Na padaria Flora “quero marcar a diferença e fazer diferente nos Açores”

padaria flora

Milton Oliveira é o novo rosto da padaria/pastelaria Flora localizada no Cabouco, concelho de Lagoa. Desde muito novo que este jovem empresário sempre se viu envolvido, como que em jeito de brincadeira, na azáfama desta empresa que, na altura, tinha outra proprietária. Milton Oliveira foi ganhando gosto por esta área e acabou por ser dedicar por inteiro a este ramo. Quando estava de malas feitas para ir abraçar um novo projecto em Londres, Milton Oliveira foi surpreendido com a ideia de ficar com a padaria Flora. Depois de duas semanas de ponderação, este jovem optou por desfazer as malas e agarrar este desafio desde Dezembro do ano passado. Ao Diário dos Açores o empresário de 28 anos conta quais os seus sonhos e novos projectos.

 

Diário dos Açores - Como nasceu a Padaria Flora?

Milton Oliveira – A padaria Flora já conta com cerca de 30 anos de existência e tudo começou por iniciativa de Iria Flora que, na altura, tinha um forno a lenha onde cozia pão de milho, massa sovada e biscoitos. Ainda antes de ter o edifício da padaria, a antiga proprietária fazia a distribuição porta-a-porta destes produtos, a pé, e que iam em cestas. Como cada vez mais iam surgindo mais solicitações, a produção foi aumentando e foi então que a Sra. Iria decidiu abrir o espaço físico da padaria Flora, sendo que a produção em forno de lenha manteve-se. Aliás, este forno ainda hoje existe e é utilizado actualmente, embora que muito pouco, uma vez que é necessário produzir também em formos eléctricos para termos uma melhor capacidade de resposta.

A minha ligação à Padaria Flora começou naquela altura quase que por uma brincadeira. Costumava ir ajudar a colocar lenha no forno, ajudava também na distribuição e ficava pela padaria a ver o que faziam e como se produzia o pão de milho e a massa sovada. Ainda hoje fazemos estes dois produtos de modo convencional.

Curiosamente eu queria ser polícia, mas o facto de ter ficado entre os 8 e os 16 anos de idade a ajudar na padaria fez-me gostar desta área. Quando cheguei ao 11º de escolaridade, sentia que o meu lugar era na padaria e foi quando decidi ir trabalhar a tempo inteiro para a empresa e, passados 4 anos, já era chefe do pessoal aos 21 anos de idade.

Mas também fiz outras coisas que me deram mais experiência; trabalhei no Mc Donald’s e, posteriormente, recebi uma proposta para ir trabalhar durante um ano e meio, em Portugal Continental, na Puratos Portugal. Esta experiência deu-me muita formação e fez-me crescer e evoluir muito ao nível profissional. Passado este tempo regressei aos Açores como técnico daquela empresa. Também fui a Paris fazer outra formação na área. Entretanto, acabei por sair da Puratos e passei por algumas pastelarias em Ponta Delgada, como o Paraíso das Delícias, o hotel Azor, local onde trabalhava muito a pastelaria fina, e também passei pela pastelaria Hintze 48 onde trabalhei uma pastelaria mais delicada.

Com isso, ao longo dos anos, a padaria Flora foi crescendo, com as vendas a aumentarem cada vez mais, mas uma doença fez estagnar o negócio. Como a antiga proprietária ficou muito doente, no final do ano passado, foi-me feito o convite para ficar a explorar a padaria. Fiquei num impasse, sem saber o que fazer, porque tinha acabado de receber uma outra proposta para ir para Londres. Até já tinha viagem marcada para 5 de Janeiro deste ano. Durante duas semanas pensei muito e estava muito indeciso. Foi uma decisão difícil pois Londres era também um sonho que gostava de concretizar. No entanto, depois de ponderar muito, acabei por aceitar a proposta de ficar a explorar a padaria/pastelaria Flora, até porque foi aqui que dei os primeiros passos e aprendi muito. Se sou hoje quem sou, devo-o, em parte, à Sra. Iria que sempre lutou muito. A antiga proprietária é uma pessoa de muita garra e toda a sua vida trabalhou muito no seu negócio. A força que ela sempre mostrou ter, é a força que tenho neste momento para levar este negócio e o nome da empresa para a frente. Quero daqui a uns anos poder entregar esta casa aos filhos da antiga proprietária com o sentimento de dever cumprido. Com trabalho tudo se consegue.

 

Que balanço faz destes meses?

MO – Um balanço muito positivo. Está a correr bem. É claro que há alterações que têm que ser feitas, principalmente voltar a dar a conhecer a padaria e dar mais visibilidade à empresa. Como já conheço um pouco do mercado, fruto da minha experiência como técnico, e como sei o que os clientes procuram, já tenho novidades para apresentar a curto prazo. Estou à espera de material que encomendei para poder aumentar a minha oferta em particular no que diz respeito a pastelaria. Actualmente ainda não tenho a variedade de produtos que desejo, tendo em conta as limitações de laboração, mas não estamos parados. Estamos a produzir o que já era hábito e vou introduzindo algumas novidades. Temos tido uma grande saída com as fofas, sendo um produto criado totalmente por mim e que já é uma referência na padaria. Os clientes estão a pedir cada vez mais produtos e tem sido um trabalho muito exigente para mim. O meu objectivo é passar a trabalhar com pão 100% natural e, para isso, quero fazer uma outra formação só para poder trabalhar com massas mães que têm uma fermentação a longo prazo. Isto quer dizer que para poder fazer, por exemplo, um pão, não se consegue fazer em apenas um dia, serão necessários entre dois a três dias.

Quero com isso marcar a diferença e fazer diferente nos Açores. Não quero ser só mais uma empresa aberta.

 

É um grande desafio que tem pela frente?

MO – Está a ser um grande desafio. A equipa está a crescer e vou continuar a trabalhar para poder crescer ainda mais e levar o mais longe possível o nome da Padaria Flora.

Não está a ser fácil, estou a trabalhar muitas horas por dia. Tem alturas que entro às 04h30 e só saio pelas 23h30, e isso está a ser muito complicado.

Actualmente a padaria conta com cinco colaboradores e já estou a equacionar a hipótese de colocar mais funcionários. Ao nível da equipa, estou a apostar em jovens sem formação, mas que têm gosto pela área e que querem aprender. Nos Açores há ainda muita falta de formação ao nível de padaria/pastelaria. Os turistas procuram cada vez mais produtos diferentes e inovadores e considero que seria uma boa aposta as escolas profissionais da Região abrirem cursos só nestas áreas. Já existem cursos de cozinha, onde se inclui a pastelaria, mas não se tem dado tanta importância à pastelaria.

 

Quais os seus projectos a curto e longo prazo?

MO – Já estou a pensar abrir um outro estabelecimento, de preferência na cidade de Lagoa, porque no edifício actual não tenho espaço para criar tudo o que ambiciono. Quero trabalhar outro tipo de pastelaria, onde os clientes, ao entrarem, fiquem a namorar com a montra. Quero avançar com este projecto. Sei que é um grande investimento e que não será fácil, mas quero dar um passo de cada vez, tendo como objectivo final concretizar este projecto que quero que seja diferenciador no mundo da pastelaria. A minha intenção passa por trabalhar a pastelaria fina. Também sei trabalhar com gelados e tenho ainda formação em chocolate. Ao nível das mentalidades, ainda não se vê por cá uma grande abertura relativamente a este tipo de pastelaria, mas com o tempo chegamos lá.

 

A ideia é ter uma padaria e uma pastelaria em dois espaços distintos?

MO – Sim, quero ter um espaço com fabrico só de pastelaria e outro só para padaria. Para já, vou ficar neste espaço durante cinco anos, onde também irei manter a pastelaria.

Gostava muito de poder ter este espaço no centro da cidade de Lagoa, porque é uma cidade que está a crescer e gostava de fazer esta aposta. Contudo, as exigências nesta cidade ainda não estão tão facilitadas como em Ponta Delgada, mas veremos quais são os desafios que me esperam.

 

Actualmente o que tem a padaria/pastelaria Flora para oferecer?

MO – Temos uma grande variedade de biscoitos, massa sovada, que é feita às Quinta-feiras e aos Sábados, e o pão caseiro que só era fabricado aos Sábados, e actualmente também estamos a cozer aos Domingos. Ao nível de padaria, também é preciso inovar porque estamos a receber muitas solicitações de clientes e é necessário ir ao encontro das necessidades dos nossos clientes. Já me pedem pão de água, de cereais ou outras variedades de pão de saúde e é preciso caminhar para alcançar este objectivo. Também ambiciono começar a trabalhar durante o dia com pão quente.

Mas quero ir devagar, trabalhando com a minha equipa que me tem ajudado muito a levar este desafio em diante.

 

É um ramo difícil?

MO – Não é difícil quando se ama o que se faz, e eu amo esta área e dou tudo por ela. Às vezes sinto que deixei muito de parte para poder prosseguir com este sonho. Já podia ter constituído família, e não o fiz ainda para me dedicar à minha vida profissional. É uma área fascinante e que nos envolve. Vou continuar a lutar para chegar mais longe na minha vida profissional. Obviamente que já penso em constituir família, até para ter alguém em quem me apoiar nestes meus projectos. Agora o que quero é que os materiais que encomendei que cheguem o quanto antes para eu poder oferecer mais e melhores produtos aos meus clientes.

 

Sente que esta é uma aposta que vai ser ganha?

MO – Sim, já está a ser ganha a avaliar pelos comentários que temos recebido dos nossos clientes. As pessoas estão satisfeitas e a gostar das inovações que temos introduzido. Ainda não estou no patamar que desejo, mas estou com força e vontade de lá chegar.

 

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