“Banalização da oferta trará consequências nefastas difíceis de recuperar”

Gilberto vieira 2O turismo rural e de natureza nos Açores atrai cada vez mais seguidores e investidores, afirma Gilberto Vieira, presidente das Casas Açorianas – Associação de Turismo em Espaço Rural, que alerta para o risco de banalização da oferta, “com consequências nefastas, das quais será muito difícil recuperar”, caso as novas unidades, assim como as existentes, não respeitem as características que as diferenciam. Uma entrevista concedida ao jornal “Vida Económica”, que transcrevemos a seguir.

 

 Que razões determinaram a criação da associação Casas Açorianas?

As unidades de turismo em espaço rural nos Açores foram surgindo timidamente ao longo dos anos, depois de uma experiência relativamente bem sucedida e reconhecida como importante no contexto da oferta turística regional que foi, modéstia à parte, criada por mim há quase três décadas. 

Tinha plena consciência de que uma unidade isolada não conseguia fazer vingar um produto com enorme potencial e fiz sempre tudo para entusiasmar outros investidores a apostar neste segmento, como forma de dar a dimensão necessária a este tipo de oferta.

A verdade é que, como disse, timidamente foram aparecendo novos projectos em várias ilhas e a procura começou a ser interessante, apesar de muito longe ainda do que poderia ser.

É neste trajecto que surgiu a ideia de criar uma associação para aglutinar sinergias, potenciar o mercado e atrair mais investidores para esta área. 

Com a criação da associação foi, também, possível dialogar de forma mais consistente com as autoridades responsáveis pela política do turismo, desde a promoção à disponibilização de incentivos para o investimento no turismo em espaço rural.

 

De que forma a associação está a contribuir para a expansão do turismo em espaço rural?

A Associação de Turismo em Espaço Rural – Casas Açorianas é hoje uma entidade reconhecida e um parceiro incontornável no que a este segmento do turismo diz respeito. Uma prova disso é, a título de exemplo, a medalha de ouro de mérito turístico que foi atribuída às Casas Açorianas pelo Governo da República.

Esse estatuto foi conquistado com muito trabalho sério e empenho, começando com o “trabalho de casa” feito pelos nossos associados, desde as características próprias dos espaços edificados até à qualidade personalizada do atendimento, passando pela envolvência de cada unidade.

A par disso, em parceria com o Governo Regional e outras entidades, foi possível apostar num plano de promoção próprio que está a dar frutos. E esse trabalho continua com o mesmo empenho, potenciado ainda pelos bons resultados alcançados.

 

Apesar de haver falta de espírito associativo entre os pequenos empresários, tem sido possível mobilizar os interesses individuais em torno do projeto colectivo?

Não se pode afirmar que todo o nosso percurso associativo nas Casas Açorianas tenha sido isento de dúvidas, contestação pontual ou até de algum desânimo. Isso nem seria normal. Mas a verdade é que, com altos e baixos, a maioria dos nossos associados demonstrou sempre interesse pela vida da associação, pelo projeto comum, cuja afirmação beneficia todos.

 

Qual tem sido o impacto do turismo em espaço rural sobre a reabilitação das construções tradicionais?

É inegável que o turismo em espaço rural permitiu recuperar edificações e ambientes tradicionais que, de outra forma, estariam hoje ao abandono.

No caso concreto das construções, em que a aposta em arquitectura e materiais, tanto quanto possível, originais em relação à primeira construção desses edifícios, sem menosprezar necessidades actuais de segurança e conforto, é uma mais-valia não só como atractivo turístico, mas também como repositório e testemunho das vivências dos nossos antepassados.

 

A oferta das Casas Açorianas concorre de forma directa com as unidades hoteleiras? O principal mercado são os turistas nacionais?

Não, não concorre no sentido em que existe um mercado que procura uma oferta genuína, diferente e única. E, felizmente, são cada vez mais as pessoas que descobrem as características específicas do turismo rural e de natureza nos Açores.

Sim, no sentido em que muitos turistas procuram os Açores pela consolidada imagem de que o arquipélago merecidamente goza e, nesse campo, temos de ser capazes de mostrar uma alternativa ainda mais apelativa.

Quanto a mercados, notou-se uma quebra brutal de turistas nacionais nos anos da troika, mas esse fluxo tem vindo a ser recuperado e hoje voltou a ser preponderante, sendo sensivelmente igual à soma de todos os mercados estrangeiros.

 

Continua a haver potencial de crescimento e incentivos disponíveis para o turismo em espaço rural?

Potencial de crescimento existe, claramente. O turismo rural e de natureza nos Açores regista boa procura e, em algumas ilhas, sente-se a necessidade de surgimento de novas unidades que aumentem a dimensão da oferta necessária em situações concretas.

Lembro, no entanto, como sempre tenho feito, que é fundamental que as eventuais novas unidades, como as já existentes, manterem as características que nos diferenciam, sob pena de banalizarmos esta oferta especial, com consequências nefastas, das quais será muito difícil recuperar.

Quanto a incentivos, o Governo Regional mantém programas para investimento nesta área.