Academia das Expressões pretende avançar com o ensino especializado da área artística

João Paulo Costa

Localizada na Rua Coronel Silva Leal, em Ponta Delgada, a Academia das Expressões é um projecto levado a cabo pelo empresário e artista João Paulo Costa, que decidiu colocar a render as suas aptidões nesta área. O projecto arrancou em 2015 e já conta com cerca de 700 alunos. Ao Diário dos Açores João Paulo Costa conta como tem sido gerir este negócio de artes.

 

Diário dos Açores - Como começou o projecto Academia das Expressões?

João Paulo Costa - Em 2014 fiquei sem trabalho e comecei a pensar na hipótese de colocar a render os meus talentos e fazer realmente aquilo em que acredito e em que sei que sou bom. A partir daí comecei a criar o projecto da Academia das Expressões. Comecei a reunir documentações e a equacionar que tipo de projecto poderia ter sucesso. Inicialmente apresentei o projecto a algumas instituições, mas na altura era-me dito que não fazia sentido ter um espaço de ensino artístico não formal, porque cada vez mais as pessoas preocupam-se com a formação especializada e técnica. Tentei desmistificar esta ideia e mostrar que um artista é muito mais do que um técnico. Um artista é um criativo e a técnica só o vai completar, logo, a meu ver, faz sentido existirem escolas técnicas, mas também existirem escolas onde se aprende muito mais para além do que é o óbvio. 

 

Avançou então com o projecto, como foi a reacção inicial?

JPC - Quando abri, em 2015, a Academia das Expressões, como pré-projecto, rapidamente houve uma grande adesão e notou-se que realmente era um projecto que faltava na Região ao nível do ensino não formal.

A partir daí, comecei a convidar vários formadores e colegas para colaborarem com a Academia das Expressões.

Tudo começou na Rua Vasco Bensaude, em Ponta Delgada, mas a expansão obrigou-nos a adquirir um espaço maior. Tentei, em parceria com o Governo Regional, alguns apoios, mas, de acordo com as portarias existentes, não existia qualquer tipo de apoio para um projecto tão específico.

Contudo, naquele mesmo ano, fomos considerados como o projecto de empreendedorismo social de excelência, sendo dos poucos que existem na Região.

Sempre procuramos ser uma alternativa ao que existe no mercado e o que notamos, desde o início, é que a Academia das Expressões é também um ginásio emocional. De que vale ter um ser humano com formação técnica se não as tem bases sociais? Cada vez mais as empresas têm o cuidado de procurar pessoas com determinadas sensibilidades e consciências, do que apenas com um “canudo” a dizer que é capaz. Se formos a ver bem, toda uma componente pedagógica que é tão necessária quanto a formativa, foi esquecida.

 

O que a Academia das Expressões tem para oferecer?

JPC - Trabalhamos com as quatro valências do mundo artístico. Expressão musical, expressão plástica, expressão dramática e expressão corporal. Na expressão plástica trabalhamos áreas mais tecnológicas, como stop motion, animação 2D, desenho digital e o vídeo. Também nos dedicamos a trabalhos de artes visuais, como o traço, a cor ou as formas. Temos ainda o desenho com o artista Michael Hudec a dar aulas de desenho e pintura.

Na expressão dramática temos o teatro, na componente da dramatização e noutra vertente que assenta em preparar os nossos jovens para o grande palco da vida.

Na expressão corporal temos o hip hop, dança contemporânea e o ballet, já na expressão musical temos tecnologia musical, piano, violino, guitarra e canto.

 

Qual a valência mais procurada?

JPC - As pessoas ainda vão muito para as áreas tradicionais, como é o caso das áreas onde a sociedade está mais desperta como é o caso da guitarra, piano, ballet e canto. Estas são as áreas com maiores afluências.

 

Já contam com quantos alunos?

JPC - Neste momento temos mais de 700 inscritos na nossa base de dados. Desse número cerca de 300 são alunos que têm formação artística contínua todas as semanas. Os restantes são pessoas que vêm para actividades esporádicas, como workshops, acções de formação ou colóquios.

Estamos a falar de alunos em que o mais novo tem 2 anos e o mais velho tem 78 anos.

 

Esta não é no entanto uma Academia de Expressões convencional… procuram sair do que é convencional?

JPC - Temos verificado que o ser humano tem evoluído muito e muitas vezes os problemas sociais existentes têm a ver com as frustrações que o ser humano vai ganhando ao longo do seu crescimento. Entendo que a escola regular é insuficiente e está completamente desactualizada para as actuais necessidades existentes, em concreto na componente emocional que deixou de ser trabalhada no meio escolar, e apenas está a ser desenvolvida a formação técnica. É por isso que na Academia das Expressões tentamos ser genuínos, porque vamos ao encontro daquilo que é a pessoa como ser humano. Procuramos que estas pessoas tragam cá para fora as frustrações para serem trabalhadas de modo a que vejam as suas capacidades não só técnicas, mas, acima de tudo, as emocionais. Por exemplo se instalarmos um software Androide num telemóvel Apple vai dar erro porque o software não é compatível com aquele equipamento. Com isso, chega-se à conclusão que aquele equipamento não presta, mas não é verdade, está é mal adequado. Isto está a acontecer no nosso sistema de ensino público. Na Academia das Expressões o que fazemos é utilizar o equipamento certo, no software correcto. Foi por isso que criei este projecto tão específico como é a Academia das Expressões. Qualquer pessoa que nos visita, em particular do exterior, ficam espantados como é possível numa ilha ter um projecto tão inovador.

 

É um projecto que já tem resultados práticos?

JPC - Sim! Apesar de quatro anos ser ainda muito pouco tempo, em termos artísticos alguns dos nossos alunos já fazem um hóbi com a sua prática e com as suas capacidades, utilizando a aprendizagem que adquiriu na Academia. Por outro lado, temos ainda aquelas pessoas que não têm qualquer interesse profissional e utilizam a Academia apenas como ginásio de emoções e para colocarem à prova as suas capacidades. Essas pessoas têm crescido muito e acabam por dizer que tudo na vida torna-se mais fácil. O estar na Academia e estar a desafiar-se em termos emocionais acaba por render para o resto da semana. Estas pessoas sentem-se felizes, satisfeitas e sabem que têm mais capacidades para além daquelas que julgavam ter em termos profissionais. E isso, em quatro anos, é uma resposta muito positiva para nós. 

 

Há novos projectos a levar a cabo?

JPC - Já verificamos que há uma camada de artistas que procuram, cada vez mais, uma resposta também profissional. Sabemos que, infelizmente, a sociedade vê os artistas como subsídio-dependentes que só são válidos quando recebem um subsídio. As instituições locais acabam por arranjar formas de apoios e tornam-se competitivos, até de forma desleal, para com aqueles que fazem desta arte um hóbi, o que deixa lesados os que, efectivamente, querem se profissionalizar nestas áreas. Num futuro próximo estamos a pensar transformar uma parte da Academia em ensino especializado da área artística. Ou seja, em que as componentes científicas e generalizadas são dadas nas escolas públicas, e as específicas são dadas na academia de forma a ter uma resposta profissional.

É um grande projecto, estamos em fase de análise, a estudar diplomas e a ver as várias portarias do Governo para avaliarmos a viabilidade desta ideia. Não é um percurso fácil, até é bastante complexo, mas acreditamos e com o apoio do Ministério da Educação que tem sido impecável, acho que vamos chegar a bom porto.

Estamos também a trabalhar no nosso Canal AE, neste momento já temos alguns vídeos lançados. Queremos lançar novos vídeos, mas como não temos qualquer tipo de apoio do Estado, torna-se muito mais complicado ter retorno financeiro. Estamos a trabalhar e a juntar fundos para dar continuidade a este projecto.

Temos também outros alunos em outras valências com projectos genuínos e originais. Na área da dança temos performances muito interessantes, o mesmo se pode dizer do teatro, onde os alunos estão a trabalhar algumas apresentações que resultam de textos criados pelo próprio departamento do teatro. Na música, que é muito mais fácil porque é um ramo muito mais desenvolvido, também já temos algumas apresentações.

Vamos ver se no próximo Verão já conseguimos fazer no espaço exterior da Academia algumas tardes de abertura ao público com trabalhos únicos e genuínos da Academia para que as pessoas possam ver a qualidade dos nossos artistas.

 

Gerir um projecto destes certamente que não é fácil…

JPC - Não! É um projecto que acaba por ser bastante doloroso, porque existem outras instituições que não são empresas que acabam por usufruir de apoios para desenvolverem projectos com algumas semelhanças aos nossos, o que leva a que muitas vezes as pessoas optem por ir para estes projectos e nós acabamos por ter que lutar contra estes projectos que acabam sempre por incutir que a arte só sobrevive se for subsidiada e esquecem-se que a arte, por si mesma, pode vender e pode servir de crescimento económico e isso vê-se em muitos países. É o que mais custa!

Por outro lado, quando se apresenta este projecto a instituições mais formatadas dizem-nos logo que não temos certificação, esquecendo-se que nós trabalhamos em algo que está a desaparecer como é o caso do saber estar na vida: a parte das emoções. Muitas vezes há miúdos que sofrem e são frustrados porque têm recalcamentos emocionais que não foram trabalhados e exteriorizados o que leva a que estes jovens fiquem revoltados.

 

A par da parte criativa da Academia também criou um conceito gastronómico diferente. Em que consiste?

JPC - Temos a Sweet Cup, que é também um projecto criado pela Academia das Expressões, em que tentamos, através da gastronomia, despoletar sensações às pessoas. Temos por exemplo Sopa de Maracujá, Sopa de Laranja com Açafrão da Índia e alguns produtos regionais como Alheira de Santa Maria, entre outros. As pessoas quando provam, reagem sempre com entusiasmo o que acaba também por proporcionar alegria.

Na passagem por esta vida temos que ser felizes e se todas as pessoas forem à procura da sua felicidade neste contexto mais básico, acabam por ter uma realização completamente diferente. 

 

Financeiramente, a Academia das Expressões tem conseguido atingir os seus objectivos?

JPC – Entre 60 a 65 por cento do que os alunos pagam serve para pagar aos formadores, 18% vai para o Estado e sobra muito pouco para a Academia. A Academia tem muito investimento privado que veio da banca. Costumo dizer que a única instituição que acreditou neste projecto foi mesmo o banco que disponibilizou um crédito que estou a pagar. Contudo, o que me faz acreditar todos os dias no sucesso deste projecto é quando vejo a alegria e a vontade dos nossos alunos. Sente-se aqui uma energia muito boa. A Academia não é um espaço só para crianças e jovens é também para adultos. Chegar à Academia e ver todos estes artistas com um sorriso na cara, que sabem quais são as suas capacidades e prontos para enfrentarem o mundo, acaba por ser o retorno que o dinheiro não paga.

Qualquer ser humano quer ser feliz e muitas vezes somos consumistas para atingir a felicidade e esquecemos é de comprar aquilo que é o alimento das nossas emoções que é através destas expressões.

 

Há ainda um problema de mentalidades no que diz respeito às artes?

JPC – Sim! Há um grande problema porque se um filho chega a casa e diz aos pais que quer ser artista, as reacções podem não ser a melhores, porque o pai diz logo que a arte não dá dinheiro. As crianças acabam por aceitar e desistem de serem artistas para irem para uma profissão técnica e acabam por viver a vida em função de uma resposta unicamente financeira, o que não dá realização profissional. Se formos a ver, passamos mais tempo no trabalho do que em casa, ao invés de fazermos actividades que nos dêem prazer. Só ao envelhecermos vamos ganhando consciência de que deveríamos ter feito outras coisas ou que a nossa passagem por essa vida não terá sido aquela que ambicionávamos. As pessoas ainda não abriram a mentalidade para este estado de coisas. Quem é bom, é bom seja em que área for, e se acredita no seu trabalho vai longe. O músico que acredita que é um bom músico, se tem boa voz e se trabalha para isso vai ter muito sucesso.

 

Qualquer pessoa pode ser um artista?

JPC - Para ser artista não é preciso só ter talento, ou querer ter talento, é preciso nascer-se com algo. Há pessoas que nascem com aptidões artísticas fantásticas, mas há outras que têm muitas mais dificuldades em atingir estes objectivos. Para um músico que não tenha “ouvido”, o processo é muito mais complicado e frustrante do que se for uma pessoa que tenha um ouvido mais sensível. Mas nada disso importa se as pessoas acreditarem verdadeiramente nas suas capacidades e se adequarmos a tal componente técnica às necessidades de cada um, certamente que será um artista único e genuíno. Não queremos aqui criar fotocópias de ninguém. Por exemplo, Mozart tinha o síndrome de Asperger e quando tocava e componha as suas músicas, os músicos técnicos, inicialmente diziam ao pai de Mozart que aquelas músicas não faziam sentido. No entanto, o pai, pelo contrário, considerava-o um génio. Ou seja, este pai deu ao filho a liberdade de ele construir aquilo em que acreditava.

Nós somos seres emocionais, não somos máquinas, somos muito mais do que isso: temos capacidades que, às vezes, não são exploradas mas que se forem trabalhadas, conseguimos ir muito longe. E se há alguém que não tenha a capacidade evidente artística, isso pode ser trabalhado e até pode vir a descobrir-se outras valências e outras áreas.

 

É uma pessoa feliz e realizada?

JPC - Muito feliz. Faço aquilo em que acredito e em que sei que sou bom. A Academia das Expressões foi um risco muito grande, é uma área muito sensível e todos sabemos que quando há necessidade de apertar o cinto a primeira área a levar na cabeça é a artística. Deveria ser o contrário porque as pessoas quando estão fragilizadas, como foi o meu caso que estava no desemprego, o que me fez ter forças e ficar feliz foram as artes.

Com Walt Disney também foi assim. Ele acreditou tanto no seu projecto de querer fazer as pessoas felizes e de criar algo para entreter as pessoas e conseguiu, apesar de muitas pessoas lhe terem fechado as portas e considerado que aquela ideia não fazia sentido nenhum, criar desenhos animados numa altura em que a recessão económica estava muito evidente. 

As pessoas têm sede de se distrair e de colocarem as suas emoções mais ao de cima.

 

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