“Quis levar um pouco da beleza do Nordeste para o Restaurante Poço Azul”

André Pacheco

Aos 33 anos André Pacheco decidiu apostar na Achadinha, concelho do Nordeste, e abrir, o ano passado, o Restaurante Poço Azul. Em menos de um ano, o jovem empresário passou de uma sala de refeições para duas com capacidade para 140 pessoas. Um sonho tornado realidade contado ao Diário dos Açores na primeira pessoa.

 

Diário dos Açores - Como começou este projecto?

André Pacheco – Após ter estado cerca de quatro anos a viver em Lisboa, a ideia de ter um restaurante meu surgiu o ano passado, depois de ter regressado a São Miguel. A verdade é que sempre quis voltar para a minha terra. Um certo dia, ao ir à mercearia na zona onde resido, Achadinha, no Nordeste, reparei que um senhor estava a abrir o restaurante e perguntei-lhe se o restaurante ia novamente abrir portas ao que ele me respondeu que se desse mais uma volta na chave que sim, poderia voltar a abrir. Percebi logo pela resposta que afinal não havia novos donos para aquele espaço e pedi para ver o restaurante. Ao entrar, comecei logo com ideias e a imaginar-me a explorar aquele espaço. Sentia que o restaurante era a minha cara e o que eu procurava. Uma vez que já vivo no Nordeste há mais de 10 anos, senti que era a altura de juntar o útil ao agradável e acabei por fazer uma proposta para adquirir o restaurante, proposta essa que foi aceite.

Depois, foi colocar mãos à obra. Sabia que ao nível da cozinha queria manter a gastronomia regional e o serviço de buffet, até porque os buffets sempre foram o ponto forte daquele estabelecimento. Aproveitando esta mais-valia optei por manter aquele serviço. Contudo, queria mudar o nome do restaurante de forma a que fosse apelativo e pudesse chamar a atenção. Estamos numa altura em que o Nordeste está na moda, sendo muito procurado tanto por locais como por turistas. Lembrei-me então do poço azul, um novo trilho que foi inaugurado no Nordeste e resolvi chamar ao meu restaurante Poço Azul. O curioso é que no restaurante já havia uma pintura feita à mão de uma cascata. Falei então com um pintor local que restaurou, e muito bem, aquela pintura. Em seguida foi dar o meu toque pessoal ao restaurante, tentado fazer que com que todas as pessoas que vão ao Poço Azul se sintam em casa.

 

Estão prestes a completar um ano de actividade. Como correram estes doze meses de actividade?

AP – Foram formidáveis. É claro que não foi fácil até ao momento de abrir as portas ao cliente, mas tem sido um bom ano. Desde o início que disse que não queria abrir apenas mais um restaurante, mas sim que fosse o restaurante do Nordeste e que o nosso nome chegasse longe. Apostei em alguma publicidade nomeadamente na distribuição de alguns panfletos e, de facto, as pessoas foram aparecendo. Passado um ano já há quem nos procure pela nossa simpatia, pela nossa gastronomia e pela nossa simplicidade. No meu restaurante o importante são as pessoas, queremos responder às necessidades de cada um e não vender o que queremos. 

Neste ano também já marcamos presença em eventos fora do restaurante. Estivemos, por exemplo, no Festival de Sopas de Nordeste, onde levamos uma sopa de abóbora que foi servida mesmo dentro de uma abóbora, também já somos procurados por muitas associações para serviços de catering e até para patrocinarmos alguns eventos e, sempre que pudemos, ajudamos. Também costumamos ajudar com donativos para os sorteios das festas do Espírito Santo porque sou muito crente e acredito muito na força do Divino Espírito Santo.

O certo é que em apenas um ano eu passei de uma sala de refeições para duas salas que, principalmente ao fim-de-semana, estão completamente cheias. Cada sala tem capacidade para 70 pessoas. Isso não me poderia deixar mais satisfeito.

 

restaurante 1Fale-me precisamente desta expansão. Como foi, logo no primeiro ano, passar de uma para duas salas de refeições?

AP – Era um espaço que já existia, mas que estava totalmente desaproveitado. Estamos a falar de um sítio com uma armação em ferro, alguma lona, plástico preto, umas tábuas e folhas de eucalipto no telhado. Olhava para aquilo e só pensava no potencial. Mais uma vez tive que trabalhar muito, durante dias inteiros e muitas madrugadas, e transformei aquele canto da rua numa zona muito mais bonita, com mais visibilidade e com uma esplanada digna para todos os meus clientes. Consegui concretizar mais este meu objectivo também para que as pessoas vissem que também no Nordeste há muita qualidade e conforto. Olhar para o que fiz, em poucos meses, foi muito gratificante e, uma vez mais, coloquei o meu cunho pessoal e um pouco do que é o Nordeste naquela esplanada.

 

Com tanto trabalho e tantas obras foi um grande investimento da sua parte?

AP – Sim! Para além das obras e de tudo o que envolveu a decoração dos dois espaços, também tive que investir numa viatura, porque considerava essencial para poder desenvolver um serviço em condições, principalmente por causa dos eventos que fazemos fora do restaurante. A minha ideia foi sempre ir investindo à medida que o negócio fosse evoluindo. Posso garantir que tudo o que tive que adquirir até ao momento já está, felizmente, pago. Tudo isso conseguindo sempre cumprir com todas as responsabilidades que um negócio acarreta como é o caso dos ordenados dos meus colaboradores e todas as outras responsabilidades ao nível de fornecedores e impostos.

Foi realmente um grande investimento, mas teve que ser, porque eu tinha que dar todas as condições a todos os que saem da sua casa e vão ao Poço Azul.

 

Relativamente à sua equipa, começou com quantos colaboradores?

AP – Outra ideia que sempre tive foi ter uma equipa com pessoas do Nordeste. Não menosprezando todos os profissionais que existem na ilha, uma das minhas convicções passava por querer dar trabalho às pessoas do Nordeste principalmente porque há muito desemprego neste concelho e porque há famílias a viverem em muitas dificuldades. Comecei com três pessoas (a Jerusa, - que já havia trabalhado no antigo restaurante durante oito anos - a Raquel e o Bruno – ambos ex colegas do exército - ) e hoje já somos 5 colaboradores e 2 estagiários. 

Quando comecei sabia, com toda a certeza, que podia contar com aqueles três elementos para me ajudarem a ter sucesso no Poço Azul. Não acreditava que fosse ter tantos clientes como tive logo no início da actividade, e quando dizia àquela equipa para ir para casa porque estavam cansados, eles recusavam-se a deixar o trabalho, vestiram a camisola e nunca me deixaram sozinho. Por isso hoje lhes digo que não sou patrão deles: só sou patrão no final do mês quando tenho que lhes pagar o ordenado, tirando isso, somos todos colegas de trabalho. Faço tudo o que os meus colaboradores fazem. Não tenho problemas em lavar loiça, varrer ou lavar o chão. Estamos todos juntos neste projecto que é construído em equipa e com muito espírito de camaradagem. Eu já fui empregado e não me esqueço das minhas raízes e dos sítios por onde passei. Sei bem o que não gostava que os meus patrões faziam, por isso agora, enquanto entidade patronal, faço, todos os dias, no meu local de trabalho, com os meus colaboradores, aquilo que eu acho que é o mais correcto para todos.

Com tudo isso, estamos já a ser reconhecidos pelo nosso trabalho, pela nossa gastronomia e pela nossa qualidade não só pela população local, mas também por muitas turistas que nos visitam. É curioso que há turistas que fazem reserva no nosso restaurante mesmo antes de chegarem à ilha, sem saberem sequer onde fica o Poço Azul.

 

Onde está a vossa maior aposta?

AP – O nosso prato sensação é o polvo à lagareiro. Este não é um prato tipicamente açoriano, mas é feito só com produtos açorianos, principalmente o polvo, e com um toque especial que lhe dou, que é um dos meus segredos culinários. Esse é o prato à carta que mais sai. Temos sempre polvo, salvo ruptura de stock. Esse é, de facto, o nosso ex-libris. Chego a ter noites que só saem polvos que são acompanhados por batata à murro e inhame do Nordeste. Para além do menu à carta também apostamos no serviço de buffet.

Importa referir que todos os nossos produtos são regionais e faço por adquirir tudo o que me é possível a produtores do Nordeste. Gosto de pensar que assim também estou a contribuir para a economia deste concelho. Também todos os meus legumes e vegetais são biológicos, porque faço questão de servir qualidade a todos os meus clientes. Só trabalhamos com produtos frescos. Todas as nossas carnes, seja vaca, porco ou frango são açorianas, bem como o peixe. Também o pão é de uma cooperativa do Nordeste. É um pão caseiro, com um sabor divinal.

Eu gosto que quem visita o Poço Azul veja que vai comer produtos de qualidade e frescos. Também dou a oportunidade aos clientes de fazerem as suas próprias saladas. Também dispomos, desde a primeira hora, de comida vegetariana e vegan, sejam pratos frios ou quentes. Um dos pratos que faço é feijoada vegetariana com feijão preto e que tem tido muita aceitação.

 

Há novas apostas a levar a cabo?

AP – Temos sempre que evoluir, parar é morrer e matar o negócio! Vamos fazer algumas adaptações à nossa ementa, com a apresentação de novos pratos. Vamos apostar numa vertente mais snack, em saladas e em sumos detox. É importante que sigamos as tendências. Muitas das pessoas que procuram o Nordeste vão para estar em contacto com a natureza, para fazerem trilhos ou para praticarem algum exercício. As pessoas estão a ter, cada vez mais, uma preocupação em terem hábitos de vida saudáveis. Assim, se eu puder responder a estas necessidades, as pessoas que vão ao Nordeste já não vão precisar de se preocupar em levar a sua alimentação ou os sumos de casa porque já os poderão adquirir no Poço Azul.

Para 2020 já estou a pensar fazer pequenas remodelações ao nível da decoração e disposição da sala.

 

Apesar de só ter passado quase um ano, sente que o Poço Azul é uma aposta ganha?

AP – Sim, sinto que foi uma aposta ganha desde o primeiro dia que o restaurante abriu as suas portas. Estava com muito receio, porque era mais um restaurante no meio de tantos outros que já existem em São Miguel, mas consegui mostrar que o Poço Azul não é só mais um restaurante. É sim um restaurante para visitar, passar tempo de qualidade e estar como se estivesse em casa.

Sou natural de Água de Pau, com muito orgulho, mas escolhi a Achadinha, no Nordeste, para viver e, como tal, creio que colmatei uma lacuna que existia nesta localidade. É muito bom acordar neste cantinho do céu, e sentir o ar puro logo pela manhã. Este projecto permitiu-me criar o meu posto de trabalho e dar trabalho a outras pessoas e, só por isso, para mim, já foi uma aposta ganha. Para além disso, estar a trabalhar perto de casa e naquilo que mais gostamos de fazer é também muito gratificante. 

Não posso deixar de referir o contributo muito importante do meu parceiro Rui Inácio em todo este projecto. Sem ele o Poço Azul não existia. Até podia existir, mas não seria a mesma coisa. Ele é o meu pilar e tem sido o meu grande apoio e a minha força desde sempre. Seria ingrato não lhe dar o devido mérito porque este projecto também existe por causa dele.

 

Foi preciso lutar muito para chegar onde chegou?

AP – Sim, muito! A vida não é fácil, nem sempre conseguimos o que queremos no tempo que queremos e nem sempre as nossas ideias são as melhores e dão certo. Eu gastei até ao meu último tostão. Sem vergonha de o dizer, posso afirmar que quando abri o Poço Azul tive que recorrer ao meu cartão de crédito, levantar 200 euros, para ter um fundo de caixa. Foi aí que senti que estava mesmo a começar do zero, ou até mesmo abaixo de zero! Mas ao olhar para aquela equipa, pronta para arrancar a confiar totalmente em mim e nas minhas capacidades, fez-me acreditar que era dessa que ia dar certo! Já passei muito na vida, já lutei muito, já emigrei porque não tinha opções na minha terra e fui inclusive para Inglaterra sempre à procura de mais e de melhor formação. Nos últimos quatro anos vivi em Lisboa e durante este tempo tive sempre o objectivo de trabalhar, fazer o meu pé-de-meia para voltar à minha ilha e investir cá. Não foi fácil mas felizmente consegui e hoje regressei à minha terra e tenho o meu negócio. Todos os dias quando termino o trabalho não sou capaz de ir para casa sem agradecer à minha equipa. Para mim é fundamental a humildade e é preciso sabermos estar gratos por cada dia de vida e de trabalho. Conforta-me saber que estou a ajudar aos meus colaboradores dando-lhes emprego, mas depois penso que não sou quem lhes estou a ajudar, mas sim eles é que me ajudam a concretizar o meu projecto. Sem eles, o Poço Azul não evoluía. Saber que tenho uma equipa a apoiar-me incondicionalmente é muito gratificante para mim.

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