém confiava em nós porque não éramos reconhecidos e, como abri no Inverno foi ainda mais complicado. Por isso, apostamos num grande trabalho de publicidade e marketing. Cheguei a ter noites em que só tive uma pessoa a jantar. Felizmente, essa fase passou e logo no primeiro Verão começamos a ter muitos clientes. A cada ano que passou, o negócio foi melhorando e hoje estamos muito bem. Já ampliamos o nosso espaço, o que aumentou a nossa capacidade para 80 pessoas. Estamos abertos durante todo o dia, encerrando apenas à Segunda-feira.

 

Quando pensou em levar a cabo este projecto, acreditava no sucesso imediato?

PR – A meu ver, quando se cria um projecto tem que se pensar alto e acreditar que vamos chegar longe. Caso contrário, nem vale a pena começar. Por outro lado, também sou de opinião que também não vale a pena criar projectos só para darem problemas, se assim for é preferível trabalhar por conta de outrem. Tudo isso me passou pela mente durante os dois anos em que planeei este negócio. Foi precisamente por isso que comecei com uma casa pequena, dando um passo de cada vez. Conforme fui evoluindo, é que fui colocando o projecto em prática, mas por fases, conforme eu delineei. Neste momento estou na fase quatro e a caminho da fase cinco que, se tudo correr bem, será para avançar ainda este ano.

 

E em que consiste esta fase?

PR – A criação de mais uma sala de refeições, o lançamento de um queijo e de uma aguardente que irei efectuar em parceria com duas empresas locais.

 

taberna açor2A Taberna Açor é a realização de um sonho?

PR – Bom… Eu sonhava em ser piloto… (risos)… Era este o meu sonho. É claro que com a idade, vamos ganhando maturidade e há sonhos que ficam para trás. Como o meu pai sempre teve negócios, o meu irmão seguiu também por um caminho empresarial e eu pensei em também fazer o mesmo. Seguimos áreas diferentes, mas a restauração não me era totalmente desconhecida porque já tinha trabalhado neste ramo. Antes de avançar com a Taberna Açor também já tinha trabalhado numa empresa de vinhos na cidade do Porto o que me ajudou bastante e fez-me conhecer melhor o mundo dos vinhos. Apesar da Taberna Açor não ser o meu sonho de criança, não deixa de ser também um sonho tornado realidade.

 

A Taberna Açor é também um espaço que não se deixa ficar apenas na Rua dos Mercadores, em Ponta Delgada. Faz questão de estar presente em feiras ou em eventos de promoção do seu estabelecimento comercial?

PR – Quando avancei com este negócio sabia que era muito importante ter um espaço fixo, mas também quis que este espaço não ficasse limitado. Desde que abrimos a porta já participamos em muitas feiras e eventos. Já tivemos, por exemplo, nas Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres, no Wine in Azores, na Feira Quinhentista, no Festival da Sagres e, recentemente, participamos no Taste Azores que decorreu em Lisboa no Centro Comercial Colombo.

Fazemos isso para nos darmos a conhecer, mas também porque nos pedem. Há clientes de Portugal Continental que estão sempre a nos desafiar a abrirmos um espaço no continente. Assim, ao participarmos nestes eventos estamos a levar um pouco de nós a quem nos pede.

 

Há a possibilidade de abrir um Taberna Açor em outras localidades?

PR – Na ilha, não. Com a abertura de mais uma sala de refeições vou passar a ter uma capacidade para 100 pessoas e, parece-me, que não há necessidade de ter outro espaço em outra zona. Há a possibilidade de abrir um espaço em Portugal Continental, mas esta ideia só irá avançar depois de eu terminar as fases iniciais que tenho delineadas.

Até já tive convites para abrir na Califórnia. Mas quero dar um passo de cada vez. Sou novo nesta área e não quero dar passos maiores que a perna. Quero crescer devagar. Ainda sou novo, tenho uma equipa que me apoia, uma família e uma namorada que também me apoiam, e por isso não tenho pressa.

 

A Taberna Açor é um espaço que reflecte a personalidade do seu proprietário?

PR – Eu é que fiz toda a decoração da Taberna. Tudo o que aqui está foi concebido por mim, desde as cores, aos efeitos da tinta nas paredes até aos elementos decorativos. A ideia da Taberna Açor é ser o interior de um navio. A minha intenção é levar o cliente a sentir que está dentro de um navio.

 

Como olha para o futuro?

PR – Com esperança. Acredito que se mantivermos o caminho feito até ao momento que ainda vamos muito longe. Estamos atentos ao mercado. Sabemos que a sociedade evolui, há clientes com gostos para tudo, e vamos tentar acompanhar a evolução para não estagnarmos e ficarmos parados no tempo.

 

Sente-se um empresário realizado?

PR – Até certo ponto, sim. Principalmente porque soube ultrapassar os obstáculos iniciais e porque hoje vejo clientes a saírem da Taberna Açor contentes e satisfeitos, isso é muito gratificante para mim. Fico muito contente quando recebo e-mails de clientes a nos parabenizarem pelo nosso trabalho, ou quando estrangeiros que, passados quatros anos, regressam aos Açores e fazem questão de nos visitar ou até mesmo quando nos vêm dar prendas. Quando completamos três anos de actividade um cliente ofereceu-nos um dente de baleia pintado com o logotipo da Taberna Açor. Tudo isso só me pode deixar feliz e realizado. Contudo, tenho consciência que ainda me falta um longo caminho a percorrer.

 

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