Editorial: Querem “fake news”?

Osvaldo CabralÉ preciso avançar, urgentemente, com campanhas de literacia mediática junto da comunidade jovem, sobretudo nas escolas, que está a ser bombardeada com desinformação, lixo noticioso e muita ficção direccionada para outros fins pouco bondosos. Há que combater o fenómeno das “fake news” . O bom jornalismo é a melhor arma.

 

Este ano vamos ter três eleições em Portugal - Parlamento Europeu, regionais da Madeira e legislativas nacionais - e no próximo as eleições para a Assembleia Legislativa dos Açores.

As autoridades europeias estão preocupadas com a eventual torrente de notícias falsas que provavelmente vão surgir na esfera virtual, à semelhança do que aconteceu nas eleições dos EUA e no Brexit.

Em Portugal parecem todos menos preocupados, mas a verdade é que também já é possível identificar algumas redes manipuladoras de informação que grassam no espaço das redes sociais, tendo o nosso país como alvo.

A Comissão Europeia tem promovido legislação e encontros com os responsáveis das principais redes sociais mundiais para tratar do problema, tendo nestes últimos dias a Google e o Facebook anunciado o compromisso de tomar medidas contra a desinformação nas suas redes, nomeadamente criando ferramentas de verificação das informações, através dos “fact checkers” (grupos de jornalistas que verificam se a informação é correcta ou falsa).

Estes fenómenos - como os “factos alternativos”, a ficção misturada com factos reais, a invasão da privacidade dos utilizadores para criar sistemas de manipulação - estão a ser cada vez mais frequentes e merecem uma atenção profunda por parte das sociedades.

A Comissão Europeia está disposta a despender este ano 5 milhões de euros, mais do que os 1,9 milhões do ano passado, exactamente para combater a desinformação e aumentar a sensibilização junto dos cidadãos contra o fenómeno das “fake news”.

Para o efeito, os estados membros deverão promover a literacia mediática através de programas específicos, havendo já um que irá decorrer em Portugal, na sequência de um protocolo entre o Sindicato dos Jornalistas e o Ministério da Educação.

Este projecto-piloto sobre literacia para os média, concebido por jornalistas e académicos da área da comunicação, para professores do 3º ciclo e do secundário, vai arrancar em 40 agrupamentos de escolas das cinco regiões educativas do Continente.

Por cá a Secretaria Regional da Educação também deveria pôr mãos à obra, envolvendo os académicos da Universidade dos Açores e os profissionais da informação açoriana, disponibilizando aos professores e alunos metodologias, recursos e ferramentas, com vista a uma melhor compreensão sobre os princípios do jornalismo, a ética e deontologia, em comparação com a desinformação e o vasto mundo das redes sociais sem regras.

Mais de 6,5 milhões de portugueses têm smartphones e 96% dos jovens, entre os 15 e os 24 anos, utilizam-no para aceder às redes sociais, únicas fontes de informação e de conhecimento com quem contactam

Estamos a criar uma comunidade com muita informação sem regras, com muita falsidade e sem capacidade para distinguir o que é verdadeiro e o que é falso.

É preciso ir ao encontro destes jovens, envolvendo as escolas nesta literacia para os média.

Numa região com uma História riquíssima em comunicação, que possui das publicações mais centenárias do país e até da Europa, pouco ou nada se tem feito em defesa deste património. Nem sequer um Museu da Imprensa conseguimos pôr de pé.

Ignorar tudo isso é contribuir para que a nossa região se desligue cada vez mais da imprensa séria, da informação verdadeira, isenta e rigorosa, fomentando, ao contrário, uma comunidade de gente pouco informada ou com conhecimentos distorcidos da realidade.

Ninguém certamente quererá notícias falsas, mas para isso é preciso contribuir para que elas não se propaguem entre nós e muito menos sejam as únicas fontes a que os jovens têm acesso.

Os apoios públicos à comunicação social açoriana deveriam ser valorizados com base neste papel que ela desempenha na sociedade.

Ao invés, temos assistido nos últimos tempos ao coarctar destes horizontes, dificultando a actividade profissional e ignorando os problemas com que todo o sector se debate na região.

Há dez anos o conjunto dos jornais diários açorianos tinha uma tiragem de 20 mil exemplares e hoje não chega aos 15 mil.

Houve jornais que fecharam, alguns centenários, sem que nada se fizesse para os salvar ou, pelo menos, salvar o seu património e arquivos, que são o retrato da nossa História.

Cada vez é mais difícil a circulação dos jornais em papel na nossa região, até porque temos uma empresa de distribuição postal, os CTT, com serviços altamente degradados nas ilhas, sem que se conheça um protesto que seja por parte das autoridades açorianas.

Faz agora 190 anos que deu à luz o primeiro jornal nos Açores e dele não resta nada para contar.

Este “Diário dos Açores” está à beira de completar um século e meio - faz hoje 149 anos -, podendo acontecer o mesmo do que ao primeiro jornal destas ilhas.

Mas até lá, contra ventos e marés, estaremos aqui, todos os dias, com o compromisso de sempre, de informar com seriedade, pluralidade e vontade de escrutinar todos os poderes, sejam eles quais forem.

Combateremos sempre a desinformação e estaremos sempre ao lado dos mais injustiçados da sociedade, ao serviço de causas que contribuem para o desenvolvimento das nossas gentes e da nossa terra.

Podem barafustar, pressionar, coarctar, ajudar a enfraquecer o sector, mas enquanto houver papel e tinta o “Diário dos Açores” não fugirá uma linha ao seu compromisso com os leitores, graças à persistência e sentido de liberdade e responsabilidade social dos seus proprietários, trabalhadores e anunciantes.

A boa informação, o bom jornalismo, assim o exige. 

 

E o Museu da Imprensa?

 

Faz hoje 25 anos que o “Diário dos Açores” voltou à carga: para quando o prometido Museu de Imprensa Regional?

O programa do Governo Regional de 1992 era peremptório, pela voz do Dr. Rolando Lalanda Gonçalves: “Com a finalidade de preservar o rico e histórico espólio da imprensa açoriana, o Governo desenvolverá as iniciativas necessárias para a criação do Museu da Imprensa Regional”.

Já no consulado dos governos PS o mesmo compromisso foi assumido nalguns programas de governo.

Estamos em 2019 e, como se constata, ficou tudo em águas de bacalhau.

Entretanto tem-se perdido dezenas ou centenas de peças de espólio importantíssimo do património da imprensa regional, porque não há onde depositá-lo.

E do arquivo de jornais e publicações centenárias da nossa região, também não se sabe onde param.

Recentemente perdemos dois diários centenários, o Telégrafo e A União, mas ninguém se importou com o seu espólio.

Uma região que trata assim o seu valiosíssimo património histórico há-de vir, um dia, a ser condenada pelas gerações futuras, a quem não deixaremos o legado da nossa história escrita.

Em vez disso constroem-se edifícios monstruosos, sem nada lá dentro, como o Centro de Artes Contemporâneas, ou a famigerada Casa da Autonomia, que parece ter vergonha de dar à luz do dia.

Nem o riquíssimo Museu Carlos Machado, nesta cidade, é tratado como devia ser pelos poderes regionais.

Tivemos uma oportunidade única com o edifício do antigo Emissor Regional dos Açores, na Avenida Gaspar Frutuoso, mas a ganância da administração da RTP e o vergonhoso alheamento das nossas autoridades regional e municipal, deixaram perder um excelente local para albergar a nossa História. As novas gerações julgar-nos-ão por isso.

 

Por: Osvaldo Cabral