O dia em que a ilha desceu à cidade…

6 de JunhoPassam hoje 44 anos sobre “a maior manifestação popular da história política dos Açores”, que invadiu a cidade de Ponta Delgada a 6 de junho de 1975. Vale a pena recordar aqui a revolta da lavoura e o desejo da independência, a ocupação do emissor e o encerramento do aeroporto, os presos para a Terceira e as promessas de Lisboa.

 

“A Lavoura açoriana está a ser explorada”

 

Este “Alerta da Associação Agrícola do Distrito de Ponta Delgada” fizera a manchete de capa do jornal Correio dos Açores, de 25 de maio de 1975, com “Alguns porquês que a Lavoura precisa conhecer”.

As razões de descontentamento da discriminação da lavoura açoriana foram colocadas, preto no branco, em comunicado de véspera da entidade representativa dos lavradores micaelenses, então dirigida por António Maria Correia do Carmo, Ezequiel de Melo Moreira da Silva, Miguel de Sousa Cordeiro Amarelo, Tibério Fernandes Vasconcelos Pereira e Duarte Miguel da Silveira do Canto Tavares:

“Foi dado conhecimento público de uma exposição que dirigimos a Sua Excelência o Ministro da Agricultura, em 28 de abril findo, sobre a situação da Lavoura Distrital e em que se referia o tratamento de exceção que a Lavoura açoriana vem sofrendo de longa data, com graves prejuízos para as atividades agropecuárias e onde se afirmou que “a Lavoura Açoriana continua a ser preterida em relação à do Continente, porquanto tudo o que produz obtém preços inferiores aos auferidos pela congénere do Continente e com a agravante dos elementos que adquire para fomentar a produção terem aqui preços muito mais elevados.” (Correio dos Açores, 25 de maio de 1975)

Estava feita a denúncia e demonstrada a discriminação – a Lavoura açoriana paga mais e ganha menos. Por isso estava a preparar-se uma manifestação de protesto: “Relacionada com a situação da lavoura, está programada para a próxima 6ª feira uma grande manifestação em Ponta Delgada promovida por lavradores.” (Açores, 4 de junho de 1975)

Faltavam dois dias para o 6 de junho…

 

NATO adia o 6 de junho para sexta-feira 13

 

Quando foi conhecida a intenção da lavoura micaelense organizar uma manifestação de protesto pelas ruas da cidade, o governador civil do Distrito de Ponta Delgada, António Borges Coutinho, faz chegar aos jornais micaelenses um comunicado conjunto com o Comando-Chefe dos Açores anunciando o adiamento da manifestação para não perturbar a escala de uma Esquadra da NATO no porto de Ponta Delgada:

“Estando preparada uma manifestação de lavradores na cidade de Ponta Delgada, para a próxima 6ª feira, dia 6, e tendo-se gerado à volta desta manifestação um clima de desassossego de que podem resultar perturbações tendentes a criar uma imagem destorcida do nosso país na presença das guarnições da Esquadra da NATO que nos visita nesse mesmo dia, o Governador Militar dos Açores e o Governador do Distrito Autónomo de Ponta Delgada determinam que tal manifestação não seja realizada. Pode, contudo, a manifestação pretendida pelos lavradores ter lugar na 6ª feira seguinte, dia 13 do corrente mês de junho, se assim for do seu interesse.” (Açores, 5 de junho de 1975)

 

“Marco histórico da vida dos Açores”

 

Mas a “grandiosa manifestação” saiu mesmo à rua no dia 6 de junho de 1975 e foi prontamente considerada um “marco histórico da vida dos Açores”, registando, como primeira consequência, que “o dr. Borges Coutinho pediu a demissão do cargo de Governador Civil do Distrito”, conforme reportagem da imprensa local:

“Apesar do comunicado conjunto do Comandante-Chefe dos Açores, General Pinto de Magalhães, e do sr. dr. Borges Coutinho, Governador do Distrito, a manifestação que a Lavoura decidiu organizar foi uma realidade. Muito se falou de medidas preventivas, mas a verdade é que houve sempre a sensação de que a manifestação iria por diante prosseguindo em febril atividade os preparativos. A FLA que tanto tem dado que falar, que tanta inscrição fez por esta ilha fora, algumas exigindo muita audácia, movimentou todos os seus recursos e cedo se concluiu que a manifestação só poderia ser travada por uma ação de violência que todos confiavam não estava na vontade de ninguém desenvolver.

“O ambiente de ontem de manhã por toda a ilha era tenso, especialmente na cidade. Ao começo da tarde começou a movimentação e cerca das 14 horas centenas de manifestantes começaram a desfilar. Concentrada no Campo de São Francisco a multidão foi engrossando e ao chegar à Rua Conselheiro Luís Bettencourt em frente ao Palácio da Justiça era impressionante o cortejo que se encaminhava para o centro da cidade. Surgiram dezenas de cartazes com alusões às dificuldades da Lavoura e aos desejos de “Independência” do povo açoriano erguidos por gente de todas as idades e das mais variadas classes sociais. Lavradores dos mais importantes desta ilha aos mais modestos alinhavam ombro a ombro gritando frases de incitamento. Havia senhoras e homens, crianças de todas as idades, gente de todos os setores de atividade. Entretanto, os estabelecimentos comerciais encerravam. Outros à passagem dos manifestantes também interromperam as suas atividades e os empregados tomaram parte no desfile. 

“A manifestação já com muitos milhares de pessoas subiu a Rua dos Mercadores, a Rua dos Clérigos, desceu a Rua Dr. Caetano de Andrade, subiu a Travessa da Graça, desceu a Rua de São João e ao passar na Rua da Misericórdia vaiou o Partido Comunista e os seus dirigentes. Poucos polícias se viam e todos desarmados. Nenhum militar apareceu a intervir. A manifestação decorria aliás na melhor ordem. Prosseguiu sempre juntando cada vez mais gente pela Rua António Joaquim Nunes da Silva, Rua Machado dos Santos e Rua Marquês da Praia e Monforte. 

“Depois foi a concentração final frente ao Palácio da Conceição. Milhares de pessoas enchiam por completo as ruas e jardins envolventes ao Governo Civil. Os gritos de demissão não cessavam. A certa altura surgiu à varanda o sr. dr. Borges Coutinho. Tremendamente pálido enfrentou a multidão (que o apupava violentamente) com grande dignidade. A muito custo conseguiu proferir as seguintes palavras: “Tenho para vos dizer que acabo de pedir a minha demissão”. (Açores, 7 de junho de 1975)

 

A ocupação do Emissor e do Aeroporto

 

Confirmada a demissão do Governador, “a multidão começou a dispersar, mas muito lentamente”. Ainda assim, o dia não estaria terminado.

“Grande grupo dirigiu-se para o Emissor Regional dos Açores cujas instalações invadiu, exigindo a demissão do locutor João Coelho e a entrada de locutores micaelenses. Os nomes de Victor Cruz, Furtado Costa e Aguinaldo de Medeiros foram repetidamente gritados. Estabeleceu-se grande confusão quando surgiu uma força da marinha de guerra armada, acompanhando o comodoro Emanuel Ricou. Apupos e gritos de desacordo pela presença da força armada atingiram grande violência até que os marinheiros se retiraram.

“Cerca das 19 horas um grande grupo de manifestantes dirigiu-se ao Aeroporto de Ponta Delgada. Perante a surpresa dos guardas e pessoal de serviço, sete grandes camiões entraram no aeroporto, atravessando-se na pista para evitar o movimento de aviões. Os populares que ocuparam o Aeroporto alegavam que pretendiam evitar a saída de dinheiro das filiais desta cidade dos bancos com sede em Lisboa e o controle da entrada e saída de pessoas. Às 3 horas da madrugada, centenas de pessoas ainda se mantinham no aeroporto.” (Açores, 7 de junho de 1975)

 

General põe “água na fervura” 

 

Decididamente, era preciso acalmar os ânimos da população micaelense. Foi isso que fez Altino Pinto Magalhães, aos microfones do Emissor Regional dos Açores, já com recurso a generosos compromissos concretos:

“Medidas urgentes em cuja execução se vai empenhar o General Comandante-Chefe dos Açores: (1) Nomear novo Governador; (2) Prorrogar por 3 meses o vencimento das letras em processo; (3) Preços nacionais para materiais básicos de construção, ferro e cimento; (4) Abaixamento dos custos de fretes marítimos para o nível internacional, nos sentidos Açores-Lisboa-Açores; (5) Fabrico das rações no arquipélago, com importação direta dos seus componentes; (6) Abrir a exportação de carnes; (7) Abrir a exportação de madeiras; (8) Estudar com prontidão o justo preço do leite; (9) Difundir normas sobre o processamento do crédito; (10) Estudo do problema de definição de um estatuto de autonomia administrativa para o Arquipélago dos Açores.” (Açores, 8 de junho de 1975)

Mas o pior ainda estava para vir…

 

Os presos do 6 de junho

 

O dia 10 de junho amanheceu em Ponta Delgada com o estrondo de uma notícia surpreendente – dezenas de micaelenses, de reconhecimento social, foram presos por causa da manifestação popular e transportados “para averiguações” em Angra do Heroísmo.

“O Comando-Chefe dos Açores dá conhecimento de que foram detidos para averiguações os indivíduos que a seguir se mencionam, por recaírem sobre eles suspeitas de terem promovido ou participado ativamente na manifestação realizada no passado dia 6JUN75, em Ponta Delgada, que havia sido proibida, e no decurso da qual foi incitada a população para a independência do Arquipélago e foram promovidas ações de tentativa de ocupação do aeroporto e do Emissor Regional dos Açores desta cidade.” (Açores, 10 de junho de 1975)

Totalizavam 35 as detenções para averiguações realizadas em três operações nas ilhas de São Miguel e Terceira: Abel da Câmara Carreiro, Aguinaldo da Silva Almeida Carneiro, Álvaro Pereira Branco Moreira, António Brum de Sousa Dourado, António Clemente Pereira da Costa Santos, António José de Amaral, António Manuel Gomes de Meneses, António Nuno Alves da Câmara, Armando Guilherme Goyanes Machado, Bruno Tavares Carreiro, Carlos Eduardo da Silva Melo Bento, Eduardo José Pereira de Almeida Pavão, Fernando Manuel Mont’Alverne de Sequeira, Gualberto Borges Cabral, Gustavo Manuel Soares Moura, João Gago da Câmara, João Luís Soares dos Reis Índio, João Manuel Furtado Rodrigues, José Joaquim Vaz Monteiro de Vasconcelos Franco, José Manuel Duarte Domingues, José Nuno de Almeida e Sousa, Luís dos Reis Índio, Luís Manuel Duarte Domingues, Luís Maria Duarte Moreira, Luís Octávio dos Reis Índio, Luís Ricardo Vaz Monteiro de Vasconcelos, Manuel da Ponte Tavares de Brum, Manuel Oliveira da Ponte, Tomaz Faria Caetano, Valdemar de Lima Oliveira e Victor do Carmo Cruz, todos na ilha de São Miguel, bem como José Manuel Rodrigues dos Santos, José Silvério Bispo, Luís Soares Guido de Castro e Paulo Tadeu Mendes Brum Pacheco, na ilha Terceira.

 

Ponta Delgada volta à normalidade (?)

 

“Depois dos lamentáveis incidentes dos últimos dias, iniciados com a manifestação do dia 6, Ponta Delgada voltou à normalidade” – escreve o jornal Açores do dia 12 de junho: “Terminaram os dispositivos de segurança no Emissor Regional dos Açores e no Aeroporto de Ponta Delgada durante o dia. Os militares regressaram aos quarteis e empenham-se agora, ativamente, coadjuvados pela população, em limpar as paredes da cidade.”

Apesar da limpeza de fachada, ainda iria correr muita tinta…

 

Por: José Andrade (Baseado no seu livro 1975 | INDEPENDÊNCIA? - O ‘Verão Quente’ nos Açores, Volume II da Trilogia “Anos Decisivos”, editado em 2015 por Letras Lavadas)