“A emigração abriu-me os olhos”

joe st. pedro 1

Joe St. Pedro poderia ser apenas mais um nome, entre tantos no estado norte-americano de Pennsylvania. Mas José São Pedro remete-nos para outro mundo, o Faial da Terra de outros tempos, de onde emigrou aos 15 anos de idade e se tornou, hoje, num nome de sucesso nos negócios de investimento e planeamento financeiro. Esta é mais uma das muitas histórias de vida de açorianos de sucesso, que triunfaram nos EUA à custa de muito trabalho e muita persistência. Um exemplo de vida que orgulha a comunidade açoriana.

 

Lembra-se de como foi a sua saída do Faial da Terra para os EUA? Com que idade e para onde foi? 

Sim, lembro-me perfeitamente quando saí do Faial da Terra para emigrar para os Estados Unidos: foi no dia 7 de Julho de 1967, com 15 anos e meio de idade na companhia dos meus pais. Saímos do aeroporto de Santana (o ‘aerovacas’), em Rabo de Peixe, a caminho da ilha de Santa Maria onde havia e há um aeroporto maior. Esperamos dois dias até haver passageiros suficientes para a companhia da aviação PAN AM nos levar a Boston. Lembro-me que, quando cheguei ao aeroporto de Boston e olhei pelas janelas, vi muitos carros estacionados. Foi uma grande surpresa todo aquele movimento de carros e trânsito na América, comparado com a nossa Ponta Delgada em 1967, foi quase um choque.

No entanto, o destino final era a Califórnia, para onde seguimos num outro avião da TWA, directo a S. Francisco, e depois noutro avião menor para o trajecto final, a cidade de Sacramento. Fomos de carro para a casa da minha tia, irmã do meu pai, que tinha feito a carta de chamada para nós. Tinha vacas de leite e, naturalmente, tinham que ser ordenhadas de 12 em 12 horas. Naquela época era a lei.

Meu pai foi trabalhar com a minha tia para ajudar a ordenhar vacas e conseguir o seu salário. E essa foi a razão porque fomos para a Califórnia.

Meu pai trabalhou com a minha tia durante quatro meses, mas nunca se adaptou ao horário da noite. Não conseguia dormir muito de dia para ir começar a ordenhar vacas às duas da manhã, só acabando às 7 da manhã, para depois continuar às 2 da tarde uma nova rodada de ordenha até acabar.

Fui para a escola, mas o problema é que o meu inglês era muito fraco. Não compreendia os professores, mas sabia a matéria. 

 

Por que razão trocou a Califórnia por New Bedford? 

Como minha mãe tinha família em New Bedford (irmã e irmãos) resolveram ir para a Nova Inglaterra no mês de Outubro de 1967. Saímos de Sacramento num bus (autocarro), numa viagem que durou quatro dias e cinco noites. Só parava para comer, apanhar passageiros e mudar de condutores. Foi muito bom eu ser novo naquela altura.  Hoje, não conseguia aguentar uma jornada dessas. 

Chegado a New Bedford, fui para uma escola especial para aprender inglês com um senhor professor Aguiar, de Matemática, que foi colega do Dr. Weber, em Coimbra.

Frequentei essa escola durante seis meses e depois fui para o liceu, o New Bedford High School, onde graduei.

 

É verdade que um dos seus primeiros empregos foi dar catequese? 

Sim, um dos primeiros empregos foi dar catequese na Igreja da Imaculada Conceição, no norte de New Bedford. O senhor Padre Branco, que sabia que eu tinha frequentado o Seminário por quatro anos, ofereceu-me o emprego dois dias por semana e, ao domingo, pagando-me 5 dólares à hora, o que naquela altura era muito bom.

No fim-de-semana e nas férias da escola, ia trabalhar para uma fábrica que fazia roupa de senhora. Então trabalhei lá durante duas férias. Meu pai queria que eu ficasse lá até um dia ter a possibilidade de ser um (bossa) capataz.  O dono da fábrica gostava de mim. Era grego, um bom homem, muito simpatico. E talvez eu tivesse oportunidade. 

Felizmente eu tinha outras ideias na cabeça e nunca aceitei essa opção. Fui então trabalhar para uma ourivesaria e, ao sábado, trabalhava numa loja de ferragens.

Tive sorte em ser um bom vendedor e fizeram-me gerente da ourivesaria, com a condição de me mudar para o estado de New York, em Massapequa, onde então conheci a minha esposa Anita.

Mas isso foi uma desgraça para os meus pais, pois era filho único. “Estás ‘desarando’, ou seja, “deixando-nos sozinhos”, diziam eles.

 

Então lançou-se na aventura de uma ourivesaria. Como correu o negócio?

 Resolvi abrir uma ourivesaria por minha conta, com um sócio. O negócio começou razoável, mas depois tivemos a crise no final dos anos 70, quando os juros atingiram 21% e a inflação 13.5%.  Foi muito difícil aguentar o negócio com esses juros caríssimos. Seis anos depois, fechamos as portas. Olhando para trás, foi a melhor decisão que tomei na vida. 

 

Como aprendeu que na vida falhar não é uma opção? 

Para combater diversos obstáculos temos sempre que ir aprendendo. E assim o fiz. Ia a muitas reuniões e, numa delas, adquiri uns livros. Um deles intitulava-se FALHAR NÃO É OPÇÃO (Failure is not a option). Tenho lido este livro muitas vezes. Temos sempre que lutar para atingir todos os objectivos que nos propomos. Tem que ser sempre “força para a frente”! Detesto e não participo em ‘nãos’. Não aceito coisas negativas porque nada pode ser resolvido com o negativo. Eu detesto e não participo em ‘nãos’. Não aceito coisas negativas porque nada pode ser resolvido com o negativo.

 

Foi trabalhar a vender seguros.  O que aprendeu aí? 

Pois, a minha nova carreira foi a vender de seguros de vida, em 1984, com uma companhia que se especializou em Financial Planning, especialmente para clientes que tinham valores em excesso de 1,6 milhões de dólares, incluindo negócio e casa. Aprendi muito com advogados, a ler testamentos e planear para se pagar os impostos ao Governo quando o casal morria.  Os herdeiros pagavam na altura 50% do excesso de 1,6 milhões de dólares de impostos. Por exemplo, se o valor era de 2 milhões de dólares, pagavam 200 mil dólares. O seguro era mais barato do que pagar 200 mil. Em 1986 resolvi montar-me por minha conta para continuar o que estava fazendo, mas também  ajudar clientes a investir o seu dinheiro e o dinheiro das reformas privadas das suas empresas.  Fundos e pensões.

Era um método de orientar o cliente em todas as fases dos seus planos económicos. Foi o sucesso da firma. E assim continuamos. Hoje temos 8 empregados trabalhando na firma, dois dos meus filhos - a minha filha e o filho mais velho. Os outros, um é piloto e outro trabalha em landscaping.

Também tive e tenho muita sorte de ter uma esposa, a Anita, que sempre me encorajou. Quando tenho qualquer decisão para tomar, consulto-a e tomamos a decisão juntos. Na nossa empresa, actualmente, a maioria dos lucros são derivados de investimentos, com os clientes a pagarem uma percentagem da sua conta.

 

Se tivesse de resumir em poucas palavras o que foi que a emigração lhe ensinou, o que diria? 

A emigração abriu-me os olhos. As possibilidades que existem nos Estados Unidos são tremendas. Se quiser trabalhar com bastante força e concentração no que quero obter, há sempre uma grande oportunidade, que infelizmente não existe em países mais pequenos.

Especialmente no princípio da carreira, trabalha-se muito, mais de 40 horas por semana. Infelizmente é quando se ganha menos. Mas temos que semear muito para termos as novidades depois na devida época (milho, trigo, couves, batata, etc). As colheitas só vêm depois de se semear.

Muitas pessoas que montam negócios querem ficar ricas de um dia para o outro. Isso não é possível, não é o Totobola.  Primeiro, há que determinar o que se gosta de fazer e, depois, escolher uma carreira. Faz-se um plano para atingir o objectivo pretendido.

É importante ler livros de pessoas de sucesso, ou artigos relacionados com o nosso objective, e arranjar um parceiro que aceite a nossa jornada e acredite em nós 100%.

 

Que valores levou dos Açores que o ajudaram a vencer?

Quando saí dos Açores, tinha quase o quarto ano do Seminário Episcopal de Angra, onde nos últimos dois anos tive a oportunidade de conhecer um grande amigo e pessoa que eu respeito imenso, o Onésimo Almeida, hoje professor na Universidade de Brown, em Providence.

O meu caro Onésimo foi meu monitor, mas é uma pessoa que nunca para e nunca parou desde que eu o conheço há 55 anos. As pessoas que têm sucesso nunca param. 

O Seminário para mim foi uma educação impecável. Devo muito da minha educação ao Seminário, sobretudo disciplina e respeito.

 

 Quais os mais importantes valores que permitiram o seu triunfo? 

Um dos maiores valores que permitiram os meus triunfos foi o que o Primeiro Ministro da Inglaterra, Sir Winston Churchill, disse num discurso na festa de formatura de alunos na Universidade de Oxford: NEVER! NEVER! NEVER! NEEEEEVER GIVE UP. (Nunca, nunca, nunca desistam!) Depois, sentou-se com um charuto na boca.

 

E que ligação mantém hoje com os Açores? 

A minha ligação aos Açores é sobretudo nas férias de Verão. Dois meses. De Inverno, um mês. Tenho casa e carro no Faial da Terra, o presépio da ilha, um sossego de que gosto imenso! Com a internet e Wi-fi em casa, tenho acesso a qualquer coisa. Quando desço pelas escadas do avião, em Ponta Delgada, sinto-me ‘relax’. Descontraio. É a nossa Terra, que eu adoro.

Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.